quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dar conteúdo ao encontro. Tecer laços fortes em vez de laços fracos filhos do imediatismo. São propostas de Carlos Fortuna em Évora.

Carlos Fortuna, é um dos sociólogos portugueses de referência na atualidade. De origem alentejana, licenciou-se em Évora em 1976 e dois anos depois fundou com Boaventura Sousa Santos e outros, o Centro de Estudos Sociais associado à Universidade de Coimbra onde permanece como investigador. 
Foi este Professor  Catedrático que  esteve, ontem à tarde, na Universidade de Évora para a aula inaugural da  Licenciatura de  Sociologia. A sala dos professores dos professores do Colégio do Espirito  Santo encheu-se  para ouvir as respostas da sociologia às crises que vivemos.
Poderia dizer-se que as respostas soaram nas palavras deste  Prof. de Coimbra num modo mais ponderado do que imediato. É precisamente na análise das velocidades dos tempos que vivemos, e dos laços que esses tempos geram, que Carlos Fortuna concentrou a possibilidade de outras respostas para a crise e para as saídas procuradas.
"O futuro demora a chegar... não conseguimos vislumbrá-lo...o discurso da resposta rápida, do imediatismo está a enredar-nos o futuro... que o digam as Universidades, as Câmaras e os outros... o presente está contido, parece que não acaba." Disse o Professor. E fez notar que a esta realidade estamos a responder com números, índices, quantificações. Vivemos o tempo da economia, dos economistas e da tecnologia bem representada pelos telemóveis e pelos nanosegundos, uma unidade de tempo tão pequena, afinal uma abstração que escapa à nossa compreensão, que não existe nos ciclos da natureza,  mas nos é imposta. "É esse o progresso que queremos atingir? Construído em cima do "rapidismo" e da incompreensão que ele gera?" perguntou o sociólogo, para logo afirmar: " A economia não tem respondido". Já a sociologia, que tem de repensar-se, pode contribuir com conceitos como o do encontro e o do diálogo "que não são imediatos" mas podem sugerir abordagens alternativas.  Porque o tempo do imediatismo, dos números, da economia, cria laços fracos. Já o tempo do encontro, dos encontros com conteúdos, das respostas ponderadas e negociadas, é potenciador de laços fortes. 
O sociólogo da cidade insistiu ainda que há "um esforço de dignidade a fazer, de estudo, de maturação dos processos".

No tempo reservado ao debate, o Presidente do Conselho  Pedagógico da Universidade de Évora,  Professor de  Gestão, lançou a pergunta:  Como é que uma sociedade que em 1974 se animou com valores democráticos e esperança no futuro pode hoje, 40 anos volvidos, ter chegado à desacreditação do sistema politico e da política ?
Fortuna remeteu as explicações para os níveis de pobreza e de iliteracia, de fechamento da sociedade portuguesa da altura que não permitiram a criação de espaço público sólido, e do debate alargado e plural. Só estas vias teriam sido capazes de evitar que, tendo a sociedade portuguesa apostado tão fortemente no Estado, apenas uma muito pequena parte dessa sociedade tenha beneficiado pessoalmente dele ( Estado).
Outra Professora, oriunda da Filosofia, Teresa Santos, apelando à experiência do especialista em estudos urbanos, questionou como é que no caso concreto de Évora se pode tentar a compreensão da cidade . Carlos Fortuna respondeu que  "Évora é muito dinâmica comparando com outras cidades do país. Beneficia de uma proximidade da capital que outras não" e que por isso tem algumas condições de vantagem. Mas "são precisas ideias". Por um lado, o "Espaço público" e por outro "As Praças", podem ser pontos de partida. A seguir "é preciso conferir conteúdo cultural aquilo sobre o que as pessoas conversam quando se encontram", já que é necessário dar conteúdo ao encontro. "É mesmo preciso investir na qualidade do encontro".  Fortuna especificou que os encontros acontecem em Associações, em Clubes, na Comunicação Social, para além da rua. A ideia do reforço da vida cívica, da civilidade, ficou como sugestão para Évora.
"Os portugueses em geral, (e os Eborenses) estão arredados, saíram de cena," em resposta aos tempos de crise. Como possibilidade, Carlos Fortuna sugere-nos então um convite ao encontro. Com conteúdo. 

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