domingo, 31 de outubro de 2010

Da necessidade da Revolução.

(...) Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? Para entrarmos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós: memoremos piedosamente os actos deles: mas não os imitemos. Não sejamos, à luz do século XIX, espectros a que dá uma vida emprestada o espírito do século XVI. A esse espírito moral oponhamos francamente o espírito moderno. Oponhamos ao catolicismo, não a indiferença ou uma fria negação, mas a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da Humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento, sempre inspirado. Oponhamos à monarquia centralizada, uniforme e impotente, a federação republicana de todos os grupos autonómicos, de todas as vontades soberanas, alargando e renovando a vida municipal, dando-lhe um carácter radicalmente democrático, porque só ela é a base e o instrumento natural de todas as reformas práticas, populares, niveladoras. Finalmente, à inércia industrial oponhamos a iniciativa do trabalho livre, a indústria do povo, pelo povo, e para o povo, não dirigida e protegida pelo Estado, mas espontânea, não entregue à anarquia cega da concorrência, mas organizada duma maneira solidária e equitativa, operando assim gradualmente a transição para o novo mundo industrial do socialismo, a quem pertence o futuro. Esta é a tendência do século: esta deve também ser a nossa. Somos uma raça decaída por ter rejeitado o espírito moderno: regenerar-nos-emos abraçando francamente esse espírito. O seu nome é Revolução: revolução não quer dizer guerra, mas sim paz: não quer dizer licença, mas sim ordem, ordem verdadeira pela verdadeira liberdade. Longe de apelar para a insurreição, pretende preveni-la, torná-la impossível: só os seus inimigos, desesperando-a, a podem obrigar a lançar mãos das armas. Em si, é um verbo de paz, porque é o verbo humano por excelência.
Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espectáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía, mas que, no seu aluir-se, se debatia, lutava, perseguia, para conservar os seus privilégios, os seus preconceitos, os seus vícios, a sua podridão: ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização.
Chamou-se a isto o Cristianismo.
Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno.

( CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES NOS ÚLTIMOS TRÊS SÉCULOS. Discurso proferido por Antero de Quental, numa sala do Casino Lisbonense, em Lisboa, no dia 27 de Maio de 1871, durante a 1.ª sessão das Conferências Democráticas)

Presidente Mulher, dizem os Brasileiros

Uma mulher deverá ter sido hoje eleita  Presidente de um país tão grande como o Brasil.
Esta mulher assume a responsabilidade de suceder a um líder tão inesperado como admirado, uma referência à escala mundial. E aceita o desafio de continuar a fazer o Brasil crescer num cenário onde predomina uma crise mundial.

Dilma Rousseff será a 1ª Presidente e simultâneamente a 40º Presidente do Brasil.
Será um sinal de mudança que recaia sobre uma mulher uma responsabilidade desse tamanho ?

sábado, 30 de outubro de 2010

Esta tarde em Portel

Criar um movimento em torno da arte e oficio da ourivesaria é o objectivo.
Dörte Gradissimo, a dinamizadora do grupo é uma mulher que há anos atrás se apaixonou pelo Alentejo ao ponto de decidir viver por cá as revoluções da sua vida. Outras mulheres-artistas juntaram-se-lhe na invenção de um COMCEITO que se expõe a partir desta tarde em Portel.

São técnicas de diversas áreas profissionais que se juntam com olhares distintos, procurando a reflexão conjunta, a diversificação e a partilha. Dizem que " na procura do conceito, não se pretende
a imposição de determinadas leituras. A proposta é, simplesmente, a de gerar reflexão, dar visibilidade a uma intenção expressiva, de veicular comunicação.
"

Também acontece em Lisboa

A causa dos pais de crianças especiais assumida pela Associação de Pais em Rede tem em Évora uma expressão forte. Preparam-se agora para um Colóquio a que chamaram "A força dos pais", com a participação de pais estrangeiros, no próximo sábado na Gulbenkian.

Enquanto perdem tempo em Lisboa a assinarem acordos trapaceiros, em Évora há contos nesta manhã de chuva

Às11.30h, sábado, dia 30 de Outubro

Com quantos pontos se conta um conto?

Onde está a bruxa?

CRISTINA REBOCHO

MARGARIDA JUNÇA


É neste país!


--
é neste país!

Rua da Corredoura nº8, Évora

266731500

http://nestepais.wordpress.com/

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Feira dos Santos em Alvito

Agora um bom pretexto para ir amanhã a Lisboa


Colóquio sobre Mário Castelhano - Biblioteca Museu República e Resistência - 30 de Novembro, 16h, em Lisboa. Mário Castelhano foi o último secretário-geral da CGT (anarco-sindicalista). Morreu no Tarrafal a 12 de Outubro de 1940.

Arraiolos: 3 festas numa só










Mostra Gastronómica, Mostra de Tapetes e Festival da Empada, tudo numa só. Começa hoje!

EMPADAS DE ARRAIOLOS

Os tapetes e as empadas
de Arraiolos são emblema
séculos de mãos adestradas
sensibilidade suprema

manjericão manjerona
por vezes salsa tomilho
tempêros aqui da zona
que à nossa Empada dão brilho

Empadas são almofadas
para estômagos com fome
quanto mais fofas e gradas
com mais gosto a gente as come

gastronómicos tesouros
segredos de gerações
monumentos raros loiros
delícia de sensações

deve comer-se a empada
como dádiva dos Céus
ambrósia em massa embalada
qual rainha dos pitéus

António Saias

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Terra rica por baixo e por cima

A companhia mineira sueca-canadiana Lundin Mining anunciou que descobriu um novo depósito rico em cobre na mina de Neves-Corvo, no concelho de Castro Verde, frisando tratar-se da mais importante descoberta dos últimos 22 anos no complexo mineiro.
"É um acontecimento significativo na história da mina", salienta a companhia, proprietária da concessionária do complexo mineiro de Neves-Corvo, a Somincor, num comunicado divulgado no seu sítio de Internet.
A "última descoberta desta importância" na mina de Neves-Corvo foi a do jazigo de sulfuretos maciços do Lombador, há 22 anos, lembra o vice-presidente de Exploração e Desenvolvimento de Novos Negócios para a Lundin Mining, Neil O'Brien, citado no comunicado.
O novo depósito de sulfuretos maciços rico em cobre, batizado de Semblana, situa-se a apenas 1,3 quilómetros a nordeste do jazigo do Zambujal, numa área que ainda não tinha sido perfurada, explica a companhia.
Segundo a Lundin Mining, as sondagens efetuadas à superfície perto da mina de Neves-Corvo permitiram a descoberta do novo depósito de sulfuretos, o sexto a juntar aos já existentes (Neves, Corvo, Graça, Zambujal e Lombador) e que contém minério de cobre e zinco.
"Nos últimos cinco anos, sondagens de prospecção definiram com sucesso mais de 40 milhões de toneladas de recursos de zinco" no jazigo do Lombador. Contudo, a descoberta do depósito Semblana demonstra que novos depósitos com teores ricos em cobre, idênticos aos descobertos inicialmente, podem, ainda, vir a ser encontrados em Neves-Corvo", refere Neil O'Brien.
O preço do cobre tem vindo a subir nos últimos meses e em setembro fechou nos 3,496 dólares por libra, mais 5,8 por cento do que em agosto, devido a uma procura enorme da China e uma queda nos 'stocks', segundo a Comissão Chilena do Cobre.

O truque das políticas europeias


El gran casino europeo from ATTAC.TV on Vimeo.

Os agradecimentos ao amigo Joaquim Pulga que me fez chegar esta pérola, que aqui partilho convosco.

China pode “comprar Portugal”

"A situação económica e financeira em Portugal tem sido sempre o centro das nossas atenções", disse a vice-ministra dos Negócios Estrangeiros chinesa, Fu Ying, quando questionada, em Pequim, sobre a possibilidade de a China adquirir parte da dívida portuguesa.

Estreia hoje em Évora. É assim a modos que uma União Ibérica teatral

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Cinco tons da Universidade de Évora




Na próxima segunda feira, 1 de Novembro, a Universidade de Évora comemora o seu dia. Este ano no programa destaca-se o Doutoramento Honoris Causa do Prof. e geógrafo Jorge Gaspar, bem como o atribuição do título de Professor Emérito a três figuras que marcaram – com estilos, contributos e áreas de investigação bem distintas – a vida da Universidade de Évora nas ultimas três décadas: Rui Namorado Rosa, Jorge Araújo e Francisco Ramos.

Dois dias antes, já no próximo sábado 30, José Rodrigues Dias, um dos três Professores que há 35 anos - no dia 10 de Novembro de 1975 - deram a primeira aula na Universidade de Évora (reaberta) propõe na Biblioteca de Évora o seu primeiro livro de poesia.

José Rodrigues Dias, recentemente aposentado, é autor de mais de uma centena de trabalhos científicos publicados em Portugal e no estrangeiro nas áreas da Análise Matemática, da Informática, das Probabilidades, da Estatística, da Investigação Operacional e, mais especificamente, do Controlo de Qualidade – onde já este ano foi premiado internacionalmente. Mas depois dos números chegou o tempo das letras.

PS. Como curiosidade, alguns dos poemas de J. Rodrigues Dias passaram aqui pelo "a cinco tons" (com eventuais alterações). Já agora, também há pelo menos um poema que aqui não foi destacado e que foi seleccionado para uma antologia de poesia que vai ser publicamente apresentada em Dezembro em Lisboa.


Pronto: "rebentou" o balão


O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, anunciou esta terça-feira, pelas 20:15, a sua recandidatura a Belém. Cavaco invocou o «sentido de responsabilidade» face à situação difícil em que o País se encontra, o que o levou a considerar ter o «dever» de se recandidatar e prometeu uma campanha discreta e com custos reduzidos.

Dúvida: será que a comunicação desta noite à hora dos telejornais vai ter o mesmo interesse do que o balão final deste spot publicitário?

Lá vamos saindo...

pergunto eu

"Sem Título" Sérgio Meirana -
Instalação com técnica mista,
entalhe em madeira e combinação de diferentes materiais 2008
Superfícies da Memória - Museu de Arte Contemporânea da Univ. de São Paulo
No ano em que nasci - 1963 -  nasceram em Portugal duas revistas que haveriam de fazer largo caminho: O Tempo e o Modo e a Análise Social.
Mário Murteira, um dos colaboradores influentes das duas, afirmou recentemente que "a opção que se colocava aos jovens inquietos desse tempo era clara: Ou se ia salvar o mundo por via do PCP ou por via da Igreja Católica".

Passado quase meio século, no mesmo país, pergunto se haverá alguém a querer salvar algum mundo? ... e se alguém houver, que via se vislumbra?

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sahara: "Acampamento da Liberdade"


Mais de quinze dias após o início da instalação do "Acampamento da Liberdade" nos arredores da capital ocupada de El Aaiun, as agressões da polícia e do exército marroquino contra os cidadãos saharauis intensificam-se. Ao acampamento, onde já mais de 15 mil pessoas se concentram, tentam chegar outros saharauis, procurando romper o cerco que as forças de ocupação montaram em torno do local.
Famílias inteiras, adultos, crianças, bebés, idosos, pessoas de todas as idades, ergueram este acampamento e estão a viver em condições muito difíceis de toda a ordem – alimentação, água, remédios, etc. Ao acampamento chegam feridos que são tratados com os poucos recursos de que dispõem. De alguns detidos saharauis pelas forças de ocupação não se conhece o paradeiro. O motivo da sua detenção e desaparecimento é apenas e só o de terem tentado juntar-se aos seus compatriotas no acampamento. O cerco que as forças policiais e militares marroquinas fazem ao acampamento fazem temer uma catástrofe humanitária que, a todo o custo, há que evitar.
Há trinta e cinco anos que as Forças Armadas marroquinas ocupam o Sahara Ocidental, antiga colónia espanhola que o Reino de Marrocos invadiu pela força. O Rei de Marrocos continua a negar-se a cumprir as Resoluções aprovadas pela ONU e pretende persistir na anexação do Sahara Ocidental.
Só a realização de um Referendo de Autodeterminação, organizado e supervisionado pelas Nações Unidas, poderá pôr fim a este conflito e abrir o caminho a uma reconciliação entre dois povos vizinhos, como a experiência de Timor-Leste e da Indonésia nos mostraram.

(recebido via mail)

A polémica "dispara" sempre duas vezes

Comunicado da Associação Perpetuar Tradições

1. A Perpetuar Tradições-Associação de Defesa do Artesanato do Alentejo acaba de tomar conhecimento da resposta de Sua Excelência a Ministra da Cultura a requerimento feito na Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda sobre o "Encerramento do Centro de Artes Tradicionais/Antigo Museu do Artesanato".
2. Nessa resposta declara a Senhora Ministra, entre outras considerações, que "a posição do Ministério da Cultura é favorável à potenciação do actual projecto museológico em detrimento da criação de um novo e em sua substituição".
3. Face a esta declaração do Ministério da Cultura ficam em posição insustentável a Entidade de Turismo do Alentejo e a Câmara Municipal de Évora promotores da ideia de alterar o projecto museológico do Centro de Artes Tradicionais de Évora/Antigo Museu do Artesanato.
4. Para a Perpetuar Tradições, que desde o início deste processo se opôs frontalmente à desvirtuação do Centro de Artes Tradicionais, chegou o momento de a Turismo do Alentejo e a Câmara Municipal de Évora arrepiarem caminho e abandonarem a ideia de instalar uma colecção privada de design no Centro de Artes Tradicionais, de cujo projecto de musealização nem sequer deram conhecimento ao Ministério da Cultura, não se coibindo, entretanto, de propagandearem a ideia de que iriam fazer dessa colecção privada o primeiro grande museu de design da Península Ibérica e uma referência mundial.
5. Entretanto, numa táctica bem conhecida de desinvestimento, a Turismo do Alentejo, que gere o Centro de Artes Tradicionais de Évora, fechou-o durante as férias da única funcionária que lhe afectou; e no Guia de Museus do Alentejo que ela própria acaba de editar mandou retirar qualquer referência ao único
"museu" de que é responsável, exactamente o Centro de Artes Tradicionais de Évora, assim o desacreditando e fazendo com que seja ignorado, menos procurado e visitado, para melhor justificar o seu propósito de ali instalar uma colecção particular de design.

Évora, 25.10.2010.

Perpetuar Tradições - Associação de Defesa do Artesanato do Alentejo
Remover formatação da selecção

Terá mesmo que ser?

Em desabafo caseiro dizia-me o meu pai há dias “se tiver que ver crianças a trabalhar, descalças e mal vestidas com me criei, mais vale morrer antes”.

O meu pai que começou a trabalhar aos 5 anos de idade, descalço e com pouca roupa para o abrigar no pino do Inverno ainda ai está para relembrar esta história do nosso passado recente. Passaram-se poucos anos sobre este drama infantil e ele já se vislumbra no horizonte…

Como pode isto acontecer num País que fez uma revolução, aderiu à CEE e sonhou em se juntar aos grandes ainda não há 40 anos? Como pode uma geração que trabalhou desalmadamente (a do meu pai) para dar melhor condição de vida às gerações futuras assistir a isto sem se sentir revoltado com quem nos tem governado e delapidado o País? Como posso eu que tive melhores (muito melhores) condições que o meu pai pensar que os meus netos (se os tiver) passarão por tudo o que o meu pai passou! Como podemos ficar indiferentes a esta desgovernação! Como posso escutar os meus semelhantes dizerem “tem de ser” “temos de fazer um esforço”? Será que não vêem que este caminho só nos pode levar ao abismo!?

Mais grave: oiço isto de gente que está pior que eu, que tem filhos com futuros mais ameaçados que a minha filha, que serão economicamente mais penalizado que nós cá em casa.
Este Povo só pode estar bêbado!

Lurdes

25 Outubro, 2010 13:23

A culpa é dos outros… que crescem mais

Portugal teve o terceiro menor crescimento económico do mundo na última década (6,47%), ganhando apenas à Itália (2,43%) e ao Haiti (-2,39%), numa lista de 180 países publicada pelo El País com base em dados do FMI.

É bom saber que caminhamos a mais do que uma velocidade


“BOLÍVIA REDUZ A IDADE DE REFORMA!

Enquanto na Europa tentam aumentar a idade de reforma e reduzir as pensões, na Bolívia o governo de Evo Morales lança um projecto de lei que reduz a idade da jubilação de 65 para 58 anos para os homens e de 62 para 56 anos para as mulheres.

"Esta mudança é necessária. Nosso povo foi durante anos agravado. O tipo de trabalho que a maioria da população realiza é muito pesado. A diminuição da idade de reforma para os mineiros deve ser maior, para os 56 anos, e para os que vão ao fundo das minas deve diminuir para os 51 anos", afirmou o presidente Evo Morales.”
fonte: resistir.info

Há erros lixados...

domingo, 24 de outubro de 2010

Eis o povo em plena laboração...

Si, que los tiene en su lugar


Texto publicado no jornal Público de 23 de Outubro de 2010

Sobre Paulo Varela Gomes:
Licenciado em história pela Universidade Clássica de Lisboa (1978), mestre em história da arte pela Universidade Nova de Lisboa (1988), doutorado em história da arquitectura pela Universidade de Coimbra (1999). Docente do DARQ desde 1991, professor convidado do Dep. Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho desde 2001, docente convidado de outras universidades portuguesas e estrangeiras. A principal área de investigação e publicação tem sido a história da arquitectura e da cultura arquitectónica portuguesa dos séculos XVII e XVIII.


DECLARAÇÃO

As medidas que o Estado português se prepara para tomar não servem para nada. Passaremos anos a trabalhar para pagar a dívida, é só. Acresce que a dívida é o menor dos nossos problemas. Portugal, a Grécia, a Irlanda são apenas o elo mais fraco da cadeia, aquele que parte mais depressa. É a Europa inteira que vai entrar em crise.

O capitalismo global localiza parte da sua produção no antigo Terceiro Mundo e este exporta para Europa mercadorias e serviços, criados lá pelos capitalistas de lá ou pelos capitalistas de cá, que são muito mais baratos do que os europeus, porque a mão-de-obra longínqua não custa nada. À medida que países como a China refinarem os seus recursos produtivos, menos viável será este modelo e ainda menos competitiva a Europa. Os capitalistas e os seus lacaios de luxo (os governos) sabem isso muito bem. O seu objectivo principal não é salvar a Europa, mas os seus investimentos e o seu alvo principal são os trabalhadores europeus com os quais querem despender o mínimo possível para poderem ganhar mais na batalha global. É por isso que o “modelo social europeu” está ameaçado, não essencialmente por causa das pirâmides etárias e outras desculpas de mau pagador. Posto isto, tenho a seguinte declaração a fazer:

Sou professor há mais de 30 anos, 15 dos quais na universidade.

Sou dos melhores da minha profissão e um investigador de topo na minha área. Emigraria amanhã, se não fosse velho de mais, ou reformar-me-ia imediatamente, se o Estado não me tivesse já defraudado desse direito duas vezes, rompendo contratos que tinha comigo, bem como com todos os funcionários públicos.

Não tenho muito mais rendimentos para além do meu salário. Depois de contas rigorosamente feitas, percebi que vou ficar desprovido de 25% do meu rendimento mensal e vou provavelmente perder o único luxo que tenho, a casa que construí e onde pensei viver o resto da minha vida.
Nunca fiz férias se não na Europa próxima ou na Índia (quando trabalhava lá), e sempre por pouco tempo. Há muito que não tenho outros luxos. Por exemplo: há muito que deixei de comprar livros.

Deste modo, declaro:

1) o Estado deixou de poder contar comigo para trabalhar para além dos mínimos indispensáveis. Estou doravante em greve de zelo e em greve a todos os trabalhos extraordinários;

2) estou disponível para ajudar a construir e para integrar as redes e programas de auxílio mútuo que possam surgir no meu concelho;

3) enquanto parte de movimentos organizados colectivamente, estou pronto para deixar de pagar as dívidas à banca, fazer não um, mas vários dias de greve (desde que acompanhados pela ocupação das instalações de trabalho), ajudar a bloquear estradas, pontes, linhas de caminho-de-ferro, refinarias, cercar os edifícios representativos do Estado e as residências pessoais dos governantes, e resistir pacificamente (mas resistir) à violência do Estado.

Gostaria de ver dezenas de milhares de compatriotas meus a fazer declarações semelhantes.

Paulo Varela Gomes
(via Pimenta Negra)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Beja Capital do Vinho




O estado da discussão e participação pública entre nós


Por um lado sabemos do alheamento da maioria das pessoas. Muitas vezes a roçar o desprezo.

Por outro lado, assistimos à multiplicação de espaços formais e informais, reais e virtuais, que se constituem em redes nas quais nos envolvemos, e que tocam muitos segmentos da população. Enquanto assistimos, muitas vezes fascinados, a esta irrupção proporcionada pelo avanço tecnológico, a qualidade da participação pública parece não ter condições para ser observada. ( Participação de qualidade é aqui entendida como genuína, responsável, construída.)

O que começa por ser pedido é que todos participem. (Os blogs são disso um exemplo). Mas a falta de hábito ou de cultura de produção de discurso dirigido ao outro, ponderado, incidente sobre uma matéria precisa, que frequentemente sai da esfera do nosso conhecimento quotidiano, conduz a extremismos que nos distanciam, em vez da aproximação e da confluência que a participação pública supõe e pretende promover.

Perante os novos espaços de participação na coisa pública, há quem opte pelo alheamento ou queira guardar distância; também há quem escolha formas de intervenção primárias - insultos, adjectivos infundados ou gratuitos, afirmações vagas e desresponsabilizadas, insinuações, etc.; e ainda há os que cultivam e se refugiam nos códigos de especialidade que só os próprios dominam e que por isso excluem quase todos.

É frequente a tendência para o uso de linguagem tão imprópria como inconsequentes; ou para o culto da linguagem cifrada, pouco acessível, hermética. (Do primeiro caso são bons exemplos as caixas de comentários de muitos blogs; do segundo são exemplos a informação constante em contratos de natureza jurídica, na generalidade das relações entre indivíduos e instituições concretas;)

Entre os dois extremos é titubeante a construção de comunicação individual e socialmente responsável. O recurso ao anonimato confirma-o, mas os discursos públicos de personalidades responsáveis e reconhecidas também. É como se a figura de Bordalo Pinheiro, o Zé Povinho, tendesse a ficar sem rosto, enquanto a dos representantes dos poderes se fossem constituindo como inimputáveis.

Assim, é uma comunicação muito constrangida ou ostensivamente demagógica, que ainda parece mediar grande parte do nosso espaço público, reflexo de um estado de coisas que legitimamente muitos aspiram a mudar.

A mim, parece-me claro que é condição para uma participação  mais frequente e responsável no espaço público, a abertura e expansão dos códigos comunicacionais em uso. Poderá dizer-se tudo desde que cada um se responsabilize e seja responsabilizado. Para isso é preciso erradicar a clandestinidade e saber acolher os rostos da diferença e do desconhecido.

Lá para Junho altera-se a coisa: o Passos vai-nos ao bolso e o Sócrates descansa

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Deixem-nos essas luzes que nos aquecem a alma...



Há uns anos a Ágata cantava o amor, mas já estava a lembrar-se das iluminações de Natal em Évora (ou da sua falta) neste ditoso ano socrático de 2010. Dizia ela que lhe podiam tirar tudo menos "essas luzes que nos aquecem a alma.!!!" (como se escreve num blog ao lado... "Matam-nos o sonho agora? Senhores é só o que nos resta. Subir e descer as ruas da cidade património mundial, com os putos pela mão, e sonhar, juntamente com eles, olhando as luzes vermelhas que iluminam a noite, por um futuro melhor, embora finjamos não saber que está hipotecado. Por favor, deixem-nos essas luzes que nos aquecem a alma.!!!"....).
Por solidariedade para com a Ágata e para com este nosso companheiro (ou camarada?) blogueiro vou tentar recuperar o sentido certo desta letra:

Vais-te embora,
Vais-te embora Zé,
Podes levar o que pertence a ti
Vais-te embora,
Vais-te embora Zé,
Podes levar o que pertence a mim
Vai-te embora,
Vai-te embora Zé,
Leva contigo o que te apetecer
Vai-te embora,
Vai-te embora Zé,
Mas deixa a minha razão de viver
Não me leves a coisa mais querida
Que nos pertence em partes iguais
Nosso filho a quem eu dei a vida
E é de mim que ele precisa mais.
Nossas luzes de Natal que eram nossa vida
E é de luz que a cidade precisa mais

(refrão)
Podes ficar com as jóias, o carro e a casa
Mas não fiques com ele.
Mas não me tires as luzes
E até as contas do banco, e a casa de campo,
Mas não fiques com ele.
Mas não me tires as luzes
Podes ficar com o resto e dizer que eu não presto,
Mas não fiques com ele.
Mas não me tires as luzes
Tira-me tudo na vida, e o mais que consigas,
Mas não fiques com ele.
Mas não me tires as luzes

Vais-te embora,
Vais-te embora Zé,
Podes levar daqui tudo o que houver
Vais-te embora
Vais-te embora Zé
Eu nem partilhas vou querer fazer
Vai-te embora,
Vai-te embora Zé,
Leva o que tinhas e o que hoje tens
Vai-te embora,
Vai-te embora Zé,
Até prescindo a comunhão de bens
Mas não leves essa coisa mais querida
Que é dos dois
Não posso negar
Mas fui eu quem lhe deu mais na vida
E é comigo que ele quer estar
E é iluminada que a cidade no Natal quer estar.
(3x refrão) 

Anónimo 
(recebido por email) 

Manuel Alegre em Évora: nem flip nem flop

Nuno Veiga (Lusa)
Manuel Alegre esteve em Évora esta tarde, pela primeira vez, nesta pré-campanha. Inaugurou a sede de campanha que se situa no mesmo local do que há quatro anos. Mas o élan do candidato já não é o mesmo. Aquilo que era desafio aos poderes, ousadia, uma forma de estar contra-a-corrente parece hoje apenas cansaço e monotonia. Está mais velho, os seus apoiantes também e os apoios institucionais do PS, e mesmo do Bloco de Esquerda, só lhe pesam e nada contribuem para dar alegria, força ou novidade a esta campanha, onde tudo parece ter sido tirado dum museu de cera. Até as palavras do candidato, que nem poesia parece já respirarem, apesar de Alegre ser um bom poeta que sempre respeitei.
Do bloco de notas desta tarde vem-me à memória algo sem sabor: a ida do candidato ao Museu e dizer que há mais vida para além do orçamento, beber um café na esplanada do Arcada, comprar castanhas junto ao antigo Café Portugal, ir à Praça do Sertório e voltar no mesmo pé em direcção ao Centro Comercial onde se situa a sua sede de candidatura.
Nem uma reunião com nenhuma entidade, nem um tentar inteirar-se do que os jovens, os trabalhadores, os desempregados de Évora vivem, pensam e sonham. Nada. Apenas o discurso na sede de candidatura: vago, algumas críticas a Cavaco (que disse ter tido "falta de comparência" nesta altura de crise) e anunciadas solidariedades com "os que mais vão sofrer com as medidas que estão a ser tomadas" e "eu não estou ao lado dos que têm muito, até com muita pena de alguns amigos com quem pratico alguns desportos e que são banqueiros, eu estou ao lado dos trabalhadores, dos sindicalistas, estou do lado do que vão ter cortes nos salários e as suas pensões.congeladas". Esta frase foi bonita, mas foi como se estas medidas viessem do nada. Manuel Alegre "compreende" a greve geral, mas é pela concertação. Pesará tanto assim o apoio do PS?
Na comitiva, do lado do PS, estavam os segundos planos: Chalaça, Cláudia Pereira, Vitor Martelo (já na reforma), José Verdasca. E também José Luís Cardoso, o homem forte desta candidatura, e João Cutileiro. Ah, e o fadista Duarte, que é também apoiante destacado de Manuel Alegre. Do Bloco de Esquerda um pequeno grupo marcava presença (e também distância), com Miguel Sampaio e Luís Mariano.
Não sei o que isto vai dar. Hoje não deu nada. Mas também é verdade que em 2006, contra outros candidatos, como Soares ou Louçã, Manuel Alegre teve em Évora um dos melhores resultados a nível nacional. Os seus apoiantes mais dedicados esperam que desta vez isso se possa repetir. Não contra Soares e Louçã. Mas, talvez, contra os discursos oficiais do PS e o BE.
(Continuo é a não perceber porque raio é que em 2006 o BE apresentou Louçã às presidenciais, contra Alegre, de quem disse cobras e lagartos, e agora o apoia, quando este Alegre é bem diferente do Alegre da colheita de 2006. São de certeza as coisas da política que não entendo, nunca entenderei. E nem quero entender... porque dão brotoeja).

Vinhos, Sabores e Sensações do Sul

... podem ser experimentados, este fim-de-semana, no Parque de Feiras e Exposições de Beja.
Informações sobre os tês certames em: http://vinipax.com/

O que eu gosto desta palavra: delíquio


Vozes do Mar

Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas

De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios

D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...

... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!


Florbela Espanca 
Poesia Completa
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000

(cortesia de C.André - via email)

A França a ferro e fogo

Tudo o que os grandes meios de comunicação social tentam esconder da violência dos protestos em França pode ser visto aqui.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

REGISTO 125: notícias fresquinhas

 

queremos saber mais

Gosto de saber que há quem se atreva a pôr a mão na consciência .
Gosto deste optimismo fundando na razão (diz o dicionário que otimismo se refere a quem tem confiança no provir).
E rejubilo com a demonstração tão natural e evidente da importância do diálogo e da parceria.
Damásio explica nesta entrevista ao Público o caminho das suas escolhas. E fundamenta a sua razão para continuar.

Embevecidos com o Manel

A Dores já aqui deixou a notícia dos prémios que o Manuel Dias e os seus bonecos arrecadaram na China.
Agora, ouçam bem o que eles dizem cá do nosso Manel.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

No Alentejo: esta segunda-feira José Luis Peixoto apresenta "Livro"



«Não têm conto as vezes que me disseram: Livro, posso ler-te?
Rio-me dessa gracinha com o umbigo.»
José Luís Peixoto apresenta a sua mais recente obra, “Livro”, na próxima segunda-feira, dia 25 de Outubro, nas Alcáçovas, Évora e Beja.O escritor estará presente na Biblioteca de Alcáçovas pelas 14h00, rumando depois à Biblioteca (Municipal) Pública de Évora, onde estará a partir das 16h00, terminando o dia na Biblioteca Municipal de Beja, pelas 21h30.

"Salvamento" à moda do governo PS

(cortesia de C. André)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O melhor prémio vai... para as Marionetas de Évora


Ficou aqui anunciada a participação do marionetista Manuel Dias no 2nd Golden Magnolia Shanghai International Puppets.
Já esta tarde chegou a noticia de que o Trulé- Investigação de Formas Animadas ganhou o prémio "Golden Magnolia Arts Innovation".
Tendo em conta que estão representados neste Festival  marionetas dos vários  cantos do mundo, Manuel Dias, as marionetas de Évora e de Portugal estão de Parabéns.

Tempos


Avalanches de torpedos, de medos…

Avalanches de impostos, de desgostos…

Tempos passados, drogados…
Tempos de pios votados, de ímpios constatados…
Tempos de primavera floridos, de inverno frios sentidos…
Tempos idos de ter, vindos de perder…
Tempos de fartura aclamada, de negrura proclamada…
Tempos de sinais sentidos, de sentidos adormecidos…
Tempos de falências avisadas, de pessimistas cabeças enviesadas…
Tempos de esperança sonhados, de desesperança amaldiçoados…
Tempos chegados, chorados…
J. Rodrigues Dias
Évora, 2010-10-18

domingo, 17 de outubro de 2010

Cantam e encantam

conversas


O caminho faz-se caminhando.
No fazer do meu caminho momentos há que gostaria de não olvidar.
Mas é seguro que subtis marcas desses encontros ficam em mim impressas.
Num desses momentos, esta semana, encontrei-me com um admirador do poeta seu conterrâneo António Machado. Habitante da Provincia de Soria em Espanha. Académico respeitado.Senhor de setenta sãos anos.
Perguntou-me o que achava eu da "la crisis".
Respondi-lhe que me parecia uma grande e poderosa ferramenta para manobrar postos de trabalho, salários, consciências e vontades. Então ele soltou-se.
Que sim! Que era demasiado estranho que sendo uma crise de origem financeira, nenhum banco tivesse falido. E que os seus lucros, cada vez maiores e sem esconderijo, não servissem para aplicar em qualquer responsabilidade social. Que é estranho e de desconfiar! Que a crise mais parece uma espécie de detergente para branquear a corrupção demasiado instalada nos sistemas de poder.
Que os sistemas políticos que nos governam  são cada vez menos autónomos; cada vez mais marionetas manipuladas por senhores sem cara mas com o peso do dinheiro.
Que não vê entretanto, por aqui, por ali, por toda a Europa por onde viaja, intelectuais respeitados capazes e propor alternativas. Que as Universidades não só não se afirmam como reservas de saber, como integram os sistemas políticos e financeiros, sendo deles uma parte.
Sugeriu-me então que continuemos explorando indícios, buscando por entre "los mundos sutiles, /  ingrávidos e gentiles/ como pompas de jabón"

Cantava-se nas ruas de Paris já em Maio de 68: Le monde ne sera content que le jour où le dernier bureaucrate aura été pendu avec les tripes du dernier capitaliste...

Há alguns anos atrás,  quando os advogados e a gente saída das universidades de direito tinham a fatia de leão no espaço público (ele eram chefes dos partidos, ministros, deputados, comentadores....), cheguei a pensar - talvez fruto de alguma ingenuidade juvenil - que, de tão incompetentes, burocratas e bafientos que eram, mesmo no quadro capitalista em que a maioria se movia, melhor seria que fossem substituídos por gente mais técnica, mais habituada aos números e à realidade da economia.
Depressa os tempos trouxeram para a ribalta da cena política os engenheiros, os economistas, os "práticos". Reconheço hoje que estes "práticos", economistas, engenheiros  e outros sabem tanto da "realidade" como os "advogados" e "homens de direito" de antigamente. Basta seguir o que escrevem e dizem "luminárias" do tipo Bagão Félix, Mira Amaral, Nogueira Leite, Teixeira dos Santos , Sócrates, Passos Coelho... (e outros cromos, travestidos de jornalistas, como todos os dos jornais e espaços económico, de que um tal Camilo Lourenço é um bom exemplo), todos eles sem excepção, para se ver que sabem tanto do que se está a passar e das "saídas" para a "crise" como eu sei de um "lagar de azeite". Há uns tempos defenderam rios de dinheiro para a "economia": o dinheiro foi para as grandes empresas e para sectores como os da cortiça ou do automóvel (que não param de engordar); depois era preciso poupar (como se os portugueses tivessem dinheiro para poupar); depois era necessário que gastassem para alimentar o mercado interno; agora, com os cortes anunciados, é para que muitos milhares fiquem abaixo do limiar de sobrevivência (e é nesta altura que cortam as pensões sociais...). E tudo num par de anos...A gente ouve-os falar e até já acha piada: é como ir à bruxa - todos arriscam palpites, mas nenhum acerta. Ou melhor, eles acertam sempre: é vê-los a sobreviverem a toda e qualquer crise, sempre na boa e a mandarem "postas de pescada" escudados num "conhecimento" que a realidade todos os dias desmascara. Eles que são, em grande parte, os verdadeiros responsáveis por esta e por outras crises (são eles que comandam a economia) levam todo o tempo a inventar outros, que não eles, como responsáveis pelas situações que eles próprios criaram, os sem vergonha.

Pára-raios nas Igrejas/É para mostrar aos ateus/Que os crentes quando troveja/ Não têm confiança em Deus.


A missa na igreja de Campolide esta manhã fez lembrar um dos maiores receios de Astérix e os seus amigos gauleses. De capacete branco na cabeça, padre e paroquianos alertaram para o perigo de um dia, não o céu, mas o teto da igreja degradada lhes cair em cima da cabeça.
A habitual missa de domingo na paróquia da Igreja de Santo António, em Campolide, Lisboa, ficou marcada por um protesto insólito: padre e paroquianos passaram a missa de capacete na cabeça, para alertar para a necessidade de obras de conservação no edifício.
“As partes laterais da igreja estão quase a cair. Não se dá conta da água que se tira. E gostava que nesta altura em que se comemora os 100 anos da República se fizesse mais do que isso. Dar o seu a seu dono, de forma a que possamos fazer obras, que será outra batalha a seguir muito vasta e complicada”, disse à Lusa Isabel, paroquiana e voluntária das obras sociais da igreja de Santo António.
A comunidade que frequenta a paróquia exige uma solução por parte do Ministério das Finanças, que tutela a propriedade do edifício, para que se possam fazer as obras, e contesta a intenção do Governo de vender à paróquia um imóvel que há 100 anos lhe foi confiscado a custo zero.
“O Ministério não quer passar a preço simbólico ou a custo zero o imóvel para a paróquia. Começou por nos pedir um milhão e 200 mil euros, depois de algumas conversas acabaram por nos pedir 243 mil euros. Mas face à degradação do imóvel, e por ter sido confiscado a custo zero, achamos que é imoral o Estado querer fazer um negócio com uma coisa que roubou e agora quer vender”, criticou o padre João.
“No nosso país qualquer cidadão que roube e venda é penalizado. Parece que com o Estado, que é pessoa de bem, não acontece isso”, acrescentou.
A igreja, classificada como imóvel de interesse público, foi confiscada pelo Estado três dias depois da implantação da República em Portugal e foi um depósito da farmácia do Exército até ter sido restituída às suas funções de culto em outubro de 1938.
“Querem-nos vender uma coisa que já é nossa, quando a vieram buscar sem pagar um tostão. Sejam ao menos honestos. O país está tão mal, entreguem aquilo que é do povo para o povo ver se consegue arranjar a igreja antes que nos comecem a cair pedras e chuva em cima. É isto que pedimos ao senhor ministro. É a nossa única igreja”, disse Rosa Bettencourt, paroquiana há 40 anos.

Feira de Castro: ainda vai a tempo

Estive lá ontem e recomenda-se como a grande Feira Tradicional do Sul.

sábado, 16 de outubro de 2010

Nunca a democracia caiu tão baixo

Quando tanto se fala na necessidade de qualificar a democracia, eis que nos oferecem um espectáculo em que os actores mostram à saciedade que se estão nas tintas para tal desiderato. Que o que lhes interessa é apenas a manutenção do poder que os alimenta, nalguns casos, principescamente.
Já deixaram cair a máscara por completo, já não têm pruridos em mostrar os seus verdadeiros objectivos.
Travam grandes discussões, seja no Parlamento ou na praça pública, sejam políticos - governantes, ex ou aspirantes - ou tecnocratas e comentadores de serviço, para concluirem que, apesar das grandes divergências, que fingem ter, só há um caminho a seguir - o que nos têm obrigado a seguir, com as consequências que estão à vista de todos.
Defendem, sem qualquer pingo de vergonha, que é melhor um mau orçamento do que não ter orçamento. Ou seja, para esta cambada, que insiste em considerar-nos estúpidos e em estupidificar-nos, é melhor comer um prato de comida estragada do que não comer.
Nunca, que me lembre, houve uma campanha tão insistente e tão bem orquestrada para condicionar a opinião pública e a decisão de partidos que, embora estando e defendendo no essencial o mesmo caminho, têm por, mera estratégia eleitoral, mostrado alguma reserva ao seu apoio a este orçamento, que todos consideram mau, incluindo quem o apresenta.
Nunca, como agora, foram tão longe na imposição do pensamento único. Hoje só para os distraídos ou menos atentos não é claro que quem manda não é apenas nem principalmente o governo mas sim o bloco central de interesses, que integra também a direita mais radical mas igualmente interesseira. Basta ver os barões e piões de brega do PSD e alguns do CDS a saltar para a arena a reclamar o apoio dos seus partidos ao orçamento, com receio de que estes possam querer saltar do seu próprio barco.
Toda a gente sabe, já ninguém tenta esconder, que este orçamento vai gerar recessão (dizem estagnação) económica e aumentar o desemprego (cuja diminuição diziam há poucos meses ser o principal objectivo). Se assim é, como é que se vai pagar a dívida externa? Mas isso interessa lá para alguma coisa? O que interessa é que temos de fazer como fazem os nossos parceiros da União Europeia, ou melhor, como quem manda nela nos manda fazer...
Pior do que fazerem-nos mal é querem que fingemos que não percebemos que nos estão a fazer mal. Mas pior ainda, a dar crédito a sondagens, que parecem encomendadas para dar cobertura à estratégia definida, é que alguns ou fingem ou não percebem mesmo que nos estão a fazer mal...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Tudo isto é triste. Tudo isto é fado.


Tudo isto é triste.
Estou tentado a propor uma aposta: o Centro de Artes Tradicionais (antigo Museu do Artesanato) não vai reabrir (enquanto tal) as suas portas ao público.
Nem sei sequer se essas portas alguma vez reabrirão.
O que sei é que a motivação das entidades oficiais, todas elas, não vai além dos cortes nas despesas.
Não de todas as despesas, é certo. Apenas daquelas que não afectem os interesses instalados, os compadrios, a rede clientelar que se alimenta do aparelho.
É ingénuo pensar que na base desta tomada de posições, esteja alguém com legitimidade política para tal. Não! O aparelho administrativo há muito tomou de assalto o poder.
Não acredito que o TA tenha particular interesse na manutenção de qualquer equipamento cultural que vá além dos dividendos providenciados por uma bela campanha de marketing.
Não acredito que uma Câmara em auto-gestão tenha algum poder que vá para lá de um lugar de secundário destaque na fotografia, ou de umas referências mais ou menos simpáticas na decorrente infografia.
Uma autarquia falida, que encara com toda a naturalidade o incumprimento de compromissos assumidos, que desvaloriza a cultura e a reduz às contingências do lucro, da auto-sustentabilidade dos seus agentes.
Uma autarquia falida em ideias, falida na defesa dos seus munícipes, uma desautarquia em suma, só tem mesmo espaço nas fotografias.
Órgãos distritais, regionais, que são apenas tentáculos do poder central, cargos de prebenda, esvaziados de conteúdo.
São apenas espuma, meras contingências, são objectos de trabalho para sustentar as agências de comunicação pagas com o dinheiro dos contribuintes.
Aposto por isso, singelo contra dobrado, que o destino do CAT está traçado.
O que é mais triste, mesmo desolador, é estar este destino traçado apenas por omissão.
Acreditem, depois do fecho, o vazio.
Enfim… tudo isto é fado.

M. Sampaio
15 Outubro, 2010 12:40

Os riscos de estar nu: foi o manifestante com seis meses de salário em atraso quem foi detido, não o patrão devedor

foto de arquivo

Um operário que trabalha na construção de um hotel na Quinta do Lago, no Algarve, foi hoje detido pela GNR por estar a manifestar-se nu na EN-125 contra seis meses de ordenado em atraso.

“Tenho três filhos na Ucrânia e preciso do dinheiro dos seis meses de trabalho que me devem”, declarou hoje à Lusa, Sergiy Fischchenko, 40 anos, natural da Ucrânia.

Sergiy trabalha para a empresa VDV Protrata na construção do Hotel Conrad Algarve Palácio da Quinta, promovido pelo Grupo Imocom, e foi detido durante duas horas por se ter despido na EN 125 com o objetivo de chamar a atenção para os seus problemas laborais.

Além deste trabalhador, outros seis operários da mesma empresa afirmam que têm seis meses de ordenados em atraso.

Sergiy Fischchenko decidiu hoje pelas 09:30 despir-se e colocar-se nu na Estrada Nacional 125 para chamar a atenção dos condutores e da população em geral para a situação que vive e promete continuar a manifestar-se até lhe pagarem os seis meses de ordenado em atraso.

Os sete funcionários deslocaram-se hoje aos escritórios da VDV Protrata, em Almancil, junto à EN-125, para conversarem com os responsáveis sobre o pagamento dos salários.

Boris Vandervoordt, um dos proprietários da empresa VDS, admitiu à Lusa que há sete funcionários com “seis meses de salários em atraso” por “falta de aprovisionamento de pagamento de clientes”.

“Temos clientes que não nos pagam”, lamentou Boris Vandervoordt, adiantando que quando as empresas devedoras pagarem à VDV a prioridade é pagar aos trabalhadores, porque “os têm em muita consideração”, acrescenta.

Gilberto Revés, que trabalha há oito anos para a VDV explicou à Lusa que nunca teve problemas com o pagamento de salários, mas desde abril de 2009 que as “coisas começaram a andar para trás” e agora tem seis meses de ordenados em atraso.

Sergiy Fischchenko declarou que só vai sair da frente dos escritórios da VDV de “ambulância ou com o dinheiro dos salários na mão” e promete que vai ali passear hoje à noite em protesto.

A mesma história de sempre: mate-se o mensageiro!


Os clientes não compram, logo as empresas não vendem, logo os vendedores queixam-se, mas… inexplicavelmente, e hoje já 3 me disseram o mesmo, não culpam os governos que nos têm desgovernado nestes últimos 30 e tal anos (dos quais os últimos 15 anos são da responsabilidade do PS), não culpam o povo que continua a votar nos mesmos a levar porrada e a não se mexer, culpam a Comunicação Social por estar sempre a dizer que o País está mal! Incrível, não?
Sugiro assim …"que se matem os mensageiros que o País fica logo melhor”
.

Lurdes
15 Outubro, 2010 12:07

Museu de Artesanato ENCERRADO POR FALTA DE PESSOAL

Quem passe hoje à porta do CAT Museu de Artesanato de Évora, encontra o aviso: "Estamos encerrados até dia 24 de Outubro por falta de pessoal".

Sabemos que a licenciada que trabalha a contrato, e tanto vende os bilhetes, lava o chão, organiza exposições e faz visitas guiadas, está de férias durante alguns dias. O Turismo do Alentejo (TA) aparentemente não tem mais ninguém para a substituir.

Pelo contrário e segundo o protocolo já acordado quando o "Museu de Artesanato e Design" do colecionador privado abrir, o TA e a Câmara de Évora garantirão pelo menos e com dinheiro do contribuinte: "um funcionário do museu; um funcionário para a loja; um técnico; pessoal de segurança; pessoal de limpeza; pessoal de apoio a processos de candidatura a fundos europeus e outros; uma Direcção do Museu constituida por representantes do TA, da Câmara Municipal e pelo próprio colecionador; dois quadros superiores doutorados em design.

OficinadaTerra

Um bom motivo para ir ao Porto

 

A democracia participativa 2.0 e a questão constitucional

Pelo mundo fora alastrou uma exigência de participação cidadã na vida pública (em todos os centros de decisão, a todas as escalas), que tem que ver não só com aspectos negativos da evolução das democracias parlamentares (ruptura dos laços da “representação”, perda de legitimidade do pessoal político e por conseguinte dos partidos), mas também com aspectos positivos da evolução das sociedades. Entre estes, o principal é sem dúvida o aumento espectacular do nível de educação das populações, que despoleta a consciência da discrepância entre capacidade para intervir e possibilidades efectivas de o fazer. A evolução tecnológica, ligada ao precedente, veio acelerar a tomada de consciência e potenciar os movimentos de recomposição social no mundo inteiro.

Num post anterior, tentei mostrar que a necessidade mais premente na conjuntura política actual, tanto no nosso país como em muitos outros, é a invenção e a organização de novas formas institucionais de participação cidadã (na formação das opiniões e nas decisões).

Hoje proponho um exemplo que me tem fascinado pelo seu carácter verdadeiramente revolucionário: o do processo de revisão constitucional islandês. Após a crise financeira aberta pela falência dum banco (“Icesave”) que distribuía bons lucros aos especuladores britânicos e holandeses, e ao pretender o estado islandês reembolsar as perdas dos investidores estrangeiros, o país entrou numa profunda, mas como veremos fértil, crise política. Resumo dos factos para quem não acompanhou em pormenor: o parlamento vota uma lei visando o reembolso (pelos contribuintes) das dívidas do banco; os cidadãos manifestam, assinam uma petição, recusam. O presidente da república, face à recusa popular, não promulga a lei e decide submetê-la a referendo (Fevereiro de 2010). Votação negativa, 93% de “Não”. O parlamento engole em seco, negoceia novo acordo com os “credores”, obtém novas condições, bem “melhores”, e 70% dos deputados votam a nova lei. Nova recusa dos cidadãos no segundo referendo (Abril de 2010): 59,1% de “Não”.

A ruptura entre deputados e população não podia ser mais significativa: intervém num país altamente democrático, socialmente pacífico, pequeno (onde pode presumir-se que há maior proximidade entre pessoal político e eleitores).

Assim se abre a crise política que vai desembocar no processo mais original que conheço: o da elaboração verdadeiramente participativa duma nova constituição.

http://www.participedia.net/wiki/Icelandic_Constitutional_Council_2011

Deixo de lado as peripécias da eleição do conselho constitucional (qualquer cidadão podia apresentar-se; deviam ser eleitos entre 25 e 31 membros). E retiro apenas uma

citação (que traduzo) do sítio wiki do Conselho:

“O Conselho recebeu a missão de efectuar esse trabalho [redigir a proposta de lei constitucional] servindo-se dos resultados dum fórum dos cidadãos [citizens’ forum ] assim como através de apelos com larga difusão a propostas do público, grupos de interesses, ou outros partidos”.

“O conselho tentou obedecer a este requisito através duma utilização inovadora da internet, cirando páginas próprias em media como Youtube, Facebook, Twitter e Flickr, fazendo deste modo da Islândia o primeiro país a utilizar o crowdsourcing (trabalho colaborativo de largos grupos) como meio de revisão constitucional.”

Quem for à página acima indicada, ou aqui (http://stjornlagarad.is/english/rules-of-procedure/ ) poderá tomar conhecimento dos pormenores (notáveis) dos procedimentos e de algumas ideias interessantíssimas que emergiram do processo.

Para terminar, apenas uma constatação: todos recordamos (e eu, confesso, com angústia) que antes das últimas eleições alguém (o actual primeiro-ministro?) lançou a ideia duma revisão constitucional. As questões que o micro-mundo político levantou eram apenas a da oportunidade dessa iniciativa naquela conjuntura e a de saber se os dois maiores partidos seriam capazes de negociar entre eles um acordo quanto às alterações a introduzir na constituição. Assim, a questão da lei fundamental, da sua alteração, estava reduzida a uma negociata (secreta) entre dois ou três partidos. Mas quem, nesse contexto, no actual, ou mesmo em qualquer outro, teria confiança numa “frente” PS-PSD (e eventualmente CDS) para alterar a lei fundamental? Os partidos que nos levaram ao pior descalabro de sempre, iam, entre eles, cozinhar uma nova constituição? É óbvio que ninguém de boa-fé pode ter confiança nesses arranjos.

Perguntará o leitor: e se fossem todos os partidos com assento parlamentar (ou até mesmo incluindo os que não o têm) a alterar a constituição? Não seria suficientemente legítimo?

A minha resposta é negativa. Porque um dos pontos importantes da constituição actual (e da nova, se a houver) é precisamente o papel dos partidos políticos. E não podemos confiar aos interessados (aos partidos) a missão de fixar as suas próprias regalias, como o monopólio da representação parlamentar ou a proporcionalidade do financiamento ao número de votos obtidos (cujos efeitos perversos estão à vista), nem deixar que sejam os partidos a fixar os direitos, imunidades e vantagens anexas dos deputados dos partidos... Não podemos confiar em nenhum partido (nem em todos eles juntos) para redigir uma nova constituição. Resta estudar com cuidado o processo islandês, incluindo os seus aspectos técnicos.

Porque o processo constitucional tem que ser de livre iniciativa cidadã, decerto, mas institucional, legitimado pela lei, com missão oficial e procedimentos universais e claros, como na Islândia, e não apenas uma iniciativa privada, ou até quase clandestina dum grupo, que acabaria por dar a vantagem aos mais rápidos e excluir a quase totalidade daqueles e daquelas cuja vida se pauta pelo novo contrato social que a Constituição deve incarnar.

E é claro, já houve quem se adiantasse. Mas não é esse o caminho duma refundação da democracia.

JRdS ( José Rodrigues dos Santos)

Évora, 14 de Outubro de 2011