sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O grito de aflição de um grande jornalista.

Luís Nascimento é um dos grandes jornalistas deste país. Durante quase 20 anos correu mundo em reportagens para a Antena 1, onde desempenhou funções de chefia nas editorias de política e internacional.
Há dois anos, doente, saiu da rádio ao abrigo do plano de rescisões implementado pela RTP. Debelada a doença começou em busca de emprego. Apesar do vasto e rico curriculum está há dois anos sem trabalho. Teve de se desfazer da casa. Vender o carro. Vive em situação bastante complicada. Este é o seu grito. Aflito. Expressado há dias, publica e corajosamente, através do Facebook.


"Meus amigos

Peço desculpa por não ter respondido a ninguém. Não o fiz por mal.
Nunca me passaria pela cabeça ter que dizer algo de tão pessoal através do Facebook. Foi um impulso, ou um grito, de alguém que se mostra dilacerado com um conjunto de situações que atingem centenas de milhar de portugueses nesta altura. Não tive qualquer objectivo e lamento ter tido este impulso, emocional. No espaço público.
Estive estas horas remetido ao silencio, ajudado por medicação que me foi prescrita para atenuar situações mais difíceis. E não queria causar toda esta ansiedade aos meus amigos, familiares,conhecidos. Não tive condições para atender telefonemas, responder a mais e inúmeras mensagens pessoais no Facebook. Foi um grito, nada mais que isso.
Ninguém pode fazer mais nada que não seja a expressão desta corrente de solidariedade que tenho tido. Que contrasta com a indiferença e incompreensão que surge, muitas vezes, de onde menos se espera. Mas faz parte da vida. Mas superada em boa parte esta alteração no plano emocional, explico-vos com a clareza possível, como aqui cheguei.
Antes de mais queria ressalvar que nunca em momento algum da minha vida, senti necessidade de me dirigir a amigos e conhecidos, com este propósito. Só costumo manifestar o pulsar do meu interior a alguns, poucos, que me conhecem e privam comigo há varios anos. Não faz parte do meu “ADN” expor-me desta maneira, mas julgo que os meus destinatários compreenderão as razões que passarei a explicar. E desde já as minhas desculpas aos que perderão alguns minutos do seu precioso tempo…
No plano pessoal, sou o primeiro a fazer um exercício de critica, auto-critica, muita auto-analise. Não estou numa postura de autopiedade, nem procuro qualquer autovitimização. Tenho tentado ser o mais racional possível para enfrentar a situação mais difícil de toda a minha vida. E com a coragem necessária, se me permitem salientar este aspecto…
A humildade é necessária. Há que descer ao terreno e enfrentar a dura realidade.
Depois de muito batalhar no plano mais formal e institucional na procura de um posto de trabalho, tive a conselho de muitos, que fazer abordagens mais directas e mais pessoais, ate. Com o meu CV e outros elementos que julguei pudessem ser objecto de analise de possíveis contratantes. Tenho procurado, dicas, comentários ou informações que me ajudem a enfrentar este momento decisivo, incerto, mas também cruel por que estou a atravessar.
Há semanas, em carta dirigida a algumas pessoas, declarei em jeito de pedido: "Basicamente, para ser directo tanto quanto possível, gostava de saber se têm conhecimento de possíveis empresas ou instituições/organismos onde eu possa desenvolver uma actividade profissional. Qualquer que ela seja, excepto na área técnica; não tenho aptidões para fazer trabalhos de construção civil, carpintaria, energia, etc., porque estive durante 25 anos ligado ao jornalismo. Inicialmente, com 19 anos, fui vendedor de publicidade num jornal da cidade".
Foi o jornalismo que abracei em 1987,como estagiário. Jornais, rádios locais da regiãode Setubal e no Algarve enriqueceram-me muito como profissional e como pessoa. Procurei apostar na minha qualificação, no início dos anos 90, quando cumpri o serviço militar de quase 16 meses. Tirei um curso no CENJOR; fiz muita pesquisa, li bastante, sempre com o objectivo de aprender mais. Em 1993, já era correspondente local do “Publico”, consegui entrar para os quadros da então RDP (hoje Radio e Televisão de Portugal). Por mérito próprio, por selecção e a empresa estava a reformar os seus quadros. Foi um enorme salto nessa progressão de carreira, e na aprendizagem de novos instrumentos de trabalho. Estive quase 19 anos naquela empresa, que me tratou bem, que apostou no meu trabalho, como no de muitas outras centenas de profissionais.
Agradeço muito a pessoas como o Ricardo Alexandre, o Sena Santos, o Adelino Gomes, e muitas outras pessoas fora da estrutura de Direcção que me incentivaram e reconheceram o meu trabalho. Deram-me a oportunidade de conhecer o mundo, de me especializar numa determinada área do jornalismo.
Continuo a trazer comigo esse capital de colaboração reciproca.
Sempre numa postura de humildade que procurei para mim mesmo e também demonstrar aos outros.
Um súbito e muito pronunciado agravamento do meu estado de saúde, em finais de 2011, alterou por completo a minha trajectoria, a normal, de qualquer pessoa: vontade de viver a vida como ela é, aproveitar o bom que a vida nos dá, trabalhar, ser responsável por tudo o que me diz respeito.
Escondi-me. Achava que tinha que me preservar e não revelar problemas do foro emocional.
Vivi durante 13 anos com a minha filha, depois de um divórcio muito atribulado.
Foi com e para ela, que reconstruí a minha vida, aos 33 anos.
Reconstrui tudo. Era um profissional bem pago na RDP, tudo que no plano material consegui foi à custa do meu trabalho, de muito esforço, de muitas horas de trabalho. O que me deu enorme satisfação foi ter tido o retorno dessa dedicação a um Serviço Publico. Mas eis que no final desse 2011, muito flagelado pela situação que acima referi e completamente incapaz de inverter sozinho essa trajectoria, acabei por rescindir com a empresa, que estava e está a promover programas de rescisão.
Sem medir as reais consequências, acabei por sair, numa muito ilusória e irresponsável “crença” de que o meu cv e capital de experiencia acumulado me abririam rapidamente portas noutros sítios.
As condições revelaram-se outras. Muito mais complicadas. Com a actual crise, muitos jornalistas estão desempregados. Fala-se em centenas.
Nesse inicio de 2012, a situação agravou-se de dia para dia e vi-me confrontado com portas fechadas. Completamente trancadas.
Apercebi-me de que tinha cometido uma enorme asneira.
A desorientação tomou conta de mim, ainda que tivesse procurado como tenho feito até aqui, varias possibilidades de me reenquadrar profissionalmente.
Um quadro que contribuíu para o agravamento do meu problema de saúde. Fui “in extremis” acompanhado, num quadro de emergência, por pessoal clinico muito competente. Em Abril-Junho de 2012. Saí dessa fase mais revigorado, disposto a enfrentar a situação que permanece como pano de fundo. Foi como sair debaixo de uma parte de telhado que não me esmagou mas que era o que restava da passagem de um grande tsunami.
Foi preciso levantar as telhas que me aprisionavam. Sim, foi uma libertação! Total! Com ajuda de pessoas que muito me estimam e que compreenderam muito bem todo o meu quadro pessoal. Têm sido muitos os passos dados, têm sido cautelosos, mas ao mesmo tempo temperados por uma nova maneira, mais pragmática de encarar os problemas. Mas a escassos meses de ficar sem qualquer apoio do Estado, por se esgotar o tempo, em Abril, por se esgotar aquilo que me é subsidiado depois de mais de duas décadas de descontos, estou assustado, não vislumbro uma alteração da situação, muito complicada, como todos devem imaginar, em que se encontra um desempregado, ainda para mais com 46 anos de idade. 
É cruel um País que deixou de ter capacidade para gerar politicas que promovam a agregação dos seus trabalhadores mais qualificados, quando por qualquer razão, deixam de ter o posto de trabalho que ocupavam.
Estou há demasiado tempo. Sou uma das centanas de milhar de pessoas que não vislumbram qualquer melhoria na sua condição.
É cruel, é injusto e não há nada a fazer que não seja reivindicar os nossos direitos e denunciar politicas que estão a matar as pessoas! 
Ainda assim, no ano passado, estive ocupado com actividades civicas. 
Mas não perdi, em termos de competências profissionais, a minha vontade de inverter o desastre em que caí. Porque é de uma questão de sobrevivência e de dignidade que se trata.
Daí ter procurado junto de todos esta ajuda, algumas ideias, dicas, que possam reforçar estas inúmeras tentativas que tenho estado a fazer… 
No ano passado regressei ao CENJOR e tirei um curso para formador profissional. 
Ao mesmo tempo, estive meses quase completamente concentrado em ajudar a minha mae que tinha
perdido o marido. Tem 83 anos, uma saude muito debil e tive que pratocamente soiznho ajuda-la a recuperar do trauma. Quis ir para um Lar da Misericordia, onde tem protecçao, carinho, companhia, está com pessoas que conhece ha muitos anos.
Foi uma obrigaçao moral de um filho que vive mais perto. Nao me foi facil gerir estes problemas todos e ao mesmo tempo apostar na procura diaria e incessante de um posto de trabalho.
Desde o inicio deste ano, fui confrontado com uma situação que se iria colocar a qualquer momento.
Sabia que dentro de pouco meses, deixaria de poder continuar a pagar a minha casa. Honrei sempre os meus compromissos. Mas, fui confrontado com a possibilidade de alugar o imóvel, caso contrario, teria que haver lugar a dação em pagamento. Num prazo muito curto dado pela instituição, um mês e meio.
Desencadeei, sozinho, a espinhosa tarefa de me desvincular da minha casa. Retirar tudo. Um processo doloroso, que mexe com as emoções, que nos remete constantemente para a situação em que nos encontramos.
Não procurei ajuda de ninguém, tive ofertas de ajuda em todo esse processo.
Mas concluí agora essa mudança e eis-me novamente numa encruzilhada e mais frágil. Têm sido dois anos de muito empenho e sacrifício para me sentir motivado e sentir-me o melhor possível e manter uma boa relação com as pessoas que estimo, admiro e são importantes.
Já tinha há alguns meses vendido o meu carro, para poder superar outros encargos e honrar todos os compromissos. Foi apenas uma aspirina, tudo porque no mercado automóvel, existem aqueles que se aproveitam da crise para não aceitar propostas razoáveis de compra.
So espero continuar…
Provavelmente esta minha iniciativa não sera bem vista publicamente, provavelmente terá os seus custos em termos de imagem…
Mas já não me importa muito expor o que realmente se passa.
Não me esconderei mais.
Tento ainda assim respeitar-me e respeitar os outros. 
E tambem estou solidario com todos os que nalgum momento das suas vidas possam precisar de apoio moral e no que for preciso. 
Peço desde já desculpa por vos estar a maçar com isto.
Um grande abraço a tod@s!
Luís Nascimento
Fevereiro 2014."

5 comentários:

  1. Que merda de País que faz isto aos seus melhores. E depois tem gente a ocupar os lugares sem capacidade nenhuma só porque são paus mandados.
    Este e caso do Fernando Tordo, deixam-me muito triste, muito mesmo!
    Lurdes

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  2. Muitas vezes o engodo das rescisões de contrato é no que dá. E as empresas sabem disso e apresentam propostas que sabem da treta como se fossem altamente favoráveis para quem trabalha. É uma verdadeira aldrabice em que, infelizmente, muitos ainda caem.
    C.J.

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  3. Comovente. Mas a situação social (geral) que o caso deste jornalista ilustra é verdadeiramente medonha. Ninguém sabe o que vai poder sair deste desastre, mas não me parece que seja nada de bom, porque não vejo capacidade de reacção colectiva eficaz. A sociedade portuguesa está morta, ou moribunda. O tecido desfaz-se. Reina um "salve-se quem puder" que pode vir a dar ainda mais poder ao sistema mafioso generalizado: políticos, finanças, negócios, polícias mais ou menos secretas e paralelas. Quem os pára?

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  4. Em vez de ter gasto tanto suor a estudar e a trabalhar, o Luís deveria ter arriado a calça a um partido de poder, manter as quotas em dia e mostrar-se sempre disponível para fazer os fretes que lhe encomendassem. A esta hora já estaria numa luxuosa assessoria. Este é o país onde se sente vergonha de ser honesto.

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