quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Espero para ver se o exercício do poder pode ser diferente do que tem sido até aqui


Neste rescaldo pós-autárquico é normal que quem ganhou, depois de meses de esforçada e abnegadamente se ter batido pela vitória, festeje e proclame aos altos ventos que vão existir mudanças e que outros tempos aí vêm, assim como é normal que quem perdeu esteja deprimido e a "lamber" as feridas, procurando culpados e bodes expiatórios. Sempre foi assim, e com este sistema representativo, assente na partidocracia, julgo que sempre será. Aliás tudo isto é tão normal e tão repetido como o facto dos presidentes que ganham virem dizer que "contamos com todos", "estão todos incluídos", "precisamos de todos", "vamos trabalhar com todos". Tirando algumas excepções (Pulido Valente há quatro anos, em Beja, dizendo que o 25 de Abril acabava de chegar ao concelho e alguém parecido este ano no Funchal a afirmar a mesma coisa) é este o discurso habitual de quem ganha as presidenciais, as legislativas ou as autárquicas (um discurso que este ano percorreu todo o país, de Braga a Loulé, passando por Beja ou Évora) e que se resume a isto: "ganhámos, 'bora ao trabalho que isto vai mudar"
O problema é o dia seguinte, quando a máquina partidária, os grupos de interesses ou clientelares, os que se constituiram como militantes pela mudança ou os que se sentiram prejudicados no "antes", começarem a exigir a sua parte nos "despojos"
Já há muitos anos, era eu jornalista da Antena Um em Lisboa e, no rescaldo de umas eleições legislativas que o PS ganhou, estava com outros companheiros de trabalho na sede do PS no Largo do Rato quando entrou Almeida Santos e a telefonista o interpelou: "camarada, agora que ganhámos as eleições, não se esqueça que o meu sobrinho está desempregado".
Já ontem, contam-me, na Câmara de Évora alguém se terá dirigido a um conhecido militante do PCP, trabalhador na autarquia, dizendo-lhe: "Então, vão começar a limpeza agora, não?".
Apesar dos discursos à tolerância e à abrangência, não é essa a essência do poder nem do regime criado pelos partidos políticos no Portugal democrático pós 1974, e que ainda hoje partilham, embora desigualmente, as "comedorias" do sistema.  A prática por todos conhecida é que - à semelhança do termo "novílingua" criado por George Orwell no "1984" para descrever uma linguagem em que as palavras diziam exactamente o contrário do seu significado -, "abrangência" no calão político português significa "prateleira", "com todos" significa "dar poder aos nossos", "premiar os mais qualificados" significa "promover os que estão connosco", "promover concursos" significa"integrar na carreira quem nós queremos".
Durante muitos anos estive em "prateleiras" (anos seguidos afastado de qualquer função ou trabalho) e sei do que falo. Sempre em prateleiras criadas pela direita nas muitas vezes em que chegou ao poder. Mas a esquerda também não é imune a essa prática.
Claro que gostaria que estes "novos" discursos, feitos pelos interlocutores actuais, significassem outra coisa muito diferente desta, mas temo bem que não e que dentro de dias comecemos a ouvir falar de afastamentos, de promoções, de substituições, cujo único critério (embora haja sempre outros para disfarçar) seja a cor do cartão partidário.
No meu entender, a face do poder é sempre a mesma: mesquinha, de grupo e autoritária. Com um dos elementos eleitos numa das várias listas autárquicas no Alentejo tive esta discussão ainda mesmo antes dele saber se era ou não candidato. Foi e foi eleito. Disse-me que com ele seria diferente e que eu iria ver que o poder pode ser diferente. Espero para ver.

22 comentários:

  1. Como alguém escreveu por aí, é o TRABALHO que fará a triagem e ajudará a separar o trigo do joio.
    Quem tiver capacidade de trabalho e brio profissional, independentemente das suas opções políticas ou partidárias, será muito bem-vindo e, certamente, será recompensado com a satisfação moral de trabalhar em prol da população e do bem público. Os outros não aguentarão a vergonha do parasitismo.

    O que é preciso agora, depois da tomada de posse, é trabalhar e produzir resultados visíveis, que a população sinta. O trabalho não pode resolver tudo, mas resolve muita coisa. Mesmo essas tricas internas da Câmara. Quem tiver a autoridade do trabalho será sempre bem visto pela população, pelos colegas (excetuando, é claro, os maldizentes) e pelo executivo camarário CDU.

    ResponderEliminar
  2. "Quem tiver a autoridade do trabalho será sempre bem visto pela população, pelos colegas (excetuando, é claro, os maldizentes) e pelo executivo camarário CDU": EXCETUANDO quem diz mal ou seja, quem critica. Bela defesa estilo tiro no pé. CJ já sabes...

    ResponderEliminar
  3. Jorge passaste para o PS para seres reitor.

    ResponderEliminar
  4. Melgão foi abandonado por quase todos do ps,só o costa,praxedes e pouco mais.......

    ResponderEliminar
  5. Jorge está na hora de formares um grupo de dissidentes do PS para 2017.

    ResponderEliminar
  6. @16:16
    Isso é apenas um raciocínio próprio de quem tem a cabeça cheia de minhocas ou de alguém que está habituado a conviver em ambientes de mexericos e intrigas.
    Num ambiente são, onde as pessoas sejam ouvidas e envolvidas nas decisões, é possível fazer muito e bom trabalho. E, no fim, as pessoas sentem-se reconhecidas profissionalmente o que as motiva para fazer ainda mais e melhor.
    E também é claro que quem não se quiser envolver ou não estiver disposto a queimar as pestanas ou a suar a camisa, num ambiente destes acaba por sentir mal e sair. Mas por sua livre e exclusiva vontade.

    ResponderEliminar
  7. :)

    Obviamente meu caro Carlos Julio

    ResponderEliminar
  8. O CJ gosta de falar de poder.
    Diz que "a face do poder é sempre a mesma: mesquinha, de grupo e autoritária".
    Pergunto-lhe o que faz aqui neste blog ? Não é uma forma de exercer o seu poder? Sem grupo conhecido e em nome pessoal. Umas vezes, a forma é mais mesquinha e auto-convencida, outras mais informativa, mas é sempre uma forma de fazer parte do poder sobre o qual diz cuspir.

    ResponderEliminar
  9. "Ver para crer", parece um princípio sensato. Mas, "participar e trabalhar para melhorar", parece-me um princípio bastante melhor.
    O "ver para crer" é apático, preguiçoso e passivo. O “participar e trabalhar para melhorar” é activo, audaz, motivador e solidário. E, não só, permite ver e crer, como possibilita estar no centro da acção.
    Para sair do buraco em que está, Évora precisa que TODOS participem, que sejam ouvidas TODAS as ideias e que as MELHORES sejam concretizadas.

    ResponderEliminar
  10. O brutinho das 16:16 tem que voltar aos bancos da primária. Reaprender a ler. O que o anónimo anterior disse é que bons trabalhadores seriam sempre bem vistos pelos colegas, excepto pelos colegas maldizentes. Porque, infelizmente, colegas maldizentes, tal como analfabrutos como o das 16:16, há geralmente (ou frequentemente) em todos lados. Imaginar o contrário é lirismo. A grande diferença é que, enquanto a meledicência se faz muitas vezes pela calada, a estupidez, essa, como bem se evidenciou às 16:16, faz questão de se exibir.

    ResponderEliminar
  11. "participar e trabalhar para melhorar" é o "fazer melhor"? valha-me nossa senhora, a bondade dos mauzões

    ResponderEliminar
  12. Com licença, com licença, desculpem a intromissão nesta conversa de gente que percebe tanto de política. Eu, que não sou político, não fui eleito, não fui candidato mas sempre me tenho interessado pelas questões da governação local e acho abomináveis certas atitudes neste período pós-eleitoral.
    - Os que perderam ignoram os que ganharam as eleições (veja-se o comunicado da distrital do PS ),
    - os apoiantes dos que perderam escrevem longos textos onde procuram justificar o que não tem justificação ( leia-se o texto de Jorge Araújo),
    -os candidatos que perderam resolvem disparar em todas as direções, (permitam-me que não dê exemplos )
    - o responsáveis político da candidatura que perdeu em toda a linha em Évora, parece ter morrido e até encerrou a sua página facebookiana que, durante semanas, alimentou com uma prosa de estado como se fosse o presidente da Câmara ( Francisco Costa parece ter emigrado para Marte)
    - os habituais comentadores políticos da nossa praça parecem alimentar uma certa raiva dos que ganharam e parece que torcem para que estes não sejam bem sucedidos ( José Rodrigues e outros jornalistas locais que pretendem fazer futurismo pessimista desdenhando de quem ganhou sem ainda lhe ter sido dada a oportunidade para mostrarem o que valem)

    Mas afinal o que pretende esta gente ? Que ninguém ganhe as eleições? Que ganhem sempre os mesmos partidos ? Que quem ganha as eleições não possa escolher a sua equipa de trabalho sem que isso pareça ser favorecimento pessoal ?

    Quem ganhou as eleições sufragou um programa, que é o seu programa, não é o programa do BE, nem do PSD, nem do PS (mal o li porque só saiu nas vésperas das eleições ).

    Este programa tem que ser cumprido por quem o submeteu a sufrágio e com uma equipa da sua confiança.

    Alguém está a ver o PS a querer que a CDU tenha sucesso neste mandato?

    O que há mais na câmara é funcionários militantes do PS que não têm qualquer intenção de contribuir para o sucesso da CDU. E estes virão a ser chamados para as chefias ? Para a liderança de um projecto autárquico CDU ? Ou deverão ser chamados os que se sentem comprometidos com as linhas programáticas de quem vai presidir à governação nos próximos 4 anos?

    Trabalhar com todos é uma coisa, ouvir a população e os agentes culturais, desportivos económicos etc. é ainda uma coisa, atribuir responsabilidades aos opositores políticos parece-me ser uma idiotice que ninguém estará disposto a cometer.

    Estão a ver a CDU a atribuir responsabilidades a Francisco Costa, Natanael Vinha, Rui Praxedes, Florbela Fernandes e outros jotas do PS que foram para a Câmara porque integram a concelhia do PS e que foram ativistas da campanha do PS contra a CDU ? Eu espero que não. Não foi para isto que votei na CDU. Votei CDU para que a Câmara ficasse livre desta gente

    ResponderEliminar
  13. Não há necessidade de grandes elucubrações. Os cargos de confiança política a gente de confiança política. Todos os outros cargos, todos os outros postos de trabalho, a gente competente que trabalhe. A filiação ou a opção partidária não contam nem devem contar (à exceção, como referido, dos cargos de nomeação política, tais como assessores, etc.)

    ResponderEliminar
  14. Querem ver agora que o PVO não vai entupir a câmara de toupeiras!
    Ums nunca sairam de lá...outras serão recompensadas

    ResponderEliminar
  15. @19:05
    Uma coisa são cargos de confiança política (secretários, assessores, adjuntos, chefes de gabinete) e outra são os funcionários em geral.
    Os de confiança política são obviamente substituidos, os funcionários devem ser todos chamados a trabalhar e considerados por igual, independentemente das suas simpatias políticas ou partidárias.

    ResponderEliminar
  16. O que o anónimo das 19,05 disse foi : « atribuir responsabilidades aos opositores políticos parece-me ser uma idiotice que ninguém estará disposto a cometer.»
    Não me parece que tenha falado em despedir funcionários. Se não me engano os nomes que aí são referidos são pessoas com responsabilidades no PS e na Câmara ou que foram requisitados pelo PS para a Câmara. Na altura toda a gente comentou porque é que a vereadora Claudia tinha ido buscar Rui Praxedes, um contínuo da universidade. Afinal tinha acabado de entrar para a concelhia do PS com o seu amigo Francisco Costa. Estou errado? Concordo com o que foi dito pelo anónimo das 19.05. Ou a CDU se livra dos boys and girls que apenas foram para a câmara porque pertencem ao aparelho ou fica tudo na mesma. A câmara tem funcionários que cheguem , não são necessários boys ou girls

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Irra que esta gente não sabe distinguir cargos técnicos de cargos políticos. É só mesmo conversa de debaixo dos arcos!

      Eliminar
  17. @22:20
    Mas sobre esses não há dúvida nenhuma que saem em conjunto com os eleitoes a quem assessoravam ou davam apoio político (os ditos secretários). Nem podia ser de outra forma.
    Pensava que sobre isso não havia dúvidas. E é assim em Évora e em todo o lado.

    ResponderEliminar
  18. O Jorge Araujo vai deixar o PS?

    ResponderEliminar
  19. O Monarca vai fundar um novo PRD?

    ResponderEliminar
  20. Este texto do CJ volta a revelar todo o seu sarro anti-partidos.
    E JÁ TODOS PERCEBEMOS QUE A COISA TEM TENDÊNCIA A AGRAVAR...
    JC

    ResponderEliminar
  21. Pois eu espero que o departamento de obras leve uma volta e grande pois não funciona. Esta cheio de funcionários (não falo de assessores) incompetentes, prepotentes, que só tem atrasado a cidade e que não trabalham vão apenas cumprir horário! A limpeza se não for feita quem sofre vai ser a cidade e os eborenses!
    Claro que há excepções e a esses peço desde já as minhas desculpas, pelo comentário!
    Lurdes

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.