sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues: a escrita em torno da liberdade


Morreu Urbano Tavares Rodrigues. O escritor de raiz alentejana - a família era de Moura e ali fez a escola primária - faria 90 anos em Dezembro. Militante do PCP, escreveu dezenas de livros em que o tema da liberdade foi sempre algo recorrente. É mais um nome grande das letras que o Alentejo e o pais perdem.

4 comentários:

  1. Durante o dia de hoje iluminaram-se, um pouco +, as suas origens familiares em Moura. O Urbano Tavares Rodrigues era filho do homónimo Urbano da Palma Rodrigues, jornalista, chefe de gabinete de Afonso Costa e dramaturgo. Deixou ainda um livro sobre Manuel Teixeira Gomes, com inéditos.

    A casa da minha infância

    A casa da minha infância foi um «monte» alentejano, próximo do rio Ardila, a cerca de quatro quilómetros da branca cidade de Moura.

    A frontaria dava para um pátio empedrado, de onde ainda se vêem, num alto, a eira, e mais perto, outras construções: a habitação do feitor, a cavalariça, a vacaria, o galinheiro, o curral dos porcos, o alpendre onde guardavam o trem, o churrião e vários carros de lavoura e alfaias agrícolas, a charrua, a debulhadora, o trilho...

    A toda a volta da casa mansas oliveiras, quase cinzentas por tempo fosco, mas de prata quando o sol se mostra. E, quase encostada à casa, as olaias, muito visitadas pelos pardais sobretudo à noitinha, e a suave glicínia, trepando por uma parede caiada, junto a janelas de grega do quarto dos meus pais.

    Foi nesse cenário rústico, que de Inverno acordava muitas vezes branco de geada e onde a Primavera vinha cedo, de ouro e azul, sobre a verde germinação das searas, que decorreram os anos mágicos da minha infância, escutando os cantos e os dizeres dos camponeses, brincando com os pastorinhos das ovelhas e das vacas, galopando pelos montados do outro lado do rio, escalando cabeços cobertos de estevas e mistério, descobrindo os caminhos que levam ao Guadiana, a imensa herdade da Rola, aos longes de Espanha.

    Entre a catequização da minha professora, a D. Guilherminha, piedosa senhora docemente ridícula no seu outono de vida cheio de folhos, fitas e sonhos gorados, e a rebeldia franca dos trabalhadores ranchos, que pelo nosso «monte» passavam, vindos da Amieira e de Portel, comecei a tactear a vida, a dar pela injustiças sociais mesmo ao meu lado, a crescer entre cheiros e sons, visões, bem diferentes, mas misturados, do paraíso e do inferno.

    Sentimentos em guerra nasciam dentro de mim e aos meus momentos contemplativos do fim do dia, após as horas de estudo ou os passeios pela beira do Ardila, a pé ou a cavalo, sucediam-se interrogações sem resposta. Deixara de acreditar nos mitos cristãos e procurava outras crenças, outros valores. Era o fim da minha infância, na altura em que meu pai ia ter de hipotecar a herdade (salvando-se anos depois do descalabro) e nós já víamos pela frente a partida para Lisboa, o Liceu, o «exílio» entrecortado por breves férias no Alentejo.

    Urbano Tavares Rodrigues

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  2. Do Urbano Tavares Rodrigues fica-me uma mágoa: não conhecer bem a sua obra!
    No tempo em que era leitor compulsivo, por esta ou aquela razão o seus livros nunca foram prioritários, talvez por ser uma obra muito abrangente nos géneros.
    Esrte texto por exemplo, não conhecia... e gostei muito. Foi publicado em livro? Foi crónica de jornal?
    Seja como gostei... e vou levar!

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    1. Vi-o na net, escondido. Existe um paper sobre a obra de Urbano Tavares Rodrigues, entre outros, da autoria de Virgínia de Carvalho Nunes, da Universidade de Aveiro, que diz o seguinte: «A casa da minha infância, página na net, que também transcrevo». Página da net (excelentíssima), presumo.

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  3. Sobre este GRANDE ESCRITOR ALENTEJANO, o escritor da simpatia, para quem o amor era tudo...o lutador contra os fascismos encapotados e à vista, militante do PCP, que se dizia anti-estalinista e que criticou a invasão de Praga, apenas três comentários, sendo que o segundo é um texto seu.
    Onde estão os comentadores, para quem a cultura, parece nada significar, mas para quem a mesquinhice do dizer nada, sobre uma candidatura à Câmara de Évora, é agora o passatempo predilecto.

    António Gomes

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