sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A QUESTÃO DO BUSTO DE FLORBELA ESPANCA (2)



No dia 14 de Dezembro de 1930, seis dias depois da morte de Florbela Espanca, o Dr. Celestino David, poeta e fundador do Grupo Pró-Évora, do qual era também presidente, defende nas páginas do "Diário de Notícias" , a ideia de se prestar uma homenagem nacional à poetisa alentejana, erguendo-se um monumento em sua memória. 
A sugestão encontra eco no grande diário lisboeta que no dia 25 de Janeiro de 1931 abre uma subscrição à escala nacional para a construção de um busto destinado a perpetuar o seu nome e a sua obra. A comissão dinamizadora da iniciativa é constituída pelo seu jornalista principal e repórter internacional, António Ferro - o qual dois anos após, irá dirigir o Secretariado Nacional da Informação (SNI) a convite de Salazar -, Henrique Lopes de Mendonça, Cândida Aires, Falcão Bourbon e Meneses e Fernanda de Castro, também poetisa, e mulher de António Ferro. 
Por todo o ano de 1931 o professor italiano Guido Batelli , faz sair finalmente "Charneca em Flor" que conhece duas edições em escasso lapso de tempo, a segunda das quais acrescida de mais 18 sonetos, "Juvenília", "Máscaras do Destino" e "Cartas de Florbela Espanca". A popularidade da escritora aumenta na mesma medida que o salazarismo nascente e a Igreja temem o efeito deste fenómeno, que compromete a imagem e o papel da mulher no futuro do país, modelo que já se encontram formatando.
O sucesso da subscrição, que em espaço de tempo relativamente curto, consegue reunir os fundos necessários para a execução do busto, adensam-lhes as preocupações. Incumbido de esculpir a peça, o artista Diogo de Macedo, termina-a em 1934. O "Diário de Notícias" oferece-a ao Grupo Pró-Évora para que a coloque numa das principais praças da cidade. 
A partir deste momento vai iniciar-se a mais infame perseguição de que Évora guarda memória em tempos modernos. O Grupo Pró-Évora vê rejeitados pelas autoridades civis e religiosas todos os lugares propostos para implantação do monumento. A Santa Inquisição estava de regresso. Florbela só não foi condenada a morrer na fogueira porque já tinha sido queimada na pira da vida. Tudo se inventou e argumentou para que o busto não fosse exposto em lugar visível. 
Na imprensa conservadora a cruzada contra Florbela e o busto era conduzida pelos diários católicos e nacionais "A Voz" e "Novidades". O primeiro tinha sido fundado e era dirigido por José Fernando de Sousa, na altura já com mais de 75 anos, natural de Viana do Alentejo, que assinava sob o pseudónimo de Nemo e era o Decano dos Alunos do Liceu de Évora. Jornalista profissional e experimentado estivera no Exército até 1898 como engenheiro militar, atingindo a patente de Tenente Coronel mas tivera de se reformar cedo «por cobardia» dado que, segundo o exigiam as praxes castrenses, por duas vezes se recusara a bater em duelo depois, de para tal ter desafiado por ofensas dirigidas a outras tantas pessoas. Tinha sido pluricondecorado pelo regime monárquico e adorava ser tratado como Conselheiro. 
Para o jornalismo trouxera as mesmas características que demonstrara como militar. Era hábil e vezeiro no insulto o que valeu ter, por uma vez. recolhido aos calabouços durante alguns meses.
Por ser turno o "Novidades" tinha por director o conhecido Monsenhor José Moreira das Neves. Em Évora o correspondente era um jovem seminarista, José Augusto Alegria, extremamente vaidoso e provocador, que se viria a cotar o arqui-inimigo de Florbela e o polícia dos bons costumes e da intelectualidade eborense. Num momento de rara abertura a Câmara ainda pensou em dar o seu assentimento à instalação do busto num local discreto do Jardim Público onde Florbela gostava de passear, namorar e poetar, mas também fora apedrejada, e ainda se fez erguer um plinto para suporte do mesmo, mas nova ordem municipal , deu o dito por não dito e mandou-o cobrir por ervas trepadeiras. A caricata contra-ordem tivera origem no provimento dado a uma queixa da Igreja, junto do Governo de Salazar que argumentava que aquela era uma obra para estar guardada num museu e não para estar num lugar público.
E assim, lá acabou o busto por ser depositado no Museu como propriedade do Grupo Pró-Évora.A Igreja porém queria a sua demolição. Só a presença de António Ferro no SNI evitou este destino para a estátua. Em 1940 Alegria termina o seu curso de seminarista e refina no vitupério sobre a poetisa. Volta à carga considerando que a vida de Florbela tinha sido um escândalo, «sujando» a sociedade portuguesa.« À excepção de alguns versos aceitáveis, talvez, os outros trespassam-se de um erotismo monocórdico que é contrário às estruturas sociais de qualquer sociedade cristã e é mesmo ofensivo do espírito da Constituição de 1933». Aos que defendem o busto acusa-os de « a querer endeusar só porque conseguiu ser mais imprudente do que nenhuma outra mulher conseguira» e isso, concluía, era agora o que faltava. 
No ano seguinte, 1941, o Liceu comemora festivamente o seu centenário e edita um número especial de "O Corvo", a sua revista, que começa a ser preparado com muita antecedência, constando que nele poderão aparecer algumas referências ao nome de Florbela Espanca, quer quanto aluna integrante do primeiro núcleo feminino da Liceu, quer na inclusão de uma nota biográfica entre os mais conhecidos Reitores, Professores e Alunos que pelo brilho da sua carreira profissional mais teriam contribuído para a história e grandeza da instituição.
A pressão da Igreja para que tal não viesse a acontecer, seria tremenda, mas não surtiiria efeito.O Reitor, António Bartolomeu Gromicho, que tinha sido professor de Florbela no Curso Complementar de Letras e sempre a apreciara pelo seu talento e ademais era na altura o presidente do Grupo Pró-Évora, não cedeu, Ele próprio e Celestino David redigiram os textos mais importantes desse número da revista que tanto êxito conheceu.
Enquanto a fome corre à desfilada pelos campos alentejanos, o contista, poeta e romancista Manuel da Fonseca vai, nesse ano, trazê-la de volta à poesia portuguesa dedicando-lhe um poema, em que a "convoca" para olhar também para a desgraça em que está mergulhada a sua querida charneca. E fá-lo assim em "POEMA PARA FLORBELA:«Charneca de toda a vida/ tolhida de solidão/névoa da água dos olhos/triste coração do coro dos ganhões perdidos em sombra que cai do céu.../». Ou o desejo expresso noutro poema que lhe é dedicado em 1943 pelo poeta, professor e pedagogo Sebastião da Gama, o poeta da Serra da Arrábida: « Hás-de voltar Florbela! Em débil haste/ por entre trigos, cresce, purpurina/ a mais fresca papoila da campina/ que só por me veres não cortaste./ Eu tenho mil anos.Sou poeta....». 
Por cá, os intelectuais começavam a reagir contra a intolerância, a estupidez e o fanatismo religioso que continuavam ainda a prevalecer, mas no estrangeiro a sua obra ia-se tornando cada vez mais conhecida, mormente no Brasil, onde começa a ser alvo de estudos e trabalhos universitários. A história da proibição do busto é referida com chacota, troça e risada.

José Frota (aqui)

15 comentários:

  1. «O acincotons reserva-se o direito de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques deliberadamente pessoais, que em nada contribuam para o debate de ideias ou para a denúncia de situações menos claras do ponto de vista ético.»

    APOIADO!
    Ataques pessoais a coberto do anonimato SÃO INADMISSÍVEIS e não contribuem para a discussão das ideias.

    Uma coisa é a discussão de "ideias" ou "propostas". Essas, podem ser discutidas independentemente de se conhecer o rosto do autor. Outra coisa é usar o anonimato para atacar ou insultar pessoas concretas que quase todos conhecemos. A esses deve ser destino que merecem: o caixote do lixo.

    Por isso apoio a 100% esta decisão, que só peca por tardia e NÃO TEM NADA A VER COM CENSURA. Quem quiser fazer referência a pessoas concretas, tem a obrigação de mostar a cara. Parece-me uma regra de bom-senso e higiene nas discussões e debates de ideias.

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  2. Faz-me lembrar tempos passados ou ainda futuros , esta conversa anterior ;

    Por todo o lado se vê , ainda hoje , no Correio da Manhâ , até se são ao trabalho de meterem gravadores ocultos em mochilas de crianças na escola ou como camaras disfarçadas nos tetos para gravar conversas ocultas ... bem , diziam mal da PIDE/DGS ?

    O que tem hoje ou amanhã em Portugal ?

    Corrupção sem fim !!!!

    Nunca tenham medo de mostrar a cara ou nome , pois isso são atributos dos cobardes ou esquizofrénicos !

    A propósito ,

    Já meteram a placa acrílica em frente da entrada do novo Hotel na Rua do Raimundo :

    INALENTEJO : 1.700.000 euros !!!

    Boa ,

    Se as empresas que fecharam até hoje tivessem recebido uma parte , ainda estavam de pé .

    Para não falar nas famílias que tinham evitado perder a casa .


    Portugal vive hoje uma ditadura capitalista sem rosto , antes de 25/04/1974 sabia-se que havia um , apenas um rosto . Mas hoje são tantos rostos que se misturam e não se percebe a configuração da cara ... mas certo que é um tipo NAZI com deformações genéticas .


    Jorge

    ( ciclista )

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  3. Fala da Fundação Eugénio de Almeida ou da Silveirinha..........

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  4. Não falam porque aí fina mais fino,o BLOCO CENTRAL não permite.

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  5. O BLOCO CENTRAL é que dá de "comer" a estes "jornalistas".

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  6. És granda parvo ó amigo das 15:55. E tu também, camarada da 15:54.
    Onde é que está a malta do PCP com os tomates no sítio para questionar nos locais próprios?Toda a gente sabe muito da Silveirinha, mas ninguém fala com medo que lhes ponham qualquer coisa no rabinho. Eram agora os parvónios dos jornalistas que iam dar a cara quando toda a gente foge com o dito rabinho.
    Vão-se catar, para não os mandar pra outro lado que aqui os comentários já são moderados.

    PN

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  7. 16:10,toda a gente sabe os responsáveis são:a gestão socialista,CCRDA,Associação de futebol e Federação Portuguesa de Futebol.

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  8. A Silveirinha é um caso de POLICIA,que o BLOCO CENTRAL dos interesses ABAFOU.

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  9. A Habitévora Faliu,quem são os responsáveis?


    Os socialistas,toda a gente sabe.

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  10. A academia de Música FALIU,quem são os responsáveis?


    Os socialistas ,Toda a gente sabe.

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  11. 16:24


    Sempre foi muito estranho porque a academia sempre teve nos seus orgãos gente de todos os partidos, do PCP do PSD e maioritariamente do PS. Nunca percebi bem que caldeirada era aquela, e pior, protegiam-se todos uns aos outros. Se quiserem posso dizer o nome deles todos e a sua filiação e simpatias partidárias... Não digo agora porque pelos vistos ja aqui há censura, com a desculpa do comportamento "ordeiro" como o Salazar defendia...

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  12. o Jovem seminarista e depois Padre, Jose Augusto Alegria, é outro dos casos estranhos de Évora. Namorava às claras a filha do chefe da União Nacional em Évora e era protegido pelo Arcebispo partidário da União Nacional ao tempo e pessoa muito influente, D: Manuel da Conceição Santos, o Cerejeira do Alentejo. Tanto o pai da D. Antónia como o Arceispo, sabiam do namoro e sempre o aceitaram e calaram, apesar do protesto surdo de padres e seminaristas ao tempo.

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  13. Deixem os mortos em paz!
    jorge

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  14. Não podemos deixar os mortos em paz, porque eles também não nos deixam em paz.

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  15. 01:02


    Na sua perspectiva, para deixarmos os mortos em paz, tínhamos de acabar com a área cientifica de investigação histórica, pois os individuos objeto do seu estudo, estão todos mortos...

    O que te incomoda afinal?

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