domingo, 11 de agosto de 2013

Da falta que nos faz ouvirmo-nos

As cidades invisíveis, de Italo Calvino, é um livro a que é bom voltar em qualquer altura da vida. Em qualquer altura do ano. A qualquer momento.
No inicio destas férias, alguém que que me conhece bem, ofereceu-me um exemplar (da 14 ª edição da Teorema) sabendo que eu costumo usar uma velha edição fotocopiada.

E eu lá voltei, com enorme prazer, a esse livro sobre o qual o próprio Calvino considerou ter sido onde disse mais coisas. Tantas coisas que de todas as vezes que lá voltamos  sempre se encontra um novo encanto, um recanto não percebido, ou um olhar antes não visto.

" Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra. [ ele, jovem explorador que visitara inúmeras cidades e as contava agora ao imperados que o enviara ]
-  Mas qual é a pedra que sustém a ponte? Pergunta Kublai Kan, [o imperador dos tártaros]
- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco -, mas sim pela linha do arco que elas formam. 
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
- Porque me falas das pedras ? É só o arco que me importa.
Polo responde: -Sem pedras não há arco. "


Ao reler esta passagem, senti-me tão Marco Polo, para logo logo me saber também Kublai Kan.. Reconheci a presença de tantos imperadores e tantos jovens venezianos no mundo em que vivo, que me cresceu a vontade de falar a alguém, uma vez mais, da necessidade de nos ouvirmos, percebermos, ou seja de aprendermos com o que os outros sabem.                                                                  


2 comentários:

  1. ... E as edições da Teorema ostentam na capa a belíssima Torre de Babel de Bruegel, o Velho (e isso acontece desde a *minha* 12.ª edição de 2002, pelo menos). Acabei de reler o excerto que refere no post... Inicia-se ali uma viagem pelos canais de Quinsai até ao momento em que o Grão Kan pergunta o que todos os forasteiros perguntam (a si próprios?), pela primeira vez e todas as vezes: «- Já te aconteceu ver uma cidade que se pareça com esta? - perguntou Kublai a Marco Polo estendendo a mão repleta de anéis para fora do baldaquim de seda do bucentauro imperial, a indicar as pontes em arco sobre os canais, os palácios principescos cujos portais de mármore imergem nas águas, o vaivém das barcas ligeiras que volteiam em ziguezagues impelidas por longos remos, as chatas que descarregam cestas de hortaliças nas praças dos mercados, as varandas, os miradouros, as cúpulas, os campanários, os jardins das ilhas que verdejam no pardacento da laguna.» (p. 89). A resposta de Marco Polo é um não, mas é de Veneza que lhe fala depois (e percebe-se que era sim, afinal). Italo Calvino é inspirador em várias latitudes, de facto. Tal como para o autor italiano a cidade encerra múltiplas narrativas e memórias, li há tempos as múltiplas descrições de Kinshasa que o antropólogo belga Filip de Boeck fez sobre a capital do Congo. Kinshasa (tal como Quinsai, Veneza, Évora ou Beja, ...) é também uma cidade «of memory, a city of desire, a hidden city, and a trading city, a city of the dead, a city of signs, a city of words, as oneiric city, and a city of utopia» (p. 17). É difícil de encontrar mas os interessados, se os houver, podem seguir as coordenadas para *ver* nas palavras de De Boeck e nas fotografias de Plissart as cidadse invisíveis que Italo Calvino descreveu... em 1972.

    DE BOECK, Filip & PLISSART, Marie-Françoise. Kinshasa : Tales of the invisible city. Ghent : Ludion, 2004. 288 pp.

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    1. Obrigada pelo seu comentário, RFC.
      Comentários deste tipo não são os mais frequentes mas são os mais gratificantes porque comunicam.
      Fiquei grata pela referência bibliográfica que não conhecia.
      Fiquei encantada (porque identificada) com a leitura de Évora, de Beja ou de Veneza, cada uma a seu modo, como "uma cidade da memória, cidade do desejo, uma cidade escondida, e uma cidade de comércio, a cidade dos mortos, uma cidade de sinais, uma cidade de palavras, como a cidade onírica, uma cidade da utopia".
      O facto de sabermos e pensarmos as cidades que habitamos assim, reforça a meu ver, a possibilidades de alargarmos as mais estreitas abordagens da organização, do planeamento, da vivência que é convivência... de tornar cada vez mais evidente a necessidade de acolher e relacionar as "múltiplas narrativas e memórias" constitutivas da nossa cidade.

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