quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Creche do Jardim da Cartuxa: a cronologia dos factos


Na sexta-feira passada o Paulo Nobre publicou aqui no acincotons um post onde dava conta de uma creche de Évora que teria "poupado" na comida dos miúdos que tinha a seu cargo e da impossibilidade que ele, enquanto jornalista, tinha tido para ter alguém que desse a "cara e a voz" pela notícia. Falava de medo por parte dos pais. Nunca de insensibilidade ou falta de sentido paternal. Foi um post lido por milhares de pessoas e que teve dezenas de reacções, umas na caixa de comentários, outras por email. Logo na segunda-feira recebemos um mail de um dos pais que se identificou. Depois o Paulo Nobre respondeu e, por último, ontem chegou a resposta à resposta deste pai. Porque é uma troca de correspondência importante - que só dignifica este pai -,que esclarece cronologicamente tudo o que aconteceu e também o cuidado que pomos na procura de informação, mesmo quando não estamos a exercer actividade jornalística (que implica o contraditório), decidimos dar-lhe visibilidade publicando as várias missivas. carlos júlio

Email 1
Data: 25 de Fevereiro de 2013 à18 03:29
Assunto: Sou pai de uma menina da Creche do Jardim da Cartuxa

Caro Paulo Nobre
Começo por lhe dar os parabéns pelo blogue acincotons, do qual sou leitor (quase) diário mas nos últimos dias estive ausente, daí ter colocado as vossas noticias em dia.
Em relação ao post "A historia que não conhecemos" do dia 22FEV2013 começo por dizer o seguinte - mais depressa processava a si pelo teor da noticia do que a directora da Creche, apesar de não perdoar as razões que me fizeram retirar a minha filha da creche.
Passo a explicar:
1 - Quando se escreve uma noticia em relação a acontecimentos, deve-se ouvir as partes envolvidas antes de tomar juízos de valor, senão pode ser descredibilizado pela realidade e, pior, pode ser alvo de queixas de quem acusa injustamente.
2 -  Se alguém revelou MEDO nesta história toda, foi o senhor Paulo Nobre ao não escrever o nome da Creche no post.
3 - Em relação ao post, e se o conteúdo correspondesse à verdade, fiquei sem perceber quem é que era o bandido da situação; a directora ou os pais? Será que não devia incidir e denunciar a atitude criminosa da directora?
4 - Pergunto se conheceu a atitude dos pais para fazer juízos de valor em relação ao MEDO dos mesmos?
Vamos aos factos:
1 - A mensalidade não é de trezentos euros, é de duzentos e cinquenta euros, valor mínimo em qualquer creche que não tenha protocolo com a Segurança Social, mas nem que se pagasse um euro por dia, aquilo que foi descoberto é um atentado contra crianças, daí que a noticia não devia entoar os valores mas sim os procedimentos. Acrescia despesa facultativa de musica e ginástica mas que não chega aos dez euros mensais.
2 - Na quarta-feira 20FEV, pelas 18h, quando a minha esposa foi buscar a filha, ela foi informada por um pai de outra criança da má alimentação. Faço um parentesis para lhe dizer que esse pai me disse na quinta-feira de manha que ela ficou estática durante vários minutos.
3 - Após recuperar do choque, ela telefona-me a dizer do que se estava a passar e a minha primeira reacção foi "Não pode ser, deve ser alguma mãe que se chateou com a creche e armou uma cilada" porque nada - repito, NADA - fazia crer, visto que a nível de instalações, higiene, comportamentos de directora e funcionárias, não podia ser verdade. Mais...a nível de segurança, duvido que haja melhor. Exorto que faça uma visita às instalações, quanto mais não seja para confrontar a directora e colocar no blogue as suas palavras.
4 - O escândalo rebentou na terça-feira 19FEV e não tem a ver com as estrelitas na mão ou do responsável do catering informar, etc, etc... Duas mães estranharam o apetite dos seus respectivos filhos após estes saírem da creche daí que, neste dia, elas foram ver a refeição - que actualmente não posso chamar de almoço.
5 - Nessa noite, segundo os pais que estiveram presentes, houve uma reunião com a directora para a confrontar com o que viram - se foi um erro de catering ou era habitual, isto é, o bom senso de quem detectou este escândalo determinou que não informavam na tarde de terça-feira os outros pais sem ter dados mais concretos - a este tipo de procedimento não se chama MEDO, chama-se bom senso.
6 - Nessa reunião de terça-feira, e mais uma vez segundo o que os pais presentes me disseram, a directora não assumiu o erro e tentou arranjar desculpas esfarrapadas. Quer dizer que pelas 23h desse dia provou-se os factos e decidiram os procedimentos a adoptar.
7 - Na quarta-feira 20FEV, duas mães foram assistir à refeição e não é que, além de uma mesa farta, até salada as crianças tinham na mesa? Mas isso não foi suficiente para demover os pais que descobriram de informar os outros na tarde desse dia. Porquê a tarde? porque de manha as crianças tinham aula de musica e ficou garantido a fiscalização da refeição. Além disso, informaram que tinham tomado diligencias durante o dia e de que havia uma creche pronta a receber todas as crianças - a Mãe Galinha.
8 - Na noite de quarta-feira 20FEV, recebemos um telefonema de que a maioria dos pais estava em reunião nos Salesianos e que eles abriam, a titulo excepcional, uma sala e foi proposto pelos pais que fossem contratadas uma educadora e uma auxiliar. Voce até desvaloriza esse facto, isto é, já pensou porque é que os pais fizeram questão de as ter? Eu explico, porque elas também foram vitimas e poderia acusá-las de cumplicidade, se não fosse o caso de estarmos numa sociedade politicamente arruinada, daí que eu - como muitos outros pais - valorizei a dignidade com que elas trataram a minha filha. Até lhe posso dizer que se a outra funcionária pudesse acompanhar, os pais queriam e mais as valorizámos depois de saberem o terror com que eram tratadas. 
9 - Na quinta-feira 21FEV, fui buscar os bens da minha filha e os meus equipamentos (insufláveis e cama elástica, os quais faziam parte de parceria com a directora) e fomos de imediato à Escolinha d´Arte para fazer a inscrição. Deve imaginar que eu e a minha esposa, mais que os outros pais, nos sentimos ainda mais frustrados porque demos a cara pela creche - divulgando nas redes sociais e em milhares de flyers a nossa parceria.
Escolhi esta creche porque a comida é feita nas respectivas instalações e porque tenho lá um sobrinho bebe, cujos pais me deram muito boas referencias, daí que não quis arriscar.
10 - Retrocedendo, na quarta-feira 20FEV durante a refeição, a directora trancou-se numa sala para fugir ao diálogo com as mães presentes, sendo a irmã e a mãe dela que deram a cara. Desde essa altura até ao ultimo momento que ali estive, quase onze da manha de quinta-feira, que a directora não apareceu na creche!
11 - Após os factos provados, os unicos pais que queriam falar com ela eram aqueles que pagaram alguns meses adiantados, de modo a reaverem esse dinheiro, visto que as pessoas de bom-senso não armam pancadaria nem escandalos, apesar de ser o que essa directora merecia mas pergunto se era essa a solução que o Sr diz nas entrelinhas do post?
12 - Não, não era essa a solução que você proclama no post mas sim que os pais tivessem denunciado na comunicação social e nas autoridades competentes mas, caro Paulo Nobre, veja a data em que escreve o post e as datas dos acontecimentos...acha que os pais tiveram tempo para accionar o que quer que seja, devido ao facto de terem que encontrar uma solução e dar carinho aos respectivos filhos porque eles vão ser deparados com uma nova realidade - principalmente a minha filha que, ao contrário da maioria que se agrupou, vai ter tudo novo. Apesar do contrato ter sido tratado na quinta-feira, a psicologia diz-nos que era imprudente começar na sexta-feira. Faça um teste à sua capacidade de pai para se colocar no papel dos pais?
13 - Apesar disso, posso-lhe garantir que fiz tudo o que estava ao meu alcance para divulgar este facto, daí que durante estes dias informei todas as pessoas com quem me relaciono porque a melhor publicidade é a do boca-a-boca e eu, como afectado, sou uma excelente fonte de informação, tal como os outros pais também o são. Assim, fizémos mais na destruição da creche do que uma queixa nas autoridades competentes.
14 - Você pergunta-me "Mas agora os pais vão juntar-se e accionar meios legais?" e eu respondo por mim, e conhecendo os outros pais também vão pelo mesmo caminho, que o importante foi o inferno alimentar da minha filhota ter terminado e que as medidas a tomar já foram feitas, de onde destaco o facto ter tirado de imediato a criança da creche - será que esta não é a principal prova de que MEDO é algo que os pais não revelaram, apenas tomaram medidas de muito bom senso, tendo plena consciência de que com outro tipo de pessoas, essa directora teria o que merecia.Além disso, quem é que lhe diz a si que eu não falei com pessoas dessas autoridades? ou é preciso colocar nos jornais que me queixei? ou é preciso fazer queixa criminal para sermos pais corajosos? 
15 - Além disso, como é que os pais vão queixar-se aos principais culpados? Sim, você leu bem, os principais culpados são todas as entidades que tutelam a creche ou teriam que ser os pais a descobrir esta calamidade publica? Quem é que devia fazer uma fiscalização durante as refeições ou, no minimo, verificar as guias de entrega das refeições? E já agora, será que o catering não tem culpa? esse sim é que, se desconfiava, devia ter informado as autoridades das quantidades que servia, ou não concorda comigo?
16 - Você sabe se realmente havia meses de ordenado em atraso? Eu facilito a sua resposta...na quinta-feira de manha foi dito pelas proprias que apenas tinham o subsidio de Natal em atraso, o que nos dias de hoje, devido aos politicos de merda que temos, é muito bom.
17 - Pergunto se, como jornalista, o Sr Paulo Nobre denunciou nos meios de comunicação social para os quais trabalha? esclareço que não sei quem você é e para quem trabalha
18 - Não se comova por tão pouco porque eu, como pai, comovo-me com as crianças abandonadas nos caixotes do lixo, com crianças mal tratadas pelos pais, com crianças violadas, com crianças assassinadas, com crianças orfãs, com crianças sem educação, com crianças desinformadas, daí que aconselho o Sr Paulo Nobre a dar um valor aos seus filhos - o de não fazerem juzos de valor da cidadania de outras pessoas.
Felizmente que sei distinguir sensacionalismo de bom senso e, como tenho MEDO, fiz questão de lhe enviar por e-mail particular e não o descredibilizar publicamente.
Caro Paulo Nobre, a minha experiência de vida fez com que perdesse uma hora de descanso para lhe informar particularmente dos factos e julgo que, perante estes, o Sr tem um dever - o de colocar um post no seu blogue a explicar aquilo que lhe descrevo e não lhe ficava mal pedir desculpas aos pais, até porque estes resguardam o seu péssimo trabalho informativo; se fosse trabalho jornalistico, garanto-lhe que apresentava queixa judicial porque os factos são graves mas os juizos de valor anunciados publicamente não são menos graves, até porque não estamos a falar de maus tratos, agressões nem de fome mas sim de trocar refeições - lanches quando devia ser almoços.
Vou terminar como comecei, parabenizando a sua disponibilidade para informar acerca de Évora e exorto a continuar contra tudo e contra todos que não procedem bem mas também exorto que você o faça bem.
Sem outro assunto,
Envio os mais cordiais cumprimentos
João Manuel Milho Perdigão

Email 2
Em 25 de fevereiro de 2013 13:30, Paulo Nobre escreveu:

Caro João Perdigão,
Agradeço os comentários em relação ao blog. Agradeço-lhe também a hora que retirou ao descanso para me esclarecer sobre este caso. Pessoalmente ficaria muitíssimo satisfeito se isto fosse a regra e não a excepção nos blog’s . Adiante.
No blog limitei-me a dar voz aos rumores que na cidade corriam sobre “uma” creche (interessei-me pelo caso desde logo porque creches há muitas, era preciso saber em concreto de qual se tratava, tanto mais que, com os meus filhos, tb tive situações “interessantes”). Não pude revelar pormenores porque não os sabia.
Para materializar os rumores, saber os pormenores e avaliar se valeria a pena avançar para uma reportagem sobre o assunto, precisava ouvir os pais. Para tratar o assunto jornalisticamente era imperioso ter a sua posição, caso estes achassem importante e quisessem. Naturalmente não seria obrigatório que o fizessem. Como não fizeram. Estão, obviamente, no seu legítimo direito.
Em relação aos pontos que refere queria reforçar que não escrevi nenhuma notícia. Coloquei um post no blog o que é distinto. Formalmente, como jornalista, a notícia obrigar-me-ia a seguir determinados pressupostos no apuramento dos factos, caso entendesse que, passe a expressão, o caso tinha “pernas para andar”. Com os dados que tinha – ou não tinha – nunca poderia avançar para a reportagem.
O meu relato no blog é de uma possível notícia que não consegui fazer sobre um facto que, pela tremenda injustiça e provável negligência, me parecia susceptível de ser noticiado. Um facto que aconteceu na minha cidade, onde vivo, trabalho e onde crescem os meus filhos.
A história foi-me contada por gente em quem confio plenamente. Contaram-me mais pormenores. Muitos batem certo com o que me transmitiu, mas eu não podia, por falta da tal confirmação que os pais me poderiam dar, colocar no blog. Quem me contou a história prometeu-me contactos dos pais – por ter conhecimento directo, sublinho, directo, com alguns deles - e pediu-os pelo menos a dois. Já após a recusa destes, tentei, por outra via, novos contactos que também falharam. O “medo” de avançar foi por se tratar de assunto delicado.
Se não há “acusação”, não há contraditório. Perante isto, morreu a notícia.
Sobrou-me a indignação. A minha – não só a minha - indignação. Pela situação em si e pelo tal silêncio dos pais.
Em relação aos factos: são os factos! É o João quem os bem conhece por ter sido, infelizmente, interveniente neles. São os factos que procurei conhecer para avaliar se avançava, ou não, para a notícia.
Foi tudo isto que escrevi no blog sem intenção de faltar ao respeito, insinuar ou ofender quem quer que fosse.
Se o fiz foi de forma inadvertida e desde já lhe apresento, a si e aos demais, as minhas desculpas. Sinceras!
Com os melhores cumprimentos
Paulo Nobre

P.S. - Não tenho qualquer problema em escrever no blog o que aqui lhe transmito. Peço-lhe que me diga o que quer que diga em relação aos factos. Posso publicar na íntegra a sua carta, em baixo a minha explicação ou… qualquer outra coisa que me sugira.


Email 3
To: paulojorgenobre@sapo.pt
Sent: Monday, February 25, 2013 7:18 PM
Subject: Re: Sobre a creche

Caro Paulo Nobre
As desculpas são aceites e agora percebo melhor o teor do seu post, visto que houve recusas de falar por parte de alguns pais.
Pessoalmente, estou disponível para todo e qualquer esclarecimento e não me importo que utilize o meu nome no melhor esclarecimento do assunto no blogue, apesar de não ser obrigado a isso.
Na minha opinião, se descrever as minhas palavras referentes ao assunto - esquecendo a parte que o critico, porque é acessório para o auditório - e se escrever grande parte do que escreveu nesta sua resposta, penso que todos ficam bem vistos.
Note-se que se desejar colocar todo o meu mail, está completamente à vontade mas penso que a sua iniciativa não merece ser beliscada porque denunciou um assunto grave.
Hoje soube, pela minha empregada, que a cunhada lhe disse que o assunto saiu na SIC, algo que não consigo confirmar - mandei-a confirmar e saber qual foi o programa - assim que o alcance mediático foi alcançado e, quiçás, muito devido ao seu post e acredite que muitos pais agradecem esse facto porque (julgo) que nenhum queria a creche a continuar aberta mas já não precisamos tomar diligências porque hoje a educadora informou em sms que a creche encerrou na sexta-feira - assim que devia dar esta noticia como algo positivo do seu post.
Da minha parte, não guardo rancor e vou previligiar a cincotons por ter pessoas de bem a dirigir.
Não me estranha as situações com os seus filhos porque, está mais que provado, qualquer creche tem lacunas - se não é alimentação é segurança ou é violência ou é outro tipo de mau procedimento que, no meu entender, se deve à falta de acompanhamento das entidades que as tutelam.
Peço desculpa de ter enviado mail para uma caixa de endereço partilhada com outros gestores mas não consegui ter acesso a outros seus contactos.
Um grande abraço
João Perdigão 

3 comentários:

  1. olha, uma conversa decente e inteligente :) o que é que se passou?

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  2. A procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, alertou hoje para as “graves carências de magistrados e, sobretudo, de funcionários” do Ministério Público (MP), no distrito judicial de Évora, o que “tem relevância para a tramitação dos processos”.
    E o resto?O próprio tribunal da relação colocado num edifício antigo obsoleto que de renda mensal 30 mil euros,quantos edifícios se construíam de raiz?

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  3. Conversa educada e conclusiva. Sabe bem seguir conversas assim.

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