domingo, 26 de janeiro de 2014

Para onde vais BE?

Carta de Demissão de Ana Drago da Comissão Política do BE

Aos membros da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, Camaradas

Esta carta serve para comunicar a minha demissão da Comissão Política do Bloco de Esquerda aos membros da Mesa Nacional e da própria Comissão Política, e apresentar as suas razões.
Esta foi uma decisão muito ponderada, e, confesso-o, que me entristece. No entanto, as discussões que ocorreram ao longo das últimas semanas no seio da Comissão Política tornaram clara uma divergência profunda e fundamental sobre a estratégia do Bloco na presente conjuntura. 
Nas últimas semanas, foi colocada à direcção política do Bloco de Esquerda a possibilidade de participar num processo de convergência que pudesse resultar numa candidatura única às eleições europeias, que integrasse o Bloco de Esquerda, o recém-criado Manifesto 3D, a Renovação Comunista e o anunciado partido Livre.
As dificuldades processuais dessa candidatura eram várias, e relevantes. Contudo, um modelo de articulação não chegou sequer a ser equacionado – a direcção política do Bloco de Esquerda não se mostrou disponível para iniciar um debate programático com alguns dos possíveis participantes nessa convergência. Com essa exclusão antes mesmo de se debater um programa conjunto para as eleições europeias, a possibilidade de uma candidatura alargada fracassou.
Este processo de convergência era, a meu ver, não só desejável como determinante para este campo político de esquerda, e portanto para o Bloco. Significaria uma vontade política de construir uma alternativa sustentada e credível de esquerda, num país que vive um ataque sem precedente ao modelo social e político da sua democracia.
Portugal vive hoje um processo de desmantelamento de direitos sociais fundamentais e destruição do modelo de solidariedade entre segmentos da população e entre gerações – é uma reconfiguração profunda da articulação entre liberdades políticas e direitos sociais que sustentaram a democracia portuguesa nos últimos 40 anos. A agressividade desse ataque ameaça desfigurar de forma irremediável o regime, e desenhar um futuro de desqualificação e empobrecimento duradouro do país. De facto, os direitos sociais e laborais, e os modelos de solidariedade que estão hoje a ser destruídos foram conquistados numa conjuntura histórica única, e a sua recuperação num futuro próximo não será fácil. O que coloca uma urgência nunca antes tão sentida de parar este ataque fanático e revanchista da direita portuguesa, através da criação de uma alternativa credível e alargada de esquerda.
Vivemos, nesse sentido, um momento histórico – trata-se de salvar um modelo de democracia e o futuro do país. É por isso que uma estratégia de esquerda que queira resgatar o país desta espiral de destruição tem que ser tão ampla a alargada quanto possível, em torno de princípios programáticos essenciais. Defender a reestruturação da dívida, a reposição do rendimento dos trabalhadores e pensionistas, o aumento do salário mínimo, a sustentação dos serviços públicos e dos direitos laborais,o combate ao desemprego e à precariedade, o investimento na qualificação da economia portuguesa – este é, creio, o programa necessário nos tempos actuais.É certo que este não é todo o programa político do Bloco de Esquerda, mas é aquele que identifica quem está disposto a assumir a responsabilidade de defender o país – e esse deve ser o campo de política de unidade do Bloco de Esquerda.
O Bloco constituiu-se como uma esquerda que não se rende a fazer uma gestão apenas mais benevolente do statusquo, mas que também não fica satisfeita apenas por existir. A vontade de não desistir de transformar a sociedade permitiu a articulação entre diferentes correntes e tradições, que antes se pensavam inconciliáveis, assente na percepção de que a nossa unidade na luta e no projecto transformador é mais importante do que as nossas diferenças.
No actual momento do país, essa vocação para a unidade da esquerda é ainda mais necessária, e mais urgente. E deve ser ainda mais ampla, percebendo o óbvio – que a política unitária se faz sempre com aqueles que são diferentes de nós, é essa a sua natureza. 
A proposta que foi colocada ao Bloco de Esquerda apelava a uma convergência com um espaço político que, sendo diferente do Bloco, é certamente aquele que é politicamente mais próximo. Senão for com estes actores, não se fará convergência com ninguém – e o Bloco fica sem qualquer estratégia de alargamento e convergência. O que significa que a proposta de governo de esquerda, enunciada na moção que ganhou a convenção do Bloco de Esquerda, resulta apenas num slogan. Ora, isso é grave para uma força política com a identidade do Bloco de Esquerda, e é particularmente grave na actual situação política do país.
Sei bem que a proposta de convergência que nos foi dirigida não permitia resolver todas as dificuldades de uma política alternativa para o país. Estou bem ciente do muito caminho que temos ainda que fazer, de como ainda temos fraquezas e muita luta pela frente.Mas permitia agora, no debate determinante sobre a Europa, lançar uma dinâmica de alargamento e mobilização que fazem hoje tanta falta ao Bloco.
Por entender que esta proposta de convergência à esquerda era um passo essencial na construção de uma alternativa de esquerda para o país; e por entender que a identidade, o papel e a responsabilidade histórica do Bloco de Esquerda é construir essa convergência,não posso hoje, em consciência, permanecer na Comissão Política.
Desde que me juntei ao Bloco de Esquerda, sempre entendi que, para a luta que temos que fazer, a unidade deste campo da esquerda é mais importante que as suas diferenças. Do muito que vivi e aprendi ao longo deste 14 anos no Bloco, acredito ainda mais nesta necessidade de unidade.
Não sei – talvez não saibamos sobre nós próprios – se terei o discernimento e a capacidade de construir uma solução de esquerda para o país. Mas sei hoje, claramente, que não quero fazer parte do problema.

Lisboa, 25 de Janeiro de 2014

Ana Drago ( aqui)

19 comentários:


  1. Há anos que o digo e escrevo: a culpa da direita estar no poder é da esquerda.

    Se a esquerda soubesse ultrapassar as suas diferenças e se unisse, teríamos um governo de esquerda, já que, sociologicamente, Portugal é um país maioritariamente de esquerda. BE, PCP, PS, unidos, ganhariam sempre as eleições.
    Mas não, os ódios são enormes, as divergências são tão grandes que não conseguem pôr-se de acordo.
    É culpa do BE? É do PCP? Será de todos, eles é que sabem. Mas, assim, não merecem o meu voto.
    Se não conseguem ultrapassar as diferenças, desconfio que lhes dá mais jeito entregar o poder à direita, estar na oposição a lançar uns bitaites descontentes e tal, dizer que se governassem fariam melhor, quando na realidade, não querem governar.
    Nesse caso, pqp a todos!

    jmc

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    1. Uma verdadeira Esquerda,NUNCA poderá passar pelo PCP,nem VERDES ( porque esses são PCP na mesma). É que o maior inimigo e obstáculo que a Esquerda teve desde o 25 de Abril até aos dias de hoje,foi e continua a ser o PCP ! Se a direita está no poder,agradeçam ao PCP,que impediu a possibilidade de Sindicatos Livres de Trabalhadores,e assim também impediu os trabalhadores de lutarem com CREDIBILIDADE,pelos seus direitos.Também se fez passar por um partido democrático e de esquerda,sem NUNCA o ter sido.
      O PCP lixou-nos a todos !!!

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    2. E desde quando é que o PS é de esquerda?
      Acaso o PS, se estivesse no governo, aplicaria políticas
      diferentes das do PSD de Passos Coelho?
      Acaso a troika não veio tomar conta do país, convidada pelo PS?
      Onde está diferença entre PS, PSD e CDS que nos governam consecutivamente há quase 40 anos?

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  2. O PCP é uma seita terrivel. Odeiam tudo e todos. Mesmo no seu seio eles conspiram uns contra os outros,sempre na expectativa,de eliminarem quem eles consideram um inimigo,mesmo que o não seja,quase sempre porque está no caminho deles.
    Para eles tudo é fascita. Para eles um assassino que diga que é comunista,é muito boa pessoa. Um homem trabalhador,que não é comunista,é um inimigo.Acham-se mandatados para falarem pelos trabalhadores e precisam que o povo esteja na miséria,para venderem a sua banha da cobra ( a cassete ),
    Ou seja é uma seita enganadora das pessoas,em nada diferente das seitas manás ou igreja universal,ou jeovás...entre outras.
    Esta seita PCP é perigosa e parasitante duma sociedade.

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    1. E, além disso, não percebo como te esqueceste que o PCP governa este país consecutivamente há quase 40 anos!
      O Centrão e seus papagaios bem reclamam e barafustam, em greves e manifestações, mas não têm tido quaisquer responsabilidades governativas.
      Não há dúvida que tem sido o PCP o responsável pelo saque às riquezas nacionais através das PPP's, das SWAP's, das negociatas dos BPN's e BPP's, e outras trafulhices à volta das privatizações e da liquidação da produção nacional (na agricultura, pescas e indústria, etc...).
      Não há dúvida que tens muita razão naquilo que escreves...Eu é que tenho andado muito distraído e ainda não tinha percebido que os Cavacos, os Sócrates, os Seguros e os Coelhos são tudo gente do PCP disfarçada. .

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    2. olha o Sem Pescoço,, voltaste.. hahahaha

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    3. Quem é esse? Só conheço o Sem Pavor (o Geraldo)

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  3. Basta ver os comentários que se seguiram ao meu para ver que tenho razão: estes ódios insanes, estas guerrilhas, estas culpas que são sempre dos outros, esses bandidos... nunca nossas.
    Mas vocês, os que se dizem de esquerda e passam o tempo a atacar os outros que também se dizem de esquerda (mas claro que não são tanto como vocês próprios...) não têm consciência de que, com gente assim como vocês, a direita se rebola a rir?
    A direita (des)governa e quem se lixa somos todos nós?
    Vá, desculpem a interrupção, continuem lá a atirar as vossas pedras...mas não se sujem que depois a mãe é que tem de vos lavar a roupa...

    jmc

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  4. 11,49 os sindicatos com maior força são comunistas,também governam e fazem parte do estado a que portugal chegou,as esquerdas não se unem por culpa do partido comunista,que te a cartilha Estalinista para aplicar e não cede um milímetro assim é impossível.

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    1. PPP's, SWAP's, negociatas de BPN's e BPP's, outras trafulhices à volta das privatizações e da liquidação da produção nacional, tudo manobras dos "sindicatos comunistas".
      Mas vá lá que há gente "inteligente" como tu para nos esclarecer!

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    2. sindicatos comunistas SAO UMA FRAUDE !

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  5. Logo após o 25 de Abril, toda a gente era de "esquerda". A "direita" tinha desaparecido.
    PS e PSD, com o apoio técnico da CIA, entenderam que fazia falta um partido à "direita", que conglomerasse os interesses da direita, os "antigos" fascistas, para fazer frente à esquerda, testa de ferro para a contra revolução, deixando PS e PSD livres de responsabilidades pelos crimes.
    E assim se fez.
    E assim nasceu o CDS.

    Nos anos 90, depois dos inúmeros crimes do bloco central, com o país arruinado e os gatunos impunes, era preciso tirar força a quem denunciasse a roubalheira, e dar força a quem dividisse e enfraquecesse a oposição à cleptocracia.
    E assim se fez.
    E assim nasceu o BE.

    A ironia da crise no BE, é estar a ser vítima do mesmo mecanismo, que lhe deu razão de ser.
    Gente vendida.
    Gente estúpida (como se viu na eleição autárquica em Évora).
    É tal a cegueira e a gula pelo poder, que até se comem uns aos outros.

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  6. Com o FIM da social-democracia,e o PS não ter razão Mais de ser........pensei que a chamada Esquerda consequente(PCP/BE)..........soubessem aproveitar o vazio deixado.........infelizmente BE e PCP continuam FECHADOS ............o seu sectarismo impede-os de serem Alternativa.

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  7. PS.......o que fazer com o FIM da social-democracia?

    Partido que continua a interessar aos grupos financeiros,para fazer de conta que vivemos em democracia........hora agora governa o PS,agora governa o PSD........as MAFIAS financeiras agradecem.

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  8. E QUAL É A SOLUÇÃO?
    SE ESTA GENTE GENTE É TODA A MESMA TRETA,
    A SOLUÇÃO É: ABSTENÇÃO!
    PUTA QUE OS PARIU A TODOS!

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  9. Qual o pais da Europa comunista?Onde estão?Queremos viver numa Coreia do Norte com um querido líder Jerónimo ou líder da resistência Cubana Jerónimo.
    É esta a esquerda de exemplo a direita capitalista?

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  10. PCP NUNCA SERÁ ALTERNATIVA A NADA!
    PCP É UMA IGREJA DE GENTE MUITO DOENTE

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  11. FICAMOS A AGUARDAR, ANSIOSAMENTE, A CRÓNICA DESTA SEMANA DO BRUNO MARTINS, CERTAMENTE SOBRE ESTE ASSUNTO. UI ..............

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  12. Até que enfim Ana Drago. Bem vinda à Liberdade

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