segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

As vantagens de se ter photoshop


Afinal ele sempre estava na foto. Só que um pouco mais recuado. A história de uma fotografia contada pelo meu antigo companheiro de profissão (do DN) Carlos Albino.(via Praça da República)

O maltês dono das estrelas


gastar a tarde numa cartada de sueca
emborcar copos de cinco para alegrar o sangue
afiar o fio da navalha no gargalo do poço
espreitar a guarda por detrás da esteva
fazer festas ao rafeiro na estrema da herdade
dar lérias só quando a língua se soltar
prender uns olhos castanhos no postigo da aldeia
nem sequer dizer não
ou sim com o acenar de cabeça
escrever contos e décimas no papel da memória
abarcar a planície com o abrir dos braços
no montado ser amigo da azinheira das bolotas doces
pesar o tempo mirando o astro-rei
lavar o corpo e as mágoas no pego grande
beber água pelo coxo pendurado na fonte
acamaradar só quando a vontade o pedinchar
dar-se com a lua e cismar a quantidade do universo
convencer a fome com o cheiro do poejo
enrolar na mortalha o tabaco do aconchego
espiar o céu pela frincha da telha vã
por pertença ter a opa e o varapau
fazer a olha com o toucinho e a panela abonados pelo dono do monte
aquecer o caparro com o lumaréu de azinho
ajustar as botas e a manta na feira de Castro
atravessar o largo da vila abrigado dos olhares debaixo do chapéu preto

Os cravos de abril chegaram em janeiro




sábado, 29 de janeiro de 2011

Últimas do Egipto




É formidável o que se está a passar no Egipto. Moubarak vai seguir o mesmo destino do tunisino Ben Ali? Ler as últimas aqui.

Mais uns a descobrir a pólvora!


(a anciã e o burro – Barrancos / imagem de Rui Mateus)

Partido pelos Animais e pela Natureza.
Segundo um fundador, a orientação central do partido é a defesa e protecção dos animais, incluindo o homem (esta é do cacete), e da natureza, no quadro da actual sociedade de mercado. Mais disse que o PAN recorre a bases programáticas tanto de esquerda como de direita. Outro dos princípios fundamentais, é o de lutar para que o Homem opte por uma alimentação não carnívora, vegetariana e vegan.
Pois bem rapaziada da evangelização, estamos conversados!
A doce anciã de Barrancos até vos dava umas lições sobre o companheirismo humano, a justa e harmoniosa convivência com os outros seres vivos e com a mãe terra. Mas, também tem a lucidez suficiente para saber que estaria a pregar no deserto.

Escavações arqueológicas em São Romão - Alvito



Capoulas director de campanha de Sócrates


Sócrates já anunciou que se vai recandidatar à liderança do PS e Capoulas Santos vai reforçando ainda mais o seu peso no aparelho socialista. Depois de ter sido por duas vezes presidente da Comissão Organizadora do Congresso do PS, na era Sócrates, é agora director de campanha do actual primeiro-ministro.
Segundo a agência LUSA, amanhã, domingo, em reunião da Comissão Nacional do PS, deverá ser aprovada a proposta da direção para realizar o XVII Congresso Nacional no Porto, na Exponor, entre 8 e 10 de abril.
Capoulas Santos, eurodeputado, presidente da Assembleia Municipal de Évora e da Federação distrital de Évora dos socialistas foi o presidente da COC dos dois últimos congressos do PS, em Espinho (2009) e em Santarém (2007), mas, por assumir agora funções executivas na liderança do PS/Évora, já não podia repetir uma terceira nomeação para este cargo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Diga lá outra vez, Mr .União Europeia

video

ou ternurinhas da juventude?

E assim é a vida


Diário do Alentejo desta sexta-feira. O site online está a ser reestruturado.

Mais histórias de viajantes

Rosa e o gúru na praia de Gokarna (Índia)

Em Setembro publiquei aqui no acincotons um pequeno post sobre a Rosa, uma jovem holandesa que, sozinha, vai seguindo por algumas veredas do mundo. Já a conhecia e encontrei-a, por acaso, à boleia, no Alentejo, na Mimosa. Esteve em Évora e depois partiu à boleia para a Holanda. Esteve lá quase nada e foi para a África do Sul, esteve em Moçambique e está agora na Índia. Tem publicado as fotos no Facebook. Há dias escrevia que estava no meio da Índia sem comboios, nem dinheiro. Mas que Babba (o guru) a protegia. E é sempre bom saber por onde anda. 

O Mediterrâneo é um lago com duas margens


Informações (numa perspectiva libertária) sobre a Tunísia aqui e sobre o Egipto aqui.
Informações actuais no Liberation e no El Pais.

Salários ao nível de Ali Babá e dos 40 ladrões



Claro que estes salários são um escândalo. Haja ou não competição internacional. Ontem à noite um dos costumeiros opinadores dizia na SIC Noticias, virando o bico ao prego, que era inaceitável que, por exemplo, o presidente da Câmara de Lisboa ganhasse apenas o que ganha, ao nível de um quadro médio de uma grande empresa, quanto tem tantas responsabilidades. Não sei se é pouco ou muito, mas nunca ouvi nenhum destes peroradores dizerem que era injustificável que um ordenado médio numa Câmara Municipal rondasse os 600 ou 700 euros ou que fossem ainda milhares as empresas a pagarem o salário mínimo.
Se a nossa economia andasse de vento em popa, se as empresas em causa tivessem uma política social séria e empenhada ainda se podia perceber toda esta distribuição de benesses. Mas com empresas actuando em monopólio, como a GALP ou a EDP, que não têm concorrência, ou falidas como a TAP. não será afrontoso este tipo de salários?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

É a vida!


E pronto: Cavaco Silva lá ganhou as eleições. Manuel Alegre esbanjou o mítico milhão de votos. José Manuel Coelho arrasou no Funchal. A sombra do FMI esfumou-se ... por enquanto. O Benfica lá continua a ganhar. Tudo nos eixos. É certo que o Presidente da República foi eleito perante a indiferença de 7 milhões de cidadãos. Que Manuel Alegre fez os possíveis para não ter mais votos. Que José Manuel Coelho é José Manuel Coelho. Que o FMI há-de voltar a ensombrar-nos. E que o Benfica continua a insistir nas habilidades do senhor Cardoso. Como diria o outro, é a vida! O que nos vale é que palavra dada por dirigente político, desportivo ou de paróquia continua a ser … palavra dada. Alberto João Jardim não se recandidata à presidência do Governo regional de Madeira. Gilberto Madaíl “não vê motivos” para se voltar a sentar no cadeirão da presidência da Federação Portuguesa de Futebol. E o ministro da Administração Interna desistiu de se candidatar ao lugar de mais trapalhão do Governo, sendo mero acidente as aventuras com o brilhante negócio dos blindados para a cimeira da NATO e com a expulsão de centenas de eleitores das mesas de voto. No caso de Rui Pereira, porém, a Wikipedia pode ajudar a explicar tamanha capacidade de sobrevivência nas águas turvas da fama mediática. É consultar a página “maçons de Portugal” e encontrar o ministro comodamente instalado entre Rafael Bordalo Pinheiro e Sebastião José de Carvalho e Melo.

Registo 139


Podem consultar o jornal nesta página.

Povo que Canta


Foto José Manuel Rodrigues 
Exposição de Marionetas no Convento dos Remédios - Évora
Manuel Rocha é conhecido como músico da Brigada Victor Jara. Nasceu em Coimbra há quase meio século. Formou-se em violino e, entre muitas outras coisas, é investigador. Em 2003, Manuel Rocha (e Ivan Dias) seguem as pisadas de Michel Giacometti para uma nova série do Povo Que Canta, mostrando de que forma a tradição resiste, passados 30 anos.

José Russo é actor e director do CENDREV. Nasceu em S. Manços, Évora, há pouco mais que meio século. Entre muitas outras coisas, desde o inicio dos anos 80 que faz parte da "família" constituída por actores profissionais que tomou a seu cargo o espectáculo dos Bonecos de Santo Aleixo, assegurando assim a continuidade desta expressão artística alentejana.

 Manuel Rocha e José Russo são os dinamizadores da conversa desta sexta-feira, 28 de Janeiro, pelas 18.30h no Convento dos Remédios em Évora.
O caminho de procura e valorização da memória, tem passado em grande parte,  pela reconstrução e promoção da cultura de raiz tradicional. O trabalho de Giacometti é o pano de fundo para a sequência destas conversas sobre "Memória e Partilha".
As duas sessões já decorridas (14 e 21 de Janeiro) foram gulosos momentos-aperitivo para reflexões e estudos sobre o Alentejo, Memória, Raízes da Cultura.

Grande acidente no IP2 entre Portel e Monte Trigo

foto LUÍS PARDAL/GLOBAL IMAGENS

Passei lá agora. O trânsito está a ser desviado. Um violento acidente entre duas carrinhas provocou vários mortos. Estavam lá muitas ambulâncias e carros de bombeiros. Uma das carrinhas estava irreconhecível. E segundo me disseram estariam várias pessoas no seu interior. Os bombeiros estavam a tentar cortar a chapa e retirá-las. Na outra carrinha, que ficou menos destruída, e que ostentava o símbolo da GALP, seguiriam duas pessoas de Portel (?) conforme me disseram no local, que terão também morrido. Um cenário dantesco.

Com o rabo entre as pernas, cavaram que nem baratas tontas


No dia 27 de Janeiro de 1973, em Paris, os americanos ajustaram com o Vietname a inevitável “paz” (no caso, envergonhado eufemismo de capitulação).
Os 700 mil soldados americanos que chegaram a estar no terreno, com o acrescento da soldadesca dos fantoches tiranetes de Saigão, não chegaram para as envenenadas encomendas que, paulatinamente, o General Von Giap lhes foi ofertando nas luxuriantes florestas vietnamitas. Qual Golias tio Sam habituado a ajoelhar tudo e todos a seus pés. David Von Giap nem de joelhos o quis, enxotou-o vergonhosamente, pontapeando-lhe o traseiro.
Depois disso, muita água já correu debaixo das pontes. Voltaram a enredar-se nos desígnios imperiais da “política da canhoeira”. Mas nunca mais esbofetearam tudo e todos sem levarem, pelo menos, vinte e cinco tostões de troco.
Mudou o mundo e “eles” mudaram a estratégia. Agora são os “invisíveis” donos do “mercado” os generais dos exércitos mercenários obscuros, munidos de sofisticada tecnologia de guerra, que vai do mortífero armamento aos Cavalos de Tróia da especulação financeira, com os quais mantêm de joelhos ou mandam para a vala comum da extinção uma imensidão de seres humanos. A sanha predadora é tal, que não têm pejo em prosseguir a galopante destruição da bola onde “eles” próprios habitam. Antes da implosão, devem ter a secreta esperança de zarpar para outro planeta.
Oxalá que, antes disso, tenham de cavar do cimo dos seus arranha-céus nas naves espaciais para o suposto planeta, tal como aconteceu aos americanos no Vietname.
Ponham os olhos no que está a acontecer, no momento, às suas marionetes. O Ben Ali teve de cavar da Tunísia e o Hosni Mubarak está à beira de lhe seguir os passos.
Tenho a fezada que os gentios, um dia, também acabem por tornar visíveis os “invisíveis”.

De todas as partes do mundo

Não vão descansar enquanto não integrarem o subsídio de Férias e de Natal no ordenado


Depois da proposta de corte brutal nas indemnizações em caso de despedimento, as mentes frenéticas de alguns assessores e consultores já se agitam para propor (ou agora ou quando o PSD for Governo) a integração dos subsídios de férias e de Natal no ordenado
Alegam estas criaturas que o pagamento de dois meses no Verão e no Natal faz com que muitas pequenas e médias empresas entrem em ruptura financeira ou tenham que recorrer à Banca, com juros muito altos. Dizem também que, como está em vigor em muitos países, o que interessa é a massa salarial anual, dividida por 12 meses,  e não o número de meses que se recebem. 
Já viram o que seria isto aplicado em Portugal, com a classe patronal que temos e a falta de fiscalização: num ápice acabariam para a grande maioria quer o subsídio de férias, quer o de Natal? E isto, caros amigos, não é ficção. É algo que as "mentes iluminadas" de quem nos governa (ou quer governar) já começaram a congeminar.

A Península rodeada por comboios


O Bairro do Poço Entre as Vinhas era um lugar de habitações clandestinas construídas, tijolo a tijolo, por aqueles que demandavam a cidade grande em busca de uma vida com o pão mais assegurado. A grande maioria, desterrados do campo pela mecanização da agricultura que, paulatinamente, os foi empurrando da sua terra pela ausência de jorna. Vivi neste meu Bairro dos momentos mais felizes da minha vida. Foi para mim a academia da sociabilidade solidária entre a infância e a adolescência. A seguir a Nossa Senhora de Machede era, na prática, a minha segunda aldeia, só que cosida à cidade grande, ainda que fosse uma península.
Por si só, o nome do Bairro era um almanaque aberto sobre o local. Um poço entre vinhedos cuja água teria servido para dessedentar os trabalhadores da dita cultura agrícola. Por volta da década de sessenta um qualquer sacripanta (se não estou em erro, quem apadrinhou a renomeação foi o cabeça de abóbora Tomaz), contumaz da beatitude, resolveu mudar o nome ao Bairro para Senhora da Saúde. O velhíssimo poço, com a boca em granito trabalhado, ainda lá mora completamente abandonado, entulhado e ostracizado da história do local. Está bem de ver que dito tinha mais a ver com os apaniguados do Deus Baco que com uma santa dos gajos rasinhos de saúde.
Tinha o Bairro a particularidade de ter as fronteiras de nascente e poente demarcadas por duas linhas ferroviárias. A nascente, a linha Évora-Estremoz. A poente, a linha Évora-Mora. A Sul do Bairro, na estrada que conduzia a Beja e Reguengos, junto da passagem de nível, bifurcava-se da linha para Estremoz o ramal de Évora-Reguendos de Monsaraz, distanciando-se em direcção a Este.
Daí sempre ter tratado os comboios tu-cá-tu-lá. Ainda as locomotivas eram movidas a vapor. Só, anos mais tarde, vieram as modernaças a diesel.Ver passar aquelas enormes composições com carruagens de passageiros e uma infinidade de vagões de mercadorias, eram rotineiros filmes diários. Intervalávamos as futeboladas e ficávamos ali de dedo espetado a contar o tamanho da serpente com cabeça de ferro que fumegava negro e sibilava um estridente apito.
Quando recordo o facto do Bairro do Poço Entre Vinhas ser uma península rodeada, por todos os lados menos um, de linhas ferroviárias, há três coisas que ainda me deixam a remoer inquietudes e quietudes do tirocínio da infância. Ter aprendido de que lado estava o vento pela nitidez do apito da locomotiva. O comboio ter um lado nefasto, dado ser o principal instrumento de suicídio das gentes das redondezas. Outra coisa havia que me produzia uma perturbação levada da breca e ainda hoje me aflige a memória. O facto de haver composições de passageiros apenas carregadas de militares, fardados de caqui amarelado, provenientes do quartel de Estremoz e compelidos directamente para os barcos atracados em Alcântara e daí para a guerra colonial. A estranheza de os ver passar, com meio corpo fora das janelas, a acenar e a gritar uma alegria absurda. Interiorizei mais fundo essa estranha perturbação devido a uma frase ciciada pelo meu pai Isidro: “Alguns vão a despedir-se de nós e da terra para sempre”.
O êxtase absoluto era viajar nos ditos com toda a gente a balancear certinho, de um lado para o outro, como se fossemos o pêndulo do relógio da avó. E a paisagem a correr vertiginosamente cortada, regularmente, pelos postes do telefone ferroviário.
O ramal de Mora, é hoje a ecopista da cidade. Faleceu vai para um ror de tempo. O ramal de Reguengos de Monsaraz foi pelo mesmo caminho. O ramal de Estremoz ainda existe, mas o seu uso é quase nulo. Daí que a estação de Évora é, a bem dizer, o final da linha como disse o Boris Vian no “Outono em Pequim”.


(texto já publicado no Alentejanando e recentemente revisto)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Do outro lado da fronteira as coisas "fiam" mais fino


Por cá, quem nos desgoverna vai fazendo o que quer, com toda a impunidade. A contestação organizada que vai havendo é mais para fazer figura do que para ter algum efeito prático.
Entretanto, vão-nos entretendo com eleições e coisas do género. Já estão a preparar outras lá para o Verão. Mas até lá vão-nos tirando o pouco que já tínhamos.
E esta do corte nas indemnizações, vinda dum governo que não cora de vergonha quando ainda se vai dizendo socialista, é de antologia: qualquer socialista que ainda se preze de o ser só pode expressar o seu mais profundo desprezo por quem, em seu nome, toma as medidas que nem a direita, enquanto tal, quando esteve no governo, ousou tomar. 
Em Espanha a coisa fia mais fino. E amanhã na Galiza, na Catalunha e no País Basco é dia de Greve Geral contra o corte nos direitos de quem trabalha. E já se prepara outra Greve Geral em todo o Estado Espanhol.

procure no seu sótão

Foto José Manuel Rodrigues
 Se uma tasca pode anunciar infernos, um sótão é capaz de pronunciar paraísos.
 A" imagem", rica, é de Umberto Eco, no seu livro “A misteriosa chama da rainha Loana”.

Aqui no Alentejo, as memórias são muito procuradas nas tascas, esses lugares onde ainda soa o cante, onde os homens se refugiam da vida para a reinventarem com um aspecto mais adequada à sua condição humana.
Para além das tascas, parece que temos que vasculhar também nos muitos sótãos… o lugar onde se dizia que só existem macaquinhos! Eco diz que na planta de uma casa, o sótão é o lugar limite entre a terra e o céu. Damásio sugere que o sótão é o lugar onde se fabrica a consciência. Eu só sei que  o sótão é um lugar a explorar melhor.
Desafio quem quiser a ir ao seu …sótão, e trazer de lá uma pequena história, aqui para o blog, susceptível de contribuir para a construção da memória colectiva destes tempos no Alentejo do séc. XXI .
(À semelhança do que fez Yambo, o personagem daquele livro de Eco, que tendo perdido a memória por causa de um AVC, se dispôs a reconstruí-la, ou seja a descobrir quem era; ou ainda à semelhança da evocação do Jamaica que o CJ fez no "post" anterior, importante para o sótão/memória colectiva de Lisboa).

Estamos velhotes: Jamaica festeja 40 anos


O Jamaica (e depois a Lontra e o Ritz Club) foram dois espaços que marcaram as gentes da minha geração na Lisboa pós-25 de Abril. No Jamaica conheci o Mário Dias, hoje meu companheiro na TSF. O Jamaica assinala agora 40 anos. A quantidade de histórias que têm passado por nós! A agência LUSA fez notícia do acontecimento. Deixo aqui a dita.

"A discoteca Jamaica, em Lisboa, cumpre 40 anos e voltará a reunir os DJ que marcaram a identidade musical do espaço, entre eles Mário Dias e Bruno Dias, o primeiro e o atual disc-jockey. Pai e filho.
O encontro está marcado para quinta-feira à noite, quando for apresentado o programa dos 40 anos do Jamaica para os próximos meses, e juntará na cabine os cinco homens que colocaram música ao longo destes anos.
Mário Dias, a trabalhar na rádio TSF, foi o primeiro DJ do Jamaica, em 1975, quatro anos depois da abertura da discoteca. Tinha na altura 23 anos e viu naquele trabalho a oportunidade de se aproximar daquilo que mais queria: fazer rádio.
Na altura não era comum dizer-se DJ, mas sim alguém que passava música numa discoteca, mostrando e apresentando vinil atrás de vinil, com as novidades rock e reggae que chegavam de fora e também com o que se ouvia em Portugal: Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Fausto.
Em entrevista à agência Lusa, Mário Dias recordou que muita gente também levava discos de casa, alguns que ainda não tinham saído em Portugal, como os primeiros singles dos Talking Heads, de Blondie e Bruce Springsteen.
"O Jamaica era frequentado essencialmente por malta de esquerda e como eu tinha o privilégio de usar o microfone, era sempre o reviralho a noite inteira. Falava entre os discos, apresentava as músicas, mandava bocas, que é coisa que não se faz agora", disse Mário Dias entre risos.
O jornalista da TSF ficou no Jamaica até 1987 e desde aí até 2006 o lugar foi ocupado por Jorge Bernardino, Armando Oliveira e Pedro Rodrigues.
Atualmente é Bruno Dias, o filho, de 30 anos, que assume o mesmo papel do pai, Mário Dias.
É o DJ residente do Jamaica desde 2006, depois de ter passado pelo Ritz Club e pelo Tokyo, mas lembra-se desde sempre de estar naquela discoteca.
"Sentava-me em cima de uma caixa de vinil na cabine e passava lá as noites, porque achava piada àquilo. Uma vez por outra deixavam-me passar uns discos e fui ganhando o bichinho", explicou o DJ à agência Lusa.
Hoje, Bruno Dias ainda inclui na seleção musical muitos temas que passavam há 30 anos no Jamaica, "porque as boas músicas são intemporais".
"Noto, mas dá-me gozo, passar um Zeca Afonso, olhar para a pista e ver que há meia dúzia de pessoas que ficam com cara de quem não está a gostar da música", reconheceu.
Ainda que refugiado no espaço do DJ, na cabine atrás do aparelho de onde debita a música, Bruno Dias tem a perceção que há várias gerações a dançar no espaço do Jamaica: "De vez em quando aparecem pessoas que dizem que conheciam o meu pai e que gostavam".
Apesar do desgaste da vida noturna, do qual não tem saudades, Mário Dias relembra com alguma saudade as histórias de muitas noites a escolher música para os outros, ainda que esses outros fossem músicos.
"O Joe Strummer veio cá com a banda [The Clash] e ficou mais oito ou 15 dias de férias e todas as noites ia ao Jamaica. Ficámos amigos. Era um gajo do caraças e passava completamente despercebido, era o anti-vedeta absoluto", elogiou o radialista.
Há pelo menos uma tradição que passou de pai para filho, e também pelos restantes DJ que puseram música naquela discoteca ao longo de 40 anos: As noites do Jamaica terminam sempre com uma valsa".

Évora: a única funcionária do Museu de Artesanato foi despedida


Soubemos hoje que a única funcionária do CAT antigo museu de artesanato de Évora - uma técnica superior em turismo que fazia tudo desde lavar o chão a organizar exposições - foi despedida.

Esta funcionária, que laborava no Turismo há cerca de nove anos, entre recibos verdes e contratos a prazo, passou os últimos meses - desde o recente encerramento do espaço - sozinha dentro do museu encerrado e cumpre esta como a ultima semana de trabalho. Ceia da Silva considerou que o Turismo do Alentejo não tem verba para lhe pagar.

Entretanto as obras de transformação em museu de artesanato e design prosseguem e em breve, certamente, o Turismo do Alentejo e a Câmara Municipal de Évora contratarão os prometidos técnicos superiores em design e… turismo, para o novo museu privado. O lugar de Director já está assegurado para a companheira do próprio coleccionador: Inês Secca Ruivo.

Entretanto, Ceia da Silva também contactou alguns proprietários das peças de artesanato que estavam emprestadas ao anterior acervo do CAT, inquirindo do “interesse em manter-se essa cedência” (para o novo projecto) “que muito nos agradaria” não obstante e “caso prefira que as peças lhe sejam devolvidas agradecemos o contacto com os nossos serviços.”

Inquirido sobre detalhes desse novo projecto que já se chamou “Museu de Design Paulo Parra” e agora se chama “ Museu de Artesanato e Design” Ceia da Silva afirma que o mesmo “encontra-se em elaboração” muito embora as obras já tenham arrancado “não sendo público até que esteja executado”.

Associação Árvore de Pedra

"Das mãos prós pés"

Fazer meia era uma tarefa essencialmente feminina e até bastante tarde no século XX “fazer meia” foi uma ocupação que envolveu grande parte das mulheres dos campos alentejanos. As raparigas iniciavam-se por volta dos doze anos, com as mães ou as avós. Um saber que passava de geração em geração, sendo um dote muito louvado nas meninas da província que se esmeravam em fazer as meias mais bonitas.
As meias de mulher, usadas no trabalho do campo eram compridas, ajustadas à perna e seguras à coxa com elástico. As meias de homem eram muitas vezes adornadas com 3 riscas de cor no elástico. Em ambos os casos usavam-se cores fortes, linha grossa e pontos simples para as meias de trabalho e linha branca, muito fina, nas meias rendadas destinadas aos dias especiais.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dialecto de cá [3]


Livro essencial, este Dicionário de Falares do Alentejo, no estancar da erosão da cultura transtagana.
Continuo a dar vaia dos termos que entendo por mais curiosos. Nalguns, acrescento notas que fui recolhendo na lavra das minhas gentes.

HARPA, s. f. Fome, apetite (GAS).
IMPAZINAR, v.int. e tr. Abarrotar-se de comida.
INDRÓMINA, s. f. Mentira.
INTÉ, prep. Até (Aviz).
JAGODES, adj. Ordinário, estafermo, troca-tintas. Em Messejana, ouvi pela primeira vez este termo e percebi que é empregue com frequência.
JANEIRO, s. m. O cio dos gatos.
JUDEU, s. m. Susto, sobressalto (Mora e Serpa – GAS). Também se emprega o termo relativamente a uma pessoa que gosta de fazer partidas a outrem.
LAMBANA, s. f. Soco, murro, bofetada (JPM). Comida mal confeccionada e de sabor desagradável (MJS).
LANEDO, s. m. Burburinho, algazarra, desordem (Odemira – JPM).
LARÉU, s. m. Vadiagem, vida despreocupada.
LAZEIRA, s. f. Preguiça, indolência. Porcaria, sujidade (Santiago do Cacém). Este termo é empregue, com os dois significados, em muitos locais do Alentejo.
LIMPANTE, s. m. Rodilha para limpar louça, talheres, etc. (Vila Viçosa – JPM); guardanapo.
LIORNA, s. f. Confusão, enredo (Cabeça Gorda/Beja). Trabalho imperfeito (Almodôvar).
LUZECU, s. m. Pirilampo.
MACAVENCO, adj. Parvo, ingénuo (Escoural). Já ouvi este termo, noutros locais do Alentejo, para designar uma pessoa feia.
MAGANA, s. f. Mulher dissoluta (Serpa – JPM; Mourão – AJF); mulher divertida, descontraída, jovial. Observação: não encontramos um único alentejano que nos confirmasse o significado proposto por José Pedro Machado ou Agostinho José Fortes. Sem querer entrar em controvérsias, afirmo que é frequente ouvir: vamos às maganas.
MALATO, s. m. Borrego de um ano (Alandroal).
MALINA, s. f. Qualquer doença grave. Mulher de mau feitio. No último caso, o mesmo se diz do masculino.
MALTÊS, adj. Vagabundo, vadio. Sem entrar na questão etimológica da palavra, em tempos idos, o termo designava pessoas que tinham uma vida nómada, geralmente, porque não eram aceites no mercado de trabalho ou se recusavam a ser por rebeldia. Sublinhando o atrás referido, a condição do maltês era muito heterogénea, indo do deficiente até ao foragido político, da pouca até à muita instrução. Diz-se que, ainda que informal, os malteses tinham um código de conduta cavalheiro.
MANFIO, s. m. Indivíduo que não inspira confiança.
MAZARULHO, adj. Cair de mazarulho. Cair desamparado (Santiago do Cacém). Nalguns locais também se emprega o termo para designar uma pessoa corpulenta.
MILHADURA, s. f. Gorjeta, gratificação (GAS). Ração de milho (JPM).
MIÚFA, s. f. Medo (DB).
NÊNCIO, adj. Néscio, parvo (JPM). É comum o uso deste adjectivo em Alcáçovas.
NOITIBÓ, adj. Noctívago (Portalegre – DB). Ouvi usar o termo noutros locais do Alentejo com o mesmo significado.
OCUPADA, adj. Grávida (Cuba).
OPA, s. f. Borrar a opa, borrar a pintura, fazer asneira, fracassar (MJS). Para mim, o termo sempre significou, traje ou vestuário.
ORGADURA, s. f. Esqueleto (JPM).
PAIVANTE, s. m. Cigarro.
PAPELEIRO, adj. Que é amigo de fazer escândalos, actos de leviandade.
PARRANÇA, s. e adj. Parrana, gebo, gordo e sem actividade.
PATATUM, s. m. Perda dos sentidos, vertigem, chilique (Santo Amador – Moura).
PELE, s. f. Bebedeira (GAS).
PENICHA, s. f. Pessoa sovina, avarenta (Portel – GAS).
PRANTAR, v. tr. Pôr, colocar.

Luís Maneta: o drama de um homem só

Sempre me habituei e fui habituado a ter uma escrita linear, sem subterfúgios. É uma clareza que procuro. E que insisto em ser a minha. Escrever é falar verdade. Dizer o que se pensa e o que se sente. O que se sabe e não se oculta. 
Soube, por este blogue - e confirmei-o posteriormente -, que o Carlos Trigo tinha sido despedido do REGISTO (espero que sem apelo nem agravo) e que o Luís Maneta tinha sido, de novo, convidado a colaborar no jornal. E que aceitou. Acho bem. Luís Maneta é um jornalista com provas dadas. E isso é importante. Mas não chega. E explico porquê: Luís Maneta nunca percebeu que um jornal, uma rádio, ou o que seja, é um espaço de afirmação colectivo, cujo objectivo é servir, dar pistas, a quem nos ouve ou lê. Um jornal não é algo para, da bancada, escrevermos cinco ou seis mil caracteres e embolsarmos umas centenas de euros. Um jornal é uma coisa séria: é um espaço de troca de informação, de serviço público, de verdade, de notícia. 
Há uns meses, quando o patrão do REGISTO  foi almoçar comigo e me disse que não tinha ninguém para fazer o jornal, e estava descalço (figurativamente falando) porque o Luís Maneta tinha saído, nós (eu e o Paulo Nobre. O Pinto Sá já lá estava) assegurámos a sua feitura, com um compromisso: queríamos ter as contas certas e o que o jornal escrevia só a nós dizia respeito. E que éramos uma equipa. Nunca admitimos tutores, como qualquer jornalista nunca deve admitir.
Hoje o Maneta volta ao jornal. Mais uma vez sozinho. (Como já o tinha feito quando decidiu fazer um jornaleco concorrente do Imenso Sul, e foi penoso ver aquilo que apresentou na altura). E vai - sabe-se o estado financeiro do jornal - continuar a encher páginas e páginas com  informação da LUSA. 
O Trigo foi-se com a brevidade que se esperava. O Maneta ir-se-á também, em breve, porque é uma afirmação sem equipa, sem projecto, sem finalidade... E o dito sr. Simões, dono do jornal, continuará a abrir os cordões à bolsa: para nada! Tanta incompetência, tanto amadorismo, tanto aproveitamento, tanto dinheiro jogado à rua dão uma autêntica dor de alma!

Uma pergunta a que importa responder


Tanta gente insatisfeita com o resultado das eleições, tanta gente a dizer mal de quem ganha, mas ninguém a dizer porque é que a esquerda não consegue convencer o povo. Porque será?


Alentejana
25 Janeiro, 2011 16:15

Faltam apenas 1823 dias para me ver livre de si de VEZ


Exmo. Senhor Presidente

Ontem Vª Ex.ª venceu as eleições sendo eleito por aproximadamente 22%dos Portugueses. Mais de 47% não se deram ao trabalho de ir votar e os restantes votaram contra si.
Dentro destes 22%, provavelmente estarão aqueles que Vª EXª ajudou quando em 80/81 foi Ministro das Finanças de Sá Carneiro e propôs a redução dos Salários!
Destes 22%, provavelmente existem muitos que ficaram contentes quando Vª EXª já como 1º Ministro Reformulou as Leis Laborais e agrárias.
Também nestes 22% estarão aqueles que ganharam quando Vª Ex.ª como 1º Ministro desmantelou quase toda a rede ferroviária do País e as Pescas.
Ainda dentro desta percentagem estarão aqueles que viram os seus terrenos serem adquiridos a preços chorudos para que Vª EXª pudesse dar início ao projecto da Ponte Vasco da Gama, da Barragem do Alqueva, do Aeroporto da Madeira, da EXPO e das inúmeras (e hoje às moscas) auto-estradas que percorrem este País de Lés a Lés.
Neste seu eleitorado, estão sem sombra para duvidas todos os que com Vª EXª negociaram a nossa entrada na CEE, sem exigir contrapartidas às empresas beneficiadas pelos apoios estruturais, ou mesmo sem exigir à Alemanha a compensação económica por destruir o nosso aparelho produtivo, para nos transformar num paraíso turístico dos povos do norte da Europa.
Mas o pior, é que dentro destes seus eleitores estão também os que se esqueceram que VªEXª criou o IRS e o IRC para nos sacar o pouco que já nos sobrava.
Esqueceram-se ainda esses seus eleitores que VªExª foi 1ª Ministro durante os 10 anos em que por dia vinham milhares de Euros para Portugal, que o seu governo deixou aplicar em empresas fantasmas, improdutivas e que hoje já não existem.
Esqueceram-se ainda esses seus eleitores, que foi Vª EXª que iniciou a devolução de terras e as entregou de novo ao abandono (na melhor das hipóteses algumas foram vendidas a estrangeiros que hoje reforçam com aquilo que a nossa terra dá os PIB da Espanha, Da Holanda e de outros Países Europeus).
Dentro deste seu eleitorado estarão também os militantes do PS, que se encontram mais à direita e que já se esqueceram que Sousa Franco reprovou por diversas vezes as contas apresentadas pelos seus governos no Tribunal Constitucional.
Depois, já quando o País estava em queda livre, retirou-se e fez a sua reentre como presidente da república, qual salvador da pátria, onde aprovou todas as leis que penalizam os cidadãos deixando passar aquelas que ajudam a salvar a banca (dos seus amigos).
Ontem Vª Exª ganhou de novo as eleições, e vai durante 5 anos andar pelo País a dizer que vem salvar Portugal. Pátria que não salvou (e que ajudou a enterrar) durante décadas. Essas décadas em que não foi “Politico Profissional”.
Ontem Vª Exª ganhou as eleições e eu comecei a minha contagem decrescente (qual preso na prisão)... faltam apenas 1823 dias para me ver livre de si de VEZ.

Anónimo
25 Janeiro, 2011 02:00

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lamúria do cego que antes o fosse

Quando era cego eu previa
(que freguesia!)
o que ia acontecer.
Era o que se dizia…

Mas agora, que bem vejo,
só agoiro do que vejo
e já ninguém me quer crer…

Porquê,
se todos o podem ver!

Alexandre O’Neill

Três canções dedicadas ao presidente e outra de amor







No rescaldo da noite eleitoral: nem as moscas mudaram


Acompanhei a campanha eleitoral por dentro de uma das candidaturas, por isso não tive uma grande atenção para as outras campanhas (aliás só percebi as extraordinárias potencialidades de José Manuel Coelho na parte final da campanha eleitoral), facto que faz com que estas notas abordem, sobretudo, os resultados eleitorais e os seus desenvolvimentos. Mas julgo que a generalidade dos grandes candidatos perdeu, embora uns mais do que outros. Assim:

1. Cavaco Silva - ganhou as eleições à 1ª volta, como pretendia, mas a perda de cerca de meio milhão de votos, a crispação com que "festejou" a vitória, os remoques constantes no seu discurso fazendo acreditar que  "a vingança" é uma das suas características, fazem com que esta seja uma vitória com sabor bem amargo: depois destas eleições Cavaco Silva aparece fragilizado, já sem a aura de impoluto, crispado e, em muitos casos, tratado quase como um ser banal, até quase "poucochinho".
2. Manuel Alegre - teve um resultado negro, apoiado pelo PS e pelo BE, conseguiu menos 300 mil votos do que há cinco anos quando nenhum destes partidos o apoiou. É obra! A campanha de Manuel Alegre foi também de uma "pobreza franciscana", com tensões entre o PS e o BE, e entre as várias facções do PS. Esperava-se mais da estatura intelectual de Manuel Alegre, que rondou o vulgar durante a campanha e que, na noite eleitoral, se refugiou mais uma vez no abraço aos seus companheiros do PS e a José Sócrates, relegando o BE para um papel marginal, embora muitos dos seus dirigentes aspirassem a que o apoio a Alegre fizesse com que a ala esquerda socialista se demarcasse de Sócrates: aconteceu o contrário - com este resultado, Sócrates ficou, de novo, com o partido na mão, após a derrota em toda a linha da sua ala esquerda.
3.Fernando Nobre - com um discurso próximo da indigência, o presidente da AMI obteve um bom resultado, mas que de nada lhe vai servir. Nas suas estruturas esteve sobretudo gente ligada à área soarista, mas também independentes, fartos da partidocracia. Os votos que obteve tiveram esse aspecto de protesto e de "sabotagem" da candidatura de Manuel Alegre. Mas pouco mais significado podem ter.
4. Francisco Lopes - obteve um resultado abaixo daquele que, nas circunstâncias actuais, se esperaria. Perdeu Beja, perdeu umas largas dezenas de milhar de votos relativamente a 2006, altura em que o eleitorado do PCP foi atraído e, em muitos casos, votou em grande número em Manuel Alegre. Agora, sem concorrência à sua esquerda, Francisco Lopes teve o mérito de segurar os habituais votantes no PCP (mas não todos) e não conseguiu alargar a sua área de influência. Foi uma candidatura "virada para dentro", destinada a olear a "máquina" e a marcar calendário, sem qualquer expressão externa.
5. José Manuel Coelho - foi a surpresa. Vindo do nada conseguiu, num registo populista, atrair a atenção e tornar-se, sem o apoio de qualquer partido ou grupo, em 15 dias uma figura pública recolhendo muitos votos de protesto,com especial significado na Madeira, onde Jardim já não é o que era.
6.Defensor Moura - fez o seu papel, que não sei exactamente qual era, com um discurso desenvolto, mas, pelos vistos, pouco cativante. Julguei que tivesse mais votos oriundos da área socialista. Parece que não os conseguiu cativar, beneficiando assim Fernando Nobre. Teve e terá pouco significado.

Quanto aos partidos:
O PSD gostou desta vitória de Cavaco Silva, como é óbvio, mas não ficou exultante. O mau relacionamento entre Cavaco Silva e Passos Coelho não vem de hoje. São dois estilos e dois olhares sobre o mundo e a vida muito diferentes. Cavaco Silva não é, de facto, o presidente deste PSD.
O PS oficial também gostou da vitória de Cavaco Silva. Se houver dissolução da Assembleia os socialistas julgam ter argumentos eleitorais fortes, dada a ligação de Cavaco ao PSD, para o acusarem de promover a instabilidade, e o relacionamento entre Cavaco e Sócrates poderá ser mais pacífico do que o relacionamento Sócrates/Alegre, com o Bloco de Esquerda de permeio.
O BE foi, claramente, o grande derrotado destas eleições. A sua estratégia mostrou-se errada, fez o frete de caminhar de mãos dadas com José Sócrates e, numa altura em que conseguia alguma afirmação eleitoral e uma estratégia identificadora, desbaratou esse capital, entregando a contestação à esquerda ao candidato do PCP. Quando em termos de cúpula dirigente começam também a existir problemas, é difícil perceber qual será o caminho que o BE vai percorrer nos próximos tempos. Mas que serão tempos difíceis para os bloquistas, lá isso serão.
O CDS também ganhou e ficou bem visto por não ter apresentado um candidato à direita de Cavaco, o que poderia ter posto a sua reeleição em causa. Nada fazendo, mantém-se à espera. O jackpot vai ser quando o PSD precisar dele para ter maioria na Assembleia da República.
O PCP ficou como estava: a defender o seu reduto que, cada vez, vai sendo mais exíguo. Num momento com condições que pareciam ideais para uma abertura do seu espaço político, o candidato do PCP conseguiu um resultado muito abaixo do que conseguiu Jerónimo de Sousa há 5 anos, quando se teve que confrontar com um Manuel Alegre sem apoios partidários. É um PCP em perda, que tenta segurar os dedos, depois de já lhe terem levado as jóias.
A abstenção e os votos nulos e brancos. Foi o que foi.  Apesar de eu achar que o direito ao voto universal foi uma grande conquista da Humanidade - e por assim o achar - considero que o não voto pode ser usado como instrumento político. Por isso, considero que a abstenção ainda ficou abaixo do que - face ao panorama dos candidatos, do país e do que nos apresentam como futuro e como escolhas - deveria ter ficado.

O Bloco de Esquerda foi o grande derrotado destas eleições?


Quem tramou Manuel Alegre?
A resposta é simples: Mário Soares e Sócrates!
Mário Soares por vingança pessoal fez avançar o homem da AMI, que fez uma péssima campanha mas conseguiu dois dígitos na votação, congregando alguns dos que não se reviam em nenhuma outra candidatura e que sabendo que o homem não ganhava, votaram no ser humano que tem feito um bom trabalho no terreno e, claro, os Soaristas do PS. 
Sócrates viu-se livre de Alegre e tem no poder o homem que quis quando fez avançar Soares contra Alegre.
Cavaco Silva é o homem do PS de Sócrates.  O que deixa passar todas as políticas de direita e que diz que não a meia dúzias de leis mais à esquerda, melhor dizendo social e moralmente mais confusas para a sua alma cristã, mas que as deixa passar para não provocar uma “crise” que só a eles mete medo, pois desestabilizaria os poderes “podres” instituídos.
O PC manteve, mais coisa menos coisa, o seu eleitorado, fiel e certinho, provando mesmo que o anónimo Francisco Lopes pode vir a ter um lugar na politica nacional!
O Coelho, foi uma anedota, mas o povo mostrou que quando não tem opção pode cometer loucuras e colocar quem quiser a ter uma votação impensável, mas claro que este candidato só poderia vir da Madeira, onde desde sempre tem mandado um palhaço semelhante. Vamos ver o que fazem os madeirenses com o seu novo bobo da corte!
O homem de Viana do Castelo, foi brilhante no discurso final:  parabéns ao adversário porquê? Se não concorda com ele! Ficavam amiguinhos no fim? Claro que não! 
Mas o problema destas eleições não é Cavaco Silva que teremos de aturar mais 5 anos! Nem Sócrates que vai tentar que ele dissolva o Parlamento para não ter que lidar com a falta de dinheiro, ou sequer é Passos Coelho, que não quer ir para o governo com a ajuda e sob a alçada de Cavaco! O problema destas eleições caiu direitinho no colo do Bloco de Esquerda... Apoiou Alegre e viu o seu nome ligado ao de Sócrates!
Ao contrário do que dizem muitos comentadores, isso não seria nada de estranho nem inédito, a esquerda apoiou Eanes varias vezes, apoiou Sampaio duas vezes e até se juntou para lá colocar Soares!
Essa experiência é que o Bloco deveria ter tido em conta. O Soares estava para os eleitores de esquerda como hoje está Sócrates, era uma erva daninha a derrotar e eis que Cunhal, com medo de uma “crise” política e da tomada de poder pela “direita” apela aos eleitores para que ganhe Soares! Eles obedeceram, Soares ganhou e a queda do PC começou. Soares vence Cunhal, com as próprias armas deste! (quantas vezes se terá arrependido Cunhal do apelo que fez?)
Por essa altura, um eleitorado mais à direita (ou liberal) do PC achou que “se eram a mesma coisa mais valia mudarem-se logo”, o PC começou a baixar e só há meia dúzia de anos se tem visto a sua subida! 
O Bloco tem o mesmo problema: hoje quantos eleitores do Bloco, que quando da sua saída do PC ou de outros partidos tiveram pruridos de passar para o PS, não estarão hoje a pensar “se é para votar ao lado do PS é melhor mudar logo”? Eu, só esta noite já ouvi dois!
Louça e Portas criaram um problema, que não lhes deu um presidente, mas que por certo lhes deu uma dor de cabeça!
Quanto a Alegre, foi triste ver um politico experiente, talvez dos poucos PS de esquerda agradecer ao seu camarada José Sócrates o tê-lo entalado e claro aos “outros partidos, que ele Alegre, entalou também”. 
Mas amanhã é outro dia, a gasolina vai baixar! A Alemanha dentro de meses tem de dar por terminada esta crise económica que deixou criar, pois os seus bens de consumo começam a aumentar e vai ter de dar de comer à "Grande e Gorda" raça Alemã e, por cá, continuaremos nas negociatas do costume, com as necessidades do costume e, claro, o Povo do costume!

Lurdes
24 Janeiro, 2011 02:33 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vasco, a coisa continua a mesma lenga-lenga…


Presidenciais - 2006/2011

(clique na imagem para aumentar)

O candidato da Coelha foi reeleito

Desabafo em dia eleitoral


Sou obrigado a concluir que o meu curso de Contabilidade tirado durante o dia, e em horário normal, na antiga Escola Industrial e Comercial de Beja, comparado com o que tiraram os meus antigos colegas de curso ( Cavaco Silva, Oliveira e Costa, Eduardo Catroga ) noutras escolas comerciais, não vale mesmo nada caramba!
Porra que nem de presidente de Junta passei...
Mas quantas vezes alguns teriam que nascer para terem telhados como o meu?

Manuel António Domingos
23 Janeiro, 2011 10:01

sábado, 22 de janeiro de 2011

Em reflexão


Para não me deixar influenciar e respeitando na integra este "dia de reflexão", acabadinho de chegar de Guimarães, no pós-campanha eleitoral, peço a quem de direito: seria possível mandarem baixar a música no apartamento aqui ao lado? É que assim não consigo reflectir em condições. Obrigado!

Atinado amigo, Corto Maltese!


Hugo Pratt

(carregue na imagem para aumentar)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Acredito na 2ª volta

Estas foram, talvez, as menos interessantes e mobilizadoras eleições da democracia portuguesa, designadamente para a Presidência da República.
Tal ficou a dever-se, entre outras razões ao descrédito nos políticos, à crise a que são associados os candidatos (incluindo os que não tiveram responsabilidades governativas, directamente ou através dos partidos que os apoiam), à falta de capacidade revelada pela generalidade dos candidatos para mobilizar o eleitorado, às campanhas que não centrarm o debate no que verdadeiramente está em causa - o futuro do país e da democracia (a sua qualificação), os poderes do PR e como vão ser exercidos e respeitada a Constituição.
Por isso é previsível que:
- A abstenção suba, aproximando-se dos 50%;
- Cavaco Silva vença com um resultado próximo dos 50% (acredito que não os atinja - todas as sondagens mostram que desceu em relação às anteriores);
- Manuel Alegre alcance entre os 25% (soma da sua anterior votação mais a de Francisco Louçã) e 30% (acrescentando àquela 1/3 da votação obtida por Mário Soares);
- Fernado Nobre alcance uma votação entre os 10% e os 15% (parte ou a totalidade da votação de Mário Soares);
- Francisco Lopes alcance os 9%, a mesma votação obtida por Jerónimo de Sousa;
- Defensor de Moura e José Manuel Coelho atinjam os 2% ou 3%, podendo este último ir mais além se, em vez de se absterem, alguns eleitores optarem pelo voto de protesto nele.

Fim de festa


A intriga através do assessor, os negócios milionários com os amigos do BPN, a casa de férias no Algarve conseguida através de uma permuta com ou sem pagamento de sisa … enfim, afinal havia outro Cavaco Silva num cinema perto de si. Onde é que já vimos este filme? Licenciatura ao domingo, Freeport com tios e primos ao barulho, arranjinhos para controlar a TVI … mudam-se argumentos, mudam-se vontades mas permanece um tom pelo qual parece afinar a política doméstica: puro folclore transmontano. Da mesma forma cirúrgica como foi desenterrado o caso Freeport para embaraçar José Sócrates, surgem agora dúvidas sobre assuntos concretos relativamente à actuação de Cavaco Silva, das quais este não se irá livrar ainda que ganhe as eleições no próximo domingo. A estratégia parece clara: enredar o Presidente da República numa teia de insinuações e suspeitas condicionando a sua actuação institucional. Cavaco Silva só irá romper o cerco quando e se conseguir explicar estes casos, se esclarecer de vez as suspeitas que pairam sobre a sua actuação, se, por exemplo, mostrar cópia do cheque com que comprou as acções da Sociedade Lusa de Negócios. A estratégia do silêncio não traz mais do que ganhos imediatos. Sendo que Manuel Alegre não foi feliz ao transformar estes temas em temas de campanha. Não é através de suspeitas e insinuações lançadas sobre os adversários que se conquistam eleitores, como Pedro Santana Lopes e Manuela Ferreira Leite já puderam constatar.

Sondagens. Credíveis?


Como se pode manipular um acto eleitoral.

Texto de Óscar Mascarenhas, antigo presidente do conselho Deontológico do Sinsicato dos Jornalistas, a propósito da sondagem da Marktest a que o Carlos Júlio já aqui se referiu.

Um Caso de Polícia

A Marktest realizou de 14 a 16 de Janeiro uma sondagem para o Diário Económico e TSF para analisar as intenções de voto nas eleições presidenciais do próximo domingo. Os resultados desta sondagem, que dá a Cavaco Silva uma folgada vitória à primeira volta, têm sido amplamente divulgados durante o dia de hoje por toda a comunicação social e foram até objecto de debates e fóruns em estações de rádio e televisão.
Ora vejamos a ficha técnica da pretensa sondagem:
1. O universo é a população com mais de 18 anos e que habita em residências com telefone fixo;
2. A amostra é constituída por um total de 802 inquiridos e foi estratificada por 6 grandes regiões:
2.1. Grande Lisboa 156 inquiridos (19,5% do total);
2.2. Grande Porto 88 inquiridos (11,0% do total);
2.3. Litoral Norte 155 inquiridos (19,3% do total);
2.4. Interior Norte 181 inquiridos (22,6% do total);
2.5. Litoral Centro 129 inquiridos (16,1% do total);
2.6. Sul, mesmo incluindo a Península de Setúbal, 93 inquiridos
(11,6% do total).
3. Do total dos inquiridos 802, responderam a este inquérito 22,6%, ou seja 181 inquiridos. Destes 35,6% responderam não sabe/não responde, isto é, só 116 responderam efectivamente a este inquérito e mesmo dentro destes ouve alguns indecisos que foram distribuídos proporcionalmente aos que declaram sentido de voto.
Vejamos agora qual é, de acordo com os últimos dados do INE, a distribuição da população portuguesa pelas 6 grandes regiões, em que este inquérito foi estratificado:
Na Grande Lisboa, reside 20% da população, no Grande Porto 12,7%, no Litoral Norte 20,1%, no Interior Norte 11,9%, no Litoral Centro 15,7% e no Sul 19,6%.
Em conclusão: a Marktest tendo por base a resposta de 100 inquiridos, foi este o nº avançado na TSF pelo Sr. Luís Queirós director da Marktest, e uma amostra que atribui aos residentes do Interior Norte um peso correspondente a quase π da população do país, quando efectivamente o seu peso é de pouco mais do que 1/10 e atribuindo aos residentes na região Sul um peso de pouco mais de 1/10, quando o seu peso é de quase 1/5, conseguiu chegar aos brilhantes resultados queesta sondagem apresenta.
Com um pouco mais de esforço e esta sondagem ignorava a vontade dos cerca de 2 milhões de portugueses que residem a sul do País e atribuía aos residentes no Interior Norte, sempre tão esquecidos, um peso determinante no direito de decidir o sentido de voto de todos os portugueses.
Aquilo a que hoje assistimos, pelas suas possíveis implicações no sentido de voto de muitos portugueses, é um verdadeiro caso de polícia, que deveria obrigar as entidades responsáveis pelo acompanhamento destas pretensas sondagens a pura e simplesmente investigar aquilo que sucedeu e actuar, por forma a impedir que este tipo descarado de manipulações possa continuar a ser feito. Como se já não bastasse o silenciamento e deturpação, vêm agora empresas de sondagens que são autênticos burlões, procurar confundir e condicionar o sentido de voto de milhares e milhares de portugueses.

Lisboa, 19 de Janeiro de 2011

Óscar Mascarenhas

José Manuel Coelho é alternativa à abstenção e aos brancos e nulos?


Há pouco recebi um telefonema de alguém que prezo e que me desafiava a pôr de lado a minha vontade de abstenção e a votar em José Manuel Coelho - esse sim é que seria o candidato do protesto e da contestação! 
A pessoa que me telefonou há muito que defende que os dois partidos centrais do sistema político são um verdadeiro cancro na sociedade portuguesa, num conluio de partilha de interesses, e tem um olhar muito negativo sobre os outros intervenientes na vida política. No entanto, segundo me disse, José Manuel Coelho é uma lufada de ar fresco nesta campanha, chamando os "bois pelo nome": ontem Coelho disse que não se pode votar Alegre porque ele é apoiado pelo "chefe dos ladrões". A reportagem passou nas notícias das 20 horas e depois, parece, mais ninguém a viu. Nem no site da RTP - disse-me este amigo.
A proposta dele é que a abstenção e os votos em branco engrossem a votação de José Manuel Coelho - o único candidato que "incomoda" os partidos do sistema - e, se forem muitos, contando para que possa haver uma segunda volta e inviabilizando a vitória de Cavaco à primeira.
Fica aqui a proposta que me foi feita. E que até tem alguma razoabilidade enquanto espaço de contestação e de afirmação da necessidade de uma "autêntica volta" no actual sistema político.

Fim de linha!


Imagem - Interior do Castelo de Évora Monte

95 mil! 95 mil, ouviste?

Encontrei-o na rua, ontem ao final do dia. Conheço-o desde os anos 80, altura em que colaboramos na realização de uma exposição de artes e saberes de uma comunidade socialmente estigmatizada – zona Oeste da cidade de Évora. Compatibilizando os seus cabelos brancos com a genica que sempre lhe conheci, este funcionário público atirou como se uma rajada se tratasse: “Vou-me reformar! Já meti os papéis.” Pensei felicitá-lo mas ele não me deu tempo nem espaço. Continuou como se do mesmo assunto se tratasse: Tu sabes quantas novas inscrições de desemprego entraram desde o início de Janeiro?
Não arrisquei nada porque era o seu estado de indignação que me surpreendia os sentidos. Ele insistiu para que eu adiantasse um número. E eu a pensar que seria de esperar que aquele homem estivesse num momento de felicidade e de conciliação com o mundo…
95 mil! 95 mil inscritos, neste país como novos desempregados, só desde o inicio do mês até agora! E ainda vamos no dia 20 de Janeiro! Continuou contando-me as várias estratégias  que estão a ser usadas para reduzir o número de desempregados com acesso ao subsídio. De estratégias para reduzir o desemprego ele não sabe. Conhece, isso sim, muitos casos concretos com que se cruza e a que não é insensível… Daí a sua agitação, o incómodo, o mau estar… E eu a pensar que ele estaria no tempo de desfrutar de um merecido tempo de tranquilidade… mas a realidade não permite, de todo.

Sondagens e comparações: Cavaco à primeira?


Mais sondagens e comparações aqui. A tendência das várias sondagens é a vitória de Cavaco Silva à primeira volta na casa dos 50%, seguido de Alegre na casa dos 20% e Nobre nos 10%. Francisco Lopes não deverá chegar ao resultado de Jerónimo de Sousa há cinco anos (8,5%) e os outros dois candidatos ficam cá por baixo.

Despropaganda política


Recebi este texto, via mail, do seu autor, José Rodrigues dos Santos, antropólogo e professor da Universidade de Évora. O texto foi publicado nos "users" da Universidade e tem provocado algum debate interno sobre as presidenciais. Agradecendo ao seu autor, publico-o na integra aqui no acincotons.

"A propaganda pode ser negativa sem ser positiva, diria La Palisse: sem negar a uns o que ofereceria a outros. E é essa a minha intenção: declarar o que não é o meu candidato presidencial, sem propagandear nenhum, que já cansa.

.Em primeiro lugar, o meu candidato não pode ser um homem que favoreceu o regabofe dos fundos europeus quando a mana choveu, e é responsável pelo esbanjamento desses recursos. Que fez inchar o Estado para além de toda a razoabilidade, com critérios de recrutamento pelo menos duvidosos e com os resultados que sabemos. Também não pode ser um homem que acumula três reformas (e tem parte da responsabilidade nas normas que o permitem) e se queixa que a esposa vive à sua custa porque apenas tem uma reforma de 800€, frente a pessoas que auferem menos de 300€ e são tantas. Não poderá nunca ser um homem que se tornou cúmplice (pelo menos) de operações de gestão ruinosa e portanto criminosa como as que consistem em comprar a uma sociedade acções por 1€ para revendê-las à mesmíssima sociedade por 2,4€ menos de um ano depois. Ninguém conseguiu explicar como se justifica essa mais-valia, mas é evidente que se trata de falcatrua. Ah, o Professor de Finanças de Coimbra, triste e cinzenta memória dos eunucos apolíticos será que nada aprendemos? Nem poderá o meu candidato ser um homem que se faz acompanhar pela mesmíssima matilha de predadores das mesmíssimas sociedades em que o Estado, perdão, nós, vimos cinco mil milhões de euros (o equivalente de seis anos de cortes nos salários da FP) desaparecer como por encantamento, e ali estão eles, que me perdoem, na Comissão de Desonra que lhe garante a pós-aposentação. O meu candidato não pode ser um homem que possui uma rica vivenda na praia e já não sabe como a comprou, nem a quem, nem por que preço, nem em que cartório se encontra a escritura, nem por que razão a dita vivenda não figura na conservatória. O candidato no qual quero votar também não pode ser um homem que, no cargo de presidente da República, se mostra fraco, confuso, ao vir expor na televisão, pasme-se! Em alocução solene ao país que está preocupado, coitado, porque teme que tenham entrado abusivamente no seu sistema e no seu email, anunciando que vai mandar inquirir. Patético, se não fosse inquietante: um Presidente da República com tais “preocupações” não tem dúvidas: se suspeita que entraram no seu computador, manda inquirir e age em consequência, e se for caso disso, depois de resolvido o problema, fala. Não, um homem que correspondesse a essa descrição, se existe, decerto não seria o meu candidato à presidência. 

O meu candidato também não pode ser nenhum homem que continue a considerar-se como herdeiro dos regimes soviéticos, que nunca exprimiu qualquer remorso pelos milhões de mortos das fomes causadas pela política dos seus amigos de referência na Ucrânia dos anos 30, os milhões de opositores ao regime mortos no Gulag, sem contar, quantidade ínfima, as vítimas dos processos de Moscovo. Não, um homem enquadrado por um partido que se calou perante as revoltas polacas dos inícios da década de 50, ou até justificou o esmagamento da revolução húngara de 56, que aprovou e se mantém fiel ao esmagamento da revolta democrática de Praga em 1968 e que continuou a manter a triste ignomínia do “balanço globalmente positivo” desse regimes totalitários que só não importou para Portugal porque não pôde, não esse homem não pode ser o meu candidato. Não acredito nele quando fala de democracia e de liberdade de expressão (quando o seu partido estava pronto a sacrificar uma e outra, e tantas vezes o fez), não acredito num homem que condena a atribuição do prémio Nobel a um dissidente chinês preso por delito de opinião... democrática. Só acredito que esse homem e o partido que o designou representam toda a má-fé política que se pode imaginar. Como iria eu votar nele, se tal homem fosse candidato?

O meu candidato também não pode ser um homem que se lança numa candidatura que mais parece uma comédia escrita por um autor ébrio para os Bonecos de Santo Aleixo e estou a ser generoso, com ilustres encapuçados a puxar cordelinhos e menos ilustres e menos encapuçados a utilizar a pobre rampa de lançamento do pobre do homem para as suas respectivas pequenas estratégias mais ou menos óbvias. Pobre do homem: não tão pobre assim, senão no próprio plano em que pretendeu situar-se: o da moral, da cidadania e da sociedade civil. Não, o meu candidato não pode ser um homem que invoca com soluços na glote as crianças que lhe teriam morrido no colo, e vive dos proveitos duma “fundação” que mais parece o sistema Ben Ali / Trabelsi, mas em escala pequenina, à sua dimensão. Os “Médicos sem Fronteiras” onde se vangloria de ter trabalhado são uma associação, com membros e com assembleias gerais democráticas que elegem (e por vezes não reelegem) os conselhos de administração, onde todos os cargos de responsabilidade, sem excepção, são electivos, e assim é também nos “Médicos do Mundo”, associação dissidente da primeira, por diferenças de orientação da acção. Não. O “bom doutor” que conhece o mundo não quer eleições, nem assembleias-gerais, nem democracias internas, e se for preciso é sinal de coragem (física?), claro. Ao invés, cria uma “fundação” da qual ele se faz presidente vitalício, director geral vitalício, a sua mulher directora designada para sempre (não sei: salvo divórcio? Vão lá saber!), onde as diferentes direcções são dadas ao irmão dos nobres, aos primos nobres, sobrinhos nobres e outros, etc., à discrição? Um homem que utiliza o negócio do humanitário como argumento de chantagem moral (a criança que lhe morre nos braços, suprema obscenidade moral na política), e se desloca no Mercedes topo de gama com estofos de couro claro, ministerial pachá pago por… bem, deixemos, que “coloca” na origem da “fundação” menos de trinta mil euros e gere sozinho um orçamento de 13 a 14 milhões de euros anuais (dos quais pelo menos um terço de fundos públicos, mas vindos de onde? E como?), orçamento de que é gasta para custos da estrutura (ele e família) uma percentagem 2 a 3 vezes superior à de Médicos sem Fronteiras, a tal referência, apesar da diferença de tamanho? Não, esse homem que não diz coisa com coisa e se considera acima dos partidos e está muito abaixo deles, que se reclama da sociedade civil e é, só por conta sua e da família, uma sociedade civil sem acções nem democracias, não pode ser o meu candidato. 

Há outro homem que também não pode ser o meu candidato. É um homem cuja figura evoca o leão ferido da fábula, a quem até o burro vem dar coices. Leão vencido, homem das lutas antigas mas também das combinações partidárias, que teríamos querido ver retirar-se escrevendo poesia, que congregou esperanças – sem dúvida exageradas – mas foi amaldiçoado pela outra família, a dos cordelinhos, não pode ser o meu candidato. Vencido é, mas por ele próprio também, por ser quem é e por ter durante tantas décadas jogado o pequeno jogo dos partidos do qual ninguém sai moralmente incólume.
E agora, é semelhante ao sapo em cima do qual o boi do partido do governo colocou a pesada pata. Avança, diz o partido. Geme o sapo: não posso. Como criticar no essencial o governo do seu partido, sem se desdizer a si próprio? Entalado entre o boi e a pulga. Ah, esses “apoios” entre o controlo da pata do boi e a má-fé da pulga: os neo-arcaicos, cultores de leninismos atrasados no tempo, radicais sem verdadeira base, não lhe deixam margem para respirar. Gasto, vítima da longa série de compromissos políticos partidários que foram a sua vida, não importa no fim de contas se é ou não sincero: é um homem gasto, e sem margem de acção. Agrilhoado pelos “seus”, que é mais cruel. Como poderia ele ser o meu candidato, se esse candidato tem que ser garantia de eficácia e de futuro?

Que me seja perdoado, se tanta benevolência é possível da parte de algum leitor, que considere que o meu candidato também não pode ser um curioso em margem da vida pública (não me refiro a partidos) e sem envergadura para tal cargo: um franco-atirador com piada não é um futuro presidente. Pelo menos, na minha opinião pessoal, que é a que conta … para o meu voto.

E é este o elenco que a nossa república e a nossa sociedade foram capazes de colocar em cima da mesa? E quem nos valerá? Decerto nenhum salvador, nem nenhum tribuno. E os deuses, esses, afundaram-se há muito num interminável crepúsculo.

JRdS

Cavaco a descer... até onde?

Intercampus, 16-19 Janeiro, N=1004, Presencial

Entre parêntesis, mudança desde sondagem anterior da mesma empresa:
Cavaco Silva: 54,6% (-5,5)
Manuel Alegre: 22,8% (-2,5)
Fernando Nobre: 9,1% (+4,9)
Francisco Lopes: 8,2% (+1,9)
José Manuel Coelho: 2,7% (+1,1)
Defensor de Moura: 2,6% (+0,1)
Aqui. A soma disto é 100%.

Copiado daqui.