quinta-feira, 11 de abril de 2013

Comunal de Árgea: uma cooperativa do pós-25 de Abril inspirada no Maio francês de 1968

Autocolante da "Comunal de Árgea", de 1975, com uma ovelha - o símbolo da Cooperativa - desenhada pelo Pedro Fazenda. As letras foram desenhadas pela Ana Ferreira. Havia autocolantes destes em várias cores.

«"""O caso da cooperativa Comunal é singular. Nasceu não de uma ocupação de terras mas do seu contrário: a junção voluntária de parcelas para ganhar viabilidade, surgindo uma queijaria, uma carpintaria e uma loja. A produção era vendida às cadeias de supermercados de Lisboa. «Era um projecto de revitalização do mundo rural, semelhante aos que hoje se poderiam fazer com fundos da União Europeia», explica o arquitecto Pedro Lobo Antunes, um dos mentores da Comunal. O coração da cooperativa era Árgea, «uma aldeia especial, com tradição republicana e associativa». Ainda hoje lá está a antiga loja da Comunal, agora um supermercado. Quando foram pedir apoios financeiros, os cooperativistas foram postos pelo Ministério da Agricultura numa situação surrealista: só havia subsídio se houvesse ocupação de terras... A 25 de Novembro, a aldeia foi cercada pelo Exército, à procura de armas. «A única coisa militar que encontraram foram uns colchões, mas nem isso o povo da aldeia os deixou levar», conta Lobo Antunes, agora vereador da Câmara pelo PS, já no segundo mandato. Com o 25 de Novembro, os apoios desapareceram, e a cooperativa foi-se desagregando."

Rui Cardoso. Jornal Expresso, Revista Única · 22/11/2008

Hás dias folheando um livro antigo de João Miguel Fernandes Jorge ("actus tragicus") arrumado há anos numa prateleira da casa onde tenho a maior parte dos livros, em Colos, fui surpreendido por este autocolante, uma raridade de que pensava não existir já nenhum exemplar. A ele - ou melhor, ao que ele representa - está ligada uma parte importante da minha vida, apesar de ter convivido com esta realidade pouco mais de um ano.
A "Comunal" foi uma cooperativa de produção criada logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 por um grupo de refugiados políticos em França, sobretudo militantes da LUAR ou sem partido, que inflenciados pelas ideias libertárias e comunitárias do Maio francês de 1968 (que alguns deles tinham vivido) decidiram, no regresso a Portugal, criar uma cooperativa onde pudessem trabalhar e viver juntos. Escolheram Árgea, quase no limite norte do concelho de Torres Novas, porque uma pessoa do grupo possuía ali uma casa de família e por ser uma zona de pequena propriedade, o que facilitaria aos seus proprietários porem a terra em comum, associando-se ou então alugando as pequenas parcelas de terra à cooperativa. Árgea era também uma povoação de profundas convicções republicanas, tendo sido aqui um dos locais onde durante algum tempo esteve guardado o dinheiro que resultou do assalto pela LUAR ao Banco da Figueira da Foz (numa casa mesmo em frente do posto da GNR...) e diversos elementos do grupo fundador da cooperativa eram da zona.
Estiveram neste grupo inicial que criou a "Comunal", em Outubro de 1974, - e que tinha como lema "unir terras, unir pessoas" - nomes como Pedro Lobo Antunes, arquitecto, (hoje vereador na Câmara de Torres Novas), Manuela Fazenda também arquitecta; Joaquim Alberto, ex-padre e serralheiro;  Fernando Belo, exilado político e filósofo; Carlos Cardoso, ex-padre e carpinteiro, que na altura do 25 de Abril estava preso em Caxias a cumprir uma pena de mais de dez anos por pertencer à Luar ou Pedro Fazenda, então estudante, que hoje reside em Évora e é um conhecido escultor, entre muitos outros.
Na Cooperativa foi criada uma carpintaria, uma serralharia e uma queijaria, alguns dos elementos da Cooperativa trabalhavam fora, a dar aulas ou no GAT de Torres Novas, para arranjarem dinheiro para a "caixa comum", mas o que ressaltava era a vida em conjunto daquele pequeno grupo a que se juntaram outras pessoas de Árgea, nomeadamente José António Cerejo, hoje jornalista do "Público", cujo pai disponibilizou várias parcelas de terra para a "Comunal".
Eu contactei com a Cooperativa durante o ano de 1975, tendo ido lá diversas vezes,  mas depois do golpe militar de 25 de Novembro, quando Lisboa entrou numa "austera, apagada e vil tristeza" para citar as palavras de Camões, decidi dar definitivamente o "salto" da grande cidade e abalar. Trabalhava na altura numa grande empresa concessionária da FIAT, despedi-me e em princípios de Dezembro rumei a Árgea.
O sonho inicial da cooperativa, como espaço de trabalho e de vida em comum, já se tinha desvanecido. A pequena Cooperativa inicial transformara-se numa cooperativa com muitas centenas de hectares. Durante o PREC, quase por imposição dos bancos nacionalizados e do governo, interessado no controlo da reforma agrária que estava a alastrar por todo o sul do país (e que, para isso, forneciam crédito rápido e barato - muito a fundo perdido - às cooperativas que tivessem ocupado terras) foram ocupadas três herdades pelos cooperantes (Valhelas e Palanche, perto de Torres Novas, e Casal Vidigal junto ao Entroncamento) o que associado aos vários pedaços de terra que existiam em Àrgea obrigaram a cooperativa a recrutar mais pessoas e a desvirtuar o seu projecto inicial. Um grupo com mais ligações entre si passou a residir no Palanche, outro no Casal Vidigal, os restantes em Árgea e o Carlos Cardoso em Valhelhas, ao mesmo tempo que alguns dos associados dos primeiros tempos procuravam outro rumo para as suas vidas.
Estive ali todo o ano de 1976, vivendo numa casa colectiva, com diversos outros companheiros, e o balanço desta experiência cooperativa, apesar das voltas que os tempos foram dando ao projecto inicial, julgo que foi muito positivo quer para quem lá esteve, quer para a própria localidade que viu abrirem-se-lhe novos horizontes, novas ideias, novas maneiras de estar, devido à enorme quantidade de pessoas que por lá passavam, quer nacionais, quer estrangeiras. Nesse ano de 1976, a Cooperativa ainda tinha um rebanho com algumas centenas de ovelhas (entre Árgea e o Palanche), criação de porcos, vinha, olivais, uma zona grande de horta (na Quinta da Palmeira), criámos um supermercado - o primeiro de Árgea , onde todas as semanas se vendia carne de porco e de borrego produzida na Cooperativa -, a queijaria manteve-se até ao fim com a ajuda preciosa da sra. Júlia, uma queijeira local que integrou a cooperativa, e todas as semanas os produtos produzidos na cooperativa eram transportados (geralmente em conjunto com os da Torrebela) para os mercados da reforma agrária que então existiam, aos sábados, em Lisboa e Setúbal.
Saí no início de 1977, quando as dificuldades financeiras eram já enormes, e começavam os grandes ataques à reforma agrária em que, por força dos tempos, apesar das muitas diferenças, a "Comunal" estava integrada (tendo relações muito próximas com a Torrebela ou a Cooperativa Soldado Luís, em Alcácer do Sal, entre outras).
Pelo que julgo saber a Cooperativa ter-se-á extinguido durante esse ano de 1977.
E como nestas coisas dos acasos não há um sem dois, há bem pouco tempo o Pedro Fazenda mandou-me a indicação de que amanhã, dia 12 de Abril, vai passar na Cinemateca, em Lisboa, integrado num ciclo de documentários sobre as cooperativas no pós 25 de Abril, um pequeno filme, da época, sobre a Comunal de Árgea que, quer eu, quer o Pedro, desconhecíamos por completo, da autoria de José Sá Caetano (COMUNAL, UMA EXPERIÊNCIA REVOLUCIONÁRIA - Portugal, 1975 – 25 min).

7 comentários:

  1. Olha...um cooperativa de comnunistas a falir por falta de...capital!

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  2. Também lá passei uns dias, em Valhelhas, com o Carlos Cardoso. Éramos um grupo de estudantes de 6 Coimbra, e tenho fotografias nossas em cima dum tractor. Ainda voltei a encontrar o Carlos Cardoso na zona de Coimbra noutra Cooperativa. Um abraço

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  3. Cooperativa de Barcouço? Também andei por lá...

    CJ

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  4. Sim, na Cooperativa de Barcouço era o Quim de Barcouço (uma vez estive em casa dele com o Zeca Afonso). E na Cooperativa de Sete Fontes e Ourentã era o Avelino Cartaxo. Lá, em 1977 o Carlos Cardoso criava leitões. JM

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  5. há gente muito... ignorante.

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  6. Colaboreu no Casal Vidigal durante os anos de 76 e 77. Era então membro do PRP, com grande implantação em Árgea.

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