domingo, 31 de julho de 2011

Música nos claustros


Ao fim da tardinha, quando o sol da volta descansar,
Se tu viesses ouvir-me nestes claustros de amores,

De mistérios, de deitados eternos, de dissabores,
Se tu viesses ouvir-me em musicais de encantar…


Ao fim da tardinha, quando o ar quente for temperado

Pelo ar fresco da noitinha, em brisa doce do mar,

Nestes claustros aqui sagrados de granito cinzelado,

Se tu viesses ouvir-me em sinfonias de embalar…


Ao fim da tardinha, quando o homem deixar seu labor,

Cansado, de olhos a lacrimejar, explorado pela cidade,

Se tu viesses ouvir-me nestes claustros e descansar…


Ao fim da tardinha, quando a mulher triste voltar ao seu lar

Com olhos de amêndoa quase a fechar, ferida pela maldade,
Se tu viesses ouvir-me e, neste silêncio puro, sentir o amor…


Évora, 2011-07-29

J. Rodrigues Dias

Estes leitores dão-nos todos os mimos.


Este blog qualquer dia está pior que a merda dos comunas do mais évora...

Anónimo
30 Julho, 2011 22:04

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Évora: Câmara reuniu-se hoje e já há nota de imprensa


Em reunião pública de Câmara de 29 de Julho

Câmara de Évora aprovou voto de veemente protesto pela suspensão em definitivo do projecto da Alta Velocidade

O Presidente da Câmara Municipal de Évora, José Ernesto d’ Oliveira, informou que, de acordo com notícias hoje veiculadas na comunicação social e por decisão do primeiro-ministro, o projecto da Rede Ferroviária de Alta Velocidade que tinha sido suspenso para reavaliação foi em definitivo abandonado.

Esta decisão, que mereceu o protesto de toda a Câmara, é a expressão de dúvidas e hesitações que os partidos integrantes do actual Governo vinham manifestando sobre o projecto, argumentando apenas com os custos de construção do mesmo. Tal posição, esquece outras variáveis determinantes para a apreciação do projecto, nomeadamente o impacto positivo para o desenvolvimento do Alentejo e de Évora e revela-se extremamente contrária e prejudicial aos interesses da nossa cidade, do Alentejo e do País.

Além desta posição de corte de recursos financeiros, revela-se também preocupante a postura que venha a comprometer outros investimentos estruturantes para o desenvolvimento do Alentejo e o bem-estar das populações, como são o caso da construção do novo Hospital Regional de Évora, do novo aeroporto na Margem Sul do Tejo, do desenvolvimento do Porto de Sines e sua articulação rodo e ferroviária com o hinterland ibérico e com o resto da Europa.

Acrópole XXI avança

O Executivo camarário aprovou o projecto de arquitectura e especialidades (fase de execução) do espaço público da Acrópole de Évora e área envolvente, com base nos pareceres favoráveis das entidades e serviços competentes. Este ponto foi aprovado com três votos a favor (PS) o voto de qualidade favorável do Presidente e três votos contra da CDU.

A mesma votação obteve também o ponto seguinte em que se solicitava a autorização para o início do procedimento, aprovação das peças processuais e anexos, bem como nomeação do Júri do procedimento referente ao concurso público “Empreitada de intervenção no espaço público do Centro Histórico de Évora – Acrópole XXI”.

O arquitecto Carrilho da Graça, que é o responsável pela equipa que lidera este projecto, esteve também nesta reunião, tendo na sua intervenção sublinhado a importância que tem para ele realizar este trabalho que é “uma responsabilidade extraordinária e um enorme prazer”, mas também “um passo no caminho da revitalização e desenvolvimento do Centro Histórico”. Referiu em traços breves a filosofia fundamental desta intervenção, mostrando uma vez mais toda a sua disponibilidade para debater e explicar tudo o que seja necessário.

Outras propostas aprovadas

Foram aprovados por unanimidade Contratos Programa de Desenvolvimento Desportivo com as seguintes instituições: Grupo Desportivo e Cultural de S. Brás de Regedouro (387 euros); Grupo Desportivo e Cultural da Tourega (1.058,00 euros); Clube Eborense de Amadores de Pesca Desportiva (4.445,00 euros); Associação Talento Prodigioso (470 euros); Casa do Povo de Nª Sª de Machede – Paras e bebes (2.695,00 euros); Grupo Motard O Templo (1.758,00 euros); Modelismo Alentejo Clube (1.970,00 euros) e Clube Futebol Eborense (1.985,00 euros).

Aprovação unânime mereceu também o deferimento do projecto de adaptação das instalações do Arquivo Fotográfico Municipal (que inclui a execução de uma câmara de frio para o Arquivo) e respectivo mapa de trabalhos.

(informação da CME)

Começa hoje (para quem pode) a grande romaria anual para sul



Pretexto para "aconselhar" um clássico da comédia francesa.

Fim da EDAB


A EDAB foi extinta - anunciou esta manhã o primeiro-ministro, Passos Coelho, durante o debate no Parlamento. A Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja já tinha cumprido a sua função - a construção do aeroporto civil - e as suas competências na dinamização daquela infra-estrutura já foram entregues à ANA Aeroportos, a quem está agora atribuída a sua dinamização e exploração comercial. É uma empresa com capitais do Estado, das autarquias e de várias outras entidades públicas que não deixa grandes saudades, sempre envolta nalguma paralisia e dificuldade de realização e que os seus próprios administradores consideravam "não ter razões para continuar".

Da Poetisa (para a Dores)


Retrato da família de Florbela Espanca durante uma merenda campestre. A poetisa é a menina do canto esquerdo. Fotografia tirada na dobra dos séculos XIX/XX, mais coisa menos coisa, pondo-se a hipótese do fotógrafo ter sido o pai de Florbela.

Se tu viesses ver-me...

Foto José Manuel Rodrigues
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca

Da tradição pastoril, do cardo e do queijo


(Flor do Cardo - Cynara Cardunculus L.)

"Mais que nenhuma, talvez, a profissão de pastor foi seguida e respeitada entre os árabes. Como os outros povos semitas, os árabes eram tradicionalmente pastores, pastores de tempos imemoriais na sua província natal; pastores no norte de África, donde, misturados com os berberes, passaram às nossas terras. Nada mais natural, pois, do que encontrarmos um grande número de termos de origem árabe na linguagem profissional do pastor alentejano; por isso que os próprios árabes se dedicavam nos velhos tempos de dominação à guarda dos seus gados; e os ricos senhores árabes ensinavam e impunham aos seus servos moçárabes os nomes e termos da sua língua."
Palavras estas grafadas pelo conde de Ficalho no há um ror abalado ano de 1899. Mais escreveu, o pensador transtagano, um arrolamento de termos ligados à pastorícia com nítida chancela árabe e alguns ainda em uso:
Ajuda - subordinados(s) do pastor nas tarefas do pastoreio dos rebanhos;
Alavão - palavra transversal às várias tarefas atadas à ordenha das ovelhas e ao fabrico do queijo, numa determinada época do ano. A palavra deriva do árabe
al-labban que significa leite;
Alfeire - rebanho de ovelhas jovens, por vezes, apartadas das ovelhas de ventre (reprodutoras) e das badanas (velhas). Palavra derivada do árabe
al-heir que designa o curral ou recinto fechado onde pernoita o gado;
Almatrixa - contracção da palavra árabe
almadraquexa que no portugês antigo nomeava o pano que protegia o lombo dos animais de carga na linguagem dos pastores;
Almece - soro do leite que escorria para a francela (mesa queijeira) quando o roupeiro (queijeiro) espremia nos cinchos (cintas redondas) a massa coalhada, soro este que também é aproveitado para a alimentação. Os árabes do oriente e do deserto chamavam
al-meçl, os do ocidente al-meiç;
Ceifões - peças de vestuário, usadas pelos pastores e outros trabalhadores agrícolas no trabalho, feitas de peles de ovinos ou bovino (com a lã no exterior ou sem), abertas no lado de dentro da perna, sem cobertura nas nádegas e geralmente com o comprimento um pouco abaixo da barriga da perna. Este vestuário de trabalho tem a denominação árabe de
çahon ou zahon;
Ovelhas forras - o oposto de ovelhas de ventre, não sendo reprodutoras. Derivação do árabe
horr, e do feminino horra, que significam livre, liberto(a);
Rabadão - maioral (pastor responsável), a cargo de quem estão todos os rebanhos de uma herdade (exploração agrícola). Palavra derivada do árabe raa ad-dhan que designa o chefe ou dono das ovelhas e carneiros;
Zagal - moço muito jovem que, na maior parte das vezes, nem soldada auferia, trabalhando apenas pela comedoria - um triste indicador da madrasta fome (da frequência nem vale a pena falar), em tempos bem recentes no Alentejo -, e domiciliado no último degrau na hierarquia dos condutores de rebanhos. Esta palavra ainda é comum na língua árabe e significa um rapaz forte e esforçado.

Cardo deriva do latim cardúus, que significa "fazer sinal com a cabeça", em alusão à flor deforma ovóide apoiada num caule que oscila à mínima aragem.
Estas flores são colhidas quando a planta começa a ficar senescente, durante os meses de Junho e Julho, sendo guardadas as pétalas e pistilos em locais secos para posterior uso na indução da coagulação do leite durante a época do alavão, finais do Outono, Inverno e princípios da Primavera.
Este coagulante de origem vegetal, tal como o leite de figueira, já era conhecido dos romanos.
É frequente os apreciadores do queijo tradicional alentejano dizerem: Tem o gosto do cardo. E é bem verdade, o cravo grava no sabor do queijo a seu acentuado cunho.

Ervas aromáticas

quinta-feira, 28 de julho de 2011

As verdades contidas num azulejo de Toledo. E não se lhe pode dar a volta?

(Cortesia de C. André)

Ontem como hoje: glórias de pé de barro


A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do século XV representavam a Luxúria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem à gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Políticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagância estética, e os Sábios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os géneros, surge a horda ululante dos charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O próprio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, há assassinos que assassinam. Até o velho instinto da conservação cede ao novo instinto da notoriedade - e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apoteose pela abundância das coroas, dos coches e dos prantos oratórios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto.

Eça de Queirós
, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'

como num espelho



Nunca estive tão só diz o meu corpo e eu rio-me
lembra-me alguém que se atardava sempre diante de uma montra da rua da palma
a olhar para uma camisa que seria sua
assim que o ordenado lho pedisse
porque era aberta
branca
lisa
de praia!

Seis e meia sete horas
saltava da vedeta vinda do alfeite
e era como um gato
ia com os pés para a frente daquela montra
só para ver só para olhar sem ser reparado
só enquanto não fecham estas lojas

Esse ou o António, que gostava de homens
e não só isso como o declarava
dois e dois quatro a quem bem queria ouvi-lo
porque, dizia, ajustando o corpete
homem sou eu dentro da minha farda

Nunca estive tão só diz o meu corpo e eu rio-me
porque o corpo
é o corpo
não tem nada a fazer      não tem para onde ir
não lembra       não se lembra      quer estar sempre agarrado
suprimido       apertado
e se é belo é pior
vive num amarrote permanente

Sim decerto matéria atrai matéria
a boca faz-se sangue o sangue faz-se esperma
a urina espera a custo que o esperma se faça
para vir de novo à superfície do ar
Quando o total atinge a sua forma ejectável
fremimos outros corpos       outros lábios idênticos
mas do lado de lá      como num espelho
nossa fiel imagem invertida

Isso o meu corpo quer – o corpo – noite e dia
ele julga que eu tenho a idade dele
que ainda só sei do homem pelo que transporta
a meia-nau sobre o alto das pernas
- o quadrado das ânsias respirando abertas –
- a diagonal dos braços formando centro –
mas o meu centro de aeração mudou-se
o espelho meu foi puxado para trás
e foca – admirado –a magnificência liberta

Mário de Cesariny
Cidade Queimada – Poema V, Navio de Espelhos (do Livro Titânia e a Cidade Queimada)

Diário do Alentejo 1527

Vai ser um regabofe!


Se bem conheço os patrões portugueses - e desde 1973 que sou assalariado - vai ser um regabofe a partir do próximo ano com a descida das indemnizações por despedimento, que o governo e o patronato estão a cozinhar. As indemnizações têm sido o único travão aos despedimentos massivos de trabalhadores. E dizer que as indemnizações têm que se situar na "média europeia" só revela hipocrisia. Nunca os vi defenderem que os salários em Portugal, ou o salário mínimo, se deviam situar na tal "média europeia". Até nos argumentos são falaciosos.

Évora: a única capital de distrito sem cinema


quarta-feira, 27 de julho de 2011

cultura cigana para estudar na Universidade

Foto de João Luis
Os ciganos constituem uma comunidade mais ou menos integrada na sociedade portuguesa. Na planicie alentejana. Na cidade de Évora.  Nos bairros que se erguem do lado de fora das muralhas. Na rua contígua à minha.
Aqui ao lado, no país vizinho, também acontece assim. Mas, a atenção que as comunidades maioritárias e as suas instituições lhes dedicam é bastante maior e mais qualificada. Disso dá conta a edição de Julho do boletim electrónico acima linkado.
Esta é uma matéria em que bem poderiamos olhar para o vizinho do lado.

Afinal o regadio de Alqueva pode não ficar concluído nos prazos previstos


A ministra da Agricultura, Assunção Cristas, veio hoje dizer que o projecto de Alqueva, onde ainda faltam investimentos de 300 milhões de euros para estar concluído, vai ser "reavaliado", contrariando promessas quer da EDIA, quer do anterior governo, para quem o acordo com a troika não punha em causa o projecto de Alqueva. A ministra disse também que "é muito dinheiro para terminar em 2013 o projecto" não se comprometendo com nenhuma data.
Estas afirmações estão a ser "lidas" com grande apreensão pelos agricultores da zona de Beja (margem direita do Guadiana), que ainda não têm o sistema de rega construído (com origem na barragem do Pedrógão), e temem que o investimento ou não se faça ou seja adiado, pondo em causa muitos olivais e outros projectos agrícolas, já instalados, a contar com a água de Alqueva. 

...é aí, nesses momentos que nasce o medo.

O vazio não existe! tem de ser preenchido.
Mas esse preenchimento pode ser em si mesmo um inapelável apelo. Um paradoxo.
Quando alguém é confrontado com algo que o ultrapassa e sente necessidade de reagir, depara-se invariavelmente com o vazio que essa urgência de resposta implica.
Como responder a algo que não deciframos?

Como contra argumentar o desconhecido?

Em calhando é aí, nesses momentos que nasce o medo.

Sem nada que nos sustente a razão, a nossa resposta será sempre primitiva, ou seja, devoramos o vazio à dentada.

Infelizmente o vazio não alimenta...
Suporta-se então a fraqueza óbvia com o recurso à agitação efémera que o ódio, a fúria, o despeito provocam.
É bom! ser estúpido é apesar de tudo melhor que ser um seixo.

Os estúpidos ainda vão estrebuchando.


M. Sampaio

27 Julho, 2011 12:02

Évora: uma cidade cheia de Jazz



Numa organização da Câmara Municipal de Évora, com produção doimaginário, haverá espectáculos de jazz em três praças de Évora esta quinta, sexta e sábado. Um festival que volta às rua de Évora nestas tardes e noites de muito calor. A não perder.Ver Programa Aqui

Últimas representações de hoje até sábado

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mais uma achega sobre a casca maravilhosa


O Diário do Sul de hoje, tem incerta uma notícia titulada “Cortiças boas valem dinheiro mas há distorção no mercado”. Este informe, espelha a importância económica da cortiça para o Alentejo e regiões vizinhas com importantes manchas de montado de sobro. Complementa ainda o post anterior “Em carne viva”, enriquecendo-o quanto à inquestionável necessidade de conservar e fomentar a floresta mediterrânica para que o Sul do país se torne, efectivamente, sustentável.

“De Janeiro a Maio o valor da cortiça vendida subiu 20% com preços na qualidade de 38 euros a arroba. As vendas chegaram a 55 milhões. Há a suposição que até ao final do ano se vendam 830 milhões de euros.

As boas cortiças tiveram logo compradores mas as mais fracas valeram apenas 17 euros por arroba e com dificuldade de comprador.

Pelas pautas alfandegárias sabe-se (que) o maior comprador foi a Itália com 46 % seguida de Espanha com 32 % e Estados Unidos com 16 %.

Entre os produtos a rolha natural chegou a 23 % e a champagne rolha com 37 %.

A cortiça é um dos produtos alentejanos e o sobreiro aspira a ser árvore símbolo nacional.

Os custos da tiragem roçaram os 5 euros por arroba e a região tem bons tiradores em vários concelhos, nomeadamente jovens”.

Esteve o beltrano mais o cicrano e mais o mano


António Saias, tenho o senhor por um cidadão integro, culto e literato belo e activo que lutou e luta por uma verdadeira democracia participativa. Por ter idade para ser sua filha, tive a curiosidade de me informar da sua longa história de vida. Estou consigo na "guerra" contra o pântano do obscurantismo, na "guerra" por uma sociedade justa e fraterna. Também já cheguei à conclusão que isso só se consegue pela insubordinação, dado os poderosos não abdicarem do trono de mão beijada. A luta pela cultura é um acto de insubordinação, começando muitas das vezes contra a nossa própria tacanhez.
Tal como o senhor, estou do lado dos que se manifestam pela "cultura na rua". Só que nem tanto ao mar nem tanto à terra. A insubordinação para surtir efeito tem que ser ponderada para ser certeira e levar outros a insubordinarem-se.
O que já vi pessoalmente e o que leio incluindo os comentários sobre "a cultura está na rua" começa-me a saturar. Isto é quase uma blogonovela. Somos poucos mas bons, amanhã seremos mais. O fulano disse coisas maravilhosas que temos que pôr em prática. Hoje há lanche e mais isto e mais aquilo. O lanche na praça foi uma coisa inaudita. Esteve o beltrano mais o cicrano e mais o mano. O beltrano mais o cicrano mais o mano não estiveram porque tiveram que tomar duche e cortar as unhas. Depois os que estiveram de corpo presente comentam aqui o facto anonimamente, lindo, mágico, extraordinário. Depois respondem aos comentários anónimos mesquinhos e injuriosos com outros comentários jocosos anónimos. E depois já não é a luta, é quase a fé numa santinha milagrosa. Voltamos para Setembro com novos capítulos.
O António Saias sabe muito, mas muito melhor do que eu que não é com vinagre que se apanham moscas. E o resto dos cinquenta e tal mil residentes no concelho que raramente metem os pés na praça a não ser para ir de má vontade à Câmara ou Finanças? Quanto à blogonovela vale o que vale, e nada valerá para os muitos que não têm computador, principalmente os das freguesias rurais, que continuam a entreterem-se e a cultivarem-se da sua maneira nos clubes e sociedades da aldeia. Porque não vai a "cultura está na rua" e os grupos da plataforma ter com eles aos bairros limítrofres e aldeias?
desculpe-me o António Saias o desabafo

Mónica Rocha
26 Julho, 2011 13:59

assim não deve ser difícil governar


Desde que tomou posse há um mês este governo nada mais fez do que tirar dinheiro aos contribuintes. Foi o subsídio de Natal, o aumentos dos transportes, vai ser o IVA, são os combustíveis, é a legislação sobre as indemnizações... Todos os que trabalham têm estado na mira do governo, mas as empresas e os grandes grupos, pelo contrário, são acarinhados: os bancos vão receber novos financiamentos, os juros aumentam, as privatizações a preço de saldo estão aí.
Poucos governos em tão pouco tempo de governação fizeram tantos estragos. E lá virá, daqui a algum tempo, outro governo, igualmente "estragador" dizer que vem reparar os estragos que este fez. É sempre (será?) o mesmo fado da desgraçadinha: vira o disco e toca o mesmo.

Cinema hoje na Praça do Sertório: "As Viagens de Gulliver"


Próximos filmes: “Inside Job” (2 de Agosto), “Tu, que vives” (9 de Agosto), “O Turista” (16 de Agosto), o filme de animação “Rio” (23 de Agosto) e, por último, “Capitalismo - Uma História de Amor” (30 de Agosto). Todos os filmes começam às 22 horas.

Esta noite na "é neste país"

esta 3ªfeira, pelas 21.30... leituras e conversas. desta vez, com uma leitura muito intimista, onde o mote genérico, é (uma) visão sobre a Guerra Colonial, sobre o cenário em Moçambique. Apareçam, participem, colaborem, discutam...(integrado no projecto Guerras/Crises, do coisasdocorpo/ ExQuorum numa parceria com É Neste País).

Apesar da Maria não gostar lá vai mais uma para quem gosta da cultura que está na rua



para a gente da PRAÇA

como se chega à vida
na Rua
toda a gente está NUA

- que não é o mesmo
que despida

António Saias


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Sem ameias, sem as meias ou mesmo com ameixas, a cidade procura novas leituras de si


À rua chegou o ânimo. Aos poucos, à escala e ao ritmo da cidade, esse ânimo ia-se  manifestando em expressões diversas, desde momentos mais inspirados, às pequenas histórias partilhadas por quem foi passando pela Praça do Sertório durante estas três semanas em que se ampliaram os espaços da cidadania em Évora com a "Cultura está Viva e manifesta-se na Rua".
Numa dessas tardes, um dos participantes chegou com uma placa de madeira, cheio de cuidados e braços, e instalou-a junto à parede da fachada de um grande banco representado na Praça. Um pintor desenhou nela  uma espécie de sol por cima da inscrição promissora: “Viva a Utopia”.
Passaram minutos atrás de minutos, sem que alguém se atrevesse a acrescentar fosse o que fosse àquele princípio.
Um outro dos presentes, ousou então explicitar uma ligação que lhe surgia tão natural como a sua sede, tão íntima quanto óbvia. Procurou o pincel e juntou: “Cidade sem ameias”. Prolongava assim, a primeira evocação de uma das letras de José Afonso, convencido de transportar nesse gesto sintonia e identificação.
O ânimo e a animação alastravam. O fim de tarde desse dia de Julho na Praça do Sertório prolongava-se para além do habitual. Chegavam mais aderentes à ideia de dias diferentes. Cada um trazia olhares outros, linguagens distintas, capacidades de associação diversa.
Duas senhoras, conhecidas entre si, tomavam parte e tomaram também o pincel, decididas a enriquecer as mensagens em formação. Bem lhes parecia que o “Viva a Utopia” não rimava com “cidade sem ameias” (que seria isso de "ameias" perguntavam-se… que o autor teria sido assolado por um lapso… a pedir reparação, diziam). 
E, rápidas, encontraram a solução: ficaria bem melhor “sem as meias”, num gesto de irreverência desejada. Ou mesmo “sem ameixas”, numa alusão ao uso de outras frutas, fossem laranjas ou maçãs, em forma de protesto.
E vai daí, conversa avançada, o mesmo que pintara "sem ameias", num exercício de aplicação das suas convicções democráticas, acrescentou ao texto um pequeno "s", de forma a permitir a dupla leitura: "sem a(s)meias".
Que diria disto o poeta da "Utopia" que cantou uma "cidade sem muros nem ameias"
Talvez que a expressão "cidade sem meias" possa transmitir que quem a habita procura e acolhe as mais inesperadas traduções para a vontade de fazer diferente.

De Londres para Beja em duas horas


Há uns tempos um anónimo questionava aqui no acincotons sobre o que é que eu e o Lopes Guerreiro teríamos a dizer sobre o aeroporto de Beja. Na altura não respondi porque estava noutras andanças. Mas respondo agora: é uma obra bem vinda. A pista já lá estava, a sua utilização era só militar, a adaptação a aeroporto civil custou apenas uns trocos e já está a ser usado. Ainda ontem uma pessoa que conheço chegou ao aeroporto de Beja vinda de Londres para umas férias no Alentejo. Inglesa e com centenas de viagens de avião no curriculum disse-me que gostou muito do aeroporto e do voo e que foi uma maneira muito boa e a bom preço de chegar de Londres a Portugal. Um dos meus filhos (aliás nascido em Beja) partirá no final de Agosto de Beja para Londres, sem necessidade de se deslocar a Faro ou a Lisboa. Não será isto motivo de orgulho para todos os alentejanos?

...e foram 15 dias de Fórum e Assembleias de Rua!

Durante 3 fantásticas semanas, houve cultura e artes eborenses na Rua.
Mostrou-se ao público exemplos do que de melhor se faz em Évora na pintura, poesia, música, contos e histórias, fotografia, teatro...
Na partilha de sentimentos, emoções e liberdades individuais, expressas na opinião de cada um que por lá passou, mas também de forma muito positiva no Facebook (no grupo Cultura em Évora, na página do Fórum e na página do evento), houve tempo e espaço para tudo e todos os que quiseram comparecer... e foram muitos!
Artistas e público partilharam momentos de rara intimidade, na rua, sem preconceitos e aos olhos de todos, aquilo que uns fazem e os outros sentem, aquilo que uns dão a sentir e os outros retribuem com sentimento, com sentido e faz todo o sentido!
Com espírito aberto, liberto de constrangimentos, receios e preocupações de maior, mais de 200 pessoas juntaram-se e revelaram o que lhes ia na alma.
Foram dias magníficos de empatias, partilha e amizades forjadas na abertura, na liberdade e na cidadania no seu estado mais puro... na Rua!

t e a t r o & m a r i o n e t a s
Alexandra Oliveira, João Palma & Pablo Vidal – Pim Teatro
José Alegria, Margarida Alegria & Miguel Alegria – Era uma Vez Teatro de Marionetas
Manuel Dias – Trulé Teatro de Marionetas
Maria Marrafa – Cendrev
c o n t o s & h i s t ó r i a s
Adel Sidarus
André Matias
Dores Correia
Duarte Júlio
Gertrudes Pastor
Joana Matias
Isabel Fernandes
Maria Isabel Melo
l e i t u r a s & p o e s i a
Carlos Júlio
Dores Correia
José Alegria
José Lourido
Margarida Alegria
Margarida Morgado
Miguel Sampaio
m ú s i c a & d a n ç a
Álvaro Lancinha
Elisa Hofmann
João Baião
João Parreira
José Eliseu Pinto
Marcus Bruno
Pédexumbo – aula de danças tradicionais
Pedro Pinto
Revival (banda rock)
Sérgio Bolota
T.A.E. – Tuna Académica do Liceu de Évora
Ulisses Couvinha
p i n t u r a, d e s i g n & a r t e s p l á s t i c a s
António Couvinha
Inês Girbal
Joana Dias
Luís Palolo
Margarida Rita
f o t o g r a f i a
Joana Dias
Luís Palolo
Pedro Pinto
w o r k s h o p s & m o s t r a s
contos, poesia, pintura, máscaras, malabarismos, danças tradicionais
d e b a t e

Da direita à esquerda, do centro aos apartidários, passando pelos indignados com a política, apareceu gente de todas as areas profissionais e do espectro político. Todos foram bem-vindos enquanto cidadãos e enquanto tal, deram força a um novomovimento cívico que agora nasce – A Cultura está Viva e manifesta-se na Rua é para todos os eborenses, quer consumam cultura, quer não, porque a ideia é limar as arestas vivas deste diamante em bruto que é a cidade de Évora.
Cultura faz-se promovendo a partilha solidária entre as pessoas e durante estes 15 dias de grande sucesso, algum burburinho e muito feedback positivo fizémos algo único, memorável e histórico!
Évora transforma-se cultivando o exercício da cidadania, da liberdade e da democracia activa.
VOLTAMOS À RUA DIA 5 DE SETEMBRO!!
mais informação em www.culturanarua.com

domingo, 24 de julho de 2011

Três fotos da marcha em Madrid que juntou milhares de manifestantes sob o lema "Não é a crise, é o sistema".


Um grupo de manifestantes despiu-se frente ao Banco de Espanha, numa acção de protesto como a banca (foto de Gustavo Cuevas-EFE)


Um manifestante, na Gran Via, onde foram pintadas várias frases também contra a banca. Perto do Ajuntamiento de Madrid os manifestantes entoaram palavras de ordem como: "Aqui está a gruta de Ali Babá". E quando passavam junto ao Congresso: "Não nos representam". (Foto de Claudio Alvarez)


A manifestação à chegada à Porta do Sol, no centro de Madrid (Gustavo Cuevas- EFE)

Acabar com os preconceitos

Há um fundamentalismo, o paternalista, muito perigoso também.
Olhamos o mundo à luz da nossa cultura e minimizamos determinados radicalismos enquanto exponenciamos outros.
Foi espantoso assistir ao vendaval anti islamita que quase de imediato tomou conta dos media ocidentais, chegando inclusive alguns jornais a noticiar que o atentado já tinha sido reclamado por uma suposta célula da al Quaeda...
O mesmo se passa do outro (?) lado, a diabolização do ocidente, o ódio quase irracional à nossa cultura laica.
Está na altura de repensarmos a nossa atitude. A morte, a violência, a dor que provocam, não tem cor nem credo, nascem do medo, da ignorância, de condições infra-humanas de existência, nascem de múltiplas fontes, mas desaguam sempre no mesmo mar de sangue.
Seria bom também que equacionássemos o papel dos estados, a legitimação muitas vezes artificial, da violência que exercem em defesa de obscuros interesses que nunca foram legitimados pelo sufrágio dos povos.
Temos de ter a coragem de nos pôr em causa sem preconceitos, só assim nascerá uma resposta.

M. Sampaio
24 Julho, 2011 15:22

A propósito dos atentados da Noruega

O fundamentalismo cristão de que, infelizmente, tão pouco se fala é tão perigoso e violento como o fundamentalismo islâmico. E ao contrário do islâmico que é perseguido, o fundamentalismo cristão organiza-se livremente e tem até o apoio de alguns sectores políticos. A sua emergência, militante, aí está. E temo que as notícias destes "guerrilheiros de Cristo" não se fiquem por aqui.

rt

24 Julho, 2011 11:20

Sindicatos & sindicalismo - a necessidade de mudança


Os sindicatos têm e terão, muito provavelmente, no futuro um papel de relevo na negociação, conflito e mediação entre interesses de partes distintas. Mas, estão de facto a preencher o topo da sua agenda com questões de referência, abrangentes, que se tornam simbólicas. Assim, asseguram o direito a sentar-se às mesas das decisões, a passar pelos microfones mediáticos, a um não desprezível reconhecimento.
Compreendo a sua estratégia, sei das infindáveis horas, de notáveis capacidades humanas postas
ao serviço dos sindicatos. Mas também sei de locais de trabalho e de questões muito concretas que são ignoradas ou remetidas para jovens delegados sindicais acabados de chegar. Estes, ou desistem ao cabo de poucos meses e muitas pressões, ou começam a imaginar-se no plano de dirigentes de topo;com maior distância dos problemas, das pessoas concretas, dos conflitos resultantes de uma exposição desprotegida, pouco eficiente e por isso desgastante.
Parece-me que os sindicatos terão (tal como os políticos) de descer à realidade, que neste caso são os locais de trabalho. E aí, os mais experientes encontrarão boas oportunidades de intervenção, real, concreta, e eficaz. Se as televisões não os procurarem nesses casos, isso não será gravoso.


L. Freixo
22 Julho, 2011 14:12

TAlVEZ A FOTO (há tantas...)

Foto de Hugo Miguel Coelho, 
pic-nic e Assembleia de Rua do movimento
"A Cultura Está Viva e Manifesta-se na Rua"
na Praça do Sertório, em Évora
(noite de 22 de Julho)

Coisas novas  Dizia a Lurdes: "sou de Évora, nasci aqui e nunca tinha feito um pic-nic na Praça do Sertório. Foi preciso haver este movimento para isto acontecer". Ou seja: nem que fosse só por isto já tinha valido a pena!

A FRASE


"Um destes dias, quando vocês estiverem todos no Sertório eu vou para o alto de S. Bento só para ver Évora a sorrir".
 
Miguel Sampaio (via Facebook)

sábado, 23 de julho de 2011

De Oslo chega um alerta negro

Corpos nas margens da ilha de Utoeya (Vegard M. Aas/Presse30/Reuters)
A Europa é uma história comum com um futuro por inventar. 
Os extremismos, o desespero, o terror, a violência, (qualquer que seja a forma de que se revista) são derivas que nos implicam a todos.
Na urgente construção  da impossibilidade das violências,  os novos espaços de comunicação são ferramentas a valorizar e ampliar. As estruturas tecnológicas (internet, comunicações móveis, espaços de comunicação social)  são já muito diversificadas e proporcionam inúmeras potencialidades. Os espaços mais tradicionais como as ruas, os largos, as praças podem ser redescobertos. Mas, sente-se a necessidade de aprofundar a capacidade dos seus usos e interpretações. Ou seja, os diferentes espaços de comunicação carecem de maior genuinidade, de criatividade libertada, de inteligência emocional desenvolvida. Estas serão condições capazes de juntar mais pessoas, de aproxima-las de facto, e de reflectir a imensa dignidade inerente à condição humana. De fazer acontecer a expressão menos condicionada do ser humano. De motivar ensaios de libertação face aos medos que invadem e anulam inúmeras gentes. Pelos caminhos da genuinidade, da cumplicidade humana,  tenderemos a despromover os jogos de manipulação e os opacos exercícios de exclusão, que começando por ser do outro, acabam por nos atingir a todos.

Não é uma crise, é o sistema


Milhares de espanhóis de todos os pontos da Península estão a convergir para Madrid naquela a que chamam a Marcha Popular Indignada. Uns a pé, outros de autocarro, outros utilizando os mais variados meios de transporte. Todas as rotas terminam esta tarde nas Portas do Sol, bem no centro da capital espanhola. Para amanhã está convocada uma manifestação sob o lema de "Não é uma crise, é o sistema". Que tem que ser mudado, é claro.

Mais uma noite mágica


Gostei desta noite na Praça do Sertório. A ideia era fazermos uma espécie de festa de fim de "semestre" do movimento "A Cultura está Viva e manifesta-se na Rua", que diariamente tem ocupado diversos espaços públicos de Évora, desde há três semanas, para realizar Assembleias de base. E fizemos a festa, como estava prometido. Fizémos um pic-nic a sério na Praça do Sertório com sardinhas, linguiça alentejana, morcela de Almeirim, vinho, queijos, pastéis de bacalhau e tudo o que nos apeteceu. Ocupámos a praça, um espaço construído ao longo de século por tantos antepassados nossos. Comemos, bebemos, confraternizámos perante o olhar ou espantado ou cúmplice ou indiferente ou intimidado de quem passava. Muitos portugueses e também muitos estrangeiros. chegámos a ser largas dezenas, quando a classe de dança do PédeXumbo nos pôs todos a dançar ao som do acordeão galego, ou quando o Manuel Dias nos fez enternecer com os seus bonecos ou quando o Ulisses e o Álvaro nos fizeram recordar cantigas antigas ou ainda quando a pintora Inês Girbal e outros deram cor e forma a um dos painéis expostos. Importante foi também a animação e as palavras da Lurdes e da Midus e o poema final da Margarida Morgado.
Hoje tomámos a Praça, de facto. Durante estas três semanas estabeleceram-se cumplicidades importantes. Este é um movimento que se mantém, está vivo e que, agora, suspende o seu estar na rua até 5 de Setembro. Ficamos na net e onde quisermos. Apesar de poder sempre haver surpresas e tudo recomeçar mais cedo, o que está previsto é que nos voltaremos a encontrar no próximo dia 5 de Setembro e a ideia é encontrarmo-nos uma vez por semana, na rua. Mas tudo está em aberto. Até podemos acampar indefinidamente na Praça do Sertório. É uma ideia que começa a germinar. Que se cuidem, que não somos gente para estar parada!
A foto que encima este texto é do Pedro Pinto e é do fim da noite, já perto da uma da manhã. Éramos ainda estes todos. Imaginam quantos seríamos antes? Acertaram: uma imensidão de gente, de pessoas, de seres humanos, individuais e indivisos. Ou melhor: uma praça cheia de sonhos e de projectos. E que não abdica dos seus direitos e deveres de cidadania.

Boa ideia: vamos caiar a Aldeia das Amoreiras!

A Aldeia das Amoreiras, no concelho de Odemira, assinala hoje o Dia Internacional da Caiação. Este é um dia em que as populações se juntam em trabalho colectivo e voluntário para caiar os seus muros públicos e assim tornar as Aldeias Mais Bonitas. Este é um sonho da Aldeia das Amoreiras identificado em 2010 no âmbito do projecto Aldeia das Amoreiras Sustentável, dinamizado pelo Centro de Convergência em parceria com a Comissão de Melhoramentos da Aldeia das Amoreiras.

A caiação vai contar com 30 pessoas da aldeia e com a ajuda de cerca de 180 voluntários, de vários países, que no âmbito do encontro internacional da AFS Intercultura Portugal - associação de Juventude e Voluntariado, sem fins lucrativos - vêm até à Aldeia das Amoreiras para um dia de contacto com a cultura portuguesa e apoio a uma comunidade local. No final decorre um jantar e um baile.

Amália faria hoje 91 anos

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Da afeição pela bola artesanal servida no Campo Estrela e no Sanches de Miranda

Lusitano – Porto, com o grande Vital já guarda-redes / 1956

Desde gaiato pequeno que tenho uma profunda afeição pelo Lusitano de Évora. Do tempo em que palmilhava a cidade de este a oeste, aos domingos, de manhã ou à tarde, conforme fossem desafios de juniores ou seniores. Domingos havia, com duas viagens, dado o calendário futebolístico ser um fartote. Da época em que o Lusitano militava na 1ª Divisão. Em que o futebol era artesanato e os futebolistas artesãos. Os campos dos pobres eram pelados e as botas de travessas. Da altura em que o Lusitano, a CUF, o Barreirense, o Olhanense, o Covilhã, o Leixões e o Seixal se escalfavam do primeiro ao último segundo perante os poderosos. Vital, José Pedro, Paixão, Caraça, Mitó, Falé e Teotónio eram, entre outros notáveis, os artesãos do rendilhado da bola lusitanista. Proletas do futebol, pagos por dez réis de mel coado e mais uns acrescentados borregos, sacos de batatas, potes de azeite... gentilmente cedidos pelos lavradores doentes da bola e da clubite.

Pelo Juventude de Évora, sempre tive admiração. Sempre era da terra e os sócios tinham no voluntariado uma superior dedicação ao clube. O Sanches de Miranda foi construído tijolo a tijolo, pelos que de mãos gretadas ali doavam e dedicavam as suas horas extraordinárias. No princípio da ilustre década de setenta, tive grandes amigos futebolistas do Juventude. Eram os amotinados da bola. O Queiroz, o Máximo, o Vilanova, o Conceição – quase a pendurar as chuteiras depois de épocas de glória na companhia do mano Jacinto João no Vitória de Setúbal -, eram agradáveis companheiros de copos, noitadas e utopias.

(Uma homenagem ao Lusitano que, dizem, se finou, e porque não ao Juventude que continua vivinho)

Ao cuidado da Exma. Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Évora

(A bandeira está ao contrário...)
Excelência

Completam-se hoje exactamente três semanas durante as quais um grupo de cidadãos de Évora saiu diariamente à rua, fazendo de algumas praças da cidade - mas sempre no Centro Histórico - o seu espaço de debate, de informação, de encontro e de alguma animação cultural. Umas vezes fomos 20, outras 30, outras ainda 50, outras ainda mais. Tivemos amigos que vieram cantar, outros trouxeram marionetas, outros recriaram momentos de teatro, outros leram excertos de livros, outros fizeram máscaras e houve também quem só ali estivesse para conversar e encontrar-se com outros iguais, todos cidadãos de uma cidade Património Mundial que deixou de apoiar, desde o segundo semestre de 2009, muitas das entidades envolvidas nas práticas culturais a nível local e que, ao mesmo tempo, deixou morrer culturalmente o Centro Histórico.
E é isso que me traz aqui. Qualquer um de nós lhe teria explicado isto mesmo se, enquanto cidadã, tivesse, nem que fosse um dia apenas, participado nas Assembleias deste movimento informal que se convencionou designar "A Cultura está Viva e manifesta-se na Rua". Teria sido, por certo, bem recebida como qualquer pessoa o é. Como cada um de nós sempre o foi, independentemente de quem somos, onde votamos ou que religião professamos. É um movimento da mais pura cidadania. Por isso, foi pena não ter aparecido.
Podia também - era outra hipótese - ter colocado estas reflexões que se seguem na sua página no Facebook, se, entretanto, não tivesse fechado a página a quaisquer comentários, o que é estranho tratando-se a senhora vereadora de uma eleita municipal, que deveria estar aberta às opiniões, aos reparos e mesmo às críticas do mais comum dos seus munícipes. Não entendeu assim, por isso recorro a este meio.

Estas três semanas diariamente na rua demonstraram-me a mim e a muitos de nós, entre muitas outras questões, quatro coisas que poderiam ser facilmente resolvidas:
1º) Évora necessita urgentemente de animação cultural no centro da cidade, diária, diversificada, sobretudo nos meses de Julho e Agosto, quando é procurada por milhares de turistas e quando os cidadãos aqui residentes têm mais tempo e disponibilidade para saírem à rua. Os dias são maiores e as noites mais frescas, e o que todos encontramos é uma cidade, regra geral, morta (podem existir iniciativas em espaços fechados, mas a rua permanece sem animação);
2º) Évora tem artistas em quantidade e em qualidade que permitiria animar vários espaços exteriores do Centro Histórico sem grandes custos, já que não se pretendem grandes estruturas, nem palcos, nem sistemas de luzes. Os artistas locais - e outros itinerantes - seriam mais do que suficiente para dar uma nova luminosidade ao Centro Histórico, animando-o com propostas culturais locais e tornando-o atractivo e estimulando também o comércio e os valores da cidadania. E permitindo também, nestes tempos de crise, que os artistas de Évora pudessem ter algumas receitas aqui mesmo ao pé de casa.
3º) Não se percebe que, sendo Évora uma cidade cultural, património da humanidade e com um Centro Histórico riquíssimo, mas com problemas de desertificação humana e comercial, a Câmara não possua uma estrutura (como outras cidades têm, mas aqui talvez bastasse apenas uma pessoa), para fazer e projectar esta animação de média intensidade, em colaboração com os artistas locais e com o comércio da zona em alturas como o Natal, as férias, o Verão, etc... e que se responsabilizasse por tudo o que fosse necessário para lhe dar concretização. Claro que isto não é uma questão de dinheiro porque os custos seriam relativamente baixos e muito inferiores aos ganhos que seriam obtidos. De que se trata então, senhora vereadora? Falta de ideias?
4º) Se é o caso, há outra ideia que nasceu destes encontros de rua: permitir o livre acesso ao Centro Histórico de artistas individuais, músicos, perfomers, gente com meia dúzia de objectos de artesanato ou livros antigos e artísticos para vender, dando vida à cidade como acontece em tantas outras cidades estrangeiras e mesmo portuguesas. Talvez experimentalmente, isso pudesse ser feito nalguns horários (por exemplo, fim da tarde/noite) e em certos lugares (Largo João de Deus, Praça do Sertório, Praça do Giraldo...Relegá-los para o largo 1º de Maio não resulta nem é solução...). Seria mais uma ideia para trazer vida, cultura e animação ao centro da cidade.

Estas são apenas algumas das ideias que resultaram das muitas horas de conversa durante estes dias, em Assembleias de base, em que todos se exprimiram e deram os seus contributos. No entanto, as ideias que agora lhe apresento, pedindo a sua discussão ou pelo menos o seu interesse por elas, são feitas em meu nome pessoal. Não represento nada nem ninguém, a não ser a mim próprio. Mas julgo que são ideias que muitos outros partilham e que gostaria que a senhora vereadora mais do que partilhar as tentasse levar à prática. Estou certo que Évora se reencontraria com ela própria. E talvez a senhora vereadora se reencontrasse, então, com a cidade e com a cultura dos artistas e promotores locais de que nos últimos tempos tem parecido estar tão afastada.

Por último, mas não em último lugar, permita-me que lhe confidencie que o que retenho de mais importante destas três semanas em que, em nome da cultura, fomos todas as tarde para a rua, geralmente para a Praça do Sertório, foi o exercício de cidadania, de liberdade e de democracia que conseguimos ali, mesmo frente ao edifício da Câmara Municipal, construir. A democracia não se esgota, a nosso ver, nem no momento do voto, nem nos espaços dedicados ao público nas reuniões da Assembleia Municipal, nem noutros momentos circunstanciais e, quase sempre, simbólicos. O nosso respeito pela cidadania e pelos valores da República implicam-nos diariamente na procura de soluções e alternativas para os espaços que habitamos e a que chamamos nossos. Esse é um exercício de que, em momento algum, abdicaremos. E estas Assembleias de Rua trouxeram-nos esse espaço de respiração de que tanta falta sentíamos - e que não vamos deixar que nos fuja de novo.

Com os meus mais respeitosos cumprimentos

Carlos Júlio
Évora, Bairro da Malagueira,
22 de Julho de 2011