sábado, 24 de abril de 2010

A voz

 
A propósito de um documento de rádio (a reportagem do CJ sobre reforma agrária) que antecipa o 25, ou ainda daquela conversa sobre livros (que foi maior que o tempo reservado no salão nobre do edificio municipal da Praça do Sertório) para lembrar o 23 como dia internacional do livro, ecoa-me A VOZ.
Sim, porque se a escrita perdura, a voz é a marca da subjectividade que torna únicos e irrepetíveis os momentos de palavra.

Alerta José Luis Pardo para os perigos de apagar das palavras todo o sabor e toda a ressonância,
de impor pela violência uma linguagem lisa, sem manchas, sem sombras, sem rugas, sem corpo,
de impor a língua dos deslinguados,
de impor uma língua sem outro, onde só é possível quem fala escutar-se a si mesmo,
uma língua despovoada, porque não tem povo. 

Mas a voz não é contra a escrita. As duas surgem por vezes bem aliadas. Como diz Jorge Larrosa há escrita com voz, da mesma forma que há oralidade sem voz. Tudo depende se há ou não alguém no que se diz e em como se diz.

3 comentários:

  1. A escrita como biografia dissimulada avalia a importância do elemento biográfico na origem e feitura dum texto, relacionando a criaçao e historia pessoal. “Escrever, nota José Saramago, é uma biografia dissimulada” em “excercícios de autobiografia” do Manual de pintura e caligrafia.
    Ja a ideologia explicitada na obra é menos evidente. Nas entrevistas, Ricciardi “O Escritor Corporal: Cem Entrevistas para a construçao de uma metodologia” organiza os escritores em três categorias. O escritor ético afirma-se guia moral do povo, subscreve o engajamento sartreano (“Sujar as mãos!”) ou a “organicidade” de Gramsci. Assume a escrita como um officium, e dever moral para com a sociedade e para consigo mesmo. O escritor egotista põe em primeiro plano o próprio ego, e o escritor inspirado declara não saber por que escreve mas que não pode passar sem escrever.
    fm

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  2. Obrigado Dores, percebi a mensagem. E o poema. E a urgência de dar uma língua aos "deslinguados". Foi simpático. Não merecia tanto.CJ

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  3. Caro fm:
    Interessante o seu comentário.
    É curioso apreciar como vão passando por aqui essas várias categorias de escritores. E como cada um de nós pode assumir-se, de quando em vez com uma diferente categoria. Mesmo que uma delas predomine em cada um.

    Desejo-lhe um bom dia 25 de Abril

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