terça-feira, 17 de setembro de 2013

Gritar não é aceitável

Cena 1. 
No Jardim público de Évora, no espaço aberto entre o palácio D. Manuel das Ruínas fingidas, ontem ao final da tarde, um grupo de jovens universitários "praxava" "bichos".  Individualmente, cada "praxador" tomava a seu cargo uma vitima.  Passando por alí, reparei numa rapariga de estatura média para a sua idade, envergando capa e batina que se agigantava frente a um jovem de idade aproximada à sua, mais alto, bem constituído, com a cabeça coberta por uma mistela de cor esbranquiçada, o que lhe conferia um aspecto bem desagradável. O rosto do jovem  mais parecia a paleta usada de um pintor desatinado. Ela, falando em simultâneo para um telemóvel e para a pessoa que tinha à sua frente gritava num tom de autoridade violenta, ou de demonstração de poder discricionário: "Caralh... julgas que eu não estou a ver! Filho de... "
Tentei perceber pelo contexto a que se refeririam as admoestações e supus que o jogo implicaria não levantar os olhos do chão. O rapaz, de pé, ligeiramente curvado, lá continuava com os olhos imóveis, pregados ao chão, numa demonstração de submissão e abdicação de si face ao exercício do poder que me impressionou.

Cena 2.
Numa escola de Évora, hoje, numa turma de 5º ano, um telefone toca à entrada para uma aula. o aluno de cerca de 10 anos visivelmente incomodado, dá sinais de não saber o que fazer ao aparelho. A Professora lança ao rapaz e à restante turma um grito tão imediato quanto intimidatório : " então não vos foi dito que era proibido o telemóvel ? Isso não ficou bem claro na reunião de apresentação? " O rapaz, acanhadamente, tentou justificar-se "mas eu... não ainda não o sei desligar..."
***

O ano lectivo começou. Está em curso a instalação de rotinas que se prolongarão na vida das crianças e dos jovens, dos pais, dos professores e de uma alargada comunidade que se relaciona com a escola mais ou menos intensamente até ao próximo Verão.

Na complexidade destas rotinas avulta a dedicação renovada de milhares de profissionais que se assumem ao serviço de uma construção social tendencialmente mais equilibrada e consciente. Mas, persistem também neste cosmos da educação alguns vícios e hábitos inconscientes que tendem a perpetuar-se. A prática de gritar com as crianças, adolescentes, com os outros, afigura-se-me tão grave quanto prejudicial para aquela construção para a qual nos propomos contribuir enquanto pais, professores e restante comunidade educativa.

Apesar de não ser aceitável gritar é por demais comum. São demasiado frequentes as descrições dos gritos como forma de impor a autoridade quer na sala de aula, quer em casa, quer mesmo noutros locais. Esta é mesmo uma  das mais reiteradas queixas dos mais jovens relativamente ao "sistema de educação", o que me parece constituir terreno fértil para a reflexão sobre o que mudar e como fazê-lo.

A propósito da pertinência do tema, o portal educare.pt  publica hoje  uma entrevista a um especialista que defende que  "Devemos ser compreensivos com a perda de controlo de muitos educadores no desempenho de uma tarefa tão complexa e difícil. Não é o mesmo uma perda de controlo pontual e um estilo de comunicação agressivo e autocrático sistemático ". O problema é que a comunicação agressiva continua a ganhar terreno. A impôr-se em contextos formais e informais. Nos territórios da educação, do lazer das relações interpessoais. Desde muito tenra idade. 
 Será de esperar, com esta realidade, a construção de cidadãos livres, desassombrados, na plenitude do seu estatuto de igualdade face ao outro ? Ou admitimos sem  indignação nem  óbice maiores, tornando-nos cúmplices e corresponsáveis  pela educação, construção e promoção de escravos e senhores, pessoas submissas ou subjugadoras que sobrevivem no contexto social (escola, trabalho, casa) sempre  e só pela via do exercício do poder, independentemente do lado em que se posicionam.

18 comentários:

  1. O que faz o Beato do Cancela de Abreu?

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  2. Ou a Escuteira da Universidade?

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  3. Grato a Dores Correia por trazer este assunto à ordem do dia e pelo oportuno e inteligente comentário que faz. Em 2007 também publiquei no UELINE - jornal web da Universidade de Évora o seguinte texto que infelizmente mantém a sua actualidade:

    Praxe e Humilhação

    Estamos em época de praxe!
    Para muitos caloiros que chegam à Universidade de Évora, estes são tempos novos, de muita esperança, de alguma incerteza e de muitas novidades. Para quem chega, é natural que espere um acolhimento amigável que ajude a tomar conhecimento e integrar-se em novas realidades. Nada mais natural que sejam os colegas “doutores” a ajudarem a fazer essa integração.

    Na nossa Universidade, como em muitas outras, não é esse o entendimento dominante. A praxe tem um carácter iniciático, ritualizado, que vai muito além das recreações naturais de quem acolhe em clima de festa e descontracção.

    Não raro se passa da brincadeira à humilhação! E ninguém, na universidade pode admitir a humilhação pública do outro! Poderão os cultores da praxe dizer que ninguém é obrigado. Mas, a humilhação pública mesmo que consentida não deixa de ser humilhação. Ninguém de bom grado fará em público o papel de bobo, ou de “bicho” ululante, roncante, relinchante, se não tiver em cima uma pressão poderosa. Os rituais impostos pelos “doutores” trajados a rigor que conduzem pelas ruas da cidade as colunas de infelizes “bichos” são variados e imaginativos. Quando se passa da brincadeira à humilhação, é notório que a felicidade não é o sentimento que transparece das caras dos praxados.

    Por medo de não ser aceite, ou pela “vantagem” de poder praxar no ano seguinte muitos caloiros sujeitam-se à praxe e frequentemente à humilhação. E, o ciclo repete-se….

    O medo e a humilhação não devem ter lugar na universidade, que tem por missão formar cidadãos livres. Poderemos sempre acolher os caloiros em ambiente festivo e folgazão, sem transpor a fronteira da humilhação. Essa sim, seria uma PRAXE a sério, aquela que integra, que não exclui, e que colherá certamente a adesão geral.

    A. Heitor Reis | Departamento de Física (Universidade de Évora)
    2007-10-30 - A. Heitor Reis

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  4. Até quando temos de nos sujeitar a estes atos de selvagens, cabotinos autênticos nazis.
    Sujeitam-se a todas as humilhações para poder vestir a farda e queimar as fitas e irem diretamente para o desemprego. Para humilhação ja basta este governo neofascista

    Sexta-feira passada 00,30 da manhã, seis notáveis de pé de cerveja na mão humilhavam uma caloira. Ajoelhada aos pés destes alcoólicos de cabeça baixa , temo que longe dos olhares do público seja vítima de violação

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  5. A culpa é do Presidente da associação de Estudantes,o rapaz agora anda ocupado com a campanha ps.

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  6. As praxes têm que durar até Novembro..........a cerveja tem que se vender.......olha o contrato rapaziada............vivam.......o prrrrrrrrrrresidente da assoc e o MELGAS.

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  7. Hoje no banco vi uma menina dos seus 9 anitos com a cara toda pintada de baton. Posteriormente na rua vi um menino da mesma idade pela mão do pai também com a cara toda pintada de baton. Há praxes no antigo ciclo preparatório ? - se há penso que há lá adultos suficientes nomeadamente funcionários e professores para evitar certos abusos.

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  8. O interessante desta merda toda é que os responsáveis "estudantis" desta palhaçada toda estão todos ligados aos dois principais aparelhos partidários de Évora: PS e CDU. O presidente da Associação de Estudantes, vulgarmente conhecido como "Ninja" e de seu nome Paulo Figueira, é o mandatário do Melgão, enquanto o Sr. Dr. Notável Duarte Guerreiro, membro da vergonhosa associação anti democrática e "defensora da tradição académica" (leia se praxe violenta, exclusao de quem nao segue a cartilha, etc) os auto intitulados Notáveis, faz campanha todo sorridente pela CDU.

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  9. Pois o Presidente da associação(Ninja)acoolico, é outro Francisco Costa Brilhantina, que vai deixar a associação para ir para adjunto do Melgão na hipotese remotissima deste melga ganhar a CME

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  10. jovens ps e cdu, são uns selvagens, vejam o que nos espera quando estes abortos chegarem ao poder, vão-nos assaltar na rua para cobrar impostos

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  11. Um elemento das forças de segurança, com sentido civico, deve-se sentir muito mal no exercicio da profissão.
    Receber através dos impostos dos pobres, e usar a força e a lei (feita á medida) para defender o poder e a pandilha expoliadora. Que os rouba também e são eles que arriscam a vida por bem pouco, UM PSP ou GNR não tem contas em Off shore, mal ganha para a sopa

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  12. super bock e associação de estudantes da UE a mesma luta. Tornar os jovens alcoólicos é um ganho acrescido, não há festa que eles elas não estejam com o copo de cerveja na mão os charros esses dão damos por eles, São jovens reles a maioria selvagens

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  13. Perante isto o que faz o Beato Cancela de Abreu e a Beata Marta?

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  14. Estes dois moços vice e pró-reitor são muitooooooooooooooooooooooooooooooo católicosssssssssssssssssssssssssssssssssss.

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  15. o Sr. Reitor devia era iniciar as aulas, não a 1 de Novembro fim das praxes, mas já em Setembro. Andarem 45 dias a humilhar os mais novos é nojento, o Sr. Ninja mui digno presidente da Associação de estudantes da UE, devia também ter uma palavra a dizer, todavia ele só está lucido até ás 20.00, o próprio vice-presidente outro amigo da super bokk também o diz.
    Figuras degrandantes que os turistas gente civilizada que nesta altura nos visita deve ficar chocada. È caso de policia, o medo está estampado na cara dos jovens a humilhação, são rituais NAZIS, caucionados por estudantes PS ( NINJA)

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  16. Puta que pariu esta conversa dos Nazis. Deviam ter vivido então para perceberem o rídiculo pelo qual passa sempre com estas comparações. Curiosamente, entre outros exemplos, até foram os russos que obrigaram os alemães prisioneiros de guerra a marcharem após terem sido obrigados a consumir laxante (isto sim parece praxe). Porém longe de mim estar aqui a dizer que tal é um ritual comunista, do mesmo modo que não ando por aqui a dizer que uma tourada deveria ser considerada um ritual também comunista, ou não fosse o camarada Che conhecido também por matar pessoas em praça pública. Sois ridículos.

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  17. Porcaria académica

    O interessante desta merda toda é que os responsáveis "estudantis" desta palhaçada toda estão todos ligados aos dois principais aparelhos partidários de Évora: PS e CDU. O presidente da Associação de Estudantes, vulgarmente conhecido como "Ninja" e de seu nome Paulo Figueira, é o mandatário do Melgão, enquanto o Sr. Dr. Notável Duarte Guerreiro, membro da vergonhosa associação anti democrática e "defensora da tradição académica" (leia se praxe violenta, exclusao de quem nao segue a cartilha, etc) os auto intitulados Notáveis, faz campanha todo sorridente pela CDU.

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  18. Gritar é aceitável.
    Contra a violência, física, psicológica, verbal, contra toda a violência.
    Gritar é aceitável para situações degradantes de oportunismo e revanchismo que ocorrem - ou se preparam - também na Universidade.

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