quinta-feira, 1 de agosto de 2013

É como se no covil das raposas se legislasse sobre a protecção aos galinheiros


Já que se aproximam as eleições autárquicas, e uma vez que alguns comentários no acincotons se têm referido a esta ou aquela posição que aqui terá sido expressa, talvez seja bom esclarecer que muitas das coisas aqui publicadas não têm a ver com a opinião dos autores do blogue, mas são notícias de outros locais que destacamos a fim de provocar algum debate na opinião publica. Ao darmos visibilidade a essas posições não quer dizer que com elas concordemos ou não: são cartas de jogo que estão em cima da mesa e que achamos que devem ser consideradas e não escondidas debaixo da mesa.
No entanto, outras vezes damos também aqui as nossas opiniões. Sendo este blogue um espaço de partilha, da responsabilidade de um conjunto de pessoas, todas elas com as suas opiniões próprias e individuais, estranho era que assim não fosse.
Dito isto gostaria de dar a minha opinião pessoal sobre as próximas autárquicas, começando por dizer que não vou votar. E, se não o faço, isso não decorre de uma menor atenção ao debate político ou a uma menor participação no espaço público e considero, aliás, que quem queira votar não deve ter quaisquer constrangimentos. É porque, na minha opinião, ainda não compreenderam na totalidade a dimensão do “polvo partidário” que constitui a nossa vida política e o sistema de partidos em Portugal.
A minha posição, há muito consolidada, é esta: não voto porque não quero validar um sistema que está corrompido à nascença e que consistiu, logo após o 25 de Abril de 1974, no confisco do espaço público por parte dos partidos políticos do sistema, tonando-o numa verdadeira partidocracia.
Ocupando – em muitos casos, houve mesmo uma espécie de assalto -  o aparelho de Estado no pós-25 de Abril souberam moldar a seu favor todo o espaço de intervenção público e político e tornarem-se verdadeiras lapas incrustadas na sociedade portuguesa que, por mais que as sacudamos, delas não nos conseguimos livrar.
Monopolizaram a representação política e o espaço da cidadania, inscrevendo esse monopólio na lei, como na altura – saídos da ditadura! – outros (ou os mesmos porque no reino dos partidos não há outros – é muito mais o que os une do que o que os distingue) inscreveram a unicidade sindical no capítulo das liberdades e garantias dos trabalhadores (ó ironia!) e dividiram entre si “o bolo”, conforme as posses e os meios de cada um para o abocanhar.
A política, e os negócios a ela associados, tomaram conta do Estado no pós 25 de Abril, confundindo-se com ele e quase não deixando nenhuma margem para a expressão da cidadania.
São as listas fechadas e meramente partidárias (as listas de independentes para as autárquicas foram “tiradas” a sete ferros e ainda sofrem de todo o tipo de limitações), representando os partidos e não os cidadãos; são as mordomias salariais e de estatuto; as reformas chorudas e vitalícias que criaram para si; os subsídios em dinheiro que todos pagamos para cada um destes partidos, seja para o seu funcionamento normal, seja por votos  obtidos no momento das eleições – mas deste “bolo” estão excluídos os partidos que não consigam representação parlamentar. Por isso é que os que lá estão tentam, por todos os meios, restringir a capacidade de outros grupos terem acesso ao Parlamento, legislando e tentando legislar nesse sentido
O sistema partidário – mesmo quando se baseia em partidos de eleitores como o PS, o PSD ou o CDS, ou num partido ideológico como é o PCP ou num partido de causas como é o BE – é sempre o mesmo e tem como principal objectivo a sua auto-preservação e auto-reprodução.
O sistema de funcionários e de pessoas que fazem da política (enquanto eleitos) a sua única ou principal profissão, durante décadas, já esqueceu quaisquer objectivos de fundo e limita-se a gerir o dia a dia nos cálculos do deve e haver dos lugares, da influência que pode ou não ter e das “benesses” que possa ou não obter – sejam estas financeiras, de oportunidade ou de colocação dos seus filiados mais activos nas estruturas do Estado ou das empresas que dele dependêm..
A institucionalização dos partidos, como de qualquer outra entidade, significa que só a estrutura conta e a defesa das suas muralhas, e dos interesses de quem está lá dentro, é o seu único factor diferenciador. Cada um tenta preservar o seu espaço para que ele não seja engolido pelo “parceiro” do lado. A auto-defesa, sobretudo dos que estão mais frágeis, tornou-se numa verdadeira obrigação de sobrevivência.
Chegados aqui pode-se perguntar: o poder local não poderia ser diferente? Podia. Mas não é. Os partidos trouxeram para o nível local todos os seus vícios de funcionamento ao nível central – até porque os partidos políticos em Portugal, ao contrário de outros países, nasceram ou cresceram fortemente a partir do aparelho de estado ou autárquico e só depois se consolidaram a nível local. As listas de independentes podem ser uma corrente de ar puro, mas ainda é cedo para saber. Há experiências muito diferentes e ainda não existe qualquer balanço seguro.
Mas durante estes anos não houve obra feita? Claro que houve. O ponto de partida era muito baixo e o pós-25 de Abril mobilizou muitas vontades ao nível local, mas depressa a partidarização e a partidarite trouxeram para os pequenos concelhos e freguesias (com excepções, é claro) não o traço que deveria unir os cidadãos em torno dos seus problemas locais concretos, mas sim o clima de divisão proporcionado pela clubite e pelas cores partidárias – ainda que, nalguns casos, isso tenha correspondido a obra que só foi possível com os muitos milhões de investimento feitos com financiamento comunitário - que está praticamente no fim para as autarquias, segundo fontes do governo, que querem "desviar" os fundos comunitários para as empresas e para a formação profissional.
Ganhar o A ou o B, aqui ou ali, parece-me perfeitamente indiferente, descontando as amizades pessoais, de grupo, ou interesses e a personalidade de cada um. Vai ser tudo gente do sistema, quer ganhe este ou aquele e apesar de todos eles dizerem que são diferentes do parceiro do lado.
Gerem o existente e os seus sonhos juntos contêm-se dentro da gestão do dia-a-dia: aqui com algumas nuances, ali com outras.
Por isso, também, me parece tão irrelevante se um candidato com três ou vinte ou quinhentos mandatos pode ou não recandidatar-se. É tudo fogo de vista e estas leis, como tantas outras, são apenas para fazer de conta:  entretêm-se nessas ninharias os deputados e os partidos que nos custam os olhos da cara e fingem que tudo isso é feito para nosso bem, contra  a corrupção ou o que for. É como se no covil das raposas se legislasse sobre a protecção aos galinheiros.
Cada vez mais a política se resume a um espectáculo em que os seus agentes são os actores, que representam papéis de ficção ou de pura comédia e que, no fim da peça, dividem o dinheiro e partilham a ceia entre si. O povo, as pessoas em geral, são o público. Servem para pagar a entrada, a manutenção do teatro, os salários dos actores e o único papel que lhe está reservado é o poderem aplaudir. Se, caso também previsto, assobiarem ou patearem, lá estão as forças de intervenção para conterem os protestos logo no início.
Que interessa mais uma lei para este lado ou para aquele? Ou mais um voto para um ou para o outro se o sistema da política está todo ele prédeterminado?
Talvez correr com eles todos fosse a solução. E, aqueles a quem apenas está reservado aplaudir, fazerem um novo 25 de Abril, mas sem deixar que as lapas se inscrutem, de novo, no espaço público, político e social, lixando sempre o mexilhão.

5 comentários:

  1. Pois é, os partidos são uma chatice. Mas ainda não vi nenhuma democracia a funcionar sem eles...
    Ao contrário, já vivi numa ditadura que achava os partidos como coisa perniciosa e até negava a sua existência. E, por sinal, não tenho saudades nenhumas desses tempos.

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  2. o post defende a existência de partidos políticos e de todo o tipo de associações cívicas - até listas de independentes. Não defende é que lhes pertença (aos partidos) todo o espaço de representação política. As ditaduras - todas - reduzem os espaços de expressão seja social, cultural ou política. A partidocracia é uma espécie de ditadura onde apeans os partidos têm possibilidades de representação e exercício da actividade política. Não é isso que se quer. Mas um compromisso entre o espaço da cidadania e o espaço partidário, onde este sobreviva com os seus próprios meios, cumpra as regras do geral da sociedade e não se apropie daquilo que deveria ser uma representação multipolar e multimodal, substituindo a partidocracia por uma democracia horizontal, com partidos mas também com espaços de intervenção e representação de cidadania e mesmo com espaços de democracia directa, onde a representação fosse reduzida ao mínimo.

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  3. O Carlos Júlio acertou uma vez mais.

    Vou aventar um número: 80% das noticias dos telejornais giram á volta dos partidos. São eles os verdadeiros donos de Portugal onde os seus funcionários, assessores e outros profissionais determinam os destinos do coletivo geral.
    Os patrões por exemplo, têm muitíssimo menos poder que os partidos apesar dos sindicatos dizerem o contrário.

    Já os sindicatos, são geridos pela agenda dos partidos (a CGTP dominada pelos comunistas e a UGT por socialistas moderados e sociais democratas) do que pelos trabalhadores.

    No fundo é a partidocracia que manda na agenda do país.

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  4. «a UGT por socialistas moderados»

    O que é isso de "socialistas moderados"?
    E porque há outros que não são "moderados"?
    Ou porque há outros que não são "socialistas"?

    Ou, afinal, há por aqui uma grande confusão entre os supostos "moderados" que criaram e sustentam este regime de compadrios e corrupção quase generalizada, para que, depois, venham outros palermas tentar meter tudo no mesmo saco?

    Se há um "POLVO" que tomou conta da administração púbica (e creio que há) não seria normal que se tentasse identificar a(s) cabeça(s) "polvo" em vez desta conversa da treta que mistura tudo e todos e que, por conseguinte, não leva a lado nenhum?


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  5. Os partidos é que têm destruindo Portugal e a vida honesta dos portugueses que trabalham, e os partidos enchendo os bolsos e ficando com uma vida boa...os partidos não interessam aos portugueses, mas sim um governo coeso...!!!

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