domingo, 28 de abril de 2013

OPINIÃO: DA NECESSIDADE DE ALTERAR A POLÍTICA DE PROMOÇÃO DA CIDADE


Em 2012 passaram pelo Posto de Turismo de Évora 136.631 visitantes assim distribuídos : 26.338 espanhóis, 24.605 portugueses, 15.583 franceses, 11.471 brasileiros, 9.044 japoneses, 8.856 norte americanos, 7.771 alemães, 6.158 alemães, 4.587 ingleses e 4.243 italianos. Os cerca de vinte mil restantes ( 8 por cento) eram oriundos de outras nacionalidades que os dados disponíveis para consulta não revelaram. 
Na sua esmagadora maioria deslocaram-se àquela dependência da Câmara Municipal de Évora para recolher informação escrita de apoio ao seu périplo pela cidade. Entregaram-lhes, como é hábito, um desdobrável colorido com a planta do Centro Histórico e a seca e sucinta indicação dos principais monumentos e ainda a pouca atraente e preenchida agenda cultural. Para venda apenas um guia turístico de fraca qualidade intitulado “ Évora e o Alentejo Central”, sem alma nem garra. Umas folhinhas de publicidade de restaurantes ou hotéis compuseram no geral o anémico ramalhete da informação disponibilizada. 
O município trata assim com negligência, para não lhe chamar desprezo, a cidade e quem a visita. Menospreza o nível de visibilidade, conhecimento e empatia com quem a procura. Daí que não seja para estranhar que 27 por cento não permaneça em Évora mais que uma noite, havendo 17 por vento que nela não permaneça mais que algumas horas. Os dados constam de um inquérito realizado entre os meses de Agosto de 2010 e 2011 pela Escola de Ciências Sociais da Universidade de Évora com o objectivo de definir o perfil e identificar as expectativas e emoções dos visitantes da cidade. 
Sem outra informação senão aquela lhe é prestada pelo Posto de Turismo os forasteiros sentam-se na Praça de Giraldo, sobem a rua da Selaria, ascendem à Acrópole, visitam a Catedral, observam e fotografam o Tempo Romano, voltam à Praça Grande, almoçam nas esplanadas, descem até à Igreja de S. Francisco e entram na Capela dos Ossos. E se o dia é de calor violento pernoitam para retemperar as forças. Évora está vista e é tempo de empreender o regresso. 
A sorte de Évora é que a maioria dos seus visitantes estrangeiros tem um nível de formação superior e quando aqui se desloca já vem munida dos excelentes guias “Michelin”, “Lonely Planet”, “Guide do Routard” ou do “National Geographic” os quais muito valorizam outros aspectos da urbe que não apenas o descarnado e ancilosado conceito de Évora, Cidade-Museu, saído dos velhos guias de Túlio Espanca. Esta informação vinda do exterior é a grande responsável por outro aspecto revelado pelo inquérito: entre Agosto de 2010 e 2011 mais de metade dos visitantes ficaram na cidade dois ou mais noites. 
Quarenta e sete por cento fizeram-no sob a forma de casal admitindo 42 por cento efectuar um gasto diário entre 51 a 100 €. Numa estimativa feita por baixo presume-se que tenham deixado ficar na cidade, durante esse período de um ano, à roda de 6 milhões de euros. Acresce porém que o número de turistas que não passa pelo Posto, e são maioritariamente nacionais, são praticamente tantos como os que o demandam, ainda que de estadia menos demorada e menor poder de compra. Ao todo pode dizer-se que visitaram Évora por essa altura cerca de 270 mil pessoas, tendo feito gastos na ordem, pelo menos, dos 10 milhões de euros. 
Isto sem que o município tenha feito grandes investimentos para publicitar a cidade cuja afluência a partir de 2008 sofreu uma forte quebra de 32.000 visitantes o que não deixa de ser deveras preocupante. A divulgação dos encantos de Évora e seu termo tem entretanto sido assumida pelas reportagens efectuadas por publicações estrangeiras como a “Lonely Planet” que em 2010 considerou os monumentos megalíticos eborenses como um dos destinos incontornáveis de férias para quem se deslocasse a Portugal. Também o jornal “Hoy”, de Badajoz, recomendou os referidos locais como de visita obrigatória a quem se deslocasse à cidade durante o período da Páscoa. 
A feliz circunstância de dois criativos da Louis Vuitton, a mais famosa empresa do mundo da moda feminina, terem ficado seduzidos com a cidade , o que os levou a criar uma mala-carteira com o nome de Évora, abriu a portas da sua visibilidade em influentes revistas francesas e italianos. A elegante e versátil mala, aos quadrados brancos e azuis, lançada como «uma homenagem à cidade, com uma herança cultural extremamente rica, onde os estilos arquitectónicos se multiplicam e perdem variando entre o gótico e o romântico, o renascentista e o barroco», constituiu um «best seller» e tem trazido muita gente a querer conhecê-la. 
Quase em simultâneo o “The New York Times “ fazia publicar em livro denominado “ 36 hours –125 week-ends in Europe” que reunia uma série de crónicas publicadas nas suas páginas e nas quais convidava os seus leitores « à descoberta de uma nova Europa destacando a cultura, a história, a arte, estilo, a arquitectura e a gastronomia de localidade». Entre essas cidades figura Évora, uma cidade onde as ruas se projectam como raios de uma roda a partir da Praça de Giraldo, e com motivos mais que suficientes para prender a atenção por mais de «dois dias». O articulista sublinha a sua riqueza em sítios arqueológicos (com ênfase especial para o Cromeleque dos Almendres) e enaltece os mais emblemáticos locais da cidade, bem como as suas unidades hoteleiras, de restauração e comerciais. 
O conceituado jornal norte-americano realça o facto de Évora ser a grande cidade do Alentejo, um destino gastronómico e enológico de grande nobreza e aconselha os visitantes a que dali se aventurem ao conhecimento de uma região quase única na Europa onde o mundo rural se encontra em vias de extinção. Neste mesmo sentido a reportagem que o britânico “The Sunday Times” deu à estampa exactamente há uma semana estabeleceu um paralelo entre o Alentejo e a Toscânia, região italiana, célebre pelo turismo (grande oferta cultural) , pela singularidade das suas casas e pela cultura de vinhedos e olivais, da qual Florença é o símbolo maior, berço do movimento renascentista, cidade Património Mundial desde 1982, tal como Évora o é do Alentejo, fazendo aliás inserir uma espectacular fotografia da Praça de Giraldo, obtida a partir das suas esplanadas. 
Ora esta é uma visão diferente, por multifacetada e dinâmica, da que é transmitida pelo cristalizado “cliché” da Cidade-Museu, subordinado ao domínio dos monumentos isolados, corrente nos tempo do Estado Novo e patente no mais que pindérico desdobrável que o Posto de Turismo oferece aos turistas e outros visitantes do burgo. A falta de sinalética adequada, fortemente assinalada como um factor negativo, (o outro foi a dificuldade de estacionamento) nas respostas ao inquérito mencionado só vem ajudar à confusão no seu deambular pelas ruas tendo de recorrer ao auxílio oral dos eborenses que na sua maioria pouco sabem de inglês para manter uma base mínima de compreensão e entendimento. 
Évora merece e precisa de mais investidores e mais turistas que aumentem as fontes de rendimento do município, dos seus habitantes, dos seus estabelecimentos comerciais, enfim de uma maior e mais activa circulação de dinheiro. É pois urgente que o novo executivo camarário, tenha ele a cor que tiver, rompa com o esclerosado padrão de promoção cultural e turístico e aposte numa estratégia assente num novo paradigma que lance as bases do reforço do seu grau de atractividade explorando todas as potencialidades que a cidade oferece, motivando um acréscimo de interesse que estanque uma eventual e episódica quebra do número dos que a demandam. 
Até porque 79 por cento dos inquiridos manifestaram a intenção de regressar, 82 por cento deram a sua estada como importante para o enriquecimento da sua formação e 98 vão recomendar a sua visita. O turismo ainda é e continuará a ser o centro da sua actividade económica gerando receitas impossíveis de alcançar noutras áreas e sectores. Assim saibamos cuidar dele, dado que o turista valorizará tanto mais e estará pronto a pagar ainda mais, quanto melhor for a qualidade da informação, do acolhimento e dos serviços prestados.

José Frota (recebido por email)

10 comentários:

  1. Este post demonstra de alguma maneira a convicção que eu tenho que Évora está definitivamente no mapa Internacional, como referi no post da Dores, independentemente de acharmos todos que muito está por fazer - até porque conhecemos outras realidades que nos servem de comparação, como a Espanha.


    Rui M F

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  2. Alterar a política de promoção da cidade.
    Porque a câmara é medíocre e não cumpre.
    É precisa uma câmara dirigida por publicitários.
    Para vender isto como deve ser.

    Erguerem uma bela fachada para enganar turistas, e esconder a falta de cultura do governo, o desamor às origens, a ruína e corrupção dos valores, o desleixo, a falência social e económica, a perda de qualidade de vida, o desemprego, a pobreza.
    É preciso atrair freguesia para os hotéis.
    Talvez promover o negócio do sexo.
    Ou qualquer outra obscenidade, da moda.

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  3. Primeiro !! Évora precisa de dar condições aos Eborenses que pagam impostos , depois os outros ; Convidas gente de fora se na tua casa não existe pão ? Jorge (ciclista)

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  4. Os euros turísticos entram na verba dos hotéis, que por sua vez são agências de multinacionais estrangeiras e, ainda por cima, tem de comprar roupas, comidas e bebidas ao estrangeiro, pois aqui não se produz que baste... O futuro não pode estar só no turismo e o emprego dos eborenses não pode ser só "criadas" de quarto
    cozinheiros, moços de recados e empregados de mesa...

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  5. Hotéis de luxo com fartura.
    Cápsulas para visitantes aliens, pagarem a aliens, para poderem observar os nativos, ignorantes e miseráveis.
    Monocultura insustentável e ruinosa.

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  6. não tem a ver com a Cidade, nem mesmo com o Concelho

    visitei ruínas de Estância Balnear julgo que da CASQUEIRA, ou Carrasqueira, ou coisa parecida, entre AGUIAR e S. Bartolomeu do Outeiro, no Concelho de Viana do Alentejo

    quando se fala tanto em Turismo, em Saúde, em SPAS e quejandos, não será tempo de repensar reabilitação daquele espaço termal, ao que parece datando já do período romano?

    só deixar a ideia

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  7. Se o Ernesto tem gasto o que pagou ao Frota em promoção turística agora não tinha que ouvir esta corja a ladrar.
    É justo!

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  8. Na opinião da maioria dos comentadores Évora deve desinvestir no turismo porque essa política só serve para encher os hotéis de luxo (só conheço dois), agências de multinacionais estrangeiras, e fazer dos seus habitantes empregados de mesa, cozinheiros e criadas de quarto. Acabe-se pois com esta «monocultura insustentável e ruinosa»,que só serve «para promover, talvez, o negócio do sexo ou de qualquer outra obscenidade em moda», com consequências desastrosas para a economia concelhia, apesar de montes de cidades gostarem de a possuir.
    Em alternativa o que propõem os aliens ao outros aliens para combater a pobreza, a crise social e o desemprego que grassam na cidade como por toda a região? Nada. É verdade que o futuro não pode estar só no turismo mas que passa em grande parte por ele para mim é indubitável, apesar da opinião de alguns ciclistas.
    Mas se Évora abandonar o turismo e a cultura que lhe resta. A agricultura? Évora já deixou de ser o coração do "celeiro da Nação", imagem querida ao Estado Novo, ou "a sede da Reforma Agrária" como nos idos de 75. A indústria, quando a Embraer é acusada de ser uma multinacional que vem explorar a mão-de-obra barata local e a exploração das minas de ouro da Boa Fé é contestada por razões de natureza ecológica ou ambiental?
    E que tal ó inteligências estudarem um pouco da história económica e social de Évora?
    Quanto ao que o Ernesto me pagou no âmbito do projecto interrompido da revista Évora Mosaico,a verba é pública e o contrato de prestação de serviços está na Internet. Daí deve deduzir todas as despesas inerentes ao meu trabalho que decorreram à minha custa. Talvez desse para mandar caiar a fachada da Igreja de Santo Antão e pouco mais.
    E a si quem é, o que faz e quanto é que o seu patrão lhe paga?

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  9. A aposta no turismo só por si não chega para segurar os jovens nesta cidade, que fogem de cá como o diabo da cruz.

    Se não se conseguir fixar indústria nesta cidade (ou qualquer outra do interior do país), ela ficará fatalmente condenada à desertificação humana.
    Não conheço jovem algum com formação técnico-científica, que tenha fé e esperança que um dia conseguirá desenvolver uma atividade por cá - ou em qualquer outra cidade do interior. Aliás Portugal está em avançado estado de regressão. A todos os níveis.

    Obviamente que o projeto da Embraer - ou a solidificação da Tyco ou da Kemet, ou de qualquer outro tipo de indústria que se venha a instalar por cá - é peça chave. Quem vier para a Câmara tem que dar prioridade à indústria como polo de desenvolvimento e fixação de massa humana com formação especializada.

    Rui M F

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  10. "os forasteiros sentam-se na Praça de Giraldo, sobem a rua da Selaria, ascendem à Acrópole, visitam a Catedral, observam e fotografam o Tempo Romano, voltam à Praça Grande, almoçam nas esplanadas, descem até à Igreja de S. Francisco e entram na Capela dos Ossos. E se o dia é de calor violento pernoitam para retemperar as forças. Évora está vista e é tempo de empreender o regresso."

    E antes, no tempo dos comunas, era diferente não?! Os turistas vinham "a banhos" passar um mês em Évora!! ...

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