quarta-feira, 17 de julho de 2013

A mentira da verdade: propaganda e manipulação de massa


Os cidadãos portugueses descobriram nestes últimos dias, um novo objecto produzido de modo quase instantâneo, por um dispositivo mediático avassalador: “o compromisso de salvação nacional”. O acto de baptismo valeu acto de criação, o que é conforme às regras da manipulação de massas: dá-se o imaginado pelo real, o fictício pelo existente. Dois elementos o compõem, como deve ser, porque um só não faria frase, e mais que dois tornariam a sua percepção imediata mais custosa em termos cognitivos: “o compromisso” e a “salvação nacional”. O objectivo da sua criação e da sua difusão é claro: tornar irrecusável o primeiro elemento (“compromisso”) justificando-o com o segundo (“salvação nacional”). A sua difusão, a sua repetição exaustiva, a sua introdução em frases mais complexas e combinações com outros elementos fulcrais (“partidos”, “interesses”, “resgate”…) torna-se um fenómeno em si: pouco a pouco, tenta fazer-se como se o objecto existisse, como se fosse um objecto concreto, material, natural ou artificial: “pedra”, “estrada”, “cadeira”.
Antes de analisar com mais atenção o nascimento deste objecto imaginário e a sua propagação, queria evocar um outro objecto da mesma natureza e comparar os seus destinos. Esse outro objecto é o “pacto de agressão”, expressão (com os dois elementos) que se queria viral, destinada a tornar-se uma noção do senso comum, ou seja, dum objecto concreto material e realmente existente.
Muitos observadores notaram antes de mim que o destino do “pacto de agressão” foi o de uma expressão que adquiriu o estatuto dialectal, sentida e entendida como a marca dum partido bem identificado e apenas dele, ao mesmo tempo que a expressão ficava marcada pela sua origem, sem poder alastrar mais além dela. O destino duma expressão como esta é patético… e injusto. A muitos cidadãos que a lêem, repetida como é nos mais diversos contextos (mas sempre pelo círculo restrito que a produziu), ela surge como mais uma “cassete”, para utilizar a expressão nitidamente pejorativa habitual. A expressão perde toda a sua eficácia e quanto mais é repetida menos “passa”. O falhanço da intenção é manifesto: em vez de criar um objecto percepcionado como existente, criou uma marca de pertença que a desvaloriza (“outra vez o PCP com a cassete”…).
E no entanto, se retomarmos cada um dos elementos, a expressão refere-se a uma verdade (não a uma falsidade ou mentira, como a primeira). “Agressão”? Sem qualquer dúvida: o combate dos que detêm o poder, uns de modo mais fanático e ideológico (ministros, políticos dos partidos no governo), outros por mero interesse próprio (empresários) é claramente o de reduzir a parte dos salários na riqueza nacional, de destruir os órgãos intermédios de resistência (sindicatos…), de impor reduções drásticas na parte da riqueza nacional consagrada à redistribuição a favor dos mais fracos (pobres, doentes, idosos…). Podemos discutir o elemento “pacto” que sugere contornos conspirativos e se tinge de conotações paranóides. “Pacto” quer dizer um acordo formal assinado entre protagonistas, com um plano comum, ordenado, etc. E é fácil demonstrar que a convergência objectiva de interesses não precisou de nenhum “pacto” para ser efectiva. Para quem tem memória de outros tempos, “pacto de agressão” é o contrário do “pacto de não-agressão” (germano-soviético, assinado por Ribbentrop e Molotov em Agosto de 1939), lembrança dolorosa que, mesmo que permaneça inconsciente para a maior parte os cidadãos portugueses, estará na sombra da memória comunista como um trauma profundo. Mas podemos dar de barato que convergência de interesses (diverso embora e em parte contraditórios), vale acordo de fundo quanto aos objectivos gerais que evocámos. “Pacto de agressão”, descontando o que se disse agora, corresponde portanto a uma realidade: há agressão e há conluio de interesses. Queria chegar até este ponto para interrogar a constatação que temos que fazer: uma expressão que corresponde a alguma verdade literalmente não passa as fronteiras do grupo restrito, não é adoptada pela língua comum como descritiva, perde toda a eficácia e morre, fechando ainda mais o discurso dos que a introduziram no estatuto de discurso dialectal, repetitivo, estereotipado e fica reservada a um pequeno círculo de fiéis.
O contrário está a acontecer com o tal “compromisso”. Quando os mais diversos actores se referem a um certo encontro entre partidos, indexam-no à noção recém-criada de “salvação nacional”. Na diversidade dos actores (locutores), políticos, comentaristas, jornalistas, e na diversidade dos seus universos de referência (vários partidos, vários meios socioeconómicos, várias ideologias sem contorno preciso ou perceptível), está a explicação do seu sucesso. O “pacto” ficou encurralado na propaganda demasiado clara para poder… propagar-se; o “compromisso de salvação nacional” tornou-se um temível instrumento de manipulação de massas. E no entanto, ao contrário da primeira, esta expressão é totalmente vazia de conteúdo, o “compromisso” partidário é apenas mais uma escaramuça entre adversários irredutíveis, os interesses particulares de uns e outros protagonistas e dos seus mecenas não só divergem (dentro do “governo” se é que o há, como fora dele) como são contraditórios. Quanto à “salvação … nacional”, ela é uma ficção total: mas começou a funcionar em pleno. Não só nada será “salvo”, como a sua relação com o “nacional” é indiscernível. O binómio “salvação nacional”, que nos imerge na semântica da “União Nacional”, dos unanimismos férreos próprios dos regimes autoritários é, só por si, um crime semântico, um atentado contra o senso comum que, quer queiram quer não, integra, no Portugal dos dias de hoje, uma larga componente de bom senso: ESTES políticos, após destruírem vastos conjuntos de recursos e de demolirem os dispositivos que garantem a coesão social (o bem denominado “estado social”), procuram uma tábua de salvação para… o sistema político que os serve. Hoje, os partidos que “negoceiam” a salvação “nacional”, estão a tomar consciência de que é a sua própria salvação que está em cima da mesa. Por isso o mecanismo de manipulação de massas tomou tal importância (sem precisarem de chefe de orquestra e não é o inquilino do tal palhácio que pode sê-lo, e cada um, jornalista, comentador, etc., tomou espontaneamente a seu cargo a intoxicação da opinião. O seu sucesso no imediato inquieta ou deveria inquietar todos nós. Os intelectuais têm o dever de denunciar essa manipulação e de desmontar os mecanismos que lhe dão eficácia, para reduzir a expressão a um elemento dum dialecto próprio dum grupo restrito e retirar-lhe poder significante: uma… cassete ridícula.


José Rodrigues dos Santos / CIDEHUS / Évora / Julho de 2013

16 comentários:

  1. Desde que li, há muitos anos, a "Psicologia de Massas do Fascismo" de Willhem Reich percebi que a manipulação colectiva é mais fácil do que a manipulação individual, desde que usados os instrumentos necessários: a exaltação nacional, os grandes desígnios patrióticos, celebrações massivas que servem de contágio, a repetição de meia dúzia de slogans que vão constituir o cerne do discurso político e a definição de um "inimigo" claramente identificável que tem que ser destruído, senão destrói a essência, a alma, a pureza do que somos. Ou seja: somos mais manipuláveis e sujeitos a todo o tipo de manipulações quando actuamos em massa do que enquanto nos comportamos como indíviduos. O livro foi escrito no início dos anos 30, ainda o fascismo na Alemanha estava a começar, mas descreve bem a realidade quer do nacional-socialismo, quer dos regimes ditos socialistas que cresceram a leste e que usaram os mesmos métodos de manipulação e de que a Coreia do Norte é hoje um triste e marcado exemplar (embora a Cuba castrista, a Venezuela chaviana ou alguns regimes africanos, que se "democratizaram" nos últimos anos conservem ainda características muito fortes desta manipulação massificada das populações. Em Portugal, só a psicologia de massas (neste caso ainda não do fascismo) permite explicar o que tem sido o devir colectivo de todos nós culminando neste momento de an-governo (o sonho de qualquer anarquista), com o presidente "desterrado" nas Selvagens, um ministro dos negócios estrangeiros que diz que não é ministro, dois ministros da economia (um ainda em campo e outro já a fazer os aquecimentos, um primeio-ministro que já nada conta em termos do baralho político. E, por outro lado, a apatia da generalidade da população, alvo de todos os cortes, deixando os seus protestos serem representados simboloicamente por centrais sindicais que apenas são correias de transmissão dos respectivos partidos (PCP e PS, uma com alguns laivos de BE, a outra de PSD)ou a movimentos que ficaram bloqueados ao fim de meia dúzia de acções.
    A sua análise, JRdS, parece-me correcta ainda que ache que cai dalgum modo no erro em que uma parte da esquerda ortodoxa portuguesa cai: invocar o patriotismo e a decisão nacional face à troika. Como se o fechar do país, o seu isolamento fossem armas para combater s situação que se vive. Pelo contrário, se há uma solução, seja no quadro do capitalismo como o conhecemos, seja no quadro de uma transformação que ainda não conhecemos, ela nunca mais significará o regresso às velhas fronteiras e à antiga noção de pátria: o mundo e a sociedade hoje estão globalizados e a integração económica é, no mínimo, regional. Saída do Euro, saída da Europa, regresso aos mecanismos de decisão puramente interno significaria uma albanização hoxiana fora de tempo várias décadas.
    E esse é o imbróglio que a esquerda portuguesa, sobretudo o PCP, mas também movimentos ditos sociais transportam dentro de si: o patriotismo, ao contrário do que pensam, é hoje - sempre foi - uma proposta altamente conservadora e reaccionária que não resolve qualquer problema - apenas acrescenta mais dificuldades à superação do actual estado de coisas.
    O caminho está, cada vez mais, na superação das fronteiras, na criação de um espaço europeu federal - com regras básicas comuns, no sentido, aliás, que o movimento operário sempre teve desde o seu início: a sua canção sempre foi a Internacional e a primeira grande organização de trabalhadores, a velha Internacional, teve logo desde o seu começo essa vocação transnacional. O regresso às velhas fronteiras das nações-Estado para além de ser um erro de análise é uma impossibilidade prática e mais um slogan sem qualquer conteúdo prático: apenas uma retórica para efeito de "mobilização das massas".

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  2. JRdS

    Releio agora o que escreveu e talvez eu, no meu escrito, tenha sido algo injusto consigo. De facto, em momento nenhum defende esse voltar às antigas fronteiras e ao patriotismo a que faço referência. De qualquer forma, ao dar um conteúdo positivo à expressão "Pacto de Agressão" sugere isso mesmo: o Pacto de Agressão é algo vindo de fora a que nós, nacionalmente, temos que responder. Esta ideia de que a "agressão" vem de fora e não das classes possidentes e da grande burguesia financeira e comercial de todo o mundo (portuguesa incluída, logo também de "dentro") é a meu ver uma das características mais negativas da expressão. Como se estivessemos a ser alvo dalgum ataque externo - quando muitos desses inimigos estão aqui mesmo ao lado, falam português e, diga-se o que se disser, sempre tiveram - pelo menos alguns - os mecanismos de decisão na mão. Nem que seja por estarmos já todos inseridos na economia globalizada.

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    1. Prezado Nuno Bernardes, não nos conhecemos, salvo erro, mas agradeço as suas reflexões, que tocam pontos MUITO importantes e que não estavam no centro do meu texto. Nele eu viso um fenómeno extremamente inquietante de intoxicação colectiva, criando um fantasma, a "salvação nacional".
      Os temas que trouxe a debate (pátria, nação, estado nacional, relação com os contextos alargados, etc.) é outro. Tenho um texto em estaleiro sobre essa questão que não tenho conseguido finalizar (porque tenho que o reduzir a dimensão aceitável para o acincotons). Se depois os editores do blogue aceitarem publicá-lo, deixá-lo-ei aqui como uma "resposta" não polémica ao que escreveu. Mais uma vez, obrigado. JRdS

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  3. «Nem que seja por estarmos já todos inseridos na economia globalizada»
    E, a partir daqui, o fatalismo de termos de ir a reboque. Como se a tal "economia globalizada" fosse um fenómeno abstracto, sem mentores, sem uma direcção e... sem beneficiários muito reais e concretos.
    Ficamos esclarecidos sobre a sua posição servilista em relação à "economia globalizada", à sua posição servilista em relação à troika e à permanência no euro e, sobretudo, em relação à psicologia das massas e à necessidade de” definição de um "inimigo" claramente identificável que tem que ser destruído”…

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    1. Preferível a alternativa ou servilismo marxista?

      É que pessoalmente não vejo nenhuma outra alternativa ao capitalismo Ocidental. Russos? Chineses? Cubano-Venezuelano-Equatorianos-Bolivianos?

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    2. Está visto que a Soberania e a Independência são conceitos estranhos para ti...
      Pela parte que me toca, enquanto for vivo, continuarei a (tentar) rejeitar todas as cangas que me quiserem aparelhar. Mas enfim, também sei que há bestas que já não sabem viver sem uma canga...

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  4. Se o Bernardes, que diz ter lido a "Psicologia de Massas do Fascismo" de Willhem Reich, olhasse para o mundo com olhos de ver, talvez reparasse numa Central que comanda e fabrica as notícias que nos intoxicam diariamente ou talvez já tivesse lido alguma coisa sobre a Central de espionagem que vigia diariamente os governos “amigos” e controla os mails de milhões de pessoas, tratadas como potenciais terroristas.
    Mas para isso seria preciso que o Bernardes, além dos olhos tivesse a sensatez necessária para filtrar e processar a informação que lhe impingem…

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  5. «POR RAZÕES POLÍTICAS: MARADONA IMPEDIDO DE VIAJAR PARA OS EUA (Desporto)
    A "más companhias" de Maradona impediram o argentino de entrar nos Estados Unidos da América. Craque argentino pretendia levar neto a visitar a Disney World em Orlando.»

    (http://desporto.sapo.pt/futebol/internacional/artigo/2013/07/18/amizades_de_maradona_impedem_arg.html)

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  6. “A NSA pode entrar na mente das pessoas”
    «Em 1982, sua atividade era basicamente escutar telefonemas fora dos EUA. Hoje, não só captura muito mais informação no mundo como o foco também está dentro dos EUA, interceptando, além de chamadas telefónicas, e-mails, dados, de Twitter a fax. E estas comunicações contêm imensa quantidade de informação privada. A NSA, hoje, pode praticamente entrar na mente de alguém monitorizando o que você está digitando no Google, saber o que você está pensando.»

    (http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed755_a_nsa_pode_entrar_na_mente_das_pessoas)

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  7. “ UM CÉU CARREGADO NÃO SE LIMPA SEM UMA TEMPESTADE”
    (SHAKESPEARE)

    Querem saber por que somos nós (os contribuintes que vivem do seu trabalho) que pagamos os custos da promiscuidade entre a alta finança (a que todos os dias entra por nossa casa dentro a elogiar o governo de salvação) e a política?
    Vejam por onde anda o sacrossanto “arco do poder”. O tal que os astros ( e alguma burrice dos eleitores) escolheram para nos governar alternadamente!

    http://www.youtube.com/watch?v=OcxS1zYWJms

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    1. Por isso é que não voto.

      Se fosse a extrema esquerda eram as elites (e seus compagnons) umbilicalmente ligadas aos comités nacionais, distritais e regionais, mandar (literalmente) nas nossas vidas.
      Embora podre, neste sistema ainda dá para se escolher onde queremos e com quem queremos estar.

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  8. anda-se a discutir a governação à revelia do povinho, com o acordo e a concordância de alguns, o desinteresse de muitos e a bonomia de outros tantos - como se fosse coisa menor;
    pela minha aldeia, igrejinha, aparentemente já tá montado o estendal da salvação, não será nacional, certamente, pretensamente local; ou seja, perspectiva-se coligação entre ps e psd local para as próximas autárquicas;
    aproveito a onda e digo que se se formalizar a aliança entre ps, psd e cds, podem registar que ficarei muito contente por não fazer parte deste ramalhate; não me reconheço na coisa e ficarei contente por me deixarem de fora (porque fui empurrado para fora, deixado de lado como peça de fruta madura demais para alguns interesses ou interessados - ainda bem);
    já agora não há "chuchialistas" pela igrejinha???? eu sei que não conto, mas há quem conte, ou devesse contar...

    Manuel Cabeça

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  9. Companheiros Socialistas:

    Vamos entregar o cartão do partido na tra.da Alegria,a direcção do PS TRAIU-NOS,este já não é o PARTIDO SOCIALISTA.

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  10. Os Sócrates,os Capoulas,os Amados,os Zorrinhos;FODERAM o nosso partido.

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  11. O professor doutor jose rodrigues dos santos, prolifero escrevinhador neste blog, é muito sabedor! por isso é ainda só professor auxiliar na mundialmente conhecida universidade de évora. sera que procura uma subida não académica na vidinha?

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  12. A foto é surpreendente e bem significtaiva da influência que o fascismo tout-court chegou a ter na sociedade portuguesa: a equipa do Benfica a fazer a saudação nazi antes de um jogo...

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