terça-feira, 29 de janeiro de 2013

De facto não me representam



A vereadora da Câmara de Évora Cláudia Pereira aborda hoje numa crónica na Rádio Diana um tema (referindo-se ao mesmo filósofo catalão a que a Dores Correia já se referiu aqui no acincotons) cheio de actualidade que é o da representação politica.
Cada vez é mais frequente encontrarmos nas manifestações e no dia a dia pessoas que, referindo-se aos políticos, dizem claramente ”NÃO NOS REPRESENTAM”. Cláudia Pereira diz que não é bem assim. Os políticos afinal são como o povo que os elege: há de tudo.
Claro que há de tudo. Mas não é essa a questão e a vereadora confunde, porque lhe dá jeito - enquanto política, ainda que em início de carreira -, a qualidade dos políticos com o facto de muita gente (mesmo votando) considerar que eles NÃO OS REPRESENTAM. Não se trata de os políticos serem bons, maus ou assim-assim, como o são os jornalistas, os futebolistas, os carpinteiros ou os funcionários autárquicos. A questão é que a função de REPRESENTAÇÃO que os políticos desempenham está ferida de morte logo desde o início, a partir do momento em que os políticos desempenham a sua actividade como corpo separado (e especializado), sem um controlo efectivo das suas funções por parte de quem os elege, a não ser de quatro em quatro anos, (e nessa altura as máquinas partidárias, de poder e propaganda, fazem autênticas lavagens ao cérebro do cidadão comum que os impede de votar em plena liberdade e, muitas vezes, em plena consciência) e sem qualquer tipo de responsabilidade entre as promessas que fizeram e os actos que praticam na realidade.
Quando se diz dos políticos que eles NÃO NOS REPRESENTAM não se está dizer que este é pior do que aquele. Está-se a afirmar que a função do político põe em causa a noção da representatividade que alguns lhe julgam associada. O político é representante do seu partido e do seu grupo de interesses e a generalidade dos eleitores apenas lhe interessa como meio de permanecer no poder, poder esse que, na maior parte dos casos – basta ver a classe política, em geral -,  se transforma num fim último.
Cada vez é mais urgente – e com o incremento das novas tecnologias isso é possível – a alternativa de uma democracia mais próxima dos cidadãos, em rede, envolvendo directamente a sociedade, transparente, que substitua o velho conceito do político, candidato por nomeação partidária – sabe-se lá depois de que jogos de cintura -  que tudo julga saber e que, por ter tido mais 10, 500 ou 10 mil votos, se acha mandatado para impor a sua vontade ao conjunto da comunidade.
Quando Passos Coelhos é eleito prometendo que não vai haver aumentos de impostos nem cortes nos subsídios de férias e de Natal  NÃO PODE REPRESENTAR quem o elegeu (ou não), uma vez que partiu de premissas enganadoras. Quando Passos Coelho quer agora cortar 4 mil milhões de euros na despesa e António José Seguro diz que o PSD não está mandato para isso, é verdade. Mas isto não é muito diferente daquelas que foram as promessas eleitorais, por exemplo, do PS em Évora nas últimas autárquicas. Sem pretender ir mais longe recordo, no entanto, a maneira verdadeiramente assombrosa como esta Câmara tem tratado os agentes culturais e desportivos. Primeiro, não pagando os acordos livre e mutuamente assumidos (e que faziam parte do programa eleitoral); depois lançando a suspeita de que em outros tempos, na altura da CDU, haveria favorecimentos e que seria necessário um concurso público, transparente, com um júri que avaliasse cada uma das entidades candidatas a algum apoio. Os grupos candidataram-se e sujeitaram-se a esta avaliação durante dois anos consecutivos: nunca lhes foi pago um tostão! E este ano receberam a indicação de que teriam direito a algum apoio logístico apenas, mas unicamente se a Câmara o puder disponibilizar na altura.
Isto para já não falar do conjunto de outras promessas nunca concretizadas, diálogos inexistentes, enclausuramentos, como se a Câmara fosse um reduto que tivesse de ser defendido dos novos bárbaros – os cidadãos e a cidadania.
Que REPRESENTAÇÃO, afinal, é esta? Que TRANSPARÊNCIA é a de uma autarquia que deveria existir como entidade de diálogo, de consensos, gestora do espaço público e comum, e regra geral aparece como uma rede de interesses, onde muitos salários e influências se jogam e muito jogo de cintura é preciso fazer para se estar na linha de partida para se ser candidato nas eleições seguintes….
É este o ponto central: a classe política representa-se a si, aos seus partidos e aos seus interesses de grupo. A população em geral só tem interesse para os partidos e para a classe política porque, de alguma forma, nela reside ainda alguma capacidade eleitoral e de escolha. Mas tão mínima que se votar significasse, de facto, alterar alguma coisa substancial há muito que teriam proibido o voto.

9 comentários:

  1. Porra

    Até que enfim um post decente!

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  2. Quem tem medo dos Círculos Uninominais?
    Ou
    Melhor,
    Quem quer continuar a votar em certos cabeças de cartaz, que depois abdicam em favor de 3ªs ou 4ªs escolhas?

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  3. Aqui está um bom tema para esclarecer com os próximos candidatos à Câmara de Évora.
    - Como tencionam relacionar-se com os cidadãos e as suas organizações representativas?
    - Como tencionam promover a participação das organizações, colectividades e dos munícipes em geral, na tomada de decisões municipais?
    - Como tencionam esclarecer e prestar contas sobre aquilo com que se comprometeram?

    Vamos continuar a permitir a “dissimulação” e o “amiguismo” nas tomadas de decisão. Ou vamos exigir a aplicação de critérios transparentes de gestão e de prestação de contas? E como é que isso se pode fazer?

    Numa altura em que já não dinheiro para fogos de artifício, aqui está um tema que poderia ajudar a diferenciar os candidatos: os métodos de gestão.

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  4. *já não há dinheiro...

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  5. E qual é a alternativa,CJ?
    Se a maioria de nós se abstiver (o que, provavelmente, farei de futuro) o que acontecerá?
    Se 6 milhões de portugueses votarem, 3 milhões elegerão o partido (des)governante. Se só votar 1 milhão, bastarão 500 mil para eleger quem vai (des)governar quase 11 milhões de portugueses.
    A Democracia é que se lixa, obviamente. Mas não estará a Democracia já irremediavelmente lixada? Eu diria, até, lixada com F maiúsculo e bem maiúsculo. A Democracia já só existe na memória dos que ainda se lembram dela.
    Qual é a alternativa viável a este lamaçal em que deixámos cair o país?
    jmc

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  6. Sempre podemos voltar à Monarquia...

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  7. 19:32

    O que é a que a monarquia mudava? A jigajoga dos partidos ainda era pior do que hoje. Grupos de interesse, rotativistas, com o banana do rei (tipo Cavaco?) a fingir que estava tudo bem. Pelo menos o Cavaco é bem mais magro do que o D. Carlos que era coisinha para pesar mais de 100 quilos, redondinho como um perú.

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  8. Claramente a " cronista" Cláudia Pereira não tem noção do que a "política que não nos representa" Cláudia Pereira fez ao Concelho de Évora, à Cultura, ao Desporto e ao Apoio Social em Évora. É um caso curioso eventualmente esquizofrénico em termos psiquiátricos ou, mais cristamente: não sabe a mão direita o que fez a mão esquerda!

    "Ri-me antes da vontade de chorar que me dá cada vez que tenho que lidar cara a cara com as consequências dos atos, e não dos discursos,(...)da Vereadora!

    vale a pena relembrar um post deste blog sobre uma estarrecedora entrevista desta "política iluminada" que se debruça sobre verbos e esquece aquele que é a súmula da sua política: DESTRUIR
    http://maisevora.blogspot.pt/2011/02/sintese-de-uma-esclarecedora-entrevista.html

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  9. Quem precisa de cuidados de psiquiatria são os zelosos funcionários do Partido Comunista, anónimamente e bem representados no blog MaisEsterco

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