quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Ucrânia e nós: Sobre a cegueira voluntária


A cegueira voluntária é uma forma de servidão. Não querer ver decorre da subordinação a esquemas de percepção com um valor afectivo essencial. Esse valor afectivo "colora" todas as interpretações, e, como dizia Edgar Morin a propósito da sua própria experiência de jovem comunista, torna o sujeito impermeável ao desmentido pelos factos. Houve quem, entre nós fizesse ensaios de cegueira, bem sucedidos. Agora, a propósito da Ucrânia, os mesmos esquemas de subordinação mental são reactivados. Da extrema esquerda li há dias que "a classe operária (ucraniana) nada tem a ver com o que se passa em Kiev". Hoje, na Antena 1, Octávio Teixeira (aliás, um homem razoável), mergulha na mesma cegueira: o que está em causa na Ucrânia seria APENAS um efeito mecânico do "jogo de xadrez" Este-Oeste. É claro que tal jogo existe e que cada "campo" tenta influir sobre os acontecimentos. (E não ignoramos, por outro lado, que grupos fascizantes se infiltram nos movimentos e tentam captá-los). Mas o que OT quer dizer é que a "culpa" dos distúrbios é do "Ocidente" que quer desestabilizar a Rússia (entenda-se - herdeira da URSS!). Assim, para a extrema esquerda radical, a reivindicação de mudança do regime mafioso, de novas eleições, de abertura democrática, é um epifenómeno "burguês". Para a "Esquerda" herdeira voluntária do totalitarismo, o movimento é inteiramente REDUTÍVEL a jogos de influências externas, o povo está inteiramente manipulado, não tem exigências próprias, e merece o regime que tem. Escolher entre o Oeste e o Leste esquecendo as exigências dos que lutam é tão cego como descartar a luta porque não é suficientemente radical: não é a (bela) revolução proletária que está em curso. Os esquemas fixos tornam-nos cegos. Assim em 56 na Hungria, e em 68 na Checoslováquia: os cidadãos que exigiam reformas democráticas eram (simplesmente) manipulados no jogo do xadrez... Sendo voluntária, a cegueira, como a do Nobel, é uma servidão sem fim... à vista.(...)

JRdS (enviado por mail)

1 comentário:

  1. Hoje acrescentaria: Há quem fale de tentativa de "golpe de Estado" pelos manifestantes na Ucrânia (porta-voz de Lavrov, Min. Neg. Estrangeiros russo). Acusa-se a UE de tentativa de dividir a Ucrânia entre as províncias russófonas do Leste e as "ucranófonas" do oeste. O mesmo porta-voz afirmava ontem que é preciso "federalizar" o país; por detrás, está a possibilidade de as províncias russófonas aderirem sozinhas à "união aduaneira" da CEI (Rússia, Bielorússia, etc.). A UE e os EUA não são inocentes nem desinteressados. Mas os manifestantes estão, não numa lógica de "golpe de Estado" mas sim na seguinte: 1. ELEIÇÕES (leg. e presid.) antecipadas; 2. Alteração da Constituição limitando o poder discricionário do presidente; 3. Dissolução das unidades de serviços secretos e de polícias especiais; 4. Abolição da série de leis restritivas dos direitos dos cidadãos (ex.: manifestação). 4. Associação aberta com a UE = apoio ao reforço democrático; 5. Alternativas à estrita dependência (nomeadamente energética - gás) em relação à Rússia. NÃO querem "tomar o poder", querem um regime que se liberte da ditadura dos oligarcas que apoiam Janukovitch (ou vice-versa) e da corrupção. E para realizar isso, aceitam morrer. Respeito.

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