sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A ANTIGA ALUNA FLORBELA ESPANCA

(continuação)

A vida melhora um pouco e o par regressa a Redondo mas por pouco tempo. A poetisa tinha sofrido um aborto involuntário que lhe deixara sequelas nos ovários e pulmões, aparentando sintomas de tuberculose e refugiara-se ali para tentar recuperar. Mas como as melhoras não chegassem, antes pelo contrário, o seu estado de debilitamento físico e psíquico era cada vez mais preocupante, Florbela é aconselhada a ir para a serra algarvia para descansar e tratar-se.
A ideia agrada ao marido que por ali tem o irmão e a cunhada que são professores na então Vila Nova de Portimão. 
Em 1918 marido e mulher radicam-se em Quelfes, pequena aldeia rural do concelho de Olhão. A grande escritora Agustina Bessa Luís que virá ser a sua grande biógrafa ( "A Vida e Obra de Florbela Espanca", Editora Arcádia, 1979) dirá que «a sua permanência em Quelfes não foi relevante e ter-se-á desenrolado ao cabo de seis meses de marasmo, ansiedade, sossego, solidão literária, pouco conformes ao seu natural estado de espírito insubmisso e irrequieto». Detestava ir a Faro, à consulta do "Doutor Índio", um médico goês muito conceituado em todo o Algarve, sendo especialista em doenças pulmonares, mas de quem não gostava pela maneira como ela a olhava e tocava. Assim como detestava ir a Olhão pelo cheiro fétido e nauseabundo que se desprendia da Ria.
Apesar de ter por perto o marido, o cunhado e a mulher deste, Florbela não se sentia bem e em pequenos apontamentos ia deixando escrito: «estou muito triste e tenho ódio ao Algarve». A verdade, contudo, é que a amenidade e a placidez do clima algarvio, associadas à sabedoria do "Doutor Índio" , recuperaram-na rapidamente. Mas ela já tinha adquirido a certeza de não querer ficar por ali. Tal era a vontade do médico que insistia na sua estada por mais uns meses para consolidação do seu estado de saúde. «Por mais que todos me digam que tenho de ficar aqui, eu não quero. Era melhor dar um tiro nos miolos» -desabafava para os seus papéis. E agora então, isso parecia o mais provável, pois o marido conseguira encontrar um emprego estável num banco em Portimão. 
A paixão entretanto extinguira-se e o marido deixara de se interessar por ela a nível afectivo. Foi assim que sentindo-se remoçada e o fogo interior a consumi-la, Florbela, resolve deixar o Algarve, sem que Alberto Monteiro esboce o mínimo esforço para a deter, e vem para Lisboa finalmente cursar Direito. É já como estudante universitária que vê sair o seu primeiro título, "Livro de Mágoas", editado em 1919 pela revista "Seara Nova" sob a direcção de Raul Proença, a quem enviara em 1916 uma colectânea de manuscritos que chamou de "Trocando Olhares". Os 200 exemplares tirados esgotam-se rapidamente e as apreciações críticas são extremamente elogiosas. Obtida a fama, o reconhecimento literário e os aplausos com que sempre sonhou, Florbela embrenha.se na vida boémia e segue os ditames da moda parisiense, por mais extravagante que esta seja. É o começo dos loucos anos 20 em termos de comportamento, traje e vestuário. E ela gosta de chamar a atenção, de seduzir, de provocar.
Agustina, como Maria Alexandrina, uma outra estudiosa da sua vida ("Florbela Espanca e sua personalidade", 1964) descrevem-na nesse tempo como sendo uma «mulher atraente, graciosa, porte senhoril, de fartos cabelos negros, muitas vezes apanhados deixando a nuca à mostra, outras soltos pelas costas. Agustina destaca ainda os pormenores do seu guarda-roupa, usando peles, capelines, longos e lascivos colares de pérolas e principalmente a saia-calça, grande e "descarada" moda francesa do pós-guerra, «fixando um tipo de vagabunda letrada. o qual perdurará no tempo» e que a fascinava pelo escandaloso desafio às regras sociais.
Em 1920 Florbela tem o seu primeiro amante na pessoa de António José Marques Guimarães, alferes de artilharia da Guarda Republicana, com quem vem a casar-se, de novo civilmente, em Junho de 1921, depois de se ter divorciado do primeiro marido. Guimarães é entretanto colocado no Porto pelo que ambos vão viver para Matosinhos, terra dele. Florbela abandona a Faculdade de Direito (está no 3º. ano), mas quando menos esperam, Guimarães é obrigado a voltar a Lisboa por ter sido nomeado Chefe de Gabinete do Ministério do Exército. Florbela demora-se ainda algum tempo para deixar as coisas em ordem. Dois meses depois do seu regresso sai o seu segundo título, "Livro de Soror Saudade", recheado de poemas criados no breve espaço de ausência do marido. Não tardará muito, contudo, a ter de rumar a Matosinhos para se tratar de novo aborto que a deixa, como o anterior, muito abalada.
Depois ninguém ao certo o que se passou. A correspondência trocada em ambos continua a revelar, segundo os especialistas na exegese dos referidos textos, «uma mulher saudosa do corpo do marido-amante e que sem constrangimentos lhe confessa o seu desejo- atrevimento que ultrapassa em muito o consentido para a época». 
O certo é que a circunstância do médico responsável pelo seu tratamento ser Mário Pereira Lage, amigo do marido, que conhecera dois anos antes como médico do exército e que a cobiçara desde o primeiro momento em que a vira, não augurava nada de venturoso. O prolongamento da sua ausência em Matosinhos, os pretextos invocados para o adiamento do regresso a Lisboa, o seu temperamento fogoso em termos carnais e a noção de que Lage, nove anos mais velho e pouco escrupuloso não desperdiçaria a oportunidade para conseguir os seus intentos tiraram a Guimarães qualquer dúvida sobre o que estava acontecendo. 
O marido acaba por receber sem surpresa, ainda que com profundo desgosto, a carta em que ela lhe anuncia, já viver com Lage, solicitando-lhe o divórcio pois pretendia casar-se com ele o mais brevemente possível. Escreve então à família a explicar a sua decisão. Temos conhecimento das razões por ela invocadas na missiva que escreve ao irmão Apeles, com carimbo de 29 de Dezembro de 1923 e na qual começa por lhe dizer que esta o vai surpreender e penalizar. Para prosseguir:« Mas entendo que é melhor dizer-te eu própria tudo o que há de novidade em vez de deixar que aos teus ouvidos cheguem malevolências que te podem dar de mim uma ideia errada e injusta». 
Relata então de forma inesperada e pouco convincente que há dois anos tem sofrido «um calvário de humilhações, grosserias e brutalidades por parte do marido pelo que resolveu liquidar tudo simplesmente sem um remorso, sem a mais pequena mágoa.». E para quem assumia possuir um grande amor pelo irmão, remata desta forma estranha: «Pensa de mim o que quiseres que estou disposta a aceitar tudo, mesmo o teu esquecimento. Tua Bela.» 
Em 1925 casa com Mário Lage pelo civil e depois pela Igreja indo viver para casa deste em Esmoriz. A família corta relações com ela e acusa Mário Lage de a estar a manipular psicologicamente usando drogas fortes no seu tratamento o que a leva a vir contradizer-se sobre a vida feliz que dizia levar com Guimarães, difamando-o agora e lançando sobre ele o labéu de ser um individuo reles e de mau carácter.
Florbela vem a Évora para tentar a conciliação mas é recebida com hostilidade quer pela família que não lhe abre a porta, quer pela população. Populares apedrejam-na quando, em companhia de Milburges Ferreira, a Buja, amiga de infância, passeia no Jardim Público envergando uma provocante saia-calça. 
Agustina relata mesmo este episódio na sua autobiografia. Também eu o ouvi narrado com maior soma de pormenores, há cerca de 45 anos, da boca das suas ex-colegas, Maria do Carmo Almeida e Lídia Amália Nogueira que figura a seu lado na fotografia de 1917 em que ambas aparecem trajadas. Segundo o testemunho de Maria do Carmo e Lídia Nogueira, Florbela foi corrida à pedrada e acoimada de "puta", "rameira" e "maluca" e a perseguição só terminou na Praça de Giraldo, quando se refugiou na loja de modas e confecções para senhora, " A Parisiense", situada no nº. 50 e que era propriedade do comerciante Serafim César da Silva. Este reconheceu a sua estimada cliente e imediatamente lhe abriu as portas, acolhendo-a com todo o cavalheirismo e simpatia. A talhe de foice, diga-se que este simpático e gorducho comerciante era apaixonado por coisas francesas e parisienses, possuindo ainda ao longo das arcadas a conhecida "Kermesse de France" (desaparecida apenas nos primeiros anos já deste século) e o celebérrimo café-restaurante "A Brasserie".
De regresso a Matosinhos isolou-se cada vez mais e continuou a escrever tendo sempre por temas o amor, a solidão, a vida, a morte, o Alentejo e a natureza, numa expressão cada vez apurada do mais profundo, belo e tradicional lirismo. O modernismo literário de que tomara conhecimento através dos colegas de ofício no período boémio em que frequentou o "Café Gelo" e então muito em voga, não a cativara. E embora também cultivasse o conto e outras formas literárias era no soneto que pontificava emprestando-lhe um ritmo, uma melodia e uma sonoridade inultrapassáveis.
Dois anos depois acontecerá o facto trágico que a afundará irreversivelmente no quadro da doença psíquica de que desde sempre vinha padecendo. Seu irmão Apeles, também antigo aluno do Liceu de Évora, onde fizera o respectivo Curso Geral e os preparativos para ingressar na Escola Naval e era Primeiro-Tenente da Marinha, desaparece engolido pelas águas do Tejo quando ultimava as provas para obter o "brevet" de piloto-aviador, O seu corpo nunca será encontrado e a poetisa quis ficar com os destroços do aparelho.
Perde então por completo a vontade e a alegria de viver e entrega-se a um lancinante desgosto. Escreve então um livro de contos dedicado ao irmão com o qual se dizia ter tido uma relação incestuosa, que alguns analistas pretenderam ver confirmada nos «excessos verbais da escritora pela imoderação no modo de expressão», argumentando que essa «exaltação é fora do comum». Todavia, Agustina Bessa Luís, como Rui Guedes ( "Fotobiografia"), Maria Alexandrina e a brasileira Maria Del Farra, consideram totalmente descabida essa hipótese e asseguram que tal sentimento era de natureza maternal e fora assumido desde a morte da morte precoce da mãe de ambos. Florbela ter-se-á obrigado desde então a preencher o seu lugar junto do pequeno Apeles no sentido de o orientar e proteger.
Entretanto a relação com Lage começa a desgastar-se. Lage já não quer nada com ela, passado o primeiro impulso de a poder exibir como troféu de caça. No ano seguinte Florbela apaixona-se pelo pianista Luís Maria Cabral a quem dedicará os poemas "Chopin" e "Tarde de Música". Fuma desalmadamente enquanto é submetida a tratamento muito forte, baseado em refeições leves e muito descanso. Os seus comportamentos estranhos e bizarros e os seus devaneios amorosos iam escandalizando a família do marido que lhe aconselha a mudança de ares. É assim que repudiada por Lage e sua família, decide afastar-se por algum tempo.
Voltemos a Agustina: «Todas suas perturbações, a emoção exaltada , o esgotamento, a intolerância aos alimentos, ao género de vida, a tuberculose encoberta, as dores de cabeça, todas as repugnâncias físicas e morais anunciam a instalação da nevrose. Provavelmente com o desgosto sexual aparece como o grande motivo de desentendimento no matrimónio.» Surge a primeira tentativa de suicídio.
Em 1929, Florbela decide vir passar uma temporada ao Sul. Passa por Lisboa e pede ao cineasta Jorge Brum do Canto para a incluir no filme "A Dança dos Paroxismos" mas este recusa-lhe a pretensão. Volta então para Évora, a terra que sempre adorou apesar do mau acolhimento que a população lhe reservara cinco anos antes. Na nossa cidade começou a escrever o seu "Diário do Último Ano , numa antevisão de que o seu fim poderá estar próximo. 
Em Évora recomeça a colaboração com a revista "Portugal Feminino", enceta o mesmo tipo de trabalho com a revista "Civilização " e faz traduções do francês. Na cidade acaba por reencontrar António Marques Batoque, o seu antigo colega, já ilustre advogado e emérito cultor do Fado Coimbra, a quem aqui já nos referimos e ao qual oferece uma colectânea de poemas não editados mas já reunidos sob o título provisório de "Charneca em Flor". Batoque fica deveras entusiasmado com o que vê e promete dá-los a conhecer ao seu amigo Guido Batelli, professor da literatura italiana na Universidade de Coimbra. 
O professor italiano nem quer acreditar na qualidade daquele tesouro literário que acaba de lhe cair nas mãos. De imediato entra em contacto com Batoque que o põe em ligação com Florbela à qual transmite a intenção de lhe editar "Charneca em Flor" como toda a sua obra.
A poetisa vai manter-se em Évora até ao Verão de 1930, onde parece ir recuperando paulatinamente a saúde, com a ajuda de alguns amigos . Aqui tira a sua última fotografia. Ainda com 35 anos, mantém-se elegante, longilínea, ancas estritas e busto pouco elevado, adoptando o estilo "charleston" estival que aconselha o vestido leve e vaporoso, pouco abaixo do joelho, de alças desnudando por completo os braços, chapéu, sombrinha, colar e cabelo à garçonne. 
Mas Évora é longe de Coimbra e Guido Batelli aconselha-a a chegar-se mais para Norte dado que a sua vida universitária não confere muito tempo para se deslocar ao Alentejo, agora que está em fase de revisão de provas de "Charneca em Flor".
Florbela retorna a Matosinhos para rever as provas mas o marido e a família acolhem-na com a mais fria e brutal indiferença. Quando termina o trabalho é diagnosticado um edema pulmonar. Tenta de novo o suicídio. Lage e companhia espalham por todo o lado que ela não passa de um cadáver adiado por poucos dias. Às duas da madrugada do dia 8 de Dezembro de 1930 fecha-se no quarto depois e ter emborcado dois frascos de Veronal, um barbitúrico muito forte e diz adeus à vida. Ao que muitos disseram por estar apaixonada por Ângelo César, fugira grada no nascente Estado Novo e crítico literário, e já não dispor de condições de saúde para viver esse último amor.
No caso porém houve muita coisa de estranho. Lage e todo a classe médica de zona, por solidariedade de classe, recusaram-se a assinar a declaração de óbito que embora indique o referido edema como causa da morte está absurdamente assinada por um carpinteiro. E a Igreja recusou assistência religiosa ao funeral por suspeitar de suicídio. 

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