terça-feira, 4 de junho de 2013

Boa Fé: projecto mineiro ou negociata?


Programa na RTP2 sobre o projecto mineiro da Boa Fé é já dentro de uma hora (repete amanhã às 19,30h).  Entre outros entrevistados José Rodrigues dos Santos e Ana Cardoso Pires.

8 comentários:

  1. Vi o documentário e achei muito interessante. Os depoimentos de Ana Cardodo Pires, José Rodrigues dos Santos e Carlos Cruz disseram o essencial: a troco de algumas dezenas de postos de trabalho e de algumas dezenas de milhões de euros vai-se destruir irremediavelmente a Serra de Monfurado e o meio ambiente vai estar hipotecado por centenas de anos. Valerá a pena? A resposta dos entrevistados é que não. O governo e a empresa mineira dizem que sim. A capacidade de haver opinião pública é de dar resposta às interrogações. É bom que haja quem conteste o óbvio e os pequenos interesses da política que são sempre para hoje ou, no máximo, até às próximas eleições. A cidadania é outra coisa: o mundo que temos é para deixar em condições aos nossos filhos e netos, mesmo que os não tenhamos. Esse é o caminho: a cidadania contra o faz de conta dos políticos.(Tirando o BE - que ainda é pequenino - alguém os tem visto neste combate?)

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  2. É mais uma das grandes infâmias engendradas por quem ocupa temporariamente o poder e não tem qualquer visão estratégica para além dos trocos arrecadados durante um determinado período. A mesma preocupação que tem um tarefeiro correndo atrás de uns trocos para governar a casa durante uma semana.
    Ora a Serra de Monfurado, uma das maiores jóias paisagísticas e ambientais do Alentejo não pode ser assim destruída.
    Em relação aos partidos, eles não apareceram nem vão aparecer.
    Sempre que ao longo dos anos fiz peças sobre a exploração mineira nesta zona os autarcas - presidentes de câmaras e juntas - mostraram sempre apreço pelo projecto precisamente devido à suposta "criação de postos de trabalho".
    Até não duvido que esses postos de trabalho venham a ser verdadeiros. Mas serão temporários, poucos e mal pagos, incapazes de gerar uma riqueza que possa compensar os danos que vão - já estão - a ser ali produzidos.

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  3. Obrigado pelas vossas observações. Queria sublinhar duas coisas.
    Uma, o que está em causa é um dano irremediável (e peso as palavras)a muito mais que uma pequena zona rural: a uma região inteira. É verdade (infelizmente), que os sucessivos poderes, governos e autarquias, não têm sido capazes de dar o relevo e valorizar esse recurso que será impossível reconstituir: uma área de floresta e linhas de água cuja harmonia e cujo equilíbrio são RAROS. E valorizar significa melhorar, equipar (caminhos pedestres e de bicicletas, pontos de acolhimento, limpeza, replantação das árvores que vão morrendo por abandono, etc.) A inclusão nos roteiros que devem associar monumentos como a gruta do Escoural (a menos de 3km em linha recta), o Cromeleque dos Almendres (+ ou - a mesma distância), etc., e a obra de arte produzida por um trabalho (anónimo) de dezenas de gerações: o sobral centenário.
    A outra, é uma explicação pessimista quanto ao motivo da ausência dos partidos (excepto por ora o BE, mas consta sem que possa ser confirmado que a Agência Portuguesa do Ambiente teria recebido parecer negativo duma das duas autarquias envolvidas, Évora ou Montemor), quando se trata de arbitrar entre a promessa duma vantagem económica imediata (alguns postos de trabalho e umas royalties), e o interesse da colectividade no longo prazo. A promessa, cujo cumprimento é incerto, fecha-nos num falso dilema: ou a "economia", o "desenvolvimento" ou a estagnação verde: o nada. A cultura política produtivista é comum às direitas e ao PC, cujos homólogos destruíram o ambiente nos antigos países de Leste "em benefício" do industrialismo. A Factura é hoje enorme. O que parece um combate "paroquial" de alguns carolas, não é nem "fundamentalismo ambientalista" como alguns facilmente alegam, nem ignorância da angústia dos desemprego: é consciência do FACTO que se algum espaço existe HOJE para O desenvolvimento, é na "reconversão verde", na transição energética, no desenvolvimento social (educação, saúde, justiça, etc.) que não é sinónimo de simples "crescimento do PIB". Este sabe-se bem, deixou de ser uma medida válida da dinâmica dum país. JRdS

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    1. Caro José, contacto-o a partir do Algarve (perto de Lagos), região do país onde residem muitos europeus nórdicos em busca de qualidade ambiental. Se na Turquia a população manifestou-se contra a destruição do parque Taksim Gezi nós portugueses podemos e devemos fazer o mesmo por Boa Fé. E quem sabe se alguns desses imigrantes amantes da qualidade ambiental e que buscam um estilo de vida alternativo queiram também envolver-se. Talvez as instituições europeias bloqueiem essa negociata por razões ambientais. Caso contrário há que divulgar e solicitar a participação popular. CONTE COMIGO. Entre essa exploração mineira e a construção duma central nuclear não vejo muita diferença.

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  4. Dizia há umas semanas um historiador que esta condição idiosincrática de passividade dos portugueses vem ainda dos tempos da Inquisição. As marcas deixadas por esta instituição são tão fortes que ainda hoje condicionam a sociedade portuguesa. Pela passividade. Pelo medo.
    Não me insurjo nem aquiesço, mas testemunho amíude esta "tolerância" com que o povo diariamente recebe as machadadas desferidas pelos teóricos da austeridade. Um povo que sofre em silêncio, ou grita apenas no barulho das tascas quando o álcool promete uma guerra sem quartel aos "bandidos" que governam.

    Tenho grandes dúvidas de que seja possível fazer algo em prol da defesa de Monfurado.
    Como se consegue mobilizar as gentes preocupadas com o desemprego e o futuro do emprego para um desígnio quando, do outro lado, o contraponto será forte com "a criação de emprego e riqueza"?

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    1. Talvez seja passividade por factos históricos, talvez seja desinteresse, talvez falta de informação. Mas existem exemplos em como (periodicamente) podem ser acordados dessa passividade sonolenta. As manifestações por Timor-Leste em 97/98, as recolhas de alimentos sempre em crescente para o B.A ou o aumento de potenciais dadores de medula óssea quando existe uma propaganda organizada são disso exemplo.

      De que serve uma reportagem sobre a GANÂNCIA que ronda a Serra de Monfurado se não contribuir para agrupar as pessoas para a defesa desse local? De que serve?Senão para evitar que essa serra seja "estripada" e fique para as futuras gerações como um local aonde a Ganância se materializou?

      Espero que as associações ambientalistas se mantenham vigilantes, e caso necessitem dêem o alerta a que as pessoas ocorram ao local.
      Se antigamente Portugal tinha que ser defendido das invasões espanholas, francesas, mouras, actualmente tem que ser DEFENDIDO/PROTEGIDO das assinaturas dos que se acham donos deste país.

      Enquanto "eles" andam entretidos com a austeridade tudo "bem", austeridade vai e vem, só é necessária paciência, agora aqui trata-se de um dano permanente e irreversível e é isto que acredito que irá mobilizar as pessoas.

      A exploração mineira actua de forma semelhante à exploração petrolífera. Prometem, instalam-se, sacam e piram-se.

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    2. Concordo inteiramente consigo no que toca à defesa de Monfurado. Eu moro aqui ao lado, a minha paixão pela bicicleta leva-me em passeios regulares pela zona que conheço muito bem (até já encalhei com as sondas).
      Discordo dos exemplos que enumera acima. No primeiro, fomos politicamente muito bem instrumentalizados - e como somos, afinal, um povo sensível, aderimos aos argumentos sobre o sofrimento de Timor (pese embora um sem número de histórias mal contadas - e pode ser que o Carlos Júlio desfie algumas, que ele foi lá repórter durante mais de um mês). Portanto, a mobilização partiu sobretudo do governo, depois dos partidos e mais tarde com fortes empurrões de movimentos da sociedade civil, embora não tenha nascido aí.
      No segundo, volta a mostrar-se a sensibilidade dos portugueses, mas devo dizer-lhe que, contribuindo sempre para o BA, não deixo de questionar porque teremos, em simultâneo, de engordar brutalmente as grandes superfícies comerciais. Este ano foram, salvo erro, duas mil e 400 toneladas. Faça as contas e veja quanto podiam pequenas lojas, comerciantes e produtores locais lucrar e fazer circular, reinvestir o dinheiro em prol da comunidade em lugar de prestarmos um serviço de primeira qualidade a megaempresas que fogem com o nosso dinheiro para paraísos fiscais.
      Por último (but not least). Esta semana morreu o Rodrigo, não sei se sabe quem era. Havia uma página no Facebook há ano e meio onde se procurava ajuda - dadores - para um transplante de medula. O Rodrigo morreu. Não se encontrou um dador. Tinha 3 anos. O Rodrigo não era filho de um jogador de futebol famoso.
      No fundo o Luys diz bem: "propaganda organizada". Ora é aí mesmo que os defensores da exploração mineira terão sempre mais força que a sociedade civil.

      Espero enganar-me rotundamente!

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    3. Partilho do mesmo gosto por passeios de bicicleta por serras algarvias. Por cá não se fala de prospecções de ouro, mas de petróleo ao largo da costa, por parte creio da Repsol.

      Certo que tenhamos sido politicamente instrumentalizados no caso de T.L., mas o que ficou foi o resultado final. O fim da invasão de Timor.

      No caso das recolhas para o B.A. surge sempre essa questão -muito apropriada- dos lucros das grandes superfícies, mas mais uma vez o que fica é o resultado final - as dádivas encaminhadas para as instituições. Sendo do Algarve tive oportunidade de recentemente colaborar com uma instituição em Lisboa aonde testemunhei pessoalmente a importância dessas dádivas para as crianças dessa instituição.
      Obviamente que o justo seria as grandes superfícies encaminharem parte dos lucros obtidos nos dias das recolhas para as IPSS, mas isso é esperar humanidade em excesso dos coleccionadores de dinheiro.

      Lamento pelo Rodrigo e sua família...........

      Ainda há pouco uma história de um ex-agende da P.S.P. detido. Era conhecido na aldeia por "O pedófilo". A comunidade conhecia-o e identificava-o dessa forma . Ele pagava à mãe para servir-se das filhas. O jornalista termina perguntando onde estava a comunidade?
      Se ainda vivemos neste estado de não querer arranjar problemas, de nos colocarmos à parte estaremos a ser cúmplices.
      A partir do momento em que temos a informação deveríamos estar alerta e se necessário agir. Devolver algo à comunidade.

      Talvez a Monfurado aconteça o mesmo que a Foz Côa, nada. Ou melhor a ameaça que espreita esse local sirva para iniciar algo novo e verdadeiramente melhor para essas populações.

      Bem Haja e espero conseguir acompanhar o andamento das coisas por ai.

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