quinta-feira, 6 de junho de 2013

"Greves inócuas?", por Eduardo Luciano

A anunciada greve de professores para dias de exames nacionais traz de novo para a luz do dia a eterna questão dos supostos danos colaterais provocados a terceiros. A situação muito comum quando há greve nos transportes públicos, que é aproveitada até à exaustão para denegrir os trabalhadores em luta, estende-se agora aos professores por razões de calendário.
Não consigo entender as pessoas que, quando entrevistadas, afirmam compreender as razões da luta mas que logo de seguida constroem um discurso onde pedem aos grevistas que tenham em conta os seus interesses legítimos.
Uma greve sem consequências é algo que não existe e dizer que se compreendem as razões pedindo que se não se faça greve é um assinalável exercício de cinismo.
Afirmar que se está contra uma greve de professores porque se entende que tal não se justifica, é mais honesto do que inventar uma meia solidariedade que à segunda frase debitada se percebe que é apenas porque dá jeito no actual contexto.
Uma greve de professores traz naturalmente incómodos e eventuais prejuízos aos alunos e é natural que as associações de pais se posicionem face a essa possibilidade. Mas deveriam fazê-lo colocando-se ao lado dos professores na defesa do ensino público, não apenas compreendendo as razões da greve mas percebendo que a greve dos professores também é em defesa dos interesses dos seus filhos.
Não serão os alunos os últimos beneficiários da existência de um corpo docente respeitado, motivado e qualificado?
E como últimos beneficiários não deveriam estar dispostos a uma solidariedade activa que potencie a luta dos docentes?
A mim parece-me óbvio que sim e dificilmente entendo a posição da Federação Regional das Associações de Pais de Lisboa (FERLAP) quando apela aos professores que “para além das suas lutas, coloquem em primeiro lugar a razão da sua existência, os alunos”, não percebendo que é exactamente por colocarem em primeiro lugar a razão da sua existência que vão para uma luta tão dura e tão pouco popular junto de pais e alunos.
O ministro da educação faz o seu papel, usando a comunicação social para cavar um fosso entre os professores e a restante comunidade escolar, contando para isso com gente que não consegue perceber que já não há lugar a lutas parciais ou sectoriais e que todas as lutas têm a ver com todos.
Dizer-se, percebo as razões da vossa greve mas façam lá o favor de não chatearem os meus filhos, é como afirmar que se percebe que uma viatura tenha que circular mas façam lá o favor de não gastar os pneus.
Este é o momento em que todos temos que estar nas lutas todas por um objectivo maior que o projecto de vida individual. É uma questão de defesa civilizacional e se deixarmos que o retrocesso nos leve até à lei da selva, de nada valerá aos nossos filhos fazerem os exames nacionais no dia para isso calendarizado.

Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica rádio diana)

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