segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Quem é que aguenta e não aguenta?

Fernando e Ricardo são dois participantes activos no meu país.

São detentores de recursos sociais excepcionais. Fernando é banqueiro, Ricardo é humorista. Fernando garante que as pessoas do seu país aguentam esta austeridade e mais ainda se for caso disso. Fala à luz dos seus conhecimentos de economia, do acompanhamento da situação política e económica internacional e ainda do facto de ter notícia da existência pessoas a quem chama “sem abrigos”.
Ricardo participa num programa radio e televisivo chamado "Governo Sombra" onde respondeu que lá aguentar aguentam, exactamente até ao ponto em que deixam de aguentar. Fez-me lembrar  a história do cigano que se lamentava que o seu burro tinha morrido precisamente quando estava a desabituar-se de comer.
Ouvindo Fernando e Ricardo constato que a legitimidade de quem fala ao país já não é a que era. Já não brota da mesma fonte.  Já não se constrói com a receita que me mostraram nos bancos da universidade.
Temos agora que lidar com a ausência das estantes que forravam as paredes da casa, ou seja de uma certa organização social reconhecida, com capacidade de se reproduzir sempre no mesmo berço.
Um humorista, por exemplo, pode ter acesso ao conhecimento, a formas de o apresentar ou reflectir sobre esse conhecimento, que um homem de dinheiro pode não ter. Dito de outra maneira, “os bobos da corte”, os homens do teatro, da comunicação, e das artes, são detentores de uma capacidade de apreensão e de análise, a que os reis não chegam.
 Este facto parece-me bastante grave, já que quem continua a ditar leis e a impor decisões à comunidade em que me inscrevo são os Fernandos e não os Ricardos. Quer dizer os menos sensíveis e capacitados para observar a realidade - para além do estreito meio em que cresceram - são os que dirigem os destinos da comunidade. Isto, associado às formas contemporâneas de comunicar  leva-me a pensar que é possível que os reis, ( até em sua própria defesa) estejam visivelmente obrigados a partilhar  os seus cadeirões ou lugares de decisão (com humoristas e outros), senão quiserem ser decapitados ou cair da cadeira abaixo.

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