terça-feira, 26 de novembro de 2013

Algo está a acontecer-nos e não sabemos o que é (2)

                                                               Foto daqui


O povo português recebe em pleno o impacte duma série de acções destiladas a conta-gotas, seguindo uma táctica de atordoamento que desfere novo golpe antes que o efeito do anterior se esgote e atingindo sucessivamente domínios diversos da vida de cada um: murro no fígado, uppercut no queixo. Nas últimas semanas e são apenas exemplos soltos, depois do anúncio dos cortes nas pensões, vem duas semanas passadas, o corte de 10% nos salários da função pública; mais duas semanas e anuncia-se que os diversos “subsídios” (suplementos remuneratórios da função pública) também serão cortados. Não tudo de uma vez, num pacote cuja enormidade se tornaria óbvia, mas sim murro após murro, deixando o adversário do “governo” que é o povo português, joelho a terra, deixá-lo ir quase até ao fim do countdown e desferindo então novo golpe. Não se trata de “improvisação” ou “incompetência, não: é táctica perversa.
Uma nossa colega socióloga, Monique Pinçon-Charlot, numa entrevista recente, afirma, a propósito do estudo em que analisou o agravamento da violência estrutural (fria, instituída), de que traduzo curtos excertos:
Pergunta : “Como se exerce hoje o que designa como “a violência dos ricos”?
“É uma violência inaudita. Que quebra as vidas, que atinge as pessoas no mais profundo dos seus corpos, do seu orgulho no trabalho.” “É uma violência (que) denuncia um processo de desumanização, uma lógica de predação, [por] uma casta que rebenta com o resto da sociedade.” 
Já não é política, que pressupõe a humanidade do outro, é violência pura: a derradeira etapa antes da eliminação física (como mostrei no precedente texto, dos velhos, dos doentes, dos mais pobres). 

O povo português, prisioneiro dos seus hábitos longamente incutidos que fizeram dele um obediente até à subserviência e um pacato para além dos limites da apatia, não se tem mostrado capaz de reagir de modo adequado, eficaz: colectivo.
Tem havido manifestações, umas com mais gente, outras com menos. Umas convocadas por “novos actores sociais”, outras por actores convencionais. Algumas localizadas à volta de situações particulares (expoliação por uma empresa, despedimentos abusivos, medidas autoritárias sectoriais…), outras focalizadas em questões do momento. Não me parece legítimo duvidar do empenho daqueles que em princípio podem organizar o protesto, ou acções de outra natureza. A questão é esta: uma chapa de chumbo parece ter caído sobre um povo inteiro, que se enterra nos seus espaços privados, baixa a cabeça, ou foge (120.000 emigrantes, ao que consta, só em 2013).
O governo descobriu e conserva um terrível segredo: “podemos fazer o que queremos, tudo o que queremos, ninguém será capaz de se opor”. A realidade parece dar-lhe razão. Um novo tipo de abuso de poder com toda a aparência do consentimento.
Mas algo mais grave poderá explicar o aparente “encaixe” sofredor e passivo dos golpes desferidos: é que são os mais fracos, por definição aqueles que detêm menos “capital social”, menos organizados, menos educados, mais velhos, e mais pobres em todas as dimensões da probreza que têm sofrido o maior impacto da chamada “crise”. Os 20% (ou 30%) mais pobres sofreram cortes superiores aos outros e são cortes que atingem directamente o essencial, não o supérfluo: não seria lógico que houvesse uma revolta dos párias? Tem-se acusado o “governo” de “insensibilidade social”. Ingenuidade básica. Não é esse o seu defeito, mas a sua qualidade, porque é o reverso da medalha, a sensibilidade política aguçada, o saber que os pobres são a melhor seara para colher, e não só, como cinicamente dizia o outro “porque são eles os mais numerosos”. Não. É porque, em função do acima escrevi, eles são os que menos capacidade têm para reagir. (Já o velho Marx observava que nunca é o Lumpenproletariat que age de modo revolucionário, mas sim a fracção mais forte – a “aristocracia” - da classe operária, isto no seu tempo; hoje, seria a “classe média alta”, na qual o “governo” só toca com muito cuidado).
Deles – dos mais fracos, desempregados, doentes e velhos - não tratam sindicatos, e são os que menos interessam os partidos (são os que menos votam). A principal vantagem política do desemprego é manter uma espada de Damocles por cima da cabeça de cada um que ainda tem emprego. Por isso (entre outras razões), os sindicatos estão paralizados pela constatação da dificuldade em mobilizar, os partidos políticos catatónicos, a sociedade vitrificada.
A sociedade portuguesa obviamente existe (quem diria!) mas foi, se os leitores me permitem o oxímoro, dessocializada: deliberadamente destruída. A esfera privada tornou-se estanque, as redes relacionais são moleculares, a acção é iindividual e os horizontes colectivos imperceptíveis. O sentimento de indignação, de revolta até, por mais que seja prevalente e manifestamente partilhado, não “percola”, isto é, não passa de ponto em ponto para alagar o colectivo. Cada cidadão ou cidadã define uma esfera de acção que dificilmente inclui a extensão do âmbito à acção colectiva. Como gotas numa superfície não “molhante”, os indivíduos vivem a sua frustração no modo infeliz da solidão. Nem menos inteligentes nem menos capazes que quaisquer outros, os Portugueses vivem a herança do fascismo, sem o saber: não têm sociedade civil, sobrevivem num arquipélago do medo.
E entretanto, surge uma nova realidade, que se rege pela mesma lógica do minúsculo e do disperso. Mas permanece por ora, no meu fraco entender, a da quebra individual, a do desespero ou da agressão isolada. Por ora, sim, forçosamente isolada.
Já veremos…

José Rodrigues dos Santos,
Antropólogo, CIDEHUS Universidade de Évora e Academia Militar

Évora, 19 de Novembro de 2013.

22 comentários:

  1. Discordo!!

    O Povo Foge?
    O Português há 500 anos que sai para fora de casa. Está na genética.
    Aliás, o problema nem é o governo. O problema é mesmo dos Portugueses que nunca se governaram e nem se deixaram governar. Nem os locais e nem as troikas fazem nada disto.

    Só lá fora e de uma maneira geral os Portugueses são bons. Porquê? Lá fora o Português faz como o Alemão na sua própria casa: vive para o trabalho e para a família e confia nas instituições.

    Herança de fascismo????
    Discordo em absoluto.
    Não me apetece ir para as manifestações dirigidas pelo Partido Comunista ou pela CGTP (no fundo são estes os principais organizadores de manifestações) e por isso vivo constrangido por fantasmas do fascismo????

    A Esquerda não entende os Portugueses de Portugal e por vezes até os odeia.
    Só assim se justifica o facto de existir uma maioria absoluta sociológica de pessoas de Esquerda neste país, mas é a direita que governa.

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  2. As Esquerdas não sabem o que fazer...........o PS anceia o poder pelo poder........PCP e BE.não são capazes de Romper com os seus Sectarismos............URGE REFUNDAR as ESQUERDAS........

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  3. Os sindicatos estão desgastados e não sabem abrir-se aos movimentos sociais............desgastam-se em manifestações sem qualquer eficácia.

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  4. UM NOVO IMPULSO..........terá de ser o caminho do PCP e da sua estratégia,a CDU é um espaço redutor..........que podia já ter sidi transformado numa convergência de partidos e Cidadãos em actos eleitorais,SÒ o sectarismo faz com que esta Coligação não saiba RENOVAR-SE e ser um espaço onde os descontentes,os sem partidos possam se rever................

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  5. António Filipe,um HOMEM que podia Liderar o PCP........a três anos de congresso é TEMPO de prepararem uma Equipa Competente........Renovada e um novo LIDER........

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  6. O PS esse é obcecado pelo PODER,não pelos IDEAIS e transformação necassárias na sociedade.........as Esquerdas estão BLOQUEADAS.

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  7. È a hora dos cidadãos e dos movimentos,estes partidos estão GASTOS.

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  8. O MEMORANDO da Troika assinado pelo PS/PSD/CDS deu nisto.

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  9. Imfelizmente este PS é um impecilho para a ESQUERDA,interssa ao poder financeiro especulativo,existir uma "democracia" e ter uns "partidos",o papel do "PS" é fazer que é de "esquerda", a Ditadura dos Mercados assim o quer.

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  10. Por isso estamos BLOQUEADOS.....e parece não ser fácil ROMPER com esta situação.

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  11. O actual deputado do PCP no Parlamento Europeu e candidato nas últimas autárquicas,dava um BOM lider partidário............as bases do partido devem de reflectir nisso,faltam três anos para o congresso.........tirando ele só estou a ver António Filipe,Bernardino Soares ou Rita Rato.

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  12. O novo partido,o LIVRE nada vem resolver na ESQUERDA,nem o MAS,tratam-se de cisões no BLOCO.

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  13. O MAS ala mais á esquerda do Bloco,o Livre ala mais á direita do Bloco...........estes dois grupos agora transformados em partidos não resolvem os bêcos em que se encontram as ESQUERDAS.

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  14. PCP?
    Só aqui vai dando...de resto está mais que moribundo e caduco. Resta a Coreia, a Cuba e os burros dos Chavistas.

    Se há coisa fora de moda é ser comuna.

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  15. Papa Alerta que a Violência pode explodir a qualquer momento devido ao CAPITALISMO.

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  16. Capitalismo responsavel actualmente por MILHÔES de MORTOS.

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  17. Quando este papa começou, não faltaram os comunóides habituais a crucificá-lo de fascista e colaborador da ditadura.
    Não faltou por esses blogues de tralha Estalinista Leninista, posts "intelectuais" opinando sobre o pseudo-colaboracionismo do Homem...afinal agora o homem já é bom.

    A tralha comunista nunca falha.

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  18. O Cretino nunca falha e, pior, nunca se cala.
    O problema é que, cada vez que abre a boca, ou entra mosca ou sai asneira.

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  19. Se o Comunismo fosse uma coisa boa, o que não faltavam era bons exemplos.

    Quando pensamos em comunismo não há um único país que se diga "benza-o Deus"! Da-se...

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  20. PAPA arraza CAPITALISMO.

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  21. E ALERTA para a VIOLÊNCIA que pode estar iminente.

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  22. @16::02
    Para a violência foi o Bochechas aquele que pisou a bandeira de Portugal que disse.

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