terça-feira, 5 de novembro de 2013

Descarrilhar

"A minha única diferença em relação a um homem louco é que eu não sou louco!" terá dito Salvador Dali. Invoco a loucura a propósito do extemporâneo caso Bárbara vs Carrilho que, com uns contornos bem mais leves que julguei que acabaria por assumir quando das primeiras “notícias de última hora”, poderia ter sido o caso e a “novela” da silly season 2013. Ficou para o Outono. E quer-me parecer que à semelhança do que não é feito na altura própria, chamemos-lhe assim apesar de a exploração pública da vida íntima, consentida entenda-se, ser um tema de gosto duvidoso que normalmente me deixa indiferente, parece ter vindo agora, em modo serôdio, dar os seus frutos de uma forma ainda mais espetacular, e que, essa sim, não me deixou, nem deixa, indiferente.
Não me deixa indiferente por se tratar de mais um caso de violência doméstica que envolve crianças e cuja mediatização afetará seguramente ainda mais a vida presente e futura dessas crianças. Não me deixa indiferente, não por se tratar de figuras mediáticas ou de elites sociais, já que a violência, sabemo-lo, não é monopólio de pobres, ignorantes ou grupos socialmente fragilizados. Não me deixa indiferente sobretudo porque surge associado a alguém cujo património intelectual e a formação académica não me deixaria prever, não o caso de violência (todos conhecemos casos tão inesperados e que muito nos chocam), mas a forma como é trazido na primeira pessoa a público. O despudor da conversa fez-me perder o respeito que tinha pelo académico, muito embora pudesse não o ter já pela pessoa de Carrilho. Como pessoa não o conheci para o poder julgar, mas agora já posso. E posso dar razão àqueles que pela postura que o ex-ministro teve na vida político-partidária já me tinham expressado as suas desconfianças e que eu sempre relevei pelo respeito ao seu exercício da pasta da Cultura e à sua produção académica.
Poderia falar da vergonha. Poderia mesmo falar até do presumível crime, legitimamente, porque o caso é aí mesmo, nessa instância, que está. Mas prefiro falar de loucura, aquela que a voz do povo contrapõe à da sabedoria, transformando-as não em opostos mas em sobrepostos. E se a dose poderia ser equilibrada, tanto de louco como de sábio ou de génio, este disparate que o ex-ministro fez o favor de vir fazer a quem nunca lhe reconheceu valor pelo lado do seu capital intelectual, veio também agora fazer-me ter muito pouca vontade de continuar a reconhecê-lo enquanto sábio.
Muitas vezes a loucura de figuras públicas tem um lado histriónico que desaparece fora do raio dos holofotes, como aliás acontece com outras características que são sobrevalorizadas por quem só as conhece enquanto figuras públicas. Umas vezes pelo que delas dizem, outras pela postura que em público assumem. É sempre um receio que tenho, este de conhecer um pouco melhor alguém por quem nutro alguma admiração. Tal como não me deixa indiferente, nem nego, essa aproximação de alguém por quem, pelo contrário, não sinto grandes simpatias. Há boas e más surpresas.
Neste caso, estou convicta de que dificilmente qualquer outra conversa ou tentativa de mostrar esse outro lado de sábio, me fará esquecer a baixeza das declarações de Carrilho, e não o “diz que disse” ou o “terá feito”, que num período de vida que seguramente o abalou como abala tantos e tantas, teve esse momento em que a máscara caiu para irremediavelmente não conseguir ser recolocada e cumprir a função que até ali teria cumprido. É que se, como acontece à mulher de César, não basta sê-lo há que parecê-lo, aqui Carrilho mostrou bem quem é.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica Rádio Diana)

5 comentários:

  1. Em Évora temos Loucos que usam a violência sobre os nossos velhos,uma prepara-se para encerrar o lar de Pinheiros,o outro ROUBAR o hospital de Serpa ao seu POVO.

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  2. …o escritor Claudio Magris diz que a Itália – esse laboratório de experiências políticas e sociais – assistiu na era Berlusconi ao triunfo de uma lumpen-burguesia “que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito”. Esta categoria de lumpen-burguesia não é uma invenção de Magris, mas ele dá-lhe um novo sentido: é uma classe que vive a euforia de uma nova inocência, porque a vergonha, o mais íntimo sentimento do EU, é um bem que ela não possui. E por isso é incapaz de experimentar qualquer sensação de embaraço.
    António Guerreiro, Público, 1/11/2013
    Foi com esta citação que Maria de Jesus Lourinho comentou, a meu ver com sentido de oportunidade e mundividência, este assunto no seu blogue (http://1diaatrasdooutro.blogspot.pt/2013/11/o-que-eu-nao-saberia-dizer_4.html#comment-form)

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  3. É essa ausência de vergonha- enquanto mais íntimo sentimento do Eu- que pode estar na origem e contribuir para a explicação de muito do que nos vai surgindo nas esferas privadas, mas também nas públicas, para nosso pasmo, e até embaraço... A quem não aconteceu já sentir vergonha pela falta de vergonha de outro?

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  4. O Paco Bandeira e o Carrilho formaram um novo duo musical:
    o "Duo Olho Negro"

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  5. Tens razão Dores, e isso fez-me lembrar um velho ditado que diz mais ou menos isto " Quando perdemos a vergonha já vale tudo, nada resta". E nestes tempos perdida a vergonha de muitos quase nada nos resta!
    A questão é que durante quase duas décadas foi esta uma das linhas de orientação da educação, a par de outras que também não são famosas.
    O resultado esta ai, voltar atrás
    parece-me bem difícil!
    Lurdes

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