quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Falar para o boneco

A comunicação de ontem do Presidente da República pareceu-me uma viagem por uma terra que só existirá num corredor virtual que liga Belém a S. Bento.
Sua Excelência começou por passar a mão pelo lombo dos portugueses, lamentando os sacrifícios a que a maioria está sujeita, falando ao coração dos mais jovens que não encontram empregos ou dos mais velhos, atingidos pela desemprego de longa duração e pela insegurança acrescida.
Depois veio o argumento justificativo para a assinatura do chamado memorando de entendimento que, como é sabido, passa pela ideia de que não haveria dinheiro para pagar salários e pensões. Para Sua Excelência a agressão externa a que o país foi sujeito tem o nome simpático de “ajuda”.
De seguida Sua Excelência dá um salto no tempo e começa a falar de recuperação, de resultados económicos e de crescimento, inculcando na cabeça dos mais desprevenidos duas ideias perfeitamente perversas: a de que estamos às portas do paraíso e a de que tal se deve ao governo que Sua Excelência dirige por interpostas pessoas.
Pelo meio ainda há espaço para defender a ideia de um programa de assistência, coisa completamente diferente de um segundo resgate, sem que explique qual a diferença, para a hipotecada soberania nacional, entre a sujeição às imposições da troika e a sujeição às imposições da troika menos um.
Por último, Sua Excelência atreveu-se a falar dos 40 anos da Revolução de Abril anunciando uma conferência internacional sobre qualquer coisa que não entendi bem o que teria a ver com esse momento exaltante da história do país.
Embalado, quem sabe se pela velocidade do teleponto, desatou a classificar como antidemocráticas as forças que não venceram eleições legislativas nos últimos 40 anos, apelando pela enésima vez ao reforçado conluio entre os partidos do caldeirão da governação, lembrando que foi desse conluio que saíram as opções que nos fizeram chegar ao ponto em que estamos, desde a adesão à então CEE, à adesão ao marco renomeado de euro, passando pelas amputações do texto constitucional e acabando, muito recentemente, no acordo para a reforma do IRC que pretende transferir carga fiscal do capital para o trabalho.
Todos os que cá em casa assistiram à dissertação de Sua Excelência, foram pontuando as palavras do senhor com impropérios, esgares de náusea, um ou outro termo mais vernáculo e ainda um bocejar mais intenso.
Quer dizer, todos não. Os bonecos do meu filho mais novo, ouviram sem pestanejar tudo o que foi dito, não mostraram sinais de indignação e não proferiram um único impropério.
Pode-se pois dizer que Sua Excelência esteve a falar para o boneco.
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na Rádio Diana)

4 comentários:

  1. Mais um comentário com a profundidade de análise a que o EL desde há muito nos habituou!
    O Cavaco falou para o Boneco do Filho do EL e o EL também!

    Se o autarca EL tiver a mesma qualidade do comentador EL, em Évora estamos bem tramados!

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  2. porra nem uma puta duma palavra pela positiva!
    Como se no Marxismo Leninismo ainda não queimassem estátuas na Ucrânia.

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  3. Sobre Évora o novo vereador da cultura deixou de falar. E o seu assessor muito menos.

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  4. O cavaco esteve a falar para o boneco.
    E tu eduardo luciano achas-te melhor que o cavaco?
    Só te limitas a despejar a cassete.
    Já enjoas.

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