sábado, 24 de abril de 2010

Ó Cidade, Cidade…


(Para o Pai da Lurdes, e outros Pais e Mães, de outras Lurdes)
Havia de sul a norte
Prisão política, tortura e morte.
Saía o desnorte à rua
Do sol nascer ao pôr da lua.

Sem medo para vencer
Quem sabia fazia a hora,
Não esperava acontecer...

Tantos anos depois passados
São estes os anos não imaginados
Em Cidade livre formalmente
Mas amordaçada terrivelmente
Por cada um de nós,
Bem dentro de nós…
Cidade amordaçada por nós,
Mesmo por quem antes,
Com e sem avantes,
Convicto de na aurora vencer
Ousou lutar e a bandeira erguer.

Pobre de ti, ó Cidade,
Que vives, que nos fazes viver,
Neste mundo diluído,
Confuso,
Politicamente correcto,
Difuso,
Que bem convém,
Incerto,
Que te convém,
Onde tudo é nada,
Onde nada é tudo…

Onde estão, ó Cidade,
Pátria minha, liberdade,
Os Princípios e os Valores que te geraram,
Que em sonho de Abril desabrocharam,
Que são a semente, a flor, o fruto
E de novo a semente do cravo em flor?
Já reparaste, ó Cidade,
Pátria minha, igualdade,
Que os Princípios são o que está
Necessariamente no princípio?
Cito de cor S. João Evangelista:
No início era o Verbo!
E já reparaste que os Valores
São o que perenemente vale,
Mantendo-se, sem princípio nem fim,
Fazendo de um homem o Homem?
E já reparaste também que as coisas
Verdadeiramente sábias, fortes e belas
São sempre simples?
Tão simples…

Lembras-te,
Por exemplo tu, Albert,
Da tua incrivelmente simples
Fórmula da energia e da massa?
Não, meu velho Albert,
Não me refiro à massa de hoje,
Que essa não cria energia,
Apenas dependência, dependências...

Dependências que por inércia nos matam
E te matam dentro de ti, ó Cidade,
No teu próprio princípio,
Criando ao mesmo tempo
Pequenos deveres,
Grandes devedores e maiores poderes.
E uma enorme riqueza e uma imensa fome...
E esta tristeza envergonhada
Com sal chorado aumentada…

Ó Cidade, Cidade…

Estás, estamos, no meio da ponte
Sem conhecer do saber a certa fonte.
Ontem fugiste para a frente, inconsciente.
Agora parece que te queixas, muito doente...

Que agora não fujas para trás,
Renegando no teu próprio ser
Os Princípios e os Valores de se ser,
Amordaçando-nos bem dentro de nós,
Ficando tristes e tão sós
E tanto atrás!

Ó Cidade, Cidade…

Sê tu
E sê livre, ó Cidade,
Pátria minha,
Terra materna da fraternidade!

Seremos livres
E seremos a Liberdade,
Dentro de ti, ó Cidade!

J. Rodrigues Dias
Évora, 2010-04-23

1 comentário:

  1. Um poema bonito e forte
    como são os veros poemas.
    Obrigada

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