terça-feira, 15 de outubro de 2013

acontece na cidade

Luís Carmelo. Eborense. Escritor.


Gianni Vattimo. Italiano. Filósofo.


Cruzamentos / Crossroads
Sob este título iniciou-se na passada quarta-feira dia 9 de Outubro na Igreja de São Vicente um ciclo de encontros que a Associação organizadora (Colecção B) define como um seminário mensal de “leitura intensiva” e colectiva.
A primeira sessão foi animada pelo escritor Luís Carmelo, que apresentou a sua leitura do livrinho de Gianni Vattimo “Acreditar em acreditar” (1996). O filósofo G. Vattimo trata nesse livro de duas questões principais, que ele tenta mostrar como estando ligadas. A primeira, é uma reflexão pessoal, escrita na primeira pessoa, sobre o lugar da fé cristã no seu itinerário de vida. A segunda refere-se à história do lugar da religião cristã no Ocidente, desde a fé dos primórdios, à recusa dessa mesma fé pela sociedade “moderna” (entende-se, a Europa do Iluminismo, da industrialização, da ciência), e a um possível “reencontro” nos tempos presentes. Para o autor, existe uma certa correspondência entre o seu percurso pessoal e o percurso da nossa civilização. 
Desde a primeira linha, ao convocar a famosa frase com a qual Marcel Proust abre um dos volumes da “Recherche du temps perdu”, Vattimo define o seu projecto como o da procura – e do reencontro - do seu próprio tempo perdido, o da infância que foi para ele o tempo da fé, reencontro que tenta após um longo esquecimento, ou uma intensa recusa dessa fé: uma vida inteira. Essa é a parte mais comovente, porque expõe o sofrimento da perda da fé e da recusa duma Igreja que, aos seus olhos, esqueceu “o essencial” da revelação de Jesus, a saber, o fim da violência e a caridade. Esta virtude á aliás entendida num sentido muito profundo, afastado da caridadezinha que remenda com baixos custos a má consciência dos cristãos, mas como uma atitude fundamental perante o sofrimento dos outros e, diria eu, sobre o seu próprio.
Quanto à história da relação da civilização europeia com a religião cristã, Vattimo adopta uma tese que terá surpreendido o Luís Carmelo na sua aproximação ao texto em 1998. O movimento de abandono da fé, perante os progressos da razão científica durante os dois últimos séculos – fenómeno que se tem designado como “secularização”, pode, sustenta Vattimo, ser visto não como um abandono – quiçá definitivo – da religiosidade, mas pelo contrário, como uma oportunidade para libertar a fé cristã das escórias institucionais e ideológicas que, sob o impulso e o poder da Igreja, foram formando um ecrã cada vez mais denso entre a “verdadeira” mensagem do Cristo (no entendimento de Vattimo) e os crentes, ou aqueles que poderiam sê-lo. A secularização seria, neste sentido, uma libertação do verdadeiro núcleo central da fé. Após uma “infância” feliz (a do cristianismo dos primeiros tempos) e uma vida “adulta” que por um lado se desvia dessa primeira visão e por outro desemboca numa recusa activa da fé cristã, Vattimo crê ver os sinais de um renascimento, dum “reencontro”, é o seu termo, entre as nossas sociedades actuais e a o cristianismo.
O percurso civilizacional espelha-se, para Vattimo, no seu percurso de vida: ao envelhecer e ser confrontado com a morte – perda dos entes queridos, iminência da sua própria morte -, ele passa da recusa a uma procura duma versão aceitável da fé e mais do que isso, necessária para dar sentido não só à morte, mas à sua vida.
É claro que Vattimo segue o seu caminho, que não é, nem podia ser, o de todos nós. Vários agnósticos (como eu próprio) viram nesse esforço sincero para dar razão da sua fé – reencontrada – um belo testemunho de humildade dum filósofo cujos textos académicos são por vezes difíceis, à força de tecnicidade. Mas neste livrinho, era a pessoas como nós que ele se dirigia: os seus contemporâneos enquanto cidadãos que não são profissionais da filosofia, mas seus companheiros de aventura porque simplesmente humanos.
A sessão de leitura, na qual estiveram presentes mais de duas dezenas de pessoas atentas, durou mais de duas horas. Luís Carmelo organizou um jogo de curtas leituras alternadas com convites aos presentes para comentarem os textos. Excelente animador, capaz de abrir o espaço para a participação, o LC proporcionou-nos um belíssimo serão. 
O José Alberto Ferreira está de parabéns, não haja dúvidas. Ao organizar eventos destes, a priori inverosímeis, ele presta um serviço, creio, à nossa cidade. 

2 comentários:

  1. ROBALO esse Grande "socialista" da ARS vai entregar o Hospital de Serpa á CARIDADEZINHA,voltamos ao tempo do fascismo pelas mãos de uma criatura que se diz "democrata".

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  2. Está na Hora da REVOLTA e da DESOBEDIÊNCIA....basta temos que CORRER com os ROBALOS,PORTAS,PASSOS,DURÂOS e LE PENs.

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