terça-feira, 25 de junho de 2013

REFLEXÕES ( 4 ): A ÁUREA CONDECORAÇÃO MUNICIPAL


1. O executivo municipal eborense está a tomar decisões que só podem ser vistas à luz de uma mera estratégia de natureza político-partidária visando as eleições autárquicas que hão de ter lugar dentro de aproximadamente três meses. Julgo que se pode incluir nesse âmbito o preito de vassalagem que no próximo dia de S.Pedro, dia da Cidade, vai  prestar à Fundação Eugénio d’Almeida, auto-intitulada instituição de inspiração cristã, com a atribuição à instituição da Medalha de Ouro de Mérito Municipal a propósito da comemoração do seus 50 anos de existência.
Se a outorga de tal distinção seria sempre discutível ainda ela é mais contestável quando é certo que o seu comportamento nos últimos dois anos, incurso no programa “Acrópole XXI", tem sido lesivo da imagem do património que sendo seu também é o da cidade. Reporto-me à condenação geral dos atropelos cometidos nos últimos dois anos com a requalificação do Museu das Carruagens e do Antigo Palácio da Inquisição a justificar a intervenção superior das entidades responsáveis, obrigando à correcção dos aspectos mais gravosos no toca ao seu aspecto exterior porque do interior ainda nada se sabe embora se admita que mais deslizes possam ter ocorrido.
O desrespeito pela identidade da urbe e o estipulado nos termos da sua classificação pela UNESCO atingiu um ponto culminante quando se tornou responsável pela pinchagem de ruas, calçadas e paredes no âmbito da malfadada e ambígua campanha «Évora é» orquestrada a partir de Lisboa por uma tal empresa chamada de “Albuquerque Designing”, que conspurcou o burgo, numa acção que mereceu o mais vivo repúdio dos eborenses. Mas pelo vistos Manuel Melgão e sua equipa gostaram e vêm agora avalizar e premiar esta actividade de afrontamento aos valores e tradição da cidade.
Referem porém como justificação oficial que a concessão do galardão é devida às suas intervenções nos ««domínios cultural, educativo, social e económico visando o desenvolvimento pleno, integral e sustentável da região de Évora». Ou seja, como não sabiam o que dizer, foram aos estatutos da Fundação, transcreveram ipsis verbis os seus objectivos, substituindo apenas o vocábulo «espiritual» por económico e deram-nos por completamente cumprimentos caucionando-lhe os méritos.
Se realmente assim foi, isto é, se a instituição se limitou a cumprir com as suas obrigações estatutárias resultantes da vontade do fundador, Vasco Maria Eugénio d’Almeida, Conde de Vil’Alva, não me parece que isso seja fundamento para que o município  lhe esteja tão fortemente agradecido. Se o fez de molde a merecer relevo especial por parte da população, representada pelo executivo municipal, é coisa que está por  provar. Os   exemplos acima citados indiciam exactamente o contrário. Mais, os benefícios para a cidade dessa tão propalada contribuição, ressaltam muito pouco evidentes numa leitura atenta e crítica do Relatório e Contas de 2012 (18.618.304 € de rendimentos- aumento de 13% em relação ao ano anterior- e 788.282 de lucros).
2.De qualquer modo e para ajudar a perceber muita coisa é bom percorrer a história da Fundação lembrando que a mesma foi criada em 1963, sendo dotada de um património fundiário de 6.500 hectares distribuídos por diversas herdades localizadas no concelho de Évora. Vasco Eugénio d’Almeida faleceu em 1975 e dois meses depois todas estas terras foram ocupadas no âmbito do processo da Reforma Agrária. A sua exploração era –como ainda hoje é- a sua principal fonte de rendimento pelo que descapitalizada a Fundação, cuja presidência havia passado para a Arquidiocese de Évora conforme disposição testamentária, enfrentou o espectro real da extinção. No seu comando estava então D.David  de Sousa, homem de formação monástica, mais preocupado com a vida contemplativa que com os bens terrenos o qual aceitou com passividade o esbulho e se fez substituir na Fundação pelo cónego José Filipe Mendeiros.
Este ainda tentou chamar a Câmara- também com assento no Conselho de Administração- para a causa da recuperação da Fundação. Mas o regime era outro. Comprometido com as ocupações, o executivo saído das eleições autárquicas de 1976 e chefiado pelo comunista Abílio Fernandes- saído poucos anos antes da militância católica- nunca quis ocupar o lugar. O desinteresse pela Fundação era total.
As coisas só começaram a mudar com a nomeação em 1981 de D.Maurílio de Gouveia para Arcebispo de Évora. O novo prelado apoiado em homens da sua confiança dá inicio ao processo de recuperação do património fundiário e ao relançamento da actividade económica da Fundação e no ano seguinte, dado o continuado alheamento da Câmara pela sorte da mesma, fá-la substituir no Conselho de Administração pela Universidade de Évora. Com a fundação recuperada e dar lucros cada vez maiores inicia-se um período de lutas intestinas com facções opostas do PSD a lutarem pelo seu controlo. Entretanto a viúva do fundador, Maria Teresa Burnay Belo d’ Almeida entra em conflito com o arcebispo a quem acusa de ser o principal responsável pelo facto de «a instituição estar a ser gerida como uma empresa quando os seus fins eram de natureza cultural e social».
O arcebispo ignora os seus protestos e em 1994 decide-se por nova mudança na administração ao fazer substituir o delegado da Companhia de Jesus cujo Instituto de Estudos Superiores (ISESE) pelo representante do recém-criado Instituto Superior de Teologia. E aí o caldo entorna-se definitivamente. Com base nestas alterações Maria Teresa d’Almeida aproveita e apresenta queixas por irregularidades cometidas na instituição ao Ministério da Solidariedade e Segurança Social.
O diferendo vai ser analisado já com António Guterres no poder. Cabe ao então ministro Ferro Rodrigues ordenar uma auditoria à instituição que se vai prolongar por dois anos e meio. No decorrer do processo, já com a Reforma Agrária morta e enterrada, Abílio Fernandes contacta a tutela e considerando igualmente que a vontade do fundador fora desvirtuada mostra-se disponível para ocupar o lugar a que ainda entende ter direito. Mas a inspecção, que terminou em Julho de 1998, pariu um rato e nada trouxe de novo limitando-se  a recomendar o aperfeiçoamento de alguns aspectos técnico-jurídicos. Enquanto isto os novos admnistradores resolveram afastar do conselho a viúva do fundador não a voltando a cooptar para os dois lugares em aberto na respectiva composição daquele órgão. O dinheiro começava a correr a rodos para as bandas do Pátio de S.Miguel mas a sua imagem externa era péssima. Safava-se a grande qualidade do vinho produzido. 
3. Apesar da nomeação do Cónego Eduardo Pereira da Silva para a sua presidência a grande novidade é a criação do cargo de Secretário-Geral que foi entregue a Maria do Céu Ramos, advogada e política profissional ao serviço do PSD - que é quem ali, de facto exerce o poder - inaugura-se uma nova fase na vida da instituição. A partir daí a Fundação começa a afastar-se das intenções iniciais do Conde que a criara com objectivos filantrópicos e de mecenato cultural, virada essencialmente para o apoio e auxílio a instituições sedeadas em Évora, e vai enveredar cumulativamente pela adopção de projectos próprios. É assim que nasce o Fórum Eugénio d’Almeida destinado à apresentação de obras (menores) de grandes vultos da arte contemporânea. É assim que se promove a cultura elitista, de poucos para poucos, cujo impacto na população eborense é nulo. Sabe-se hoje que a sua criação continha em embrião uma estratégia, já assumida e em andamento, de internacionalização de um projecto faraónico e irrealista que consiste em transformá-lo numa das maiores galerias de arte da Europa. É para ali que é canalizado actualmente a maior fatia do investimento.
Entretanto o recrutamento dos quadros institucionais começa a ser feito em Lisboa. O mesmo sucede com a política de comunicação que é desenhada por empresas da capital. A Fundação passa a editar uma revista anual super intelectualizada, produzida ainda pela já citada Albuquerque Designing, tanto quanto consta colaborada a peso de ouro, que visa « promover o conhecimento e a reflexão em torno de temas sociais, culturais e desenvolvimento sócio-económico num contexto e linguagem de contemporaneidade» em que não é feita uma única referência à cidade. Claro que este produto hermético e enfadonho circula em meios muito restritos e é praticamente desconhecido em Évora.
Sem ir mais longe,  é caso para se dizer que D.Vasco deve dar saltos na tumba com o rumo que a sua Fundação levou. Claro que Maria do Céu Ramos a gere como quer e entende e ninguém lhe pode ir à palma  porque a instituição é privada, os administradores lhe dão o seu “amém” e os estatutos foram retocados de jeito ( o tal «aperfeiçoamento de alguns aspectos técnico-jurídicos») a consentirem novas opções. Mas enfatizar que está ao serviço da região de Évora e merece por isso rasgados encómios da população e do município, só por brincadeira de mau gosto. Os pequenos apoios que presta a algumas colectividades e iniciativas citadinas, a concessão de umas quantas bolsas a estudantes e o auxílio actual prestado a 1070 famílias em situação de emergência não apagam tudo o resto. São, aliás, manifestamente escassos e não passam de meras migalhas em função das verbas que a Fundação movimenta e do cumprimento da finalidade primeira do instituidor.
4. Assinale-se que a saída de Abílio Fernandes da Câmara representou um enorme alívio para a Fundação passar a ocupar o espaço da Acrópole eborense a seu belo prazer sem prestar contas a ninguém. As boas relações com o município ajudaram este a negociar terrenos alvo do interesse de ambos nomeadamente no que toca ao alargamento do aeródromo e da instalação da Embraer que tanto quanto parece ainda não estão saldados por parte da Câmara.
O PS quer continuar a dominar o município e é de todos sabido que a Fundação não deseja a nenhum título o retorno do PCP à Praça do Sertório. Neste aspecto há uma iniludível comunhão de vontades .Sendo porém um palco de acção do PSD a poderosa Fundação tenderá a apoiar o candidato Paulo Jaleco, um homem do “lobi” do râguebi que conta com muitos apoiantes no Pátio de S. Miguel. A não ser que ali se reconheça que Jaleco não tem condições para o impedir ou sequer para manter o lugar de vereador. E aí o caso muda de figura.
A concessão do principal galardão municipal confere à Fundação, que vive fechada sobre si própria, uma credibilidade local que ela está longe de usufruir, mesmo dentro da própria Igreja, a cujos princípios de ordem moral se diz vinculada. O alheamento da população em relação às comemorações dos seus 50 anos são disso a prova provada. Em contrapartida o seu distanciamento em relação à candidatura de Jaleco poderá ser determinante para a vitória de Melgão tendo-se como certo que a decisão se poderá expressar por uma reduzida diferença de votos. 

Neste contexto, e como diria o outro, parafraseando Júlio César à passagem do Rubicão: os dados estão lançados. Mas não pensem que comem por parvo qualquer analista independente.

José Frota

9 comentários:

  1. Mais uma excelente reflexão de José Frota.

    Os dados estão, de facto, lançados. Já só faltam 3 meses para eles deixarem de rolar. Aguardemos para ver o jogo que sai... e como reagem os eborenses à propaganda desalmada que por aí vai.

    Só nas últimas 3 edições do DS tivemos 3 manchetes com a foto do "grande" presidente...

    O futuro de Évora, afigura-se cada vez mais sombrio.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pode ser que o Piçarra esteja a apostar no cavalo errado...

      Eliminar
  2. Não restam duvidas o POLVO domina Évora,a união nacional PS/PSD está nas mãos de OPORTUNISTAS,Eborenses ABRAM os olhos....CORRAM com os CORRUPTOS .

    ResponderEliminar
  3. OPUS DEI/PSD/PS a santa aliança.

    ResponderEliminar
  4. A CONDESSA foi despejada dos seus aposentos por esta gente.

    ResponderEliminar
  5. DERRUBARAM os pilares do museu da fundação e nada aconteceu.


    O PRÒ-Évora ainda existe?

    ResponderEliminar
  6. Parece mentira… mas, é verdade! A igreja apoia o PS!Os muitos favores tem de ser pagos!
    Se no céu, onde acredito, se encontre O GRANDE VASCO EUGÉNIO DE ALMEIDA, se pudesse sofrer, quanto ele não sofreria!...

    ResponderEliminar
  7. Esta "Igreja" estã nas mãos da alta finança,TRAIU JESUS CRISTO.

    ResponderEliminar
  8. OPUS-DEI--extrema-direita-----PSD/PS,mandam na FEA

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.