sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

2011: boas festas, seja onde forem.Estas são no Alentejo.



E então para todos bom 2011. Com mais gente inteira.. E com mais sabedoria. Melhor do que 2010 também não é difícil. Ao povo que por aqui passa: Boas Festas. Seja onde forem..Mas Boas Festas!

Novas sobre o REGISTO: estamos de abalada.


Como ontem aqui dei notícia realizou-se hoje a reunião entre os elementos da redacção do REGISTO, a administração e o novo coordenador indigitado, Carlos Trigo, que entrou já em funções. A conversa decorreu cordial, mas fez-me  reconsiderar a minha ligação ao projecto pelo que já anunciei ao membro da administração Silvino Alhinho (por o proprietário da empresa, Peixeiro Simões, estar indisponível via telemóvel) que a partir de agora me considero desligado do REGISTO, depois de há 8 meses assegurar a sua coordenação editorial. Não gostei das mudanças anunciadas (menos "acintosidade" informativa, fim dos 40 graus, redução da opinião aos três maiores partidos), nem do estilo do novo coordenador: sem se integrar no trabalho que estava a ser feito disse ao Paulo Nobre: tu fazes isto! e a mim: tu fazes aquilo! como se uma redacção não fosse uma equipa e um espaço de discussão colectivo dos temas e das matérias. Nunca funcionei assim, nem sei funcionar desta maneira. E não estou disponível para mudar.
Gostei destes meses de construção de um projecto jornalístico que ganhou peso e dimensão na cidade, mas saio sem mágoa: fiz tudo o que era possível (mais uma vez, depois do projecto Imenso Sul) para que Évora pudesse dispor duma voz credível, séria e isenta. Sabia que não ia durar para sempre. Durou o que tinha para durar. 
Outras ideias e outros objectivos irão presidir a um projecto que poderá ser ou não válido, o futuro o dirá, mas que nunca será  o mesmo que foi construído nos últimos oito meses. Neste momento tenho que agradecer a todos que tornaram possível esta experiência, que a apoiaram e a credibilizaram, na certeza de que só a informação que tem a notícia e a novidade como objectivo poderá ser um instrumento importante para o desenvolvimento e para a criação de uma sociedade e de uma cidade mais aberta e plural. Mais consciente e dinâmica. Pelo que sei o Paulo Nobre tomou a mesma decisão de saída. A ele, meu camarada e companheiro de todas as horas, também o meu obrigado por esta caminhada. Por questões imperiosas o Pinto Sá mantém-se no projecto.  A ele, ao Aníbal Fernandes (páginas de desporto), à Margarida (da paginação), ao Pardal (das fotos) também o meu muito obrigado e os meus sentidos agradecimento.
E, como dizia o outro, cá estamos para novas curvas.Que já tardam!

Entrevista com o professor Adel Sidarus


Terça-feira, no exacto momento em que mais de um milhão de egípcios, concentrados na Praça Tahrir, no Cairo, exigiam a demissão do presidente Hosni Mubarak, eu entrevistava o professor Adel Sidarus numa esplanada, em Évora, junto ao Templo Romano, símbolo do apogeu de uma civilização que tornou o Mediterrâneo um espaço civilizacional comum. Adel Sidarus nasceu no Cairo há 70 anos, pertence à minoria cristã copta (cerca de 8% da população egípcia), vive em Portugal há 35 anos e leccionou Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Évora. Hoje é investigador e professor convidado do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica. Considera-se “cidadão do mundo”, embora continue muito ligado ao Egipto, país onde se se desloca com alguma frequência e onde reside ainda parte da sua família. Assume-se também como um orientalista interessado na criação de laços de proximidade entre as duas margens do Mediterrâneo. 



Adel Sidarus 

A revolução egípcia faz lembrar muito a revolução dos cravos 


Abril no Nilo


Texto: Carlos Júlio / Fotos: António Carrapato


Como é que está a acompanhar estas manifestações de protesto no Egipto? Com surpresa? 

Sim. Confesso que foi uma surpresa para mim o que está a acontecer. Não por ter acontecido, mas sobretudo pelo modo como está a ser feito, de uma forma muito espontânea, a partir dos jovens, que são a parte da população que está a sofrer mais e que não vê qualquer futuro para a sua vida, devido à grande falta de trabalho. Estes jovens são abertos, têm mais ou menos formação académica, muitos deles têm formação universitária, e conseguiram, espontaneamente, criar uma revolução que faz lembrar muito a revolução dos cravos aqui em Portugal. 


Só que agora com a ajuda dos telemóveis e da internet… 

Com muita internet e isso deu-lhes ainda mais força. Duvido que neste século tivesse já aparecido alguma coisa de parecido com este movimento, que partiu directamente dos jovens, não militantes de partidos ou de movimentos, mas com força suficiente para dizerem: basta, isto assim não pode continuar. 


Mas não havia quaisquer sinais que fizessem prever esta irrupção dos jovens quer no Egipto, quer na Tunísia? 

Não. Para além de conhecer bem a situação no Egipto também passei algumas vezes pela Tunísia nos últimos anos e sentia uma certa resignação por parte de alguns jovens universitários com quem contactei. Havia, é claro, uma reacção negativa não só contra o regime, a ditadura, a falta de democracia, a falta de trabalho, mas também contra os movimentos fundamentalistas regressivos. 


E que bandeiras transportam estes jovens? Reivindicações de democracia e liberdade ou também reivindicações religiosas? 

Religiosas, até este momento, acho que não. Pelo que sei há cristãos coptas (egípcios) que estão a participar nestas movimentações, o que evidencia que não existem, para já, quaisquer divisões religiosas. 


Portanto, não há semelhanças entre o Egipto de hoje e o que aconteceu durante a revolução iraniana? 

Não. No Irão houve duas forças complementares que fizeram a revolução, e foi uma revolução radical, não só ao nível do regime, como dos usos e costumes: uma corrente mais ou menos comunista ou, pelo menos, de esquerda (os mujahedin) e um movimento religioso profundamente enraizado no povo, que estava farto de ser subjugado pelo Xá. Pode-se dizer que as coisas no Irão e agora no Egipto, ou na Tunísia, não surgiram da mesma maneira: no Irão havia uma oposição forte que, apesar de proibida, estava organizada e implantada em vários sectores, sobretudo no estrangeiro, enquanto que no Egipto e na Tunísia foram movimentos espontâneos. 


Muitas interrogações ainda 



Mas ainda existem dúvidas sobre os caminhos que a revolução no Egipto vai seguir. 

Sim. A minha dúvida agora é a seguinte: será que esta juventude que se está a levantar um pouco por todos os países árabes está a anunciar uma verdadeira Primavera e uma verdadeira democracia ou haverá forças obscuras, e não muito claramente identificadas, que vão aproveitar tudo isto, desta ou daquela maneira? Em termos socio-políticos o grande problema é que durante este período de regimes ditatoriais houve o esvaziamento de qualquer ideologia “laica” depois do falhanço da ideologia do pan-arabismo ou do socialismo pan-árabe, seja no Egipto, na Argélia, no Iraque… 


O que move, então, hoje estes jovens? 

A mais pura espontaneidade. A situação de impasse absoluto no seu dia a dia, nas suas perpectivas de futuro. 


E as razões que motivaram os jovens tunisinos a saírem às ruas são as mesmas que levam agora os jovens egípcios a exigir o fim do regime de Mubarak? 

Há muito em comum. Basta dizer que, num caso e noutro, foram os jovens que fizeram tudo. Só que no Egipto, que é quatro vezes maior que a Tunísia, as coisas ganharam outras proporções. 


Tem falado dos jovens. Mas não existem interlocutores políticos? Fala-se muitas vezes de El Baradei? É um homem com peso no Egipto? 

Acho que não. Não considero que El Baradei seja o homem que esta juventude, ou esta revolução, quer ou precisa. Até o seu curriculum de funcionário das Nações Unidas, comprometido também com o establishment internacional não ajuda e não é isto que o povo quer. Na situação egípcia tudo vai depender também da forma como o exército vai reagir. 


O exército é um dos pilares do Egipto 



Até agora o exército parece estar ao lado dos contestatários. Pelo menos não os hostiliza. Há cenas que, de facto, lembram o 25 de Abril com os populares em cima dos carros de combate. 

Exactamente. O exército egipcio é um grande exército, que não se pode comparar, por exemplo, com o pequeno exército da Tunísia, e constitui a coluna básica do país, não do regime, e há muitos militares à frente dos mais diversos serviços públicos. Foi também este exército que recuperou o Sinai em 1973 e que foi prestigiado e que desde então tem mantido uma linha de “low profile” e de neutralidade relativamente às lutas internas pelo poder, o que o torna bem visto pelos jovens e lhes dá alguma esperança. Nalguns países, como o caso da Argélia, o exército é totalmente corrupto e está no poder. Não é o caso do Egipto, em que as forças de segurança, da polícia normal à polícia secreta, é que são detestadas pelo povo, devido à violência com que sempre actuaram. 


E acha que Mubarak vai conseguir aguentar esta pressão da rua? 

Não. O povo está farto dele, tão farto que nem conseguiu promover a figura do filho para seu sucessor. Agora tudo depende do que fará o exército. Mubarak é alguém que está no poder e que não quer sair, já envelhecido, e com uma clique à volta que também está com medo de perder os seus privilégios. Se o exército apoiar uma democracia progressiva, Mubarak, até pela forma indecente como reagiu à contestação, agarrando-se ao poder, já não tem lugar nos órgãos do Estado. 


E o que é que vai acontecer agora? 

Depois de qualquer revolução tem que haver uma ideologia que permita uma nova reformulação do país, o dar-lhe um novo conteúdo interno. Relativamente ao Egipto esta é a minha dúvida: qual a ideologia que vai cimentar o novo regime? Ainda é cedo para se saber o que vai acontecer de facto no Egipto. Mas há uma certeza: a situação politica vai ter que ficar diferente. E, a meu ver, vai haver uma luta entre o exército e as forças de segurança (policia, secreta, etc.). Qual o desfecho deste braço de ferro? Não sei. Mas há outra interrogação: quais as forças políticas que vão surgir para preencher o vazio de 30 anos de ditadura? Serão forças islamistas, abertas, moderadas, equilibradas, tipo das da Turquia, ou forças mais radicais e extremistas? São perguntas ainda em aberto. 


O islamismo pode ser moderado 



O professor define-se como cristão egípcio. Não teme que os Irmãos Muçulmanos possam ter força suficiente para se assumirem como um partido dominante? 

Os Irmãos Muçulmanos são o movimento que está constítuido há mais tempo no Egipto e que, ao longo dos anos, conseguiu adaptar-se à situação. Estão divididos internamente entre radicais, defensores do terrorismo, por um lado, por outro, em islamistas moderados. Não estou em condições de dizer se a ala mais radical poderá ou não ressurgir, sobretudo depois do aparecimento da Al Qaeda no Norte de África. Mas, se houver uma grande indecisão em avançar-se com a democracia, estes radicais poderão tentar preencher este vazio. Se houver eleições dentro de pouco tempo e o país voltar à normalidade democrática, em que os Irmãos Muçulmanos possam constituir um partido ou alianças diferenciadas, parece-me claro que será a ala moderada a ganhar terreno. Em relação aos cristãos e a outras minorias, os Irmãos Muçulmanos moderados respeitam a lei islâmica que abre as portas às minorias religiosas, sobretudo as monoteístas. 


Como é que vê o futuro do Egipto? A democracia, de tipo ocidental, pode ser uma opção? 

No nosso país não é esse tipo de democracia que é suficiente e que queremos. Não se pode pedir que nos países do terceiro mundo, com o número imenso de pessoas marginalizadas, uma democracia de tipo ocidental possa responder, só por si, aos anseios das populações. 


Como é que vê este mundo mediterrânico, de um e de outro lado do chamado mar interior dos romanos. Existe um conhecimento mútuo? 

Acho que não. Sonho e desejo que os jovens de ambas as margens comecem a contactar entre eles e que desse contacto nasça, em primeiro lugar, uma maior solidariedade entre os dois lados deste lago e que, em segundo lugar, seja um impulso para a construção de verdadeiras democracias e não de democracias a fingir, como as que hoje existem na Europa,onde muitas vezes o poder político é dominado pelo poder económico. Mas não tem havido ainda um verdadeiro contacto entre os jovens do sul da Europa e do norte de África.A cultura e a religião têm-no impedido e é preciso ultrapassar isto. 


Como é que esses contactos se poderiam processar. As universidades poderiam ser importantes numa primeira fase? 

Há várias possibilidades. Por exemplo, desenvolver programas comuns, tipo Erasmus, que no quadro da União Europeia tem modificado de forma muito acentuada as relações entre os povos, sobretudo a partir dos jovens. E existe a possibilidade de alargar este programa para outros países que não apenas da União Europeia. A meu ver, a prioridade deveria ser exactamente a outra margem do Mediterrâneo, permitindo o interrelacionamento contínuo entre os jovens de ambos os lados, de forma a que no espaço de 20 ou 30 anos estivessem criadas as condições para um novo relacionamento mútuo. E isto é algo de essencial.

(in Diário do Alentejo,de 4/2/2011)


Prophetia do fim do mundo



São do senhor Michel de Nostredame, popularmente conhecido por Nostradamus, as profecias que embeiçaram meio mundo durante 500 anos. A sua carreira profissional como vidente e ocultista levou-o a escrever nos idos de 1555 um opúsculo intitulado Les Propheties, mais certeiro que os números auditados da extracção da Lotaria Popular. “No ano de 1999, sétimo mês, do céu virá um grande rei do terror”. Tenho para mim que o homem acertou em pleno. Não apenas por Guterres ter chegado ao Governo, mas sobretudo porque a patusca aldeia de Ronfe foi finalmente elevada à categoria de vila, o que diz bem da nossa natureza enquanto povo. O que se seguiu [e até o que o antecedeu] é histórico. Embalados pela crença do fim do mundo, outros profetas anunciaram o céu, o holocausto e até um estádio de futebol com meios de TV. Nada que igualasse Michel de Nostredame mas a verdade é que o mundo não voltou a ser o mesmo. Pelo menos até agora, quando chega 2011, i.e., se aproxima perigosamente o fatídico 2012, ano bissexto em que a Bulgária adoptará o euro [?] e em que o calendário maia inscreve o fim do mundo a 21 ou 23 de Dezembro, conforme as preferências apocalípticas de cada um. Eis-nos de volta a um período áureo de previsões proféticas, em que se anuncia o aumento do IVA, mais cinco anos do professor Cavaco e a incapacidade crónica da Câmara de Évora. Temo que as profecias se voltem a revelar certeiras.

O ano da morte de Saramago e “a caverna”

















2010 fica sem dúvida marcado pela morte de José Saramago, o único Português que até hoje recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Neste final de ano o seu romance “A Caverna” não me sai da cabeça. Não sei se é por causa da crise financeira internacional e do pânico dos mercados que ninguém entende e mais se assemelham a jogatinas de casino. Poder
á ser também por causa do caso Wikileaks que tem trazido para a luz as sombras de um mundo selvagem em que todos os dias civis são mortos com a ligeireza de um jogo de computador. Ou terão sido as imagens da corrida aos saldos em roupa interior para ganhar duas peças de roupa...

O que é certo é que não consigo deixar de pensar que 2010 foi o ano em que saímos da Caverna/Shopping. E quando estamos prestes a aventurar-nos em águas desconhecidas, devemos reflectir se queremos continuar a usar as mesmas estratégias que nos trouxeram até aqui...

Não sendo tão pessimista quanto Saramago, não acredito que “a globalização vá engolir os direitos humanos”. Mas pelo sim pelo não é melhor começar a pensar mais nos outros seres humano e em que tipo de mundo queremos viver, nem que seja por egoísmo. Como diz a profecia chinesa: “que vivas em tempos interessantes”. Lá isso são os tempos em que vivemos

Feliz Ano Novo!

Pilhérias da lusofonia, ainda, neste comatoso gregoriano


No rectângulo da borda d’água.
“Para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes”. Um atestado, até prova em contrário, de parca honestidade para a totalidade do rectângulo, dado ninguém ter demonstrado ter bisado o nascimento, que eu saiba?
Um boss duplo com muito gelo e água de castelo, por favor.

Angola.
O boss volta a solicitar o engajamento dos membros do governo para a boa gestão da coisa pública e combate à corrupção.
Uma coisa pública óctupla com muito gelo e água de Offshore, por favor.

Moçambique.
O boss enriqueceu e tornou-se num dos homens mais ricos do país vendendo patos.
Um pato de ovos de oiro quíntuplo [dantes era galinha] com muito gelo e água da Namaacha, por favor.

Guiné-Bissau.
Tem boss [este até ver] mas não tem coisa pública, só um povo que vê o pó assentar, quando vê, ainda que não lhe toque um farrapinho do sonante.
Um cocktail de generais, brigadeiros, coronéis, majores, almirantes, com natas sul-americanas e uma folhinha da erythroxylum a enfeitar, por favor.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Apesar das mãos foi este senhor quem assinou o despacho

Lê-se e não se acredita. Lê-se outra vez e a boca faz um O de espanto. Relê-se e percebe-se o nível de gente que continua à frente das principais instituições deste país. É uma gente que só olha para o seu bolso. E o dos seus certamente. Diz a notícia da SIC: Chefias da Segurança Social foram promovidas com retroactivos a Janeiro: a Segurança Social promoveu todas as chefias para compensar os cortes salariais no próximo ano. O aumento tem efeitos retroactivos ao início de 2010. As nomeações foram hoje publicadas em Diário da República e são assinadas pelo ministro das Finanças.

Repondo as coisas no sítio

Reparo que vários comentários aqui no acincotons referem mudanças na redacção do REGISTO (onde eu e o Paulo Nobre, desde há cerca de 8 meses, prestamos a nossa colaboração em part-time). Esta é uma cidade pequena e as notícias circulam com rapidez. Assim, convém que as coisas sejam claras, como sempre tem sido da nossa parte e também da administração do jornal. Até pelo facto de entender que um órgão de comunicação social, para ser credível e ter espaço nas comunidades em que se insere, deve ser transparente e estabelecer um pacto de cumplicidade e verdade com os seus leitores, acho que é meu dever partilhar o que sei com quem procura neste blog informação sobre o que o rodeia. Mesmo sobre um pequeno/grande jornal de província:
1) Esta tarde fomos informados pela administração do jornal que o ex-jornalista da Lusa Carlos Trigo, antigo assessor de Miranda Calha, quando este esteve com a pasta do Desporto, e de Jorge Araújo, quando era reitor da Universidade de Évora, e que mantém na internet o site informativo www.noticiasalentejo.pt, tinha sido contratado para coordenar a redacção. A direcção do jornal continua a pertencer ao actual director Nuno Pitti, mas será Carlos Trigo quem manterá, a tempo inteiro, a coordenação da redacção e a ligação à direcção.
2) Foi-nos dito (a mim pessoalmente, ao Paulo só amanhã por ele se encontrar fora de Évora) que contavam com a continuação da nossa colaboração.
3) Respondi que nada tinha contra o Carlos Trigo, mas que a minha manutenção no jornal estava condicionada a uma conversa com ele sobre a forma como ele entendia o trabalho em comum e as regras que irão presidir a partir daqui à feitura do jornal. O Paulo assumiu a mesma posição e, por isso, ficou combinada uma conversa alargada amanhã, com o Carlos Trigo, com quem ainda não falámos, sobre a nossa continuidade ou não neste projecto.De que darei aqui conta, naturalmente.
4) O facto do jornal não ter chegado a alguns dos sítios habituais deveu-se a um problema com a distribuição, que a adiminstração me disse que amanhã já deverá estar resolvido.

Cidade de filósofos


Thomas Hobbes foi amigo de Galileu e professor de Carlos II. Nasceu em Inglaterra em 1588. Influenciado pela reforma anglicana, foi filósofo e matemático. Escreveu Leviatã (não confundir com o livro de Paulo Auster), onde defende que a determinação do ser humano é permanentemente influenciada por impulsos externos – “homo homini lupus”. Não é leitura que se recomende. Mas para o caso uma frase que escreveu assenta que nem uma luva: “A ociosidade é a mãe da filosofia”. A ser verdade acredito que não faltem filósofos nas autarquias onde, segundo contas oficiais, o número de trabalhadores não tem parado de crescer. O ano de 2009 fechou com mais 5533 trabalhadores municipais e 2010 não deverá andar muito longe disso, apesar do rigoroso [?] congelamento de admissões na Função Pública. Só na Câmara de Évora há que contar com 1207 funcionários o que, grosso modo, dá a média de um trabalhador autárquico por cada 45 habitantes, a que se somam os funcionários de juntas de freguesia, empresas municipais e organismos congéneres. Há exemplos piores, como o de Alandroal, com um funcionário por cada 28 habitantes, mas não serão assim tantos. Há quem diga que este é um espelho onde se reflecte a impunidade dos decisores políticos. Pelas palavras sábias de Thomas Hobbes, prefiro acreditar que por detrás das aparências existe a verdadeira vontade de edificar uma cidade de filósofos.

Bobby já não canta mais

À minha geração não diz muito, mas para quem viveu fortemente o final dos anos 70, Bobby Farrel e os Boney M foram um "must" das pistas de dança.
Farrel morreu esta quinta feira num quarto de hotel em São Peterburgo, cidade onde tinha actuado.
Daddy Cool talvez tenha sido o "hino" que ficou de toda a carreira de Farrel.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O último REGISTO de 2010

Uma grande crónica do velho Bastos


Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam, nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam.
Há trinta e cinco anos que nos roubam, não só os bens imediatos de que carecemos, como a esperança que alimenta as almas e favorece os sonhos.
Há trinta e cinco anos que cometem o pior dos pecados, aquele que consiste na imolação da nossa vida em favor da vossa gordura.
Há trinta e cinco anos que traem a Deus e aos homens, sem que a vossa boca se encha da lama da mentira.
Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões de desempregados, de desesperados, de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade.
Há trinta e cinco anos que tripudiam sobre o que de mais sagrado existe em nós.
Há trinta e cinco anos que embalam as dores de duas gerações de jovens, e atiram-nos para as drogas, para o álcool, para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido.
Há trinta e cinco anos que caminham, altaneiros e desprezíveis, pelo lado oposto ao das coisas justas.
Há trinta e cinco anos que são desonrados, torpes, vergonhosos e impróprios.
Há trinta e cinco anos que, nas vossas luras e covis, se acoitam os mais indecentes dos canalhas.
Há trinta e cinco anos que se alternam no mando, e o mando é a distribuição de benesses, prebendas, privilégios entre vocês.
Há trinta e cinco anos que fazem subir as escarpas da miséria e da fome milhões de pessoas que em vocês melancolicamente continuam a acreditar.
Há trinta e cinco anos que se protegem uns aos outros, que se não incriminam, que se resguardam, que se enriquecem, que não permitem que uns e outros sejam presos por crimes inomináveis.
Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos, embora com rostos diferentes.
Há trinta e cinco anos que os mesmos jornais, sendo outros, e os mesmos jornalistas de outra configuração, sendo a mesma, disfarçam as vossas infâmias, ocultam as vossas ignomínias, dissimulam a dimensão imensa dos vossos crimes.
Há trinta e cinco anos sem vergonha, sem pudor, sem escrúpulo e sem remorso.
Há trinta e cinco anos que não estão dispostos a defender coisa alguma que concilie o respeito mútuo com a dimensão colectiva.
Há trinta e cinco anos que praticam o desacato moral contra a grandeza da justiça e a elevação do humano.
Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo, construíram um país só para vocês.
Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social, que esculpiram as várias faces da miséria e, agora, sem recato e sem pejo, um de vocês faz o discurso da indignação.
Há trinta e cinco anos começaram a edificar o medo, e o medo está em todo o lado: nas oficinas, nos escritórios, nos entreolhares, nas frases murmuradas, na cidade, na rua. O medo está vigilante. E está aqui mesmo, ao nosso lado.
Há trinta e cinco anos encenaram e negociaram, conforme a situação, o modo de criar novas submissões e impor o registo das variantes que vos interessavam.
Há trinta e cinco anos engendraram, sobre as nossas esperanças confusas, uma outra história natural da pulhice.
Há trinta e cinco anos que traíram os testamentos legados, que traíram os vossos mortos, que traíram os vossos mártires.
Há trinta e cinco anos que asfixiam o pensamento construtivo; que liquidaram as referências norteadoras; que escarneceram da nossa pessoal identidade; que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito; que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença; que condenam a norma imperativa do equilíbrio social.
Riam-se, riam-se. Vocês são uma gente que não presta para nada; que não vale nada.
Malditos sejam!

b.bastos@netcabo.pt
(gentileza do C. André)

Um aristocrata condimentar e não só…




Poejo (Mentha pulegium), planta espontânea conhecida e usada há séculos em todo Mediterrâneo e Ásia ocidental. Dizem-na com propriedades medicinais como expectorante e calmante. É, ainda, mezinha usual contra a constipação, tosse, enjoo, bronquite e asma.
No Alentejo, desde a avó do tempo que é coagida a pular para a panela. Sopa de poejos com feijão-frade, açorda de poejos, poejada com queijo e ovos, migas de bacalhau com poejos, feijoada de bacalhau com poejos, são alguns dos acepipes com que regalamos o palato. Mais variantes há, ou não fossemos uns atrevidos acrobatas na corda bamba do barranhão ao lume.
Por cá, ainda lhe outorgámos uma usança no território dos bebes. O miraculoso licor de poejo. Fresquinho e de penálti, é xarope que desentope qualquer goela mais atrapalhada.

Feijoada de bacalhau com poejos

(4 – alarves – 4)

3 boas e altas postas de bacalhau demolhado previamente
1 molho de poejos abastado
1,5 dl de azeite
4 dentes de alho
1 cebola
1 folha de louro
½ kg de feijão encarnado previamente demolhado (12 horas)
6 batatas médias
3 cenouras
4 ovos
sal
pão, pão da véspera

Coza o feijão com sal q.b. e reserve o caldo da cozedura e o feijão. Num tacho verta o azeite e coloque a folha de louro os alhos e a cebola picados. Leve ao lume. Quando a cebola aloirar, junte o caldo onde cozeu o feijão, as batatas aos cubos e as cenouras às rodelas. Assim que a substancia estiver cozida, adicione o bacalhau em posta, o feijão e o molho de poejos. Rectifique o sal. Quando o bacalhau estiver no ponto, escalfe os ovos.
Sirva o bacalhau e os ovos escalfados numa travessa e o restante adubo e caldo numa terrina onde previamente depositou o pão fatiado finamente.

Este caldoso prato condimentado com poejos vai bem com um branco, mas com um tinto leve, melhor se for da talha, também não desmerece. Calque o conteúdo interior com uma talhada de melão de pendura. Olaré!

Gastronomia hospitalar


Escrevo no popular café Pier 17 na zona Sul de Manhattan. O resultado seria idêntico se o fizesse na Casa das Codornizes, ali ao lado do edifício onde funcionou a Comissão de Coordenação, mas não há bom cronista que não escreva de Nova Iorque, Londres ou Singapura. É sempre importante uma boa dose de mundividência. O subterfúgio nova-iorquino, como já se viu, não passa de um recurso cronístico para não começar logo a informar que escrevo no corredor da urgência pediátrica do Hospital de Évora. É pois uma crónica hospitalar para falar de gastronomia, da ementa oferecida a quem espera a oportunidade de uma consulta. Um verdadeiro festim: 16 a 18 variedades de bolachas, 8 de chocolates, refrigerantes q.b., algumas gomas e pipocas. Abertas as hostilidades com uma tapa espanhola de Galletas com chips de chocolate puro, avança uma embalagem de míni-croissants cozidos no forno, 460 calorias a dose. Segue-se um chocolate em barra e um Kinder já que Bueno é bom. À sobremesa, uma torta recheada com doce de morango. Tudo regado com néctar de pêssego. Outro bombom para entreter a criançada seria incentivar a abertura de uma banca para oferecer brinquedos em troca da compra de hambúrgueres com batatas fritas. Café para finalizar a refeição, seguido de alguma impaciência até ao momento de enfrentar o diagnóstico médico: Então o problema é a febre persistente? Oh doutor, se calhar o melhor seria começar pela cárie.

Luz no Oriente


Observo atento a Luz no Oriente, expectante,
Onde aparece uma Luz de Menino nascido,
Renascido pela força da Estrela Flamejante!

Saboreio nela a sabedoria dos que já partiram,
Sinto a beleza dos sorrisos que nos deixaram
E a ternura dos pequeninos que nos chegaram.

Volto a olhar em ti o simples, o puro e o belo
E fico em profunda Paz contigo, em puro elo,

E em mim fica o fluir do teu incontido sorrir,
Amor comungado em cadeia de união contigo,
Meu bom Irmão, meu sincero e bom Amigo!

Évora, 2010-12-24
J. Rodrigues Dias

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Analise de um leigo sobre a crise do Ocidente

Considerando que:
-O capitalismo predador, aliado à ignorância do povo, conseguiu fazer cada vez mais produtos a preços cada vez mais baixos;
- Os media controlados pelo capital não podem de modo nenhum ser imparciais; vendem sonhos irrealistas de que o nosso Sócrates é um bom exemplo;
- A tecnologia permitiu descer o preço do trabalho, quase todo ele por processos automáticos; e como se isso não bastasse, há paraísos de trabalho escravo, como a China, África, etc.
Eis-nos, assim, chegados a uma Europa onde não se faz há anos um chip para computadores, e onde as deslocalizações se fazem a ritmo acelerado; onde a destruição total da classe média, desde os PIGS, até a propria França, e por último a Alemanha, tambem vão cair na miséria.
A globalização capitalista arrasa o mundo do trabalho no Ocidente; as mais valias produzidas são desviadas para paraísos fiscais com a conivência da Comissão Europeia e do próprio Obama.
Este foi outra desilusão, Yes we can, como assim ? Tens medo dos republicanos do Tea party, tudo te assusta ?!
Acredito que a mudança da paradigma tem que partir de cada um de nós, numa aliança, que a NET permite.
A WikiLeaks, pode ser um modo de alertar para os ídolos de pés de barro que nos governam.
Blogs como este podiam ser fóruns de discussão, mas temos de ser mais abrangentes, não discutir só rotundas, alfaces, Zé, ou Luciano

Anónimo,
às 22:23 de 27 de Dezembro

Os votos do Aníbal e da Maria

Dialecto de cá [1]


Livro essencial, este Dicionário de Falares do Alentejo, no estancar da erosão da cultura transtagana.

Está impresso na contracapa: “O desenvolvimento económico e, correlativamente, o desenvolvimento técnico-científico, em particular o acesso generalizado das pessoas aos meios de comunicação audiovisuais, têm ampliado o poder da uniformização da língua-norma, levando a todos os recantos a língua falada pelas classes cultas de Lisboa e Coimbra. Vão-se, assim, perdendo certas particularidades locais e, com elas, uma importante fonte linguística e etnográfica.
Não podendo colmatar por inteiro as dificuldades acima referidas, o presente trabalho procura atenuar a erosão dos falares locais e contribuir para a sua autodefesa”.
Na soleira da porta do livro:
“Alentejo
extensa planície ardente
de longas e lentas lonjuras
seu doce falar dolente
revela a alma da gente
a calma das amarguras”
(Manuela Florêncio, Dialecto Alentejano – Contributos para o seu estudo, Edições Colibri, 2001, p. 5)

Vou dar vaia dos termos que entendo por mais curiosos. Nalguns, acrescento notas que fui recolhendo da lavra das minhas gentes.

ABAIXAR, v. int. Defecar.
ABALADIÇA, s. f. Última rodada, últimos copos. Termo mais usado no Baixo-Alentejo.
ABALAR, v. tr. Partir. Observação: no Alentejo, em geral, nunca se diz partir, mas sim abalar.
ABEBERAR, v. tr. Demolhar, embeber, ensopar (Baixo-Alentejo). Já ouvi usar este termo em locais de todo o Alentejo.
ABEXIXE DA GAITA, loc. s. Pénis, zona púbica (Portalegre – DB).
ACARRO, s. m. Descanso, folga dos animais. Geralmente empregue para os rebanhos de ovinos, durante o verão, nas horas de maior calor, em que os animais se deitam à sombra.
AÇORDA-CEGA, s. f. Açorda que não leva acompanhamento (JPM). Sempre ouvi que as açordas eram cegas porque o caldo tinha poucos ou nenhuns olhinhos de gordura a boiar, isto porque tinha penúria de azeite.
ADREGO, v. int. Acerto. Casualidade, coincidência (Portel). É um adrego, é um caso raro.
AFEGAR (É), v. int. Respirar com dificuldade.
AGASTURAS, s. f. pl. Ânsias, enjoos, aborrecimentos (Alandroal).
AJOUJAR-SE, v. r. Amancebar-se.
ALCAGOITA, s. f. O m. q. alcagaita. Amendoim.
ALGARISMO, s. m. Bulha, altercação (Beja – GAS).
AMAGAR-SE, v. r. Ficar-se (a perdiz), apesar de perseguida, mercê do calor (AMS). Vai amagar-se, vai deitar-se na cama.
ANDANTE, s. m. Guardanapo ou rodinha que, nas casas pobres, servia a todos (GAS). Rodilha: pano velho.
APORREAR, v. tr. Provocar com palavras ofensivas ou sarcásticas.
ARREMATAR, v. int. Dizer palavras injuriosas ou obscenas.
AVEJÃO, s. m. Lobisomem.
BABANA, adj. Parvalhão, simplório.
BAETA, BAETOS (Ê), s. m. pl. Brinde que os padrinhos de baptismo dão às mães ou às crianças (Évora – GAS e MAS). Também se chama baeta ao barbeiro. Em Messejana existiu, durante a década de oitenta, a Rádio Baeta que tinha a particularidade de ter um locutor analfabeto.
BALHANA, s. f. Amontoado de objectos com pouco préstimo.
BARRIGA-DE-ALMECE, adj. Barrigudo, gordo (DB). Almece: soro resultante do fabrico do queijo. Utiliza-se na alimentação de animais e, se for de leite de ovelha, também as gentes o consomem com sopas de pão. Há uma receita de um bolo de almece na região de Montemor-o-Novo.
BATUCALHO, s. m. Ataque epiléptico (MJS).
BENZA-AMOR, s. f. Insecto Louva-a-Deus (Ferreira do Alentejo).
BICAL, s. f. Variedade de Azeitona. Também se diz de uma pessoa que não gosta de uma grande variedade de alimentos.
BÓIA, s. f. Pequena refeição (GAS). Pedaço de toucinho (DB).
BUFORA, s. f. Pistola (Mora).
BURRO, s. m. Assento de três pés, executado a partir de um tronco de árvore, constituindo uma única peça.
CABANEIRO, s. m. Cesto de vime ou empreita. Homem que vive em cabana. Também de se denominavam de cabaneiros os candeeiros a petróleo, de lata com chaminé de vidro e pega em cima, que não se apagavam com o vento. Quando os dias estavam chuvosos mas com a temperatura amena, diziam-se que estavam cabaneiros.
CAGA-AZEITE, s. m. Libélula, libelinha (Portel – GAS).
CAGUINCHAS, s. 2 gén. Pessoas queixinhas (Portalegre – DB). Também se uso noutros locais para denominar uma pessoa pequena e medrosa.
CALCANTES, s. m. pl. Pés, sapatos.
CAMISA-DO-BAPTISMO, s. f. A pele do corpo (GAS).
CANDEIO, s. m. A floração das oliveiras e dos sobreiros (Baixo-Alentejo). No Alentejo Central também se usa o mesmo termo.
CAQUEIRO, s. m. Cântaro que se quebrou e cujas partes bojuda e inferior se aproveitam para depósito das cinzas ou para recipiente de restos de comida para animais.
CARDAL, s. m. Cemitério (GAS).
CATALÃO, s. m. Espécie de enchido, feito de carne picada de diferentes partes do porco, grãos inteiros de pimenta preta, pimenta branca moída, vinho branco, sal e noz-moscada (Barrancos). Observação: a origem deste enchido deve-se, provavelmente, à presença, no século XIX, de trabalhadores catalães do sector corticeiro. Na Azaruja, onde também houve influência dos operários corticeiros catalães há um enchido denominado botifarra. É nada mais que o courato com algum toucinho cozido embutido na tripa de porco.
CHIMBALAU, s. m. Grande prejuízo (Portalegre – DB). Este termo vulgarizou-se por todo o Alentejo.
COZER, v. int. Dormir, para passar a bebedeira. Estás a cozer a bebedeira?
CRIAÇÃO, s. f. Educação.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Há anúncios que vão bem com este blogue!

Como não trabalhamos só para o boneco
e o nosso artesanato não é de ferro,
vamos fazer como se faz de norte a sul do país
e entrar no espírito da época:

SALDOS*
de renovação de colecção da Oficinadaterra!
Até 50% de redução em todas as peças assinadas e datadas até 2010.
*Não extensível a encomendas.

Earthcircuit: depois da Ásia o desafio americano.


De tempos a tempos dou novas aqui no acincotons da forma como está a decorrer a viagem à volta do mundo que um grupo de jovens europeus, de várias nacionalidades, iniciou no princípio de Junho em Inglaterra e os levou, através da Sibéria, ao extremo-oriente. Chegaram a Vladivostok em Outubro e no final desse mês à Coreia do Sul, onde têm estado até agora. Mas, por estas horas, estão de partida. Ontem puseram as duas carrinhas em que se fazem transportar num barco e, talvez já neste momento, estejam a voar para Vancouver, no Canadá. Não todos. Um dos quatro, o Andy, vai ficar na Coreia do Sul, mais uns dias, até por volta do dia 15 de Janeiro. É que só nesse dia tem autorização para voar com o quinto elemento da expedição: Vaga, um cão nascido na India, em Goa e que se juntou ao earthcircuit para uma vida de aventuras.
Dúnia (portuguesa), Radka (checa) e Conny (austríaca) vão esperar em Vancouver pelo Andy (inglês) e pelas carrinhas, que deverão chegar pela mesma altura, e depois iniciarem a travessia do continente americano, que não se deverá limitar apenas aos Estados Unidos da América. Esta manhã falei com a Dúnia através do Facebook. O dinheiro já não é muito e pensam trabalhar e ganhar alguns dólares com exposições e manifestações artísticas em espaços alternativos. Como também fizeram na Coreia do Sul. Temem o frio: o aquecimento de uma das carrinhas avariou-se. Mas continuam em frente. Já com meio planeta levado "de vencida" e muitas histórias para contarem. 
Por cá irei dando mais novas e outras estórias de gente para quem viajar não é ficar dois dias num "resort" turístico em qualquer Bali do mundo.

Boas notícias anunciadas por Castells

Manuel Castells, sociólogo
“A ciberguerra começou. Não uma ciberguerra entre Estados como se esperava, mas entre os Estados e a sociedade civil internauta. Nunca mais os governos poderão estar seguros de manter os seus cidadãos na ignorância de suas manobras. Porque enquanto houver pessoas dispostas a fazer leaks e uma internet povoada por wikis surgirão novas gerações de wikileaks.”

Este último parágrafo de um texto do sociólogo catalão Manuel Castells,  (publicado no jornal La Vanguardia de 11 de Dez. de 2010, difundido em português pelo blog Pimenta Negra, que também já publicou um outro artigo assinalável de Castells) é um sinal de alerta, ou uma espécie de importante auxiliar de diagnóstico sobre o estado do nosso mundo político.
De facto, no decurso da história recente, os poderes instituídos dominam sob as bandeiras da legitimidade democrática, económica, religiosa ou outra. Sem que os dominados tenham capacidade de se assumir como parte “legitimamente interessada” ou “a considerar como respeitável”. Isto é, os governados ou dominados são apenas aqueles a quem cabe adoptar comportamentos, atitudes, raciocínios, sentimentos, pré definidos pelo poder com uma amplitude de possibilidades controlada.
O fenómeno Wikileaks parece confirmar que são possíveis outras possibilidades não previstas e ainda não controladas. O que farão os poderes com esta constatação?
Para já reagiram da forma tradicional: Oferecendo medo (fazendo crer que estava em causa a segurança dos estados e de vidas humanas), prisão (apelando a valores supostamente próximos do feminismo e da liberdade individual, consagrados na penalização da violação sexual), estrangulação económica, entre outros tipos de pressão conhecidos e usados pelos poderes com frequência e eficácia.

Mas Castells alerta para o facto dos novos meios de comunicação  – a net – poderem colocar muitos cidadãos  fora dos tradicionais sistemas de controlo. E prevê já “novas gerações de Wikileaks”. Poderá isto ser sinónimo de novas gerações menos controladas pelos poderes instituídos? Mais livres ? Mais independentes ? 
São afinal votos de esperança, os que aqui ficam.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Em 2012 é que vai ser! (Sócrates ainda estará por cá?)


A esta época de Natal e Ano Novo costuma-se chamar As Boas Festas. Sendo assim (ufa!) metade já está passada. Falta a outra metade. A que mete mais festa e que, a mim, que de cristão pouco tenho, sempre quer dizer alguma coisa: sai-se de um ano e entra-se noutro (bem pouca coisa afinal...). Mas vale o que vale e 2011 é um número bonito. É o ano -1 de 2012. 
Esse sim é que vai ser um ano que vai valer a pena. 
Vemo-nos lá? Na sala de cinema (quando houver em Évora um cinema que seja?)???!!!

sábado, 25 de dezembro de 2010

Assim percebe-se melhor a estória do Natal...

Um desenho inédito de uma artista de Évora

ÉVORA: Rua 5 de Outubro

desenho de mafalda branquinho freire publicado na última edição do semanário REGISTO

Resistências

Os Oskorri são uma instituição no País Basco. Tocaram em Évora há uns anos no Viv'á Rua, integrados nos Encontros Musicais da Tradição Europeia. São uma voz de resistência. As canções são marcas de uma luta contínua pela independência de Euskal Herria. Aqui surgem ao lado de Albert Pla, catalão de Sabadell, cantautor, polémico, homem de extremos, canta em catalão e em castelhano e é um defensor da independência da Catalunha.
Oskorri e Albert Pla, numa canção de resistência pela independência basca e catalã.
Euskal Herrian euskaraz.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL É...

(desenho de António Peleja)

Hipocrisia camuflada
De beijos e abraços
Vestida de vermelho
Com a morte nos braços

Nas vielas da vida
Morre-se e mata-se
Nas casas com lareiras
Aquecidas pelos gemidos
Das crianças com fome
Enchem-se barrigas de farturas
Lambe-se o melaço dos dias amargos
E mais um natal passou

Passou e o Sr. De tal e coisa
Ofereceu abraços, mentiras e enganos
Recheados de beijos amargos
E olhares envenenados

Natal é amanhã
Mas também podia ser hoje
Natal é hipocrisia escondida
Natal é nunca ter o que se quer
Natal é só dar um dia

Natal é o quê? Pergunto eu
Perguntas tu, menino de rua
Com a fome brilhando no olhar
Perguntas tu, mulher violentada
Agredida, mal tratada
Perguntas tu que escondes a fome dos teus
Com um sorriso no coração e de mão escondida

Natal é o quê? Pergunto eu
Perguntamos todos os que se interrogam
porque não há simplesmente um DIA?
que serão todos os DIAS
em que todos nos olhamos nos olhos
sorrimos e choramos sem medos
e de mãos dadas atravessamos
este deserto da vida
com um brilhozinho nos olhos
de igual modo todas as cores
credos ou religiões até ao abismo
que a morte nos espera de braços abertos
sem distinções ela é justa
aos seus olhos somos todos iguais

Apetecia-me dedicar este pensamento a todos os desprotegidos do mundo, mas eles não têm internet, eles não têm tempo para ler estas palavras, eles não sabem ler, eles não precisam de palavras, eles precisam de actos, eles precisam de nós.
Por isso dedico este pensamento a todos vocês que chegaram até aqui, e não esqueçam: as mudanças começam dentro de nós.

António Peleja
24 Dezembro, 2010 23:34

Para quê fingirem o que não são?


A minha mãe era católica praticante. Nalguns momentos chegou a ser militante mesmo. O meu pai sempre foi agnóstico. Lembro-me de uma vez o padre Horta, em Colos, ter ido pedir um contributo à minha casa (sabendo que a minha mãe não diria que não) e que, sabendo o meu pai relutante, disse: "mas a Igreja também é sua".... Respondeu o meu pai, com o humor que o caracterizava, "ah, se tenho lá parte, vendo-a já...". E eu fiz-me desta coexistência que se respeitava. Um agnóstico, uma católica com dois dedos de testa. A minha mãe chegou-me a dizer que não achava piada nenhuma a quem, não sendo católico, comemorava as datas religiosas. "Para quê fingirem o que não são?", dizia.  Para ela o pior era a hipocrisia. O fingir que se era não se sendo. Eu digo o mesmo: raramente vejo tanta hipocrisia como nestes dias do Natal. Pelos discursos, pelas atitudes. Por isso: pela hipocrisia. Acho que quem é católico, ou cristão, deve comemorar em total liberdade e com total respeito o dia do alegado nascimento daquele que dizem ser o seu Salvador. Mas quem não é cristão, nem acredita em nada da religião nos 365 dias que tem o ano,  andar com os sentimentos à flor da pele porque  é NATAL, quase dá vontade de sorrir. De despeito, de tristeza, sei lá do quê. Ver comunistas, ateus, agnósticos, gente pintalgada disto e daquilo a comemorar o Natal é coisa que me espanta. E que não me comove a mim (parafraseando o Vitorino das cantigas), que me  comovo  por tudo e por nada. 

Feliz Natal!


A todos - companheiros editores e leitores do A Cinco Tons - desejo um Feliz Natal, seja lá isso o que for.
E os que viajam não se esqueçam de que todos os cuidados são poucos para evitar qualquer percalço.

Tanganhada fleumática de cá…


Enxergou-lhe a mansidão da descida pendurada do pára-quedas. Seguiu-lhe o rasto com a curiosidade e o respeito pelas coisas que caiem do céu, ainda por cima sendo um humano pendente por uns atilhos de uma rodela de pano. Logo ele, que sempre teve os pés bem acachapados na terra. Atinou com o sítio do poiso e foi-se chegando, calmamente, de modo a não lhe atrapalhar a chegada à planície.
Lá estava ele a dobrar, com apuro, o pano e as guitas da engenhoca. Ao pressenti-lo, o homem caminhou na sua direcção, sorrindo amigavelmente. Fitou o caparro do voador de alto a baixo. Pasmou ao percebê-lo trajado de fato ‘príncipe de gales’ (disse-lhe um emigra da aldeia), gravata e sapato preto de cerimónia. Então e não é que lhe tirou a pinta de actor de cinema. Era nem mais nem menos que o famoso agente 007, esse mesmo, dos carros de corrida cheios de artimanhas e das moças boas que nem milho.
Abeiraram-se.
O British dobrou-se levemente, estendeu-lhe a manápula e anunciou:
- Bond, James Bond.
O filho da terra dobrou-se levemente, deu-lhe uma tanganhada calorosa e retorquiu:
- Tónio, António.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Bem prega Frei Tomás...

O candidato à Presidência da República Cavaco Silva foi o candidato que apresentou o orçamento mais elevado para a campanha eleitoral, de 2,1 milhões de euros, seguido de Manuel Alegre, que prevê gastar 1,6 milhões.
Nas despesas previstas, a maior fatia do orçamento do candidato apoiado pelo PSD, CDS e MEP destina-se a comícios e espetáculos, aos quais estão destinados 670 mil euros.

Um granda par de tomates!!!



Se a moda pega... nas próximas legislativas os partidos vão ver-se à rasca para arranjar gente para o Parlamento.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

REGISTO 134

Arcebispo de Évora quer "respostas novas" para a pobreza e para as situações de "carência alimentar e afectiva"


É esta a manchete do REGISTO de amanhã: o Arcebispo de Évora quer que, neste Natal, se oiça a voz dos mais pobres. Uma mensagem forte de um dos homens da Igreja do Alentejo cuja voz, também, não pode ser ignorada. Exorta D. José Alves, nesta mensagem, para que “não tapemos os ouvidos, ouçamos os gritos dos pobres. Não cerremos os olhos, vejamos o que se passa à nossa volta. Não fechemos o coração, deixemo-nos comover pela indigência dos abandonados, dos marginalizados e dos isolados”.
A mensagem de Natal do Arcebispo de Évora lembra os mais desfavorecidos para despertar as consciências, sobretudo dos cristãos, para a necessidade de ajudas concretas aos mais necessitados e, nela, D. José Alves recomenda a todos os fiéis que, num espírito de generosidade, partilhem aquilo que têm com os mais necessitados. 
O Arcebispo de Évora pede também respostas novas de toda a sociedade para uma situação que diz ser de pobreza em consequência da crise económica, em que "cresce, dia a dia, o número dos que se vêem obrigados a recorrer às instituições de solidariedade e a estender a mão à caridade de pessoas singulares".

"Aumenta o número dos que vivem isolados, gastos pela idade ou deteriorados pela doença. Há crianças e jovens que padecem graves carências alimentares e afetivas. Centenas de homens e mulheres fazem da rua a sua casa, por não possuírem o abrigo de um teto, onde se possam acolher e descansar", acrescenta o Arcebispo.


O mínimo que se pode esperar é que, quem tem poder para alterar este estado de coisas, não faça orelhas moucas às palavras do Arcebispo e inverta as medidas que têm sido tomadas em que os mais pobres são sempre aqueles sobre quem cai o mais gravoso de todos os programas anti-crise. Será que os senhores do dinheiro, que ainda há algumas horas discutiam (e ficaram com eles no bolso), meia dúzia de euros de aumento mensais para aqueles que ganham o salário mínimo, não sentem que estas palavras do Arcebispo de Évora também lhes são dirigidas? Ou vão comungar na missa do galo como se não fosse nada com eles, aliás como é costume?

Princesa dos PORQUÊS!

Conhecemo-nos, vai para treze anos. Desde que nasceu, gatinhou e andou o tente-não-caías dos primeiros anos de vida na vara larga do monte do Monvestido, ali para os lados de S. Brissos. Somos amigos do pêto. Tenho, aliás, o doce prazer que me conceda o mimo da sua amizade e a franqueza do discernimento de adolescente já com muitas porras. Com a fala cerrada de bejense mas os olhos mais abertos que um mocho, ao contrário deste voante, não só presta muita atenção como fala do seu juízo sempre que a deixa assim o impõe. Gosto de privar com a inteligência da minha amiga Ritinha. A princesa dos PORQUÊS!
Tem o sonho de vir a ser uma estrela pop rock. Que a sua teima lhe faça a vontade! Prometi-lhe uma letra para ela cantarolar em estilo rap. O prometido é devido. Se lhe advir a celebridade, torço por isso, paga-me os direitos de autor em vinho e cabeças de borrego assadas no Zé Lebrinha em Serpa.

Beja enlouquecida

Malta da pesada
Beja enlouquecida
A Soror Mariana de top e collants
Bué de curtida
Bué de curtida

Doida de cidade
Sem enredo
O Mário Beirão com a Shakira a petiscar feijão-frade
Bute ao desassossego
Bute ao desassossego

Beja enlouquecida
Aí vou eu vestida de morcego
O Castro a andar de skate na avenida
É nice
É nice

Doida de cidade
Bebe-se um shot e cai-se
O Polido a emaranhar pela parede
Net sem rede
Net sem rede

Beja enlouquecida
Os Virgem Suta a darem-lhe na batida
A prof diz que a linha é recta
Que seca
Que seca

Doida de cidade
A Pax Júlia tem um piercing no umbigo
Na ovibeja tem um arganel no nariz
Biz
Biz

É o que é preciso!


Neste tempo de rijeza, gostava de vos desejar a todos muito pão na arca e força na verga!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mais caca não, por favor!



Este texto é da autoria de João Vasconcelos e Sá, poeta e homem de teatro, avô do fadista António Pinto Basto.
Fundado nas queixas dos agricultores, foi lido num jantar dedicado a Leovigildo Queimado Franco de Sousa, na época, Ministro da Agricultura.

(Cortesia de um anónimo comentador)

Como amo a Rádio!.....

Como eu a Amo também!
Mas não esta, amo aquela que conhecemos no bengaleiro de um cinema, que também já não existe, nem o cinema, nem o bengaleiro e, para dor minha, nem a rádio!
Hoje a rádio "passa discos que estão na moda". Faz-me doer a alma.
Hoje as notícias enlatadas, todas iguais, defensoras de um sistema monocórdico, incomodam-me!
Hoje, os programas sem autor, todos politicamente correctos, magoam-me!
Amo a rádio mais do que qualquer outro meio de comunicação e, por a amar, deixei-a...
Mas como eu queria voltar a ver renascer uma qualquer rádio, num outro qualquer bengaleiro, onde o amor por ela fosse a única coisa que não faltasse!..

Lurdes 
21 Dezembro, 2010 11:46

Linguagem vernácula

Demorou mas lá consegui perceber como é que a empresa Águas de Portugal que detém 51% da concessão do abastecimento em alta à cidade de Évora conseguiu distribuir prémios aos administradores apesar de acumular prejuízos, pretendeu comprar de uma assentada 400 novas viaturas, apesar da crise, e remunera em 126 mil euros o presidente do conselho de administração: poupam nos pontos finais. Também nas vírgulas, mas sobretudo nos pontos finais. Até o mais enternecido leitor de Saramago se delícia com a leitura da carta enviada pelo presidente do conselho de administração das Águas de Portugal ao presidente da Câmara Municipal de Évora e datada de 15 de Dezembro – lá está uma frase de 13 longas linhas pautada por meia dúzia de vírgulas onde se alude ao Estado concedente, a cenários e metodologias e aos legítimos direitos das Partes, com P maíusculo, entre ameaças à inviabilização de decisões unilaterais. Em resumo, a dita correspondência visou abrir negociações para levar a Câmara de Évora a manter-se no sistema multimunicipal de abastecimento de água. Apreciador de baixa política, retive apenas do dito ofício que a dita empresa tem por sede a rua com o nome de Visconde de Seabra, sócio emérito da Academia de Ciências e autor da célebre “Epopéa de Madame du Bocage, vertida em linguagem vernácula e offerecida a sua Majestade a Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança”. Pura inspiração vernacular, esta bem de ver.

Luís Maneta
jornalista

Um livro lúcido quanto à urgência do uso da lucidez




Viviane Forrester, romancista, ensaísta e jornalista francesa publicava, segundo o que sei, com assiduidade no Le Monde, Le Novel Observateur e Quinzena Littéraire.
No século abalado, em 1996, publica “O Horror Económico”. Livro dono de uma análise crua, bem fundamentada e premonitória deste mundo que geme.
Lembrei-me dele, reli-o e aqui escarrapacho uma mão cheia de excertos.

“No entanto, este sistema faz vir à tona uma questão essencial, nunca formulada: «É preciso ‘merecer’ viver para se ter direito à vida?». Uma ínfima minoria, já excepcionalmente provida de poderes, de propriedades e de privilégios considerados incontestáveis, assume esse direito por inerência. Quanto ao resto da humanidade, para «merecer» viver, tem de revelar-se «útil» à sociedade, pelo menos ao que a dirige, a domina: a economia confundida como nunca com os negócios, ou seja, a economia de mercado. «Útil» significa quase sempre «rendível», ou proveitosa para o lucro. Numa palavra, «empregável» («explorável seria de mau gosto!).”
[…]
Essas redes económicas privadas, transnacionais, dominam pois, cada vez mais, os poderes de Estado; longe de serem controladas por eles, controlam-nos e formam, em suma, uma espécie de nação que sem base em solo algum, fora de qualquer instituição governamental, comanda cada vez mais as instituições de diversos países e as suas políticas, às vezes por intermédio de organizações consideráveis como o Banco Mundial, o FMI e a OCDE.
[…]
Alguém se arrisca a murmurar umas tantas tímidas reservas, a denunciar uma certa vertigem face à hegemonia de uma economia mundializada abstracta, desumana? Logo o amordaçam com os dogmas dessa mesma hegemonia a que, sejamos realistas, estamos amarrados. Logo lhe contrapõem as leis da concorrência, da competividade, o ajustamento às regras económicas internacionais – que são as da desregulação – e entoam loas à flexibilidade do trabalho.
[…]
Mas repare-se, por exemplo, numa cidade luxuosa, moderna, sofisticada, Paris, onde tantas pessoas, antigos e novos pobres, dormem ao relento, almas e corpos abatidos pela falta de alimento, de cuidados, de calor e também de presença, de respeito. Interroguemo-nos até que ponto a crueldade destas vidas abrevia a sua duração*, e se são necessários muros ou torres de guarda para encarcerar essas pessoas, armas para atentar contra a sua existência.
* «O nível de mortalidade prematura (antes dos 65 anos) varia segundo as categorias sociais – e evidencia uma nítida hierarquia. As taxas de mortalidade prematura dos operários-empregados é 2,7 vezes mais elevada que a dos quadros superiores e profissões liberais e 1,8 vezes mais elevada que a dos quadros médios e comerciantes.» É claramente um escândalo por si só. Mas não há quem calcule, já agora, a taxa de mortalidade prematura dos sem-abrigo? (Fonte: Inserm, SC8, em INSSEE Première, Fevereiro de 1996.)
[…]
O racismo e a xenofobia exercidos contra os jovens (ou contra adultos) de origem estrangeira podem servir para desviar do verdadeiro problema, da miséria e da penúria. Costuma-se limitar a condição de “excluído” a questões de diferenças de cor, nacionalidade, religião, cultura, que não teriam nada a ver com a lei dos mercados. Entretanto, são pobres, como sempre e desde sempre, que são excluídos. Em massa. Os pobres e a pobreza.” […]

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Quem disse que o amor é chama que arde sem se ver?

Conheci-a no final dos anos 80.
No bengaleiro de um cinema.
Era jovem. Linda de morrer.
Ao primeiro olhar apaixonei-me. Loucamente.
Amei-a. Perdidamente.
Jurei-lhe amor eterno.

Um amor que a minha amiga Teresa Nicolau sintetiza nesta peça magistral sobre a minha amada Rádio.


28ª OVIBEJA já tem datas marcadas

http://www.ovibeja.com/index.php

Benvinda escapou com vida


Fosse rapariga um pouco mais esguia e logo alguém lhe chamaria Benvinda, a filha do sineiro. Chamo-lhe pois Benvinda, a tal de quem Papança, escritor e Par do Reino, disse ser “alegre como o sol que os campos doira”, delgada e frágil como uma açucena. Palmo e meio de gente a atravessar pela mão da mãe o largo fronteiro à Matriz, encostada ao pelourinho de Monsaraz, bem na direcção da pedraria de granito e xisto com que foi erguido o castelo. Fosse moça de carne e osso e logo a notícia do seu atropelamento teria comovido o país pela hora do jantar. Ao volante, um automobilista de comportamento temerário deixou Benvinda caída no chão enquanto acelerava para fora da cerca medieval. O imprudente fugiu. E teria conseguido escapar à força repressiva da autoridade não se desse o caso de por ali andar um grupo de Pessoas – sim, com P maiúsculo – para quem gente é gente, ainda que feita de papel e cola. A autoridade foi prontamente alertada. Bastou um telefonema e logo o imprudente foi perseguido, interceptado, confrontado. Esquivar-se do local do acidente sem prestar socorro à vítima? Sem uma palavra? Fez-se o julgamento moral: culpado. Consultou-se o Código Penal: culpado. Não por atentado contra o impulso criador de um Par do Reino, crime que mereceria punição com pena pesada, mas por circular numa rua de sentido proibido. Benvinda escapou com ferimentos ligeiros.

Luís Maneta
Jornalista

Évora: sugestões para os mais pequenos.


Algumas sugestões de workshops para os mais pequenos (6 aos 12 anos):

22 de Dezembro
Constrói o teu presente de Natal
10:00 às 12:00
Dos 6 aos 12 anos
Máximo 15 crianças
Inscrição: 15€

22 e 23 de Dezembro
Workshop de Escrita Criativa
22 de Dezembro - 14:00 às 17:00
23 de Dezembro (Apresentação resultado do workshop) - 11:00
Dos 6 aos 12 anos
Máximo 15 crianças
Inscrição: 10€

27 de Dezembro
Cookies de Natal
14:00 às 17:00
Dos 6 aos 12 anos
Máximo 15 crianças
Inscrição: 15€

28 de Dezembro
Workshop origami
14:00 às 16:00
Dos 6 aos 12 anos
Máximo 15 crianças
Inscrição: 15€

Contactos para qualquer informação e inscrições:
--
é neste país!

Rua da Corredoura nº8, Évora

266731500

Integrada no muro


Integrada no futuro
(Oliveira do futuro)

Raízes de oliveira minando o muro…
Oliveira de paz em muro de guerra,
Dividindo, caboucos destruindo,
Muro velho de guerra caindo…

Da luta cansada, tronco carcomido,
Quase morrendo, mas oliveira de pé,
Velha como a idade do mundo…

Com novos muros se levantando
Outras oliveiras se vão já erguendo,
Outras oliveiras vão já crescendo,
Outros muros se vão derrubando,
Novos mundos vão já nascendo…

Muros lutando com oliveiras de paz,
Com azeite iluminando puro como ouro …
No fim, oliveiras floridas
Mescladas com ramos de louro!

Évora, 2010-12-20

J. Rodrigues Dias

sábado, 18 de dezembro de 2010

A teimosia dos factos

É da natureza humana esquecer os segundos e guardar a memória para recordar apenas os primeiros. Não é por isso de levar a mal que nenhum dos deputados [?] municipais se tenha lembrado do segundo presidente dos Estados Unidos, ainda que o seu fantasma não tenha deixado de pairar sobre a última reunião da Assembleia Municipal de Évora. Corria o ano de 1770 quando num julgamento em Boston – além de político o homem foi também advogado e diplomata – John Adams sacou de um argumento que 240 anos depois continua a dar que pensar: “Facts are stubborn things [Os factos são coisas teimosas]”. Demasiado teimosas, poderia ter dito qualquer um dos distraídos deputados [?] municipais, caso se tivesse lembrado de Adams e lido com um pouco de atenção o relatório da Entidade Reguladora da Água e dos Resíduos (ERSAR) apresentado como prova irrefutável da qualidade excelentíssima da água de Évora. O problema surgiu quando os serviços camarários detectaram níveis de cloro abaixo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. E o que diz a ERSAR? Que na “maioria das situações” a barreira sanitária é a adequada. Certo. Mas uma maioria de que tamanho? Resposta: 53%. O que, em linguagem simples, quer dizer que 47% das análises efectuadas ao cloro da água deram resultados fora dos parâmetros recomendados, entre outros pela própria entidade reguladora. Ah! Adams não disse apenas que “os factos são coisas teimosas”. Acrescentou que conseguem sobreviver aos nossos desejos, às nossas inclinações e os ditames da nossa paixão. Até mesmo, dir-se-ia, a uma reunião da Assembleia Municipal de Évora.

Luis Maneta
jornalista do DN e Sic em Évora

Sociedade Harmonia Eborense

Hoje por volta das 23h, PAYASOS DOPADOS
PUNK | REGGAE | SKA
Eu gosto mais desta versão, em jeito de balada, de Chicho Sánchez Ferlosio . Mas gostos são gostos.
 

Por allí viene Durruti
con una carta en la mano,
donde pone la miseria
de este pueblo soberano.

Por allí viene Durruti
con un libro en el morral,
donde apunta los millones
que ha robado el capital.

Por allí viene Durruti
con catorce compañeros
y le dice a los patronos
lo que quieren los obreros.

Por allí viene Durruti
con un pliego de papel,
a decirle a los soldados
que se salgan del cuartel.

Por allí viene Durruti
sin carroza y sin dinero,
saludando a todo el mundo,
campesino y jornalero.

Por allí viene Durruti
con las tablas de la ley
pa que sepan los obreros
que no hay patria, Dios ni rey.

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