terça-feira, 7 de maio de 2013

Um abraço, Miguel


 Foi bom ter-te aqui durante todo este tempo, neste espaço que fomos construíndo juntos, tu, nós e outros (alguns já saíram pelas mesmas razões que tu agora invocas para deixar a equipa do acincotons), e queremos contar contigo como "leitor" do blogue, uma vez que decidiste optar por sair da equipa que lhe dá corpo,  invocando o facto de estares farto de "dar o flanco" a anónimos ou menos anónimos cujo único interesse é a destruição de qualquer debate. Os fascismos são muitos e ainda estão muito incorporados na mentalidade do português médio, destes homens e mulheres com quem nos cruzamos na rua, bons pais e melhores cidadãos, mas que na solidão do teclado não hesitam em porem cá fora todos os seus pequenos ódios, raivas, invejas e recalcamentos, sem a capacidade de debaterem o que quer que seja, apenas com o manejo rápido do insulto. Antes faziam isso no futebol, chamando nomes ao árbitro e à equipa adversária. Hoje fazem-no também nos campos de futebol, mas acrescentaram o espaço virtual à sua coutada de caça.
E, de facto, cada um de nós tem o direito à opinião própria sem que, por isso, tenha que ser sucessivamente insultado. Tens toda a razão! Eu próprio, muitas vezes, já me tenho perguntado porque continuo, deixando os comentários fluirem livremente e assinando o que escrevo, sujeito ao lodaçal infame em que muitos são useiros e vezeiros. 
Mas, no fundo, como também sabes, eu já dei para esse "filme" e para esse "peditório". Tenho muitos anos de jornalismo e de exposição pública. Sempre dei voz e assinei o que escrevo e o que penso - e julgo mesmo, a meu ver, que esse é um exercício de liberdade que é preciso continuar a praticar para não deixar o espaço público entregue aos medíocres e aos intolerantes de sempre que, a coberto do anonimato, denigrem, insultam,  e que a tudo e nada (sobretudo as opiniões contrárias) qualificam de nojo.
Mas respeito e apoio a tua opção: ser-se livre é também não aceitar ser constante e anonimamente  criticado, conspurcado, insultado, enlameado.
Um abraço e ver-nos-emos por aí. Há outras ruas, outras praças e avenidas para partilharmos.

Carlos Júlio

8 comentários:

  1. António Gomes07 maio, 2013 18:24

    BRAVO, CARLOS JÚLIO.
    Sei que com a saída do Miguel, o "A cinco tons" ficará mais pobre.
    Mas o Miguel não morreu e continuará a dar a cara pela defesa dos princípios que o norteiam, como homem de bem e, a pegar os bois pelos cornos...por todas as praças e ruas deste país.

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  2. Primeiro foi o tom do Isidoro.
    Agora vai o tom da razão, vertical, justo, o melhor tom.
    Fica o barulho.

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  3. Miguel
    Desculpa mas caga nos comentários insultosos

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  4. Várias vezes discuti a questão dos comentários anónimos com o Carlos Júlio. Discordámos. Resumindo, eu achava e acho que os comentários anónimos deveriam ser "moderados": sempre que contenham insultos pessoais, racistas, xenófobos, homófobos, deveriam ser eliminados.
    Censura? Sim, é verdade, censura. Mas não das opiniões, das críticas, mesmo que sejam violentas, radicais, àquilo que alguém (e sobretudo alguém que tem poder no meio de comunicação, aqui = blogue), porque essas críticas são o ar de que precisamos para respirar. Mas insultar alguém, como tanta vez aqui e em tantos outros sítios tenho visto, isso não.
    Tomemos o exemplo do racismo: nem mesmo sendo assinado deveria um comentário ser tolerado, porque isso seria dar voz a algo que não é uma opinião, mas um crime (sim, um crime).
    Outro exemplo: o insulto pessoal, cuja intenção única é ferir a pessoa visada; porque se autorizaria essa agressão? Qual a utilidade dessa "liberdade", que só o seria se fosse assinada?
    Lamento que o Miguel Sampaio abandone estas páginas. Admiro a sua posição do ponto de vista moral, embora tenha discordado inúmeras vezes do que ele escrevia (e, espero, escreverá). Mas como prescindir da sua voz, num universo maniqueísta, em que se está numa gaveta, como escrevia a Dores Correia, ou se é expulso para as trevas exteriores?
    Carlos Júlio, respeito a sua opção, mas reafirmo que discordamos.
    Abrir as páginas ao insulto anónimo é premiar a pior cobardia que existe: fazer mal a alguém, a coberto e sem assumir os seus actos.
    Um abraço... aos dois.
    JRdS

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  5. Muitas vezes para se compreender a situação, perceber o bas fond, é p reciso deixar fluir os comentários. Percebo iss o muito bem.
    Raramente aqui escrevo, mas continuo a sentir-me um destes tons. Há 20 e tal anos que livremente assino e as
    sumo tudo o que escrevo e digo. Sempre de peito aberto às balas. Sujeito à crítica. À amplitude das visões. À pluralidade das opiniões.
    Aqui neste espaço, durante algum tempo, cheguei a perder horas a tentar perceber o que motivava o comentário sob anonimato. Cobardia. Medo. Frustração. Vergonha. Inveja, até, se pode sentir nos comentários que aqui se leem.
    Digo-te, Miguel, que é mais embaraçante um elogio ou uma crítica assinada que o escárnio desvairado de um qualquer anónimo que muitas vezes através de reles insulto apenas esconde a sua fraquewza, incultura, incapacidade de debate, ausência de argumento.< Há muito quem aqui venha simplesmente para ter opinião!, para amanhã saber lançar uns bitaites à hora do café.

    Apesar de tudo, estou cada vez mais em acordo com JRdS.

    Deixo-te um abraço, Miguel e reafirmo o que disse ali noutro lado: não fosse isto um lugar de liberdade e recusava liminarmente a tua demissão! Assim, só a lamento. Havemos de beber uns copos por aí.

    Paulo Nobre

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  6. António Gomes08 maio, 2013 09:34

    Belos textos!
    A capacidade cultural, a inteligência, a tolerância (sem anonimatos)prevalecerão sobre a boçalidade, a incapacidade de ouvir os outros e a auto-satisfação de meia dúzia de anónimos, que parecem ter desaparecido.
    Parece que chegaram à conclusão de que há meios informáticos que descubrirão os seus emails.

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  7. Dizemos, Miguel não faças caso dos insultos, mas é bom de dizer se não é connosco. Concordo que o insulto anónino e que só traz baixesa devia ser excluido.
    Já uma vez aqui escrevi algo que depois me arrependi, mas estava revoltado, o Carlos Júlio apagou e muito bem. A pergunta que sempre fiz a mim mesmo, porque não apagam insultos?. Levaram o Miguel Sampaio a sair e ficam os merdosos do insulto

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  8. Outro dia, em conversa com uma amiga, ela saiu-se com esta: “sabes... para mim, qualidade de vida, é não ter de pensar em dinheiro. Venha a água, a luz, o telefone, a renda e os impostos, tudo! E eu pagar e seguir em frente, sem ter de me chatear, nem contar os tostões.”
    É isso mesmo. Trabalhas, ganhas e vives, sem teres de fazer contas, sem teres de andar sempre a engendrar o dia de amanhã, sem teres de pensar, que mesmo a dormir, existe um contador à cabeceira da tua cama, a marcar cêntimo a cêntimo, aquilo que tens de pagar, só pelo facto de estares vivo.
    Eis a minha luta, a minha e a de muitos mais. Não quero andar com nenhuma riqueza às costas, sempre com um saco de créditos e de culpas a moer-me o juizo, não preciso disso. Basta-me respirar sem ter de pagar uma máscara que me purifique o ar.
    Luto por isso, para mim e para todos os que como eu, acham um crime a fome num mundo de abundância, e há muitas fomes neste mundo. Uma delas, a que mais me toca é a fome de igualdade, porque a igualdade não é niveladora, pelo contrário! A igualdade é o direito a ser diferente e contribuir com essa diferença para o bem estar colectivo. Porque carga de água terei eu de viver num mundo formatado por valores que não me dizem nada? Porque não hei-de ter (já que nasci sem demandas nem pressões) a possibilidade de seguir um caminho que me realize, que me faça ser gente entre as gentes?
    Acontece que as coisas não são assim tão lineares, para muitos, a diferença é um risco e a comunicação um ámen. O mundo é ainda (para eles) o planisfério do mestre escola, que termina no atol de Mororoa, com viagens alucinantes e perigos inenarráveis. Convenhamos que viver assim é assustador, e quando se tem medo rosna-se... é uma defesa, um refúgio.
    Sou por isso, nesta cabidela, um bago de arroz cru, não cedi à panela nem me encharquei no sangue dos galináceos.
    Quero expressar-me através da minha escrita e dar o contributo possível de uma forma mais prazeirosa, se me quiserem ler que paguem os opúsculos, e consoante os cobres dispendidos a sua voz se fará ouvir na minha consciência...
    Acresce a isto tudo que ontem seria o aniversário do Pacheco se ele ainda por cá estivesse a sarrazinar-nos o juízo.
    Por isso saí. Quero ir à procura da minha qualidade de vida.
    Acho que mereço...

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