domingo, 14 de abril de 2013

ÉVORA, VERGÍLIO FERREIRA E O TURISMO LITERÁRIO


Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. Nos meus membros espessos, no crâneo embrutecido, trago ainda o peso de uma noite de viagem. Um moço de fretes abeirou-se de mim, ergue a pala do boné:
– É preciso alguma coisa, senhor engenheiro?
Dou-lhe as malas, digo-lhe que há ainda um caixote de livros a desembarcar.
– Então é dar-me a senhazinha, senhor engenheiro.
– Mas não me trate por engenheiro. Sou professor do Liceu.
Com passinhos curtos, anda dobrado, como se tivesse dores de bexiga. A cara e os olhos, são vermelhos, ensopados em sangue. Carrega tudo aos ombros com uma complicação de cordéis, promete-me uma pensão muito boa, mesmo na Praça, "que é já ali", e convida-me a segui-lo com os seus olhos lastimosos de aguardente. Está uma manhã bonita, com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos. À minha frente, o moço de fretes, agachado sobre si, vai dançando um estranho ritmo de arame, com os seus passos saltitados. Mal o olho. Trago em mim um pesadelo de ideias, um cansaço profundo que me halaga, me submerge. A Praça ainda é longe, e não "já ali", como me garantira o moço. Mas a angústia que me habita, a violenta redescoberta da morte, que eu acabo de fazer, tornam-me estranho nesta cidade branca, separaram-ma dos meus olhos vazios. Venho de luto. O meu pai morreu. Que têm que fazer, em face da minha dor, da minha alucinação, estas árvores matinais da avenida que percorro, a branca aparição desta cidade-ermida?
– Estamos quase, senhor engenheiro.
Vergílio Ferreira (Assim começa o capítulo I do romance "Aparição",1959)

Por todo o mundo, mais particularmente por toda a Europa, começa a ganhar importância o turismo literário enquanto segmento do turismo cultural. Por definição  o turismo literário consiste em visitar os lugares reais relacionados com acontecimentos de ficção e com as vidas dos seus autores. Este poderá incluir a rota específica de uma personagem de ficção numa novela, visitar os cenários onde decorre uma história ou mesmo recorrer a locais ligados à biografia dos seus autores numa viagem aos ambientes que inspiraram a criação de um livro e onde eles o pensaram e congeminaram.
Este fenómeno começou a ganhar expressão em finais do século passado e o seu crescente interesse literário e turístico já levou a UNESCO a criar, em 2004, uma lista de “Cidades de Literatura” que integra Dublin, Edimburgo, Melboune, Norwich, Reykjavik e Iowa. Em Portugal a adesão a este tipo de turismo ainda é praticamente inexistente embora se venham fazendo estudos nesse sentido e apareçam já algumas sugestões para a sua implantação como formas de valorização do património e cultura locais. Neste trabalho tem-se distinguido sobremaneira a jovem directora da Escola Superior de Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda, Anabela Naia Sardo.
De um modo genérico, os estudiosos apontam cinco obras de grande relevo na literatura portuguesa como potenciais destinos a explorar na área do turismo literário: “Viagens na Minha Terra”, 1846, de Almeida Garrett, com especial incidência na zona de Lisboa e Santarém; “Amor de Perdição”, 1862, de Camilo Castelo Branco, destacando as cidades de Viseu, Vila Real e Viseu; “ Os Maias”, 1888, de Eça de Queiroz, valorizando as menções a Lisboa, Sintra e Coimbra; “ Aparição”, 1959, de Vergílio Ferreira, totalmente localizado em Évora e “Vale Abraão”, 1991, de Agustina Bessa Luís, com o Douro vinhateiro como pano de fundo.
Pois é... “Aparição”, obra maior do escritor, prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1960, primeiro romance existencialista em Portugal, polémico, com a acção passada em Évora, talvez mais aplaudido de início no estrangeiro que cá dentro e que levou a notícia da existência desta cidade «fantástica e misteriosa, aberta de quarteirões, de  praças, de sonhos» ao mundo, dada a quantidade de traduções que a pouco foi conhecendo. Acontece que a trama do romance foi construída a partir de um cenário real e envolvendo personagens reais, ainda que sob designação diferente.
Vergílio Ferreira deu-o por concluído em 30 de Junho de 1959, ano em que viria a sair de Évora depois de aqui ter vivido e leccionado durante catorze anos consecutivos. Para a sua construção utilizou 22 fotografias que serviram de material de trabalho para a elaboração do romance. E sobretudo amou-a como poucos, conheceu-lhe os ambientes, sentiu-lhe alma e o também o pulsar do Alentejo. Vergílio saiu de Évora a 30 de Setembro desse mesmo ano. O livro só apareceu nas bancas em Outubro o que levou a  o autor a já não sentir a reacção da população que nas suas gentes oficiais foi aliás muito mal recebido. Pelos grandes da terra, pelos fascistas e pelos padres, conforme teria ocasião de vir a referir mais tarde. E mais tarde também pelos comunistas que não lhe perdoaram o afastamento do neo-realismo.
Em Lisboa foi tecendo o resto da sua obra literária. Mas “ Aparição “ continuou a impor-se e a suscitar o interesse de muita gente. Nos anos 90 a obra passou a fazer  partes dos livros de leitura da disciplina de Português de 11º. Ano. Um interesse renovado sobre a obra e a cidade surgiu. Em 1994 no auge desta demanda estudantil pela cidade, a Escola Secundária André de Gouveia resolveu publicar um número especial de “Corvo” dedicado à vida e obra de Vergílio Ferreira no período da sua estadia em Évora no qual se incluiu um bem elaborado roteiro do romance, da autoria de João Monarca Pinheiro e desenhos de António Couvinha, constando de 15 locais a visitar.
Este era na realidade um excelente guia de abordagem ao conhecimento da cidade e constituía uma alternativa ao livro “Encontros com a Cidade “ de Túlio Espanca que mais não era de que um inventário muito pormenorizado e valioso dos principais monumentos da cidade, tratados cada um de per si mas desenquadrados do ambiente que os envolve e no qual aparecem como meras peças de museu de tempos muito antigos.
Este itinerário permaneceu entre professores e estudantes e não mereceu a atenção das entidades. A autarquia porém viria a ressarcir-se quando em 1999 promoveu uma homenagem da cidade ao autor aquando do 40º. Aniversário da publicação de “Aparição”. Por iniciativa do vereador Manuel Calhau Branco e da socióloga e estudiosa eborense Carmen de Almeida, a Câmara organizou uma grande exposição sobre o autor e a obra e mandou colocar uma lápide comemorativa do acontecimento no nº. 28 da Rua da Mesquita onde Vergílio Ferreira morou entre 1949-1959 ( nos quatro anos anteriores residiu na Travessa do Sabugueiro) e onde para além de “Aparição” escreveu “ Manhã Submersa” (Prédio Femina, 2002), “Apelo da Noite” e “Cântico Final” e os ensaios “ Carta ao Futuro” e do “Do Mundo Original”.
Vergílio Ferreira foi um dos maiores romancistas e pensadores de língua portuguesa do século passado e figura conhecida da cultura europeia. No nascimento do turismo literário em Portugal Évora pode e deve ter um papel pioneiro. À Câmara cabe o papel de imprimir e divulgar um roteiro do romance, fazer conhecer que a cidade guarda dele a memória no sítio em que deu expressão ao seu talento criativo, por à venda no Posto de Turismo (agora rebaptizado de Departamento  de Promoção Turística) exemplares de “Aparição” (em espanhol ou em francês também, que as há) porque existe sempre quem goste de (re)ler os livros enquanto viaja pelos locais onde decorrem as narrativas.
Isto não envolve grande dispêndio de verbas sobretudo se não esquecermos que um estudo da Universidade de Évora realizado em 2012 define o perfil do turista visitante como estando entre 41 e os 60 anos, possuir maioritariamente o ensino superior, dispor de assinalável poder de compra  e ter como principais motivações o Património Construído e Monumental, o Lazer e Conhecer e Viver uma Experiência Cultural Diferente. E conhecer Évora através de “Aparição” é sem dúvida uma excelente opção.

P. S. Espero que nenhum dos palermas habituais venha comentar que eu me estou a fazer a um lugar ou “tacho” na câmara. Sou um jornalista de momento retirado - não quero dizer que não volte ao activo se a ocasião se proporcionar- mas acima de tudo um cidadão preocupado com o futuro da terra que tenho como minha e para onde vim apenas com quinze dias. Sempre a conheci como cidade de cultura e património e perante o caminho que as coisas levam entendo ser meu dever contribuir com sugestões ou críticas que eventualmente a possam ajudar a sair do marasmo e estagnação em que caiu. Independentemente de quem está ou a venha a estar no poder.  

José Frota (via email)
mais sobre Vergílio Ferreira e Évora aqui

22 comentários:

  1. oa proposta a agarrar por quem vier a ter responsabilidades na cultura (neste mandato essse pelouro pura e simplesmente não existiu).

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  2. O Cavaco também só ia fazer a rodagem do carro à Figueira da Foz! Não era candidato a nada...

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  3. A coisa +e ainda mais grave, na disciplina de português dava-se (não sei se continua) a obra e muitas eram as excursões para fazer o percurso. Em Évora os alunos não o faziam as professoras de português não queriam. Sei porque o fiz com a minha filha e as colegas porque a professora não achou necessário!
    Lurdes

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  4. Frota

    Não te candidatas a nada mas já estás a dar ideias.

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  5. Ainda bem que há ideias (boas e não dispendiosas) sob o ponto de vista da cultura.

    E criação de trabalho para fixação das pessoas?
    Como dinamizar a indústria e atrai-la para a cidade?
    Que se deve fazer para exponenciar a mais-valia e o know how industrial que já existe?
    Que facilitação pode a autarquia fornecer, além de promover o excelente e pouco saturado parque industrial?
    Quem está disposto a exercer o necessário “lobby” junto do poder central ou dos agentes económicos potenciais?

    Gostava de ver os candidatos e as suas candidaturas explorar exaustivamente esta matéria. No fundo, sem indústria não há pessoas e consequentemente economia. A cultura servirá apenas para mostrar aos outros aquilo que erámos?

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  6. Ainda bem que há ideias (boas e não dispendiosas) sob o ponto de vista da cultura.

    E criação de trabalho para fixação das pessoas?
    Como dinamizar a indústria e atrai-la para a cidade?
    Que se deve fazer para exponenciar a mais-valia e o know how industrial que já existe?
    Que facilitação pode a autarquia fornecer, além de promover o excelente e pouco saturado parque industrial?
    Quem está disposto a exercer o necessário “lobby” junto do poder central ou dos agentes económicos potenciais?

    Gostava de ver os candidatos e as suas candidaturas explorar exaustivamente esta matéria. No fundo, sem indústria não há pessoas e consequentemente economia. A cultura servirá apenas para mostrar aos outros aquilo que erámos?

    Rui M F

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  7. O Rui M F é gago?

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  8. «sem indústria não há pessoas e consequentemente economia. A cultura servirá apenas para mostrar aos outros aquilo que erámos?»

    No mínimo, uma visão um pouco tacanha.
    Então desde a classificação do CH de Évora, como Património Mundial, não se construíram uma dezena de novas unidades hoteleiras, que triplicaram o número de camas disponíveis em Évora, e que proporcionam emprego a muitas centenas de pessoas?
    Então e a agricultura não faz parte da "economia"?
    E não é, desde há décadas, Évora uma cidade dominantemente de serviços?
    Acaso o Turismo (nas suas diversas vertentes) não faz parte da economia?
    Então e a Cultura e o Património não podem ser factores de desenvolvimento da economia e consequentemente de criação de emprego?

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  9. A cultura em Évora é o campo onde todos andam ao rabisco ou a teta que já quase secou.

    Agora choram choram porque já não mamam nada!

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  10. O "Trota" confunde turismo cultural com turismo literário! Trota mal, nunca chegará a galopar, o sr.Frota ex-correspondente que o semanário Expresso dispensou, entende que há turismo literário..., isto é, passamos os dedos como quem viaja pelas páginas do livro do escritor VF, versão "portuga" e retardada do existencialismo do gaulês senhor Sartre!
    Ena pá, ó intelectuais!

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  11. Ao cobarde anónimo(?) das 23:04 que não tem cara para levar um estalo e anda mal da goela (as melhoras,a propósito e apesar de tudo)informo em bom alentejano : o que tu queres é conversa mas eu não estou pardá-la. Escusas pois de persistir na tua campanha provocatória, batendo palminhas a ti próprio, que eu não te atendo.
    José Frota, correspondente e representante do semanário Expresso durante 22 anos, depois de ter começado por ser redactor do antigo diário "O Século" durante seis anos.

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  12. Luísa Barbosa: A ideia é boa. Já se faz em muitas cidades e vilas a relação com as obras literárias que as referem. Sobre Aparição e a Évora fiz eu muitas visitas com os meus alunos. Estudávamos a obra, fruíamos a leitura e ainda ganhávamos uma ida à cidade branca. E tivemos o apoio da CME, desta e da outra, bastava pedir. Vinha um simpático/a técnico e lá íamos todos visitar a cidade virgiliana, graças à ''carolice'' dos professores, portanto. Não percebo a animosidade dos comentários. O anonimato é grande capa ... cidadãos estranhos fazem estranha a cidade, como se estivéssemos no tempo de Aparição.
    Luísa Barbosa

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  13. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

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  14. Pela primeira vez removi um comentário neste blogue. Era um comentário indigno de um anónimo sobre uma outra pessoa. Ele sabe porquê é que removi esse comentário, Seria bom que não voltasse a pôr aqui os pés, mas se o fizer, no mesmo tom e com a mesma indignidade, voltarei a fazer o mesmo. Para que se saiba não foi nenhum comentáro político ou de má lingua: foi pura indignidade de alguém que, escondido atrás do anonimato, pensa que tudo lhe é permitido, mesmo insultar com baixesa quem não pertence ao grupo que edita o acincotons e que tem mais dificuldade, por isso, em defender-se.

    CJ

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  15. Como é que o sr. frota sabe que o anómino das 23.04 anda mal na goela?
    Consegue ver a identidade das pessoas pela escrita?
    O sr. frota também se acha muito inteligente escreveu só merdas

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  16. Infelizmente as baixesas são verdades
    sr.cj o fulano em causa têm mau caracter

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  17. @01:23
    Até podem ser verdades. Mas mesmo as verdades sobre questões de natureza íntima ou pessoal, não podem ser ditas ou escritas a coberto do anonimato.
    Uma coisa é a discussão de ideias, conceitos ou opiniões, outra bem diferente são as questões íntimas e pessoais. Sobre estas, quando escritas sob anonimato, creio que o administrador do blog deve ter uma única posição: independentemente de serem verdades ou mentiras, enviá-las para o caixote do lixo.

    Se foi esse o caso, apoio inteiramente a decisão de eliminar o comentário.

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  18. Acabou-se a mama do excelentíssimo Frota mais a sua publicação de encadernação luxuosa e conteúdo barato e logo o Concelho caiu na estagnação e no marasmo. O PC que abra os olhos com mercenários como tu.

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  19. joaquim palminha silva20 abril, 2013 16:28

    Resposta ao comentário de J. Frota datado de 17 do corrente. Ausente de Évora, fui alertado por amigo sobre um escrito que, por trocadilho com nome de família e estado de saúde, se verifica que o Sr. J. Frota me pretende identificar com o anónimo que lhe fez um comentário.
    1)Devo dizer ao referido Cavalheiro que tenho por hábito assinar o que escrevo.
    2) Vivo num patamar moral e intelectual muito diferente, pois não uso como motivo de chacota, o estado de saúde de alguém (o meu por sinal é bastante grave)
    3) sobre hipotética agressão física gratuíta,mencionada pelo dito Senhor tal vem na mesma ordem de nível moral e intelectual do mesmo;
    4)Finalmente, tive,tenho e terei, enquanto Deus o permitir, mais que fazer do que me ocupar do que diz ou não diz o Sr,.J.Frota que, acolhido com generosida neste blogue,desonra-se a si pelo baixo nível que demonstra e, suplementarmente, mancha a tribuna que gentilmente lhe proporcionaram
    Joaquim Palminha Silva

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  20. Peço-lhe AS MINHAS DESCULPAS se o identifiquei mal e respondi com uma violência que não está nos meus costumes. Mas há-de convir que desde há dois anos que não perde uma oportunidade para me provocar de forma indirecta ou velada. Apesar disso, sempre que o encontro na rua o cumprimento com a urbanidade e a cortesia que uso para com todas as pessoas minhas conhecidas. Desta feita, porém, perdi as estribeiras quando alguém veio utilizar a deturpação,maliciosa e despudorada do meu nome (trota) para me apelidar de cavalgadura.Confesso na verdade que pensei que tivesse sido obra sua. E um homem não é de pau. É o que dá o anonimato que quando somos insultados e enxovalhados fazemos pagar o justo pelo pecaddor. Retiro por isso o que disse. Desejo-lhe por isso, ardentemente as suas melhoras e uma excelente recuperação do problema que o afecta.

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  21. O texto acima é meu. Não sei a razão por que não saiu assinado.

    José Frota

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  22. Alexandre Pinto Palminha21 abril, 2013 09:58

    Em nonme de meu pai, impossibilitado de acesso a este meio, comunico que foram aceites as desculpas endereçadas pelo Senhor J. Frota.

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