segunda-feira, 6 de agosto de 2012

mudança

Sempre me pareceram particularmente intrigantes, já que contraditórios e aparentemente inconciliáveis, o desejo de conservar, o grande afã por manter como está, do que antigamente ou antes é que era bom, coexistindo no mesmo tempo e espaço com o outro desejo de novo, de diferente, de ruptura com o instituído, por outras palavras o desejo de mudança.

Em Évora estes dois posicionamentos, desejos expressos ou omitidos, parecem caminhar lado a lado como irmãos gémeos. Atrevo-me a supor que o desejo de mudar é no caso da sociedade eborense,  mais franzino, tímido e limitado que o desejo de permanência, mais legitimado e capaz de se passear com o à vontade de quem se sabe bem amado.

Pensando sobre uma eventual explicação para esta necessidade e simultânea repulsa pela mudança, quando se trata do nosso espaço quotidiano, da nossa cidade, de algo que nos seja bastante próximo, deparo-me com a seguinte afirmação  de um fisico contemporâneo, Etienne Klein, num livro seu sobre o tempo: “Uma ida e volta no espaço é sempre uma ida sem volta no tempo. Nas cidades, esta regra permaneceria verdadeira mesmo que os engarrafamentos viessem a acabar(Klein, o tempo, caleidoscópio, 2007:79)
Sabendo, de resto, que a Fisica não admite a possibilidade de viagens no tempo, mudar o nosso espaço, uma praça ou jardim da cidade, é afinal perder irreversivelmente, “o nosso tempo”. E esse é uma referência maior. Sabemos bem como precisamos de “padrões de invariância” para nos sustermos num mundo onde a vida moderna nos impõe com efeito um ritmo nunca antes conhecido. Parece então que o conhecido, o testado, o vivido, mesmo que esgotado ou insatisfatório, se apresenta em vantagem ao lado do desconhecido, mesmo que este mostre elevadas hipóteses de ser mais ajustado ao tempo e às necessidadescontemporâneas. É afinal o mesmo reflexo da criança que chora, ou simplesmente sofre por ter de abandonar a pequena construção à beira mar que entretanto foi desfeita pela maré que subiu.
Ocorre-me ilustrar esta refelexão com o caso, já com duas décadas, das obras na Praça do Giraldo em Évora. Eram, para muitos, impossíveis de aceitar. A ideia da mudança num espaço de tamanha referência parecia dilacerar consciências. A resistência manifestou-se na cidade mas, mesmo assim, a obra da mudança consumou-se. Foi então breve a adaptação. O novo uso foi integrado. O desgosto antes expresso foi esquecido. A praça reconfigurada continuou a mesma referência de sempre, só que ajustada no tempo.

A mudança é intrínseca à vida. Saber aceitá-la, conhecê-la, e eventualmente influir sobre ela, é uma vantagem, ou uma ferrementa imprescindível de vida. No plano pessoal, social e cultural. 

2 comentários:

  1. Évora, zona livre de armas de destruição maciça.

    Para ser inteligente.
    Para ser educadora.

    ResponderEliminar
  2. Venham os barbudos das montanhas já!

    ResponderEliminar