quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A cara e a coroa do totalitarismo



Nos últimos dias li dois livros diferentes, debruçados e construídos sobre dois cenários distintos, mas assentes na mesma realidade tenebrosa que manchou de sangue várias décadas do século XX – o totalitarismo, fosse ele de raiz nacional-socialista ou de carácter marxista-leninista.
Existindo diferenças entre ambos, os dois modelos de organização social representam um tipo de sociedade assente no poder do Estado (e dos grupos que dele se apoderaram) e na destruição daquilo que é único e inalienável em cada um de nós – a individualidade.
Havendo mais traços em comum, bastava isto para os tornar similares. São regimes de terror, em nome de ideais futuros em que os “fins” (desde a “raça ariana pura” até “aos amanhãs que cantam”) justificam todos os meios. E um dos meios é o do medo e o da destruição do indivíduo, enquanto ser único, primeiro passo para destruir o grupo, a “raça” ou a “classe” de pertença, sublimemente descritos por Primo Levi (que o viveu – e de que forma! – em Auschwitz) e por Vladimir Zazúbrin, um escritor soviético, membro do PCUS, e presidente da União dos Escritores Siberianos, que escreveu uma novela profundamente realista sobre a primeira polícia política pós-revolução, “O Tchekista”.
São dois testemunhos escritos a sangue. Primo Levi pôde escrever o seu “Se Isto é um Homem” porque foi libertado do campo de concentração de Auschwitz pelos soldados soviéticos, dirigidos por Stalin, ele próprio responsável pelo degredo, tortura e morte de milhares de correligionários seus – entre os quais Vladimir Zazúbrin, cuja novela (escrita em 1923) só foi publicada pela primeira vez em 1989, depois da queda do muro.
Escreve Vladimir Zazubrin: “É necessário organizar o terror de tal maneira que o trabalho do carrasco executor quase se não distinga do trabalho do dirigente teórico. Um disse que o terror é necessário, o outro carregou no botão da máquina automática de fuzilar (…) No futuro, a sociedade humana “esclarecida” livrar-se-á dos seus elementos supérfluos ou criminosos por meio de gazes, electricidade, bactérias mortíferas”.
Duas décadas depois este “sonho”  bolchevique e tchekista era realizado pelo nacional-socialismo alemão, nos campos de extermínio e morte. O tiro na nuca às dezenas de executados diariamente pela Tcheka foi substituído pelos milhares de gazeados dos campos de concentração nazis.
“A notícia chegou, como sempre, acompanhada por uma auréola de pormenores contraditórios e suspeitos: hoje mesmo de manhã houve selecção na enfermaria: a percentagem foi de sete por cento do total, de trinta, de cinquenta por cento dos doentes. Em Birkenau, a chaminé do Forno Crematório fumega há dez dias”, escreve Primo Levi.
Num e noutro tempo histórico, o objectivo é o mesmo: destruir o que há de individual em cada ser humano. Os presos eram obrigados a despirem-se e a esperarem, nus, a morte. Para a humilhação ser maior.
Escreve Vladimir Zazúbrin, no Tchekista, “em França, havia as guilhotinas, as execuções públicas. Entre nós, há a cave. A execução secreta. As execuções públicas envolvem a morte do criminoso, mesmo do mais perigoso, numa auréola de martírio, de heroísmo. As execuções públicas fazem publicidade, dão força moral ao inimigo. As execuções públicas deixam aos parentes e amigos um cadáver, uma sepultura, as últimas palavras, a última vontade, a data exacta da morte. É como se o executado não fosse completamente destruído. A execução secreta, numa cave, sem quaisquer emoções exteriores, sem anúncio de sentença, a morte súbita, tem nos inimigos um efeito esmagador. Uma máquina enorme, impiedosa, omnisciente que agarra inesperadamente as suas vítimas e as absorve como uma picadora de carne. Depois da execução não se sabe o dia exacto da morte, não há últimas palavras, nem cadáver, nem sequer sepultura. É o vazio. O inimigo é completamente destruído”.
Duas décadas depois escreve Primo Levi no seu Se isto é um Homem: “Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva”.
Os crimes contra a humanidade praticados pelo nazismo foram julgados em Nuremberga. Os crimes praticados pelo marxismo-leninismo, como ideologia de terror e morte (União Soviética, China, Cambodja, Coreia do Norte, alguns regimes africanos…), estão a ser julgados todos os dias pela humanidade. O ódio e o terror contra uma raça  (judeus, negros, ciganos) ou contra um qualquer inimigo (de grupo, classe, ideologia) não são diferentes e estes dois livros retratam-no de forma eloquente.


21 comentários:

  1. Também, nestes casos, se tratou duma "limpeza".

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    1. Na tua casa não fazes "limpeza"?

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  2. Nós expomo-nos ao que queremos. A escolha das leituras foi um ato consciente.
    Escolheu esses e não outros temas e/ou autores por opção própria ou até, por uma pré disposição para o que iria encontrar escrito.
    Poderia encontrar outros autores e obras que lhe mostram outras abordagens em termos de conceção do mundo mas não menos mortíferas e não menos esmagadoras da "condição humana". Alguns até mesmo muito atuais.
    Dito de maneira diferente, escolheu esta abordagem porque é esta a sua matriz ideológica. Legitima obviamente, mas não a entenda como a "melhor" apenas por ser a sua. Todas as outras têm coisas muito piores e muito melhores do que o modelo em que assenta a sua "crença".
    Já agora, porque não compara também o neoliberalismo com as outras duas situações que descreve, nomeadamente no que representam de destruição dos Estados (apropriação por alguns???)? Já sei, não encontrou literatura disponível...

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  3. Costumas fazer com um tiro na nuca ou através de outros métodos mais expeditos?

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    1. Eu sou dos que costumam exportar a 'democracia' à bomba! Sejam de napalm, sejam de fragmentação. Sejam enviadas em bombardeiros, sejam enviadas em 'drones'. Sejam com cobertura da ONU, seja à revelia das organizações mundiais.
      Eu sou dos bons! TAL COMO O CJ!

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  4. "Se não te prevenires face aos meios de "comunicação social", eles farão com que ames os opressores e odeies os oprimidos"
    (Malcom X)

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  5. Não deve deixar de nos inquietar que a segunda guerra mundial, a guerra fria, para além de outros grandes calamidades mundiais tenham inspirado tantos livros, tantos leitores, jornalistas, cidadãos das mais diferentes origens, idades e formações, sem que em paralelo o processo de progressão do capitalismo e dos seus sistemas nos inquiete na mesma medida. O que poderá explicar essa falta de capacidade crítica mais generalizada, este género de insensibilidade, estando o capitalismo a produzir o que está, hoje e entre nós...

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  6. Comparar o capitalismo com o totalitarismo (que é uma forma extremada de capitalismo de estado) é pretender passar uma esponja por tudo o que de tenebroso o fascismo e o totalitarismo comunista fizeram que a humanidade sofresse. O espaço democrático (tendo muito de criticável, de injusto e uma dose grande de opressão e exploração) não se compara com o espaço totalitário - onde cada ser humano (a não ser o pequeno grupo dos que detêm o poder) é despossuído de qualquer direito ou garantia e nem as chamadas liberdades formais são garantidas. É como comparar, desculpem, o cu com as calças. Não há comparação possível. É o mesmo que comparar o fascismo português com a democracia actual. Há comparação possível?

    rui

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  7. 1% da população controla a maior parte da riqueza disponível.

    Não será esse o pequeno grupo que detem o poder no mundo?
    Não será esse o poder que bombardeia e assassina quem tenta simplesmente controlar as riquezas dos seus próprios países, como acontece nos países produtores petróleo?
    Não será essa uma forma ditatorial de controlar e dominar os países e os cidadãos?
    Não será esse o totalitarismo (a que alguns chamam 'globalização') que oprime e explora o mundo inteiro?

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  8. Esta gente lê muito.
    Fazem-se cultos e conhecedores das coisas.
    Lêem coisas de outros países, de outras gentes, de outros contextos.
    Mas são incapazes de ler a realidade, daqui.
    Não têm memória, são incapazes de ler a história, daqui.
    Buscam a realidade nos livros alheios.
    Torcem a realidade daqui, para se conformar à leitura de acolá.
    E tiram conclusões absurdas, surreais.
    Esta gente lê muito.
    Como é que podem ser tão estúpidos, tão inúteis, tão ocos?

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    1. O porreiro era proibir estes livros. Assim cortava-se o mal pela raiz. Ou queimavam-se as bibliotecas, só ficavam os livros de que a gente gosta - e a sociedade ficava asséptica e "limpa". Agora deixar que ele andem aí, havendo ainda por cima quem os leia... onde é que isto vai chegar?

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    2. O porreiro era saber lê-los e interpretá-los, sem dizer nem escrever asneiras.

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    3. Os livros, e quem os escreveu, não têm culpa nenhuma.
      Os idiotas que não os sabem ler, que são incapazes de aplicar os ensinamentos à realidade em que vivem, que os usam como arma de arremesso, esses cretinos é que deviam pôr as orelhas de burro.

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  9. «SEM-ABRIGO ROUBA UM DÓLAR PARA RECEBER TRATAMENTO MÉDICO NA PRISÃO»
    «Um homem assaltou uma sucursal do Bank of America, no estado de Oregon, Estados Unidos, e roubou um dólar (aproximadamente 75 cêntimos). Timothy Alsip admitiu ter cometido o crime para ter um motivo para ser preso e receber tratamento médico na prisão.»
    [http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/MundoInsolito/Interior.aspx?content_id=3391758]

    Eis a lei a que chamamos dos "Mercados" funcionar. Uma "lei" que dá tudo a uns poucos e tira tudo aos outros, incluindo o direito à saúde e à dignidade de um ser humano. Mas, claro, nada disto é totalitário nem autoritário.
    São SÓ os 'mercados' a funcionar...

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  10. Quantos MILHÔES já matou o CAPITALISMO?

    Falar do fascismo e do comunismo,e branquear o Capitalismo NEO-LIBERAL,é defender o actual TOTALITARISMO que domina o GLOBO.

    Não pode haver maus e bons totalitarismos.

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  11. Para não se ficar pela estreiteza de vistas recomenda-se ao CJ, em próxima leitura, o "LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO", de GILLES PERRAULT.

    Sumário do Livro:
    Prólogo - Gilles Perrault
    Introdução - Maurice Cury
    Capítulos sobre:
    - As origens do capitalismo (séculos XV a XIX) - Jean Suret-Canale
    - Economia servil e capitalismo: um balanço qualificável - Philippe Paraire
    - 1871: traição de classe e semana sangrenta - Claude Willard
    - A Grande Guerra: 11.500 mortos e 13.000 feridos por dia ao longo de três anos e meio - Jean-Pierre Fléchard
    - Contra-revolução e intervenções estrangeiras na Rússia (1917-1921) - Pierre Durand
    - A Segunda Guerra Mundial - François Delpla
    - Sobre a origem das guerras e uma forma radical do capitalismo - Pierre Durand
    - Imperialismos, sionismo e Palestina - Maurice Buttin
    - Guerra e repressão: a hecatombe vietnamita - François Derivery
    Massacres e repressão no Irã - François Derivery
    - Genocídio anticomunista na Indonésia - Jacques Jurquet
    - Anexação fascista de Timor-Leste - Jacques Jurquet
    - O Iraque, vítima do petróleo - Subhi Toma
    - A África negra sob a colonização francesa - Jean Suret-Canale
    -Argélia 1830-1998: dos primórdios do capitalismo colonial à empresa monopolista de recolonização "globalizada" - André Prenant
    - A África das independências e o "comunismo" (1960-1998) - Francis Arzalier
    - As intervenções norte-americanas na América Latina - Paco Peña
    - Estados Unidos: o sonho inacabado - A longa marcha dos afro-americanos - Robert Pac
    - Centenário de um genocídio em Cuba - A "Reconstrução" de Weyler - Jean Laïlle
    - O genocídio dos índios - Robert Pac
    - O capitalismo assalta a Ásia - Yves Grenet
    - As migrações nos séculos XIX e XX: contribuição para a história do capitalismo - Caroline Andreani
    - Capitalismo, corrida armamentista e comércio de armas - Yves Grenet
    - Os mortos-vivos da globalização - Philippe Paraire
    - A globalização do capital e as causas das ameaças da barbárie - François Chesnais
    - Os banqueiros suíços matam sem metralhadoras - Jean Ziegler
    - Um anúncio vale mil bombas... Os campos publicitários na guerra moderna - Yves Frémion
    - E mesmo assim a abolição do capitalismo não seria suficiente... - Monique e Roland Weyl
    - Capitalismo e barbárie: quadro negro dos massacres e das guerras no século XX (1900-1997)

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  12. O CJ também podia reflectir sobre o papel que os países capitalistas têm tido nos massacres que protagonizam . É que nestas guerras, onde Portugal também participa todo ufano, morrem muitos inocentes. Esperemos para ver o que vai acontecer na Síria. Será o mesmo que no Iraque? Vão bombardear cidades, civis, homens, mulheres e crianças em nome do quê? Da liberdade ? Então nos países capitalistas, ditos democráticos, os meios também justificam os fins : matam-se seres humanos em nome da democracia que os povos ocupados nem sequer pediram... Mas mata-se mas estas mortes são bem vistas pela comunidade internacional. Quanta hipocrisia, Carlos Julio, em nome do seu anticomunismo primário.

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    1. Mas porque é a existência de várias barbaries, massacres e totalitarismos actuais há-de fazer esquecer os totalitarismos do século XX que, seja nazismo ou comunismo, mataram milhões de seres humanos? Porque é que esta gente primária - que cada vez que se fala dum livro (mesmo clássicos como aqueles de que o CJ aqui falou)ou de cultura, o primeiro que fazem é puxar da pistola? É pena que esta gente, que hoje se diz de esquerda, não faça o que já devia ter feito há muito: a denúncia dos crimes e dos massacres dos regimes de "democracia popular", uma face do totalitarismo que - como o nazismo - devastou a Europa e o mundo. E continuarem a confundir regimes autoritários, imperialistas, etc., etc., com os totalitarismos nazi e soviético é o mesmo que quererem ver o sol com uma peneira: dá mau resultado. São duas coisas de natureza bem diferente.

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  13. A juntar a esses dois Totalitarismos podias juntar o actual,o FASCISMO NEO-LIBERAL,que mata milhões,invade países e tem campos de concentração(por exemplo o de guatanamo).

    Mas o artigo tem outro fim,em vésperas de eleições, é preciso abater uma certa força politica,o PS agradece.

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    1. Porquê? Há algum partido concorrente às eleições que defenda seja o nazismo, seja o terror soviético dos primeiros anos de URSS? É que se houvesse seria bom que, nós eleitores, soubessemos qual ou quais. Não propriamente para abater, mas para não votarmos neles.

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  14. Aqui vai mais uma sugestão para as dissertações de excelência do CJ:

    A POBREZA COMO ELEMENTO NO RACISMO DE NATUREZA ECONÓMICA
    - bem-vindos ao “paraíso do modo de vida americano”

    Os chamados “pais fundadores” dos Estados Unidos fundaram o país sobre o genocídio de 10 milhões de nativos… e a saga continua: só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mulheres segregadas nas reservas índias foram esterilizadas contra a sua vontade pelo governo norte-americano.
    80% dos adultos na situação de desempregados vivem no limiar da pobreza; O crescimento dos novos pobres com emprego, que apesar de trabalharem não ganham para comer nem para ter casa converteu-se numa indústria.
    A pobreza infantil situa-se acima dos 22%; são o único país da OCDE que não oferece qualquer tipo de subsídio de maternidade; Existem graves carências no acesso à saúde (125 norte-americanos morrem todos os dias por não poderem pagar qualquer tipo de seguro de saúde).
    Todos os imigrantes (e legalizados são mais de 37% numa população de 300 milhões) são obrigados a jurar não ser comunistas para poder viver nos EUA.
    O preço médio de uma licenciatura numa universidade pública é 80 mil dólares.
    Numa sociedade particularmente violenta devido ao racismo económico, são o país do mundo com mais armas: para cada dez norte-americanos, há nove armas de fogo.
    Os Estados Unidos têm a maior população prisional do mundo, 40% da qual é de raça Negra;
    Há mais norte-americanos que acreditam no Diabo do que os que acreditam na teoria de evolução de Darwin… e para eles com uma certa razão, o seu país entre 1890 e 2012 INVADIU OU BOMBARDEOU 149 PAÍSES ESTRANGEIROS.

    In "10 factos chocantes sobre os EUA"
    [http://www.diarioliberdade.org/artigos-em-destaque/404-laboraleconomia/28263-10-factos-chocantes-sobre-os-eua.html]

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