terça-feira, 7 de maio de 2013

REFLEXÕES. ÉVORA: VOCAÇÃO E PERFIL DA CIDADE EM CAUSA?


“As cidades surgem para responder a funções precisas e são o resultado de um vocação conjugada com as potencialidades do “lugar”, sítio ou local de origem . (...) A cidade só é e pode ser cidade se encontrar uma razão de ser, uma vocação e um perfil próprios. (...) Évora destaca-se pela identidade do seu sítio histórico e monumental. A construção de recentes eixos rodoviários atribuíram grande acessibilidade aproximando a cidade da área metropolitana da área metropolitana de Lisboa e favorecendo a procura turística. Fundada pelos romanos , a cidade de Évora foi uma das primeiras capitais de distrito, o que atesta a sua importância, tendo sido eleita ao longo de quatrocentos anos como centro de valorização e qualificação régia. A instalação da Universidade no Colégio dos Jesuítas conformaria o perfil único desta cidade referencial pelo seu património construído, valores que em pleno século XXI, continuam a definir o seu perfil diferenciado assente nos valores paisagísticos e culturais».

Este excerto foi recolhido do segundo de uma colecção de dez volumes subordinada ao tema genérico “Portugal nos alvores do século XXI” editada pelo jornal “Sol” em 2009 e coordenada pelo entretanto já falecido economista Ernâni Lopes. A menção ao caso de Évora aparece no livro que se refere a “O Papel das Cidades no Desenvolvimento de Portugal” e caracteriza a nossa cidade de acordo com aquilo de facto tem sido a sua vocação e perfil ao longo da sua história. Évora foi desde sempre uma cidade de relevante importância administrativa, militar e eclesiástica, fornecedora de bens e serviços, de alto valor estratégica e militar e situada no coração de uma vasta planície dominada pelo valor dos montados e da monocultura cerealífera, onde a água não corre em abundância e a indústria, foi sempre de base regional e pouco competitiva a nível nacional. 

A cultura, o comércio e, no último século, o turismo constituíram a sua mais lídima expressão embora a cidade tivesse uma forte componente agrícola que lhe advinha do facto de ser a residência dos grandes agrários do concelho. Na realidade o surto da industrialização nunca passou por aqui, tendo o caso da instalação da fábrica da Siemens (hoje Tyco) sido um caso isolado. Actualmente há quem defenda o abandono do investimento em todos aqueles sectores para que se aposte fortemente na industrialização, um processo lento, moroso e de difícil concretização, que por si só acabará por descaracterizar a cidade e condená-la ao seu definitivo definhamento. 

Ora, uma coisa é o perfil e a vocação da cidade que se impuseram ao longo da sua história e fez com que ela seja procurada pelos investidores e outra é tentar impor-lhes a urbe como local ideal para que aqui venham instalar as suas unidades fabris. Se Évora tem a sua atractividade própria nos domínios referidos é um facto que a não possui no campo industrial apesar dos esforços que o Município tem feito nos últimos 30 anos para criar condições e difundir uma imagem apelativa para aqui se fixarem. 

Lembremos que em 1991 a Câmara decidiu-se pela compra do Parque Industrial à respectiva Empresa Pública vocacionando-o principalmente para ocupação de indústrias transformadoras, não poluentes, de preferência utilizadoras de tecnologias avançadas, e procedeu à infra-estruturação de duas novas zonas industriais, uma na Horta das Figueiras e outra no Bairro de Almeirim. Isto trouxe algum dinamismo traduzido na transferências de muitas oficinas e pequenas fabriquetas da zona histórica para ali se instalarem, na criação de algumas pequenas e médias empresas, e consubstanciada na vinda para Évora de duas multinacionais de têxteis: a chinesa Lawos (se não estou em erro, era assim que se escrevia) e a norte-americana Lee. Os asiáticos pouco por cá se demoraram. 

Já em final de mandato Abílio Fernandes viria a receber quase de presente a Academia Aeronáutica que se veio a radicar no Aeródromo Municipal. O novo executivo camarário encabeçado por José Ernesto de Oliveira tentou prosseguir esta via de aproximação ao sector e veio a apostar forte no chamado Parque Aeronáutico baseando-se ademais no estudo dos “clusters” para a região enunciados pelo britânico Michael Porter. Depois de muita expectativas e negociação para a instalação do Projecto Skylander, este voou para França. Finalmente chegou a brasileira Embraer com a aposta em duas fábricas. Agora fala-se na Adler e em mais outra de material aeronáutico. Na área dos componentes electrónicos surgiu a Kmet. Resultados pequenos, convenhamos, para tão grandes investimentos. No fim deste ano porém a Academia Aeronáutica (Canadian Aviation Electronics na última fase) que bastante dinamizara a vida da cidade fechou portas devido à crise vivida no sector aeronáutico europeu. Antes, em 2008, já os norte americanos da Lee haviam levantado ferro. 

Enquanto isto a reabertura da Universidade no velho Colégio do Espírito Santo e a consagração da cidade como Património Mundial, por surgirem na esteira e como consequência da sua vocação e do perfil, vieram contribuir decisivamente para o crescimento e desenvolvimento da cidade, ajudando fundamentalmente a primeira para a fixação de mais gente e o rejuvenescimento da população residente e a segunda para a explosão do turismo e da indústria hoteleira ( também é indústria, sabiam?!). 

Neste momento despachados e irreverentes aspirantes a consultores de futuros governantes da polis, destemidos arautos da formação de uma nova urbe, começam a dar corda a um discurso que tem por objectivo diabolizar o turismo, principal fonte de rendimento da urbe, escorraçar os tinhosos dos visitantes, hostilizar as instituições culturais e crucificar os respectivos agentes, para se dar a prioridade máxima, mesmo única, à indústria como pólo de desenvolvimento e fixação de massa humana com formação especializada. 

Que esta carece de uma atenção especial e permanente ninguém duvida, como é evidente. Deseja-se contudo que ela se não faça à custa da destruição da imagem de marca de Évora, da sua vocação, do seu perfil singular, para o substituir por uma utópica cidade industrial de meia dúzia de grandes empresas, talvez como fruto da actividade do Parque de Ciência e Tecnologia do Alentejo que é onde ,segundo alguns, se vai desenhar o futuro perfil da cidade para a próxima vintena de anos. Infelizmente é esse o caminho que, paulatina e perigosamente, está a ser preparado.

José Frota (via email)

9 comentários:

  1. Frota prepara o futuro

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  2. O Centro Histórico mete NOJO,sujo,esburacado,degradado e sem Vida.

    Em pleno séc.XXI como é possivel esta CIDADE ser Governada por INCOMPETENTES.

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  3. O mamarracho em construção na rua do raimundo é um CRIME ,o "caixote" na rua dos penedos outro,como foi possivel?

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  4. Ainda não percebi tanto desdém quanto à industrialização (produção de bens transacionáveis) e a confusão que o autor pretende instalar nas mentes mais "fracas" dando-lhes a entender, que quem é a favor da industrialização abomina a industria do turismo!

    Sr. Frota seja honesto e dedique a falar dos temas que domina.
    Deixe de especular e de tratar assuntos pela rama sem qualquer base que sustente o seu discurso.
    Sabe quantos milhões de Euros a Kemet já pagou em salários a Portugueses ao longo destes 15 anos?
    Tem noção de quantas pessoas dependem desse trabalho? Ou da Tyco, Ex Siemens?

    Causam-lhe vómitos a produção de bens transacionáveis?

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  5. Creio que esta é uma discussão equivalente à do sexo dos anjos.
    Em Évora há lugar para Turismo e para Indústrias (assim elas viessem), para Comércio e outra actividades.

    O que não pode, ou não deve, é ser o ERÁRIO PÚBLICO a pagar quase todas, ou a maior parte das despesas de investimento. Essa treta de que temos de ser TODOS nós a pagar as fábricas, não me entra lá muito bem na cabeça.

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  6. @17:47

    Também não me entra na cabeça ser o ERÁRIO PUBLICO via QREN ou outra qualquer, a pagar atividades supostamente de interesse público - por exemplo em 40 anos vi 3 ou 4 vezes o teatro do CENDREV e ainda tive que pagar bilhete - ou a pagar OBRAS privadas via programas de Reabilitação Urbana ou via orçamento camarário para praças de touros privadas.

    A implantação de industrias de raiz goza pelo mundo todo de "especiais" favores dos estados.
    Normalmente implantam-se no estado que der mais, seja em isenções fiscais, financiamentos comunitários, etc.
    Por exemplo o Skylander foi para França subsidiado por fundos comunitários que o governo Francês exerceu. O mesmo se passou com a EADS em Sevilha. ´
    Há milhares de exemplos, desde projetos agrícolas a outros de carácter cultural

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  7. O Sr. Frota deve de estar em guerrilha com alguém em especial.
    Quem lhe vendeu a ideia absurda que a Cidade de Évora não estava vocacionada para a indústria? Está visto que nunca meteu os pés na Tyco - já lá vão 50 anos, na Kemet, na Embraer, na Fundição, que exportam 100% do que produzem.
    Se me disser que Portugal e os Portugueses não têm um espirito científico e de iniciativa forte e que a industrialização nunca passou verdadeiramente por Portugal, ainda acredito.


    Mas haverá nesta terra alguma alma penada que seja a favor de uma coisa exercendo influência e ao mesmo tempo que impede que outra coisa se desenvolva?????

    É obvio que as boas e progressistas ideias para o turismo são fundamentais, assim como as boas ideias para desenvolver o potencial industrial - sector produtivo.

    Se existirem grupos de “pressão” ou de influência de um lado e outro, de maneira a que nasça algo, é óptimo! Venham eles e a ideias também. Queremos é acção e menos promessas.

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  8. Ao contrário do que parece estar em discussão, Indústria e Turismo não são incompatíveis. As duas actividades podem (e devem) existir, desde que devidamente programadas e localizadas.

    Recordo que na década de 90, em resultado da classificação do CH com Património Mundial, foram construídas 10 novas unidades hoteleiras, TRIPLICANDO o número de camas disponíveis, as quais passaram de 500 para mais de 1500.
    Recordo que esse incremento da capacidade de alojamento (e também de dezenas de restaurantes que nessa altura surgiram!), aconteceu em simultâneo com o impulso que a CME no desenvolvimento do PITE (onde se instalaram cerca de 80 empresas!) e outras áreas industriais da Cidade e da Azaruja.

    Julgo, pois, que, se bem localizadas, ambas as actividades podem coexistir e não me parece correcta qualquer decisão que restrinja ou condicione a instalação e desenvolvimento de qualquer delas.

    Outra coisa bem diferente, e aqui concordo com Frota, é o interesse estratégico que o TURISMO pode ter no desenvolvimento da Cidade e do Concelho.
    Com efeito, também eu acredito na trilogia PATRIMÓNIO-CULTURA-TURISMO como factor estruturante da identidade e da actividade económica de Évora. Esta é, talvez, a única área onde somos diferentes, melhores e podemos ser ‘competitvos’ com os nossos vizinhos da área metropolitana de Lisboa ou de Badajoz.
    Aliás, creio que Évora só poderá sobreviver e ter sucesso, entre estes dois grandes pólos populacionais, se apostar mais fortemente nesta trilogia. Évora terá de voltar a olhar para o Centro Histórico, como a nossa ‘galinha dos ovos de ouros’ e não apenas como mais uma entre outras ‘centralidades’… O CH precisa de voltar a ser vivido, não só com mais residentes, mas também com SERVIÇOS e Comércio. E, neste contexto, a retirada dos serviços de atendimento da CME, para o Parque Industrial, foram um verdadeiro crime! Não só, pelo facto em si, mas pelo sinal errado que deram às empresas e aos moradores.

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  9. ERRATA:
    *com o impulso que a CME deu
    * Évora terá de voltar a olhar para o Centro Histórico, como a nossa ‘galinha dos ovos de ouro’

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