quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Em defesa do poder local


Já lhe chamam o caso "Towergate", por ter sido numa torre de um castelo que Ilse Uyttersprot, uma autarca belga, foi filmada a ter relações sexuais. Mas os vereadores da câmara de Aalst anunciaram já que mantêm a confiança na presidente. A oposição exige a renúncia imediata da presidente, mas, reunidos numa sessão extraordinária na terça-feira, os vereadores decidiram manter o apoio à autarca. A imprensa belga chama ao escândalo "Towergate", já que Ilse Uyttersprot foi apanhada, por um grupo de jovens que visitava um castelo situado, segundo o jornal Le Soir, em Navarra, Espanha, a ter relações sexuais com o namorado numa das torres. (Visão)

Estou farto de catarsezinhas



Dar uma moeda ou não, é do foro íntimo, nada a dizer, nada a comentar.
Quanto a alimentar os vícios de quem pede... cada um sabe porque pede, cada um sabe porque dá ou não, não somos juízes de ninguém, não somos isentos das nossas culpas próprias.
Quanto ao resto, a questão é simples.
Para onde vai o dinheiro das nossas contribuições?
Para o BPN, BPP e afins? para as parcerias público-privado?
Para assessores, consultores, e outros senhores?
A quem aproveita o dinheiro dos nossos impostos?
Como é possível em pleno séc. XXI voltarmos a falar de caridade, de assistencialismo,de boa vontade?
A Dores tem razão quando afirma que não dar a tal moeda é despertar consciências.
Quanto a mim estou farto de catarsezinhas.

M.Sampaio
30 Agosto, 2011 16:33

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A formiga no carreiro / vinha em sentido contrário


Cismava na questão, havia um ror de tempo. O tempo emprenhou a querença de abalar terras adentro para um lugar onde as gentes ainda aprazem a sã convivência de um "bom dia". A dignidade de um "bom dia" que partilham mesmo com os que mal enxergam, com os que não lhe são nada. Que não lhe são nada mas lhe são solidariamente tudo, por mou de sempre os terem alcançado como iguais e garantes da harmoniosa coexistência com o mundo. Lição que aprenderam no berço e levarão até ao outro lado.
Até que calhou! E aqui estou morador na Margem Esquerda. Precisamente, no concelho que mais habitantes perdeu nos últimos dez anos, fazendo fé no contrariado dizer do amigo poeta: A formiga no carreiro / vinha em sentido contrário.
Aqui estou de pedra e cal nestas terras brancas e de xistos, onde a estética já se confunde com as da vizinha Extremadura, até nas gelosias que, por mou do pudor dos olhares dos de fora e abrigo do inclemente calor, cobrem as janelas. Terras da margem esquerda, de solos delgados com os ossos de pedras lascadas à mostra, mas onde os campos são profícuos em vinhedos, olivais, amendoeiras e figueiras, berço doirado de belas pingas, finos azeites e não menos gostosa doçaria.
Das belas comedias que por aqui abundam, uma a que pisco sempre o olho enamorado, já cá canta. Nada mais que uma bem-nascida açorda de barbos, convenientemente adubada de hortelã-da-ribeira, com o caldo engrossado com um farrapinho de farinha e cortada com um golpe de vinagre.
Que os deuses da planície estejam comigo.

Dar ou não dar uma moeda?


Na rua fresca da manhã de Évora circulava ainda pouca gente.  Ela foi mesmo a primeira pessoa com quem falei hoje. Não a conheço, mas os seus olhos de um azul claro tão claro quanto invulgar, impressionaram-me pela tristeza que espelhavam. A mulher, na casa dos trinta, magra, frágil, limpa, de calças de ganga e túnica vulgares, balbuciava apenas o pedido de uma moeda. Quando tentei saber o que a levava aquela atitude respondeu-me que tinham acabado de lhe retirar o RSI e que estava à espera de fazer umas horas de limpeza através de uma amiga. Mas o que ela queria era uma moeda para comprar comida que acrescentasse à sopa que lhe serviam ali perto.

Eu, fiquei a olhar aquele azul de olhos e a decidir se tirava ou não a carteira do saco… e não tirei. Ela percebeu, ao mesmo tempo que eu, que não haveria moeda e continuou de imediato o seu caminho. Não sei para onde nem com que energia.

A mim doeu-me não lhe ter dado uma moeda, mas achei que não podia. Que a aflição dos outros tem de ter outro tratamento que não apenas o seu prolongamento. Que o desespero em que por vezes caímos, tem de ter outra saída que não seja apenas o direito ao desespero. Umas vezes expresso entre os muros de cada um, outras na via pública, o desequilíbrio, a ausência, ou a dor, têm de conhecer espaços de acolhimento mais adequados.  Têm de receber respostas, informadas nos contextos, que promovam evoluções positivas. Não podemos prolongar assim a angústia, deixando-a alastrar entre a cal das paredes privadas ou públicas, como se do ar dos dias se tratasse.

Michael Moore esta noite em Évora


CINEMA NO VERÃO

3.ª feira - 30 DE AGOSTO

“CAPITALISMO - UMA HISTÓRIA DE AMOR”

Realização: Michael Moore

Praça do Sertório, em Évora

O habitual olhar satírico e pertinente de Michael Moore debruça-se desta vez sobre a crise
financeira mundial.

(2009 | EUA | 120 min. | M/12 | Documentário)

Horário: 22:00 H.

Convém sempre ler os bons cronistas


Os milionários anarquistas

2011-08-24

A ganância dos ricos não tem limites. Agora cobiçam até o pouco que os pobres têm, a servidão fiscal, e exigem pagar, como eles, impostos. Primeiro foi o multimilionário Warren Buffett que se queixou amargamente no "New York Times" de que os super-ricos estavam fartos de ser "mimados" com isenções fiscais pelos políticos eleitos pelos pobres e querem pagar também impostos. Ontem foram os titulares das 16 maiores fortunas de França: "Num momento (...) em que o Governo pede a todos um esforço de solidariedade, consideramos necessário o nosso contributo".

Quem já tenha visto um porco andar de bicicleta talvez não se surpreenda, mas eu, que já vi uma bicicleta andar de porco, ainda não caí em mim. Caria em mim, sim, se visse o voluntarioso Governo de Passos Coelho do "imposto extraordinário" sobre pensões e salários, mas não sobre juros e lucros, e dos cortes nos subsídios de miséria de desempregados e indigentes anunciar, como o neoliberal Sarkozy, um imposto sobre rendimentos anuais superiores a um milhão de euros.

Imagino então Amorins, Belmiros, Alexandres Soares dos Santos e restantes "25 mais ricos de Portugal", cujas fortunas cresceram, com a "crise" alheia, para 17,4 mil milhões virem, os invejosos, reclamar a Passos Coelho: "Tribute-nos, que diabo!, reformados e trabalhadores não são mais que nós", repetindo com Buffett:"Já é tempo de o Governo levar a sério isso dos sacrifícios para todos".

Manuel António Pina (JN)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

40 graus à sombra: desfalque de milhares de euros na Câmara de Évora


Até há alguns dias era apenas um rumor. Agora é já quase uma certeza - falta apenas apurar os montantes e formalizar as acusações, o que deverá decorrer de um inquérito interno a instaurar pelo presidente da Câmara, mas sabe-se que há dinheiro em falta. Muito dinheiro. Os factos que se conhecem são estes: uma das pessoas responsáveis pela facturação das águas terá, ao longo dos anos, ficado com verbas entregues pelos munícipes directamente na Câmara de Évora. Não se sabe ainda quanto está em causa, mas supõe-se que o desfalque atinja os vários milhares de euros. O que se sabe é que muita gente terá recebido cartas em casa dizendo que estava com facturas em dívida, quando já as tinha pago. Caso não pudessem comprovar o seu pagamento tê-las-iam que pagar uma segunda vez. É grande o alvoroço por este caso na autarquia, a aumentar ainda mais o buraco no sector das águas e a pôr a Câmara de Évora financeiramente, cada vez mais, num verdadeiro "buraco negro"...

Professora de Montemor-o-Novo substitui José Verdasca na Educação


Maria Reina Martín vai ser a nova directora Regional de Educação do Alentejo, substituindo José Verdasca. Maria Reina Martín é professora na Escola Secundária de Montemor-o-Novo.
João Araújo foi nomeado sub-director. João Araújo, natural de Cabeça Gorda, é professor e desempenhou funções na Direcção Geral de Desportos.
A cerimónia de tomada de posse está agendada para amanhã, informa a Rádio Voz da Planície.

Há presidentes de Câmara assim...

PRODUTO


também eu faço os meus versos
escrevo a minha poesia
componho as minhas estrofes

tenho a minha marca própria
a minha assinatura

há quem me consuma e goste
e sinta agradáveis efeitos da leitura

como se eu fosse um grande nome
da nossa literatura

não me iludo
nem da realidade eu sinto medo
:
sei que não passo de genérico

antes isso porém
que a fórmula amorfa
de placebo


António Saias

domingo, 28 de agosto de 2011

Confirma-se: "EDIA deve mais de 600 milhões de euros" e "regadio de Alqueva não vai estar concluído em 2013"


Este sábado, em entrevista ao semanário Expresso, a ministra da agricultura confirma que "vai-se concluir o regadio. Mas na data prevista, 2013, possivelmente não. O Alqueva foi feito essencialmente com fundos comunitários e a parte nacional foi composta por dívida. Neste momento a EDIA, que é a empresa que trata a infraestrutura de Alqueva, deve mais de 600 milhões de euros. Para concluir o Alqueva estão previstos investimentos de cerca de 300 milhões de euros. Nem eu nem o ministro das Finanças temos no bolso 300 milhões de euros".
Nesta entrevista, Assunção Cristas assume que caiu de "paraquedas" no Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território e considera que "a EDIA é para fazer a obra e, em princípio, quando concluir a obra deve fechar". Por fazer está ainda o regadio da margem direita do Guadiana, com origem na Barragem do Pedrógão que deveria irrigar toda a zona dos barros de Beja, que é uma parte substancial ainda não concretizada do sistema de rega.  Resta saber é quem é que o governo do PSD/CDS vai pôr a chefiar a EDIA, que tem sido sempre uma empresa pública de muitos compadrios, afilhados e boys dos partidos no poder, e que ainda está mais apetecível agora que se sabe que as obras ainda estão para durar...

sábado, 27 de agosto de 2011

40 graus à sombra: Novo Director Regional de Agricultura


Apesar de não existir nenhuma confirmação oficial na Net, seja na página do Governo, seja na do Ministério da Agricultura, os 40 graus sabem que o engenheiro Francisco Maria Murteira, actual director de Serviços de Inovação e Competitividade da DRA foi nomeado Director Regional da Agricultura do Alentejo, substituindo no cargo João Libório.

40 graus à sombra: austeridade & austeridade

Aqui nos 40 graus não somos por qualquer tipo de ascetismo nem por nenhuma espécie de espírito missionário, mas há coisas que nos intrigam. E uma delas tem a ver com o significado da palavra austeridade, que muda conforme se aplica a este ou àquele. Vem isto a propósito da deslocação que o presidente da República vai fazer hoje às Festas de Campo Maior. Cavaco Silva vai visitar as ruas floridas durante uns pares de horas, almoça (um almoço à base de marisco oferecido pela autarquia, sabem os 40 graus), mas o que mais nos intriga é a informação que nos foi dada de que o presidente vai para Campo Maior, de helicóptero, a partir da Base Aérea de Beja. Ou seja, vem de carro até Beja, segue de helicóptero para Campo Maior, regressa a Beja de helicóptero, de onde se presume que seguirá depois de carro para o Algarve. Os 40 graus não são de intrigas, mas deixam a pergunta: em tempo de austeridade quanto não custará este voo de helicóptero presidencial? Justificar-se-à? A resposta cabe a cada um dá-la. Mas quando se fala de austeridade que quererá isso dizer para uma parte importante da classe política e empresarial, sobretudo daquela que vive dos dinheiros públicos?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

“Festa do Avante!” evoca Alves Redol e Manuel da Fonseca

Num ano em que a exposição política do Espaço Central da Festa do Avante! é dedicada ao 90.º aniversário do Partido, Liberdade, Democracia, Socialismo: um Projecto de Futuro, são evocados dois expoentes da cultura nacional e que são, ao mesmo tempo, parte integrante da história do PCP – Alves Redol e Manuel da Fonseca, ambos nascidos há 100 anos.

Nomes maiores do neo-realismo português, Alves Redol e Manuel da Fonseca afirmaram-se justamente como nomes maiores da literatura e da cultura portuguesas – o primeiro essencialmente como romancista e dramaturgo e o segundo como romancista, poeta e cronista. Apesar disso, é muito o que os une. Ambos iniciaram muito jovens a sua actividade literária como colaboradores de jornais e revistas – Vértice, O Diabo, Seara Nova, Sol Nascente – contribuindo com crónicas e contos. Como cenário do que escreviam estava o Ribatejo e o Alentejo, as suas gentes, as suas vidas, as suas lutas.

A uni-los está também a opção antifascista que fizeram muito jovens, aderindo, ambos, ao Partido Comunista Português – a única força nacional que se opunha ao regime fascista e o enfrentava, que organizava e dirigia a resistência, que se batia pela liberdade, pela democracia, pelo progresso e pela justiça social. Um e outro mantiveram-se fiéis a esta opção até ao fim das suas vidas.

Nesses anos, décadas de 30 e 40 do século passado, a maioria dos intelectuais portugueses participava activamente, com a sua obra, na luta antifascista, assumindo-se como porta-voz da resistência popular. Com o movimento neo-realista, que viria a marcar impressivamente a literatura portuguesa no século XX, a actividade dos escritores passa a ser parte integrante da luta de massas e as suas obras expressão dos anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo. É precisamente do neo-realismo que Alves Redol e Manuel da Fonseca se tornam expoentes maiores. O primeiro, com o seu romance de estreia, Gaibéus, publicado em 1939, é justamente considerado o seu iniciador.

O primeiro livro de poemas de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, e Planície, publicados respectivamente nos anos 1940 e 1941, são os primeiros passos da poesia neo-realista.

Copiado daqui.

Sorte e morte

Hospedados,
Andam no ar seis homens a interrogar os céus
Em meticulosas tarefas ao longo de esquecido tempo,
Olhando oásis nos azuis serenos dos terrenos mares
E brilhos matizados das estrelas nos longínquos ares
Quando descansam dos caminhos abertos sem medida
E ao deitar com saudade sem a noite de amores
E ao acordar sem este dia de terrores,
Que o tempo deles só é tempo puro …
E eis que sabem,
Se souberem,
Que explodiu o foguetão
Com o seu pão para outra caminhada pelos céus …
Pergunto-me o que pensarão,
Se nisso pensarão …

Évora, 2011-08-25 


J. Rodrigues Dias

Memórias de pobre e mal pago por um rico ...


Fui escravo desse homem como responsável de manutenção de um comércio desse gajo. Por avaria em máquinas noturnas , chegava a ter de me levantar às 2horas ... 4horas ... , várias vezes por noite, ... era chegar a casa e estar o segurança a mandar bip´s , nessa altura não havia telemóvel . E , quando eram 9horas, ... depois de boas noites dormidas e com ordenados a rondar os 5.000 euros para o Diretor ... eu 500 euros , andava o tipo à minha procura ... e quando aparecia pelas 10horas ... dizia que chegava tarde ... ficava até às 19horas ... 2ohoras ... e de noite lá tocava aquela coisa. Resultado: fui despedido, não cumpria horários. Ganhava 500 euros e chegava a trabalhar 100 horas por semana. Pau para toda a obra! Vi, a mando do Diretor mandarem os seguranças fecharem portões ... aos operadores, até ficar tudo num trinco para abertura na manhã seguinte, ou no mesmo dia , já que saíam de lá depois da meia - noite . Quando esse comércio abriu eram cerca de 200 colaboradores, hoje restam do início uns 4, se tanto . Escravatura aplicada !!!
O comercio chamava-se : MODELO .

Anónimo
25 Agosto, 2011 22:43

Ao nível do cão de água


Notícia desta manhã. "«Se queres um amigo em Washington, arranja um Cão de Água» português, aconselha a embaixada norte-americana em Lisboa, num telegrama de março de 2009, tornado público pela WikiLeaks, sobre o animal de estimação da família Obama.
No telegrama, de 10 de março de 2009, a diplomacia norte-americana em Lisboa confirma que «a aceitação de um Cão de Água [pela Casa Branca] iria gerar enorme publicidade positiva» para a administração dos Estados Unidos da América em Portugal.
Reportando que a imprensa está «animada» com o facto de «a família [presidencial] Obama poder estar interessada em adquirir um Cão de Água português», a embaixada refere que o Turismo do Algarve pretendia oferecer um animal daquela espécie à Casa Branca."(Lusa)
E como a história veio a confirmar, Portugal lá conseguiu instalar "um amigo" na Casa Branca, tendo a imprensa continuado a manifestar-se muito "animada" por esse facto.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

D D - Doença de Dar


é uma febre que entrou aí
como a gripe aviária
a peste suína africana

o sarampo
a rubéola
a cólera
a malária

os ricos
de repente
sofrem um inexplicável impulso para dar

vêm para a rua
estendendo a mão a quem quer que encontram
sendo esse um primeiro visível sintoma
de síndrome que a Ciência só agora
procura identificar

dar a mão
sim uma primeira fase
da complexa doença que consiste em dar

ao segundo dia - o Sol andando já pelo ocaso -
o pré-paciente sai de casa
vestido a rigor como se fosse presidir a uma reunião
importantíssima da Holding
caminha a pé
sem segurança pessoal pela Avenida

entra num Café
chama o gerente
para lhe comunicar que toda a despesa dos clientes
fica por sua conta

pega um cartão de visita
com o nome e a morada da empresa
entrega
e vai embora

volvidos mais dois dias
o impulso de dar
torna-se mesmo obsessivo
- toma-lhe o sono e o apetite

a família estranha
começa a falar em depressão

jura que não
- tudo está bem consigo
uma ligeira subida de tensão
um notório latejar das têmporas
um fraquejar das pernas
se tiver que subir alguns degraus

a família insiste
em chamar o médico da casa
convocar mesmo em sigilo
um conselho de clínicos recomendados pela Holding

antes de sair de casa
nesse dia
liga para a sua secretária pessoal
e comunica-lhe
com caráter de urgência
o seguinte recado para sua Excelência
o senhor Ministro das Finanças
:
Excelência
dada a situação de crise do país
exijo me sejam tributados
todos os rendimentos pessoais
acima de...

é quando a esposa
acidentalmente entra no Escritório
e dá pelo inédito recado

retira-lhe
-ao que se diz a tempo- o telefone
e liga do seu próprio celular
o 112

o homem rico
é de imediato anestesiado
e transportado
ao Hospital mais próximo
onde lhe é diagnosticada
a terrível enfermidade

que viria a tornar-se pandemia
a despeito do seu cuidado isolamento

aconteceu em França
no centro de Paris

já foram registados casos
em Roma e em Madrid
teme-se que em breve
atinja a Europa
os países ricos do Petróleo
a América do Norte
a China
o Mundo

mais grave do que a SIDA
os grandes Laboratórios
já trabalham
em busca de vacina

António Saias

A árvore que destoa da floresta



Cândida Pinto é, a meu ver, o único jornalista, homem ou mulher, português a quem se pode chamar, na verdadeira acepção da palavra, um repórter de guerra. Já estive com ela em diversas situações (Guiné, Timor) e dá gosto vê-la trabalhar. E o rigor que põe em tudo o que diz e relata faz dela um dos melhores e mais completos profissionais do jornalismo português. E não só na sua versão feminina.

Poema da Menina Tonta, de Manuel da Fonseca (1911-1993)



A menina tonta passa metade do dia 
a namorar quem passa na rua, 
que a outra metade fica 
pra namorar-se ao espelho. 

A menina tonta tem olhos de retrós preto, 
cabelos de linha de bordar, 
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho. 

A menina tonta tem vestidos de seda 
e sapatos de seda, 
é toda fria, fria como a seda: 
as olheiras postiças de crepe amarrotado, 
as mãos viúvas entre flores emurchecidas, 
caídas da janela, 
desfolham pétalas de papel... 

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...

E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos. 


Manuel da Fonseca

Capa do DA de amanhã

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Acidente de trabalho provoca um morto em Évora

Os ricos andam sempre com ideias para porem os outros a trabalharem para eles


PRODUTIVIDADE...

Um dia o Belmiro de Azevedo contratou um trabalhador e colocou-o a abrir rasgos na terra. Deu-lhe um horário de trabalho das 8:00 às 17:00 horas.

Num outro dia Belmiro de Azevedo observando o trabalho do seu colaborador, achou que podia ser melhor aproveitado. Sugeriu-lhe então o seguinte:
- Ó amigo, já que você tem 2 mãos, com uma mão você cava e com a outra vai regando.Olhe e já agora começa a vir das 7:00 às 18:00 horas.

No outro dia, Belmiro de Azevedo olhou outra vez para o seu colaborador e achou-o ainda pouco produtivo. Então sugeriu-lhe:
- Já que você além das mãos tem também uma boca, podia enchê-la de sementes e enquanto com uma mão cava e com a outra rega podia cuspir as sementes. Já agora começa a trabalhar às 6.00 e termina às 19:00 horas.

Noutro dia Belmiro de Azevedo começou a pensar que o seu colaborador deveria trabalhar enquanto houvesse luz de dia. Portanto sugeriu-lhe que o seu trabalho passasse a ser das 5:00 até às 22:00 horas. E assim foi.

Um dia quando o pobre trabalhador voltava a casa do trabalho, deparou com a sua mulher com outro homem na cama. O homem, chorou, chorou, chorou vezes sem conta até que a mulher e o amante desesperados com aquela situação, tentaram consolá-lo, perguntando-lhe porque chorava ele assim tanto. Ao que ele respondeu:
- Se o Belmiro de Azevedo descobre agora que eu tenho 2 cornos, coloca-me lá umas lanternas e põe-me a trabalhar à noite.

(enviado por C. André, via mail)

Apelo



ESTOU RETIDO NO CANIL DESDE O DIA 3 DE MAIO DE 2011
QUERO VOLTAR PARA CASA DOS MEUS DONOS
COMO PODEM VER SOU MEIGO E NÃO PERIGOSO.



Peço ajuda ás autoridades competentes para que este meu cãozinho apenas com 3 anos de idade é saudável está retido no Canil Municipal de Évora, já vai para quatro meses o Dr. Flor Ferreira não me o quer entregar, nem me o quis vacinar e o animal estava com a vacina em dia e licença quando lá ficou.
Dirigi-me ao Sr. Presidente da Câmara por escrito mais que uma vez, fui a uma reunião de Câmara expus o meu caso, no dia 29 de Julho de 2011 e continua tudo na mesma, também falei com o Engº. Costa responsável pelo canil pois eu só quero o meu animal de volta.
Pois não me conformo com tudo o que me têm estado a fazer tenho um desgosto enorme, pois tenho por ele muito carinho e sinto muito a falta dele, sabendo também o que ele sofreu e sofre ao estar lá fechado, pois era um animal com muita energia, meigo e dócil. Todos os dias telefono para saber dele, estou desolada com mentiras e pessoas de má fé e porque não cedi à chantagem do Sr .Veterinário continuo neste sofrimento.


Felisbela Marques
(via email)

Ausencia


Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Jorge Luis Borges

Portugal muito à frente: finalmente a sociedade sem classes


"Eu não me considero rico" diz Amorim

Outros caminhos são possíveis



José Régio excelentemente dito por Maria Bethânia. Nestes tempos duros, complexos e difíceis o "não vou por aí" regiano ecoa como uma bandeira e um programa alternativo à política oficial e oficiosa. Aliás todo o poema indica a multiplicidades de caminhos que existem para além do óbvio, do politicamente correcto, do socialmente aceitável. Para além da mediocridade reinante há outros caminhos e outras estradas, como já "cantava" Manuel da Fonseca, dando voz às tensões, aos encontros, aos desejos da gente comum, fossem eles a Nena de Montes Velhos ou o António Valmorim, também eles nascidos, estou certo, do "amor entre deus e o diabo".

Estradas

Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.

E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.

Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.

— Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?

Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.

— Vai-te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.

Mas já a noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Ai que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Ai como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!

Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho… 



Manuel da Fonseca (1911-1993)

Canções de Cordel hoje em Évora no Escrita na Paisagem

César Prata - Canções de cordel - "Florinda" from Tiago Pereira on Vimeo.

Esta noite, 24 Agosto, às 22 horas, na Igreja de São Vicente, as Canções de Cordel de Vitor Prata vão marcar presença. O Festival Escrita na Paisagem, a decorrer até finais de Setembro, convidou César Prata a trazer ao Alentejo o seu mais recente projecto musical, Canções de Cordel, através do qual mergulhamos na mitologia e imaginário populares dos folhetos de cordel. Histórias de “sangue, faca e alguidar”, como nos diz César Prata.
Uma (re)visitação a uma prática quase esquecida, que pertence a uma forma de representação colectiva, tradicional, cujo tempo se encarregou de deslocar para um espaço da memória, mi(s)tificando-a. Um espectáculo que oscila entre o trágico e o cómico e que fará, pelas músicas e letras, as delícias de miúdos e graúdos.
César Prata fundou e dirigiu diversas associações culturais e trabalhou com inúmeras colectividades no âmbito da recolha do património imaterial. Criou e dirigiu diversos espectáculos. O seu nome encontra-se ligado a inúmeros discos, quer como compositor, arranjador, criador, intérprete ou técnico dos quais se destacam Chuchurumel, Assobio e Chukas (encomenda do IGESPAR para o Parque Arqueológico do Vale do Côa).
Publicou alguns cadernos sobre tradição oral. Criou e assegurou a direcção musical de espectáculos. Compôs para teatro. Colabora regularmente com o Projéct~ (Teatro Municipal da Guarda).Integrou o GEFAC. Fundou os projectos Chuchurumel e Assobio. Participou em festivais internacionais, dos quais se destacam “Canti di Passione” (Salento, Itália, Abril de 2007), “Ahoje é ahoje!” (Maputo, Moçambique, Agosto de 2008). Editou, em Dezembro de 2010, Canções de cordel, o seu CD mais recente.
Amanhã, 25, César Prata estará em Montemor, dia 26 em Avis e a 27 em Estremoz.

REDE


o tamanho real
da aranha
é o
do seu corpo

mais o
da sua extensa
tensa
teia

António Saias

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Estar ao lado de Khadafi ou da Nato. Não se pode estar apenas ao lado dos rebeldes?


A quem apoiar? A Nato, Khadafi, os rebeldes? Julgo que não é questão que se ponha, apesar de ser um ponto sensível. A questão, para já, essencial a meu ver, é a saída de Khadafi e dos principais coriféus do seu regime.É difícil que - aconteça o que acontecer - a situação seja pior do que tem sido até aqui.
Alguma da esquerda tradicional, apoiante de sempre de múltiplas ditaduras, a propósito da guerra na Líbia tem vindo a apoiar Khadafi contra a agressão da Nato, colocando-se, sem pestanejar, ao lado do "coronel" e contra os rebeldes. 
Sei que esta é uma questão delicada. Também não gosto de ver os rebeldes líbios "apoiados" pela Nato e pela quase totalidade das democracias ocidentais e por algumas ditaduras árabes. Há muito jogo escondido, muita agressão desnecessária, muito ajuste de contas por parte de regimes que, pelo menos desde há alguns anos, apoiaram fortemente a ditadura líbia. Há muita hipocrisia e o cheiro do petróleo é cada vez mais forte.
Mas a verdade é que, neste jogo de mais e menos liberdade, a ditadura de Khadafi, a sua impunidade, a sua autocracia, a sua violência, representam, só por si, um recuo civilizacional. As democracias ocidentais são o que sabemos: limitadas na liberdade e na igualdade, por um lado, e, por outro, limitativas na expressão dos direitos e liberdades individuais e colectivas, mas apesar disso muito diferentes da prepotência e da anexação de todos os direitos colectivos e individuais da generalidade dos cidadãos que tem sido a marca de água do regime de Khadafi.
E nestas questões considero que ter um pouco mais ou um pouco menos de liberdade, um pouco mais ou um pouco menos de direitos, não é indiferente. A NATO e as democracias ocidentais não se movem por valores humanitários ou de defesa das liberdades. Khadafi  muito menos e dele já sabemos quase tudo. Há que dar, por isso, uma oportunidade aos rebeldes. 
Mesmo que o novo regime contemple apenas um pouco mais de liberdade, de democracia, de respeito pelos direitos humanos isso já seria positivo. Defender Kadhafi é uma opção. Sobretudo para quem sempre defendeu que a liberdade é algo de somenos importância. 
Ficarei contente quando Khadafi sair do poder. E, mesmo não tendo ilusões, espero que quem ocupe os cordelinhos do novo regime saiba criar um espaço, mínimo que seja, de diferenciação pela positiva. Já não seria mau nos tempos que correm, ainda que muito insuficiente, como é claro.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

TU E EU MEU AMOR, de Manuel da Fonseca (1911-1993)

Kazuo Okubo, "Passagem"

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Manuel da Fonseca

Mr. Sancho não foi de férias



Boa, Sancho. A parte que gostei mais da entrevista (?) foi quando falavas das vindimas na Vidigueira. E eu imagino o que sabes da poda... Não há nada como ter amigos do lado de dentro do ecrã. 12 minutos e cinquenta e cinco segundos de conversa é obra. Uma eternidade. Só faltou o Crespo (será verdade que está de partida para os Estados Unidos a convite do Relvas?) perguntar-te pela apanha de lambujinha na zona do Pulo do Lobo. Mas deve ter sido apenas esquecimento. Gostei mesmo foi do Mário Crespo situar o Alentejo na região centro. Assim, sim. Qualquer dia, mesmo sem darmos conta, já estamos por aí acima, além pirinéus...Vai ser um ver-que-te-avias em plena Europa "civilizada"... Valha-nos São Passos!
Mas deixem-me fazer só uma perguntinha de algibeira, daquelas que só existem para matar a curiosidade: que prémio é que o Mário Crespo vai receber já na próxima edição dos reputados prémios Mais Alentejo? Pelos 12' 55'' merecia recebê-los todos duma assentada, mas sou eu que digo. Tu terás outros critérios de maior isenção, pelo que me têm dito.

Ps: Já agora - e agora sem ironia - até acho que falaste bem melhor do que muito político regional. Já pensaste em ser candidato nas próximas autárquicas? Tens jeito, lá isso tens. E feitio também, pelo que sei. Vamos a isso? Beja e o resto do Alentejo esperam-te. Atão Vá!...

Será que estas agressões também têm a mão de Deus e a benção do Papa?


Noticia aqui: http://politica.elpais.com/politica/2011/08/19/actualidad/1313756841_705247.html

GAFANHOUTRO


a roseira é que paga

António Saias

E hoje é o regresso a Évora pela mão de Florbela



Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas, frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ...


Florbela Espanca

sábado, 20 de agosto de 2011

Pátria, lugar de exílio


Copiei linha por linha, num caderno que ainda possuo, em 1973, este livro de Daniel Filipe dumas outras folhas dactilografadas que - não me lembro quem - me emprestaram em Lisboa, era eu neófito na "grande cidade". Dele tinha lido e sorvido "A invenção do amor". Disseram-me que havia um outro livro "Pátria, lugar de exílio", proibidissimo e com referências explícitas às grandes manifestações do 1º de Maio de 1962. Depois conheci várias pessoas que conheceram de perto Daniel Filipe. Do homem foram-me contadas várias histórias. Umas mais, outras menos interessantes. Mas da sua poesia, politicamente empenhada, continuo a gostar muito. É uma poesia escrita para ser dita, como se de uma canção se tratasse. São poemas-canções para agitar as águas paradas da modorra quotidiana. Gostaria de ver estes poemas reeditados.

Pátria lugar de exílio

(fragmento)

Neste ano de 1962
não como Hazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjôo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria
(...)

Daniel Filipe

O homem dos bastidores passando revista



Papa em Madrid: uma visita ostentatória numa Península mais laica que nunca

A violência policial tem marcado esta visita Papal a Madrid

Para quem lê os jornais e vê as televisões é impossível fugir, nestes dias, à visita do Papa a Madrid e à contestação de que tem sido alvo por parte de muitos milhares de activistas. Pode parecer estranho, gente que se diz pela tolerância e pela liberdade criticar tão ostensivamente uma visita de um líder religioso a um país onde são muitos os praticantes dessa religião. Quem se ficar pelo que diz a comunicação social, oficial e oficiosa, fica sem perceber nada: afinal os tolerantes viraram agora inquisidores das consciências? Repressores da liberdade de escolha? Censores da liberdade religiosa? Claro que não. A questão é mais profunda.
As despesas da ida do Papa a Espanha foram pagas, grosso modo, pelo Estado Espanhol, que é um estado laico. As escolas e diversos espaços públicos foram abertos e postos à disposição dos "peregrinos" católicos, sem quaisquer custos. Os "peregrinos" tiveram direito a descontos significativos nos transportes públicos, na mesma semana em que eles aumentaram para a generalidade dos espanhóis. A ostentação e o velho riquismo da Igreja Católica, mesmo neste tempo de contenção e crise, continua a chocar.
Como sempre me chocou a mim. O dourado da Igreja e a riqueza dos palácios do Vaticano, o poder da Companhia de Jesus e o saque de riquezas (para além dos aspectos mais conhecidos da limitação do pensamento e do conhecimento) que representou a Inquisição sempre me perturbaram apesar de ter tido uma educação católica. Sempre pensei que as coisas da religião deviam ser do foro individual e intímo. Mas a Igreja Católica sempre preferiu o outro lado (apesar de no discurso pretender afirmar o contrário): o do poder e da riqueza. Da ostentação.
Os nossos caminhos separaram-se há muito. Com Bakunine aprendi que “a existência de Deus implicaria necessariamente a escravidão de tudo abaixo dele. Assim, se Deus existisse, só haveria um meio de servir a liberdade humana: seria o de deixar de existir.” E desde muito cedo, também, deixei de ter necessidade de um qualquer deus para explicar as questões da existência e do ser. Mas acho, e continuarei sempre a achar, que cada qual deve acreditar no que quiser. Ser católico, protestante, muçulmano, hindu ou budista devem ser escolhas pessoais. Por isso estarei sempre contra todos os que, em nome da sua fé, usem o dinheiro e os meios que são de todos para a manifestarem. E a visita do Papa a Madrid cruzou essa linha. Colocou-se do lado da ostentação, da utilização dos dinheiros públicos e da colagem aos valores mais reaccionários. E com ele a Igreja Católica que, se no seu início foi uma força de mudança, hoje é apenas um repositório de conservadorismo e falta de imaginação. E isso também se está a ver em Madrid com o Papa, aflito, a esgrimir contra a falta de vocações. Mas poderia ser de outro modo?

"Não quero ser imperador, não é o meu ofício..."

Um discurso em dois tempos. Há 70 anos.



E hoje, ainda, actual e mobilizador.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Manta alentejana


Federico Garcia Lorca


Pela Ana Paula Fitas fui alertado para a passagem hoje dos 75 anos da morte de Federico Garcia Lorca, fuzilado pelos franquistas, logo no início da Guerra Civil. Considero Lorca um dos grandes poetas ibéricos de sempre. Um dos fascistas que disparou contra ele empunhou a coronha da espingarda e deu-lhe uma pancada na cabeça, atirando-o para a vala comum, e invectivando-o com as palavras rojo e maricón. Encontrei no Youtube este pequeno filme. bastante curioso, sobre a companhia de teatro a Barraca, fundada por Garcia Lorca.


ROMANCE DE LA LUNA, LUNA

A Conchita García Lorca

La luna vino a la fragua
con su polisón de nardos.
El niño la mira, mira.
El niño la está mirando.


En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño.


Huye luna, luna, luna.
Si vinieran los gitanos,
harían con tu corazón
collares y anillos blancos.


Niño, déjame que baile.
Cuando vengan los gitanos,
te encontrarán sobre el yunque
con los ojillos cerrados.


Huye luna, luna, luna,
que ya siento sus caballos.
Niño, déjame, no pises
mi blancor almidonado.


El jinete se acercaba
tocando el tambor del llano.
Dentro de la fragua el niño,
tiene los ojos cerrados.


Por el olivar venían,
bronce y sueño, los gitanos.
Las cabezas levantadas
y los ojos entornados.


Cómo canta la zumaya,
¡ay, cómo canta en el árbol!
Por el cielo va la luna
con un niño de la mano.


Dentro de la fragua lloran,
dando gritos, los gitanos.
El aire la vela, vela.
El aire la está velando.


Federico Garcia Lorca

Diário do Alentejo desta semana

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

o que é que a cidade nega mas abriga ?


O objecto do discurso é tudo o que a sociedade nega, mas a cidade abriga.

Esta frase é atribuída a um sem abrigo e citada desde 1996 por vários autores de reflexões sobre as cidades e as sociedades contemporâneas.
A ideia tem-me acompanhado durante este mês de Agosto. Parece-me traduzir de forma surpreendente o que são as férias: muito prazer e felicidade anunciados, desejados, propagados, à mistura com doses generosas de não ditos, e de vida real.
A mesma frase pode explicar de forma sucinta quer as emergências de Londres, quer os discursos sobre a crise, ou  os negócios do BPN. Soa-me como um grito de lucidez. Como luz sobre as dificuldades em discernir entre o importante e o acessório; ou como clarificação sobre um possível centro de conversas, de motivação para novas energias e mais criatividade.  Tudo o que a sociedade nega mas a cidade abriga é imenso. É não dito. É ainda escondido. Mas pode, se quisermos, tornar-se o objecto do discurso. O que necessariamente produzirá mudanças.
Enquanto prolongarmos como objecto do discurso o que a sociedade permite, sem todavia reflectir verdadeiramente o que se abriga no espaço humano, estaremos a remeter-nos para a uma espécie de férias prolongadas do ser. Provavelmente por medo de não sabermos, ou de não querermos,  um espaço humano suficientemente diferente: uma cidade que negue menos e abrigue melhor.

O maltês, de Manuel da Fonseca (15 de Outubro de 1911 - 11 de Março de 1993)


Em Cerro Maior nasci.

Depois, quando as forças deram
para andar, desci ao largo.
Depois, tomei os caminhos
Que havia e mais outros que
Depois desses eu sabia

E tanto já me afastei
Dos caminhos que fizeram,
Que de vós todos perdido
vou descobrindo esses outros
Caminhos que só eu sei.

Veio o guarda com a lei
No cano das carabinas.

Cercaram-me num montado;
puseram joelho em terra;
gritaram que me rendesse
à lei dos caminhos feitos.
Mas eu olhei-os de longe,
tão distante e tão de longe,
o rosto apenas virado,
que só vi em meu redor
dez pobres ajoelhados
perante mim, seu senhor.

Gente chegou às janelas,
saíram homens à rua:
- as mães chamaram os filhos,
bateram portas fechadas!
E eu, o desconhecido,
o vagabundo rasgado
entre o largo da vila
entre dez guardas armados;
- mais temido e mais armado
que o deus a que todos rezam.

- Que nunca mulher alguma
se rendeu mais a um homem
que a moça do rosto claro
ao cruzar os olhos pretos
com o meu olhar de rei!

...E vendo que eu lhes fugia
assim de altiva maneira
à sua lei decorada,
lá,
longe do sol e da vida,
no fundo duma cadeia,
cheios de raiva me bateram.

Inanimado,
tombei por fim a um canto.

E enquanto eles redobravam
sobre o meu corpo tombado,
adormecido
eu descansava
de tão longa caminhada!...




Manuel da Fonseca

Portalegre tem, pela primeira vez, uma presidente da Câmara

Adelaide Teixeira, vereadora de Portalegre, vai substituir, na presidência da Câmara, Mata Cáceres (PSD), que se demitiu do cargo alegando razões pessoais.

Aos 49 anos a vice-presidente, desde 2009, tem a partir de Agosto o desafio mais importante da carreira política. Casada, com três filhos, Adelaide Teixeira licenciou--se em Geologia e fez mestrado em Ciências da Educação. Antes de ser eleita leccionou no ensino secundário e na Escola Superior de Educação de Portalegre, onde coordenou o curso de Turismo.