sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Dois olhares eborenses sobre Nelson Mandela


Nelson Mandela, sentinela da esperança ativa

Nelson Mandela, tal como Gandhi e Martin Luther King, pertence àquela categoria de homens que se impõe como depósito do melhor que o género humano consegue cristalizar em cada momento da história. “Sentinela da humanidade”, acaba de dizer o pensador contemporâneo Sami Naïr a seu respeito, o seu desaparecimento é motivo de meditação em torno das potencialidades do humano em “dark times”. Com efeito, o mais importante deste homem não é tanto a sua ação política enquanto político e dirigente partidário, futuro primeiro presidente negro da África do Sul, mas, antes, a sua ação profundamente reflexiva, a sua visão abrangente dos problemas, a sua luta pela esperança concreta.
Agora, no momento em que passa à imortalidade, Mandela faz-nos pensar. Porquê? Porque soube perdoar, tendo o poder, após 27 anos de prisão. Porque soube olhar todos na sua humanidade com verdadeira cultura democrática. Porque soube ser líder sem se impor, antes sendo reconhecido. Porque soube romper a brutalidade da força, através de uma enorme densificação da legitimidade, numa sociedade que apenas conhecia a opressão política, a desigualdade social e o desprezo étnico organizados.
Estas qualidades ultrapassam a mediania dos políticos habituais. De algum modo, e sem querer tombar em anacronismos inúteis, dir-se-ia que Mandela pertence àquele tipo de homens característicos de momentos históricos únicos. Há décadas, o pensador alemão Karl Jaspers teorizou a “Era Axial”, que situou entre 800 e 200 a.C., quando a um tempo surgiu em diversas partes do mundo uma nova forma de pensar, com Buda, os “Upanishads”, Sócrates, Confúcio, Platão, Eurípides, religiões como o zoroastrismo ou o judaísmo, entre outros. Este tempo foi despedaçado por guerras e tragédias imensas, como se sabe, mas marcou o futuro da humanidade até aos dias de hoje, na medida em que se traduziu num “salto”, marcando o momento em que os homens passaram a problematizar o seu destino e, com muito diferentes percursos e tradições, a demonstrar que na história individual e coletiva nada está escrito.
O percurso de Mandela poderia de algum modo resumir-se nesta ideia: nada está escrito, porque os seres humanos conseguem, mesmo por entre uma violência histórica maciça, equacionar saídas para as encruzilhadas com que se deparam, conseguem manifestar a sua plasticidade cultural, conseguem resistir ao desenraizamento e à desorientação, rumo a uma maior emancipação.
Sob este ponto de vista o percurso de Mandela é ímpar, mesmo que tenha cometido erros políticos pontuais e fosse, como ele mesmo reconheceu por diversas vezes, imperfeito: pacifista por princípio, resistente frente à violência ilegítima, sofrendo a irracionalidade do poder arbitrário, acaba por saber sair vencedor e saber ser inclusivo, sabe conquistar o poder e, depois, cumprindo apenas um mandato, sabe retirar-se da vida política preservando os princípios ético-políticos que sempre nortearam a sua longa luta pela liberdade. 
Ora, num mundo como o de hoje, tecno-económico, instrumental e desenraizado relativamente aos valores da liberdade que diz defender, governado por elites político-económicas desorientadas que estilhaçam sem conseguir reconstruir, dominado por uma angústia que tolhe o sopro da liberdade, Mandela é um daqueles homens que surge refundando a ação criativa da esperança concreta, “diurna”, isto é, política porque pressupõe a pluralidade humana, a ideia de que para se viver é necessário, primeiro, poder viver. Nestes sentido, Mandela é um mandatário de um novo “ethos” axial dos tempos futuros, exprimindo a ideia de “Humanidade” sem mais. Como um relâmpago na noite da história.

Silvério Rocha-Cunha (aqui)




Nem para a morte tal prisão!
Anunciam a tua partida
Deste pulsar de vida
Mas não partes
Obrigado…

Livre, forçado
Nunca antes te dobraste
Obrigado…

Se há prisão e morte,
Perpétua a prisão
Para a morte!

Não,
Nem para a morte
Tal prisão!


José Rodrigues Dias, (aqui)

 2013-06-11

9 comentários:

  1. A hipócrisia da politica Americana:

    NELSON MANDELA,só foi retirado da lista de vigilância a terroristas dos Estados Unidos em 2008.

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  2. O QUE PENSA DE MANDELA

    bom dia ao FORUM

    senhor Manuel Acácio - eu só cria dezer uma coisa, vou ser rápido
    :
    grande homem este MANDELA

    . só lhe faltava ser branco
    aliás ele só era preto por fora

    por dentro era BRANCO

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  3. Silvério Rocha-Cunha e José Rodrigues Dias são duas pessoas que vieram para Évora por via da Universidade, aqui vivem há muitos anos e aqui foram formando a base da sua produção intelectual - bem distinta entre os dois - e que disponibilizam à comunidade.
    Felicito o "a cinco tons" por valorizar o que de melhor por cá se faz.

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  4. Gostei igualmente do texto inspirado
    do Professor Silvério Rocha-cunha

    obrigado aos dois

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  5. Mandela faleceu.
    A sua urna será coberta pela Bandeira Sul-Africana.
    Tem seis cores essa bandeira, mais do que qualquer outra. Tem as cores da diversidade que ele ajudou a construir, de que ele foi o mentor.
    Essa foi a sua tarefa cumprida, mostrar ao mundo que mais do que todos terem o seu lugar, o que conta verdadeiramente é que todos podem ocupar o mesmo lugar... apesar das suas diferenças...
    Obrigado Madiba!

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  6. Concordo e gosto do post, mas não podemos deixar de recordar como consta no "Entre as Brumas da Memória" ele não seria quem foi de não tivesse lutado pelos seus ideais:
    "Mandela defendeu a luta armada contra o apartheid desde de 21 de Março de 1960, data em que ocorreu o Massacre de Sharpeville, e que em 1961 passou a comandante do braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA) até ser preso?

    Em Junho de 1980, Mandela enviou ao CNA, da prisão onde se encontrava, a seguinte mensagem: «Unam-se! Mobilizem-se! Lutem! Entre a bigorna que é a ação da massa unida e o martelo que é a luta armada devemos esmagar o apartheid!»".
    O apartheid foi condenado na década de 1980 ONU por grande maioria de votos com apenas três votos contra USA, UK e Portugal.
    R.I.P.

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  7. Frases famosas de Mandela:

    «Os verdadeiros líderes devem estar dispostos a sacrificar tudo pela liberdade do seu povo»

    «Tudo parece impossível até ser feito»

    «A luta é a minha vida. Continuarei a lutar pela minha liberdade até ao fim dos meus dias»

    «A Educação é a arma mais poderosa que podes usar para mudar o mundo»

    «Uma nação não deve ser julgada pela forma como trata os seus cidadãos que estão numa melhor posição, mas sim pela forma como trata os que têm pouco ou nada»

    «Ninguém nasce a odiar outra pessoa pela cor da sua pele, pela sua origem ou ainda pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar»

    «A maior glória não é nunca cair, mas sim levantar-se sempre»

    «Aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas sim o triunfo sobre ele»

    «Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito e inspirar esperança onde há desespero»

    «Ser livre não é apenas libertarmo-nos das correntes que nos aprisionam, mas também viver de uma forma que respeite e valorize a liberdade dos outros»

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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