quinta-feira, 25 de julho de 2013

Das formas de habitar Évora para outras construções sociais



foto de José Manuel Rodrigues daqui
Se compararmos o livre andar, sem meta (em grego agorazein) dos moradores das antigas polis do Mediterrâneo, exercício que os levava a conversar deslocando-se pelas ruas em pequenos grupos de três ou quatro, expressão de uma condição habitativa familiar, protegida pelos muros ao seu redor, com as deslocações do flâneur, o morador das metrópoles tardo-industriais europeias discrito por Benjamin, resultantes de formas habitativas mecânicas e elétricas, com as errâncias informativas que desenvolvemos nas redes digitais e nos permitem a realização de um habitar sem territórios, entendemos como as alterações das formas do habitar acarretam um conjunto complexo de transformações.” Escreve o sociólogo Massimo Felice, em Paisagens pós-urbanas, 2012:14.                                         

Pensando no caso de Évora, aceitaremos que nesta segunda década do século XXI, coexistem as três formas de habitar descritas pelo autor.

Pode perguntar-se qual dessas formas descritas pelo autor, será agora predominante?
Será a primeira? “ uma condição habitativa familiar, protegida pelos muros ao seu redor” será ainda a mais sentida em Évora, e no seu Centro Histórico ? 

A segunda forma, a do morador flâneur (*) podendo não ser dominante em número, impõe-se como uma marca associada a esta cidade. 

A terceira forma, a da “errância informativa”, ou seja os que passam a maior parte do seu tempo ligados a um écran, e supostamente através dele a todo o mundo, mas afastando-se da experiência integral da participação em casa, nos grupos,  na cidade, corresponde a um modo de habitar a que cada vez mais pessoas se rendem, e particularmente os mais novos.

Que alterações para a cidade, e que texturas sociais, se estão a tecer neste nosso tempo, em resultado da coexistência e dos diálogos (ou da ausência deles) entre estas três formas bem distintas de habitar Évora ?

Estas são novas abordagens e combinações de uma realidade difícil de captar, de compreender, e de mediar,  mas que devem ser tidas em conta por todos os que se propõem gerir, cuidar e transformar, os nossos patrimónios comuns.

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6 comentários:

  1. conhecido em português era o vaerbo que caraterizava a atividade do "FULANO"

    - FLANAR

    ou seria "fulanar", de fulano

    que por sua vez já radicaria em "flâneur" ?

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    1. Dicionário PRIBERAM

      flanar (francês flâner) v. intr.
      Passear sem destino e sem pressa, por mera distracção (ex.: flanaram pelas ruas da cidade velha). = FLAINAR

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  2. Platero:
    É interessante a associação que propõe e na qual eu nunca tinha pensado. Não tenho elementos para dizer se existe ou não ligação linguística entre o "fulano" e o "flâneur"... mas que poderemos admiti-la, pelo menos aqui, informalmente, penso que sim...
    E já agora,a partir da sua experiência de observador atento e de habitante interessado, qual das três formas de habitar lhe parece ser predominante em Évora?

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    1. no meu fraco entender - como diria o outro -

      são facilmente assinaláveis as 3 formas

      1 . Malagueira - Projeto Siza - pormenor de muros envolventes, como "bardos" domésticos, isolando de todo o contacto com a Rua

      julgo que esse pormenor arquitetónico, para além de formas inovadoras de distribuição de espaços habitáveis, esses incontornáveis individuais "muros de berlim" têm conferido grande visibilidade ao Projeto internacionalmente reconhecido - do nosso Nóbel da Arquitetura

      as formas 2 e 3 coexistem nas novas Urbanizações, com maior visibilidade no Centro Histórico da Cidade, em que os ARCOS são o TROTOIR (é assim que se escreve?) dos/das flâneurs locais
      bom sucesso para seu inquérito

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  3. Flâneur

    Saí novo do meu canto
    E andei,
    Habitei a Cidade em que era eu
    Em cada rua ou praça
    Ou em cada velha arcada
    Sob o olhar de olhares
    Coloridos ou cinzentos, indiferentes.

    Viajei por meus pés e pelos olhos de outros
    Em multidão sem rosto.

    Regressei,
    A Cidade é agora a que vejo a sul
    Nas suas antigas cúpulas
    Subidas
    Quando a luz a faz ainda bela
    E enquanto o horizonte
    Se não perde…

    De onde estou,
    Sem saber exactamente como
    (Sei apenas que é uma caixa enorme
    De minúsculas caixas negras),
    O mundo todo,
    O que não está escondido
    Da minha luz!

    Da nova Cidade,
    Sou agora um velho flâneur
    De ruas sem rostos!

    Évora, 2013-07-25

    José Rodrigues Dias

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    1. Obrigada José Rodrigues Dias
      pela sua poesia,
      e pela sua forma de habitar a cidade e este espaço... zona virtual de uma arcada ainda acolhedora de flâneurs ?

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