quinta-feira, 13 de junho de 2013

"O riso como arma", por Eduardo Luciano

A situação económica, social e política em que o país está mergulhado, com o governo diariamente a desafiar os limites da paciência dos portugueses, leva a uma natural crispação dos discursos que dia a dia produzimos nos espaço onde nos movemos.
Com facilidade aumentamos o número de decibéis produzidos para nos fazermos ouvir, vamos ao vernáculo buscar vocabulário para caracterizar as medidas que nos impõem ou a desfaçatez dos ministros que anunciam a terra do leite e do mel para um qualquer futuro, se aceitarmos ser agora vergastados pelo chicote da austeridade sem limites.
Tornaram-se tão banais os insultos a membros do governo em digressão, que vão deixando de ser notícia as recepções que os perseguem ao longo do país.
Bem sei que estamos de certo modo formatados para que a demonstração da indignação tenha rosto fechado e insulto fácil na ponta da língua e nem sempre há a “presença de espírito” para o uso do humor e da ironia como forma de a demonstrar, mas lá que é eficaz não restam dúvidas.
Ontem, na Assembleia da República, o deputado do PCP Bruno Dias fez uma intervenção onde mostrou os diversos instrumentos de estudo que utilizou para se preparar para a reunião onde se encontrava e onde se incluía o famoso “Borda d’água”, numa alusão às explicações utilizadas pelo Ministro das Finanças para justificar os sucessivos erros de previsão sobre a economia do país.
A performance foi de tal forma conseguida que Álvaro Santos Pereira perdeu a compostura e deixou que aquele riso que, de tão genuíno que é se torna impossível de conter, se transformasse em gargalhada.
As imagens da intervenção de Bruno Dias e do ministro da economia a rir à gargalhada da crítica mordaz a um colega de governo, espalharam-se de forma viral pelas redes sociais e todos os espaços televisivos noticiosos deram àqueles breves segundos um inusitado destaque, tendo em conta que se tratava de um deputado do PCP.
Foi um momento sério de intervenção política, com uma mensagem clara para todos os destinatários e de uma rara eficácia comunicacional.
Tivesse Bruno Dias agitado o “Borda d´água” e dito qualquer coisa como “o ministro das finanças é menos fiável nas suas previsões como o livrinho que tenho na mão”, e a sua intervenção seria apenas mais uma produzida numa qualquer comissão, numa qualquer sala da Assembleia da República.
Bem sei que nem sempre temos margem para pensar na forma e centramo-nos excessivamente no conteúdo esquecendo-nos que a eficácia do que dizemos está na facilidade com que chega aos que queremos que nos oiçam.
Ontem, com a sua brilhante intervenção, Bruno Dias chegou a todo o lado e obrigou o ministro da economia a uma demonstração pública de reconhecimento que o seu colega Gaspar não acerta uma.
Até para a semana.

Eduardo Luciano (na dianafm)

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