quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Saúde: uma história nada exemplar

"Quero partilhar com todos os que por aqui passam um episódio pessoal sobre o sistema de saúde que marca o nosso pais.
O meu pai tem um tumor na próstata que quando detectado já não tinha hipótese de operar. O especialista do hospital da altura deu-lhe dois anos de vida.
Os tratamentos começaram e, a par disso, porque conseguimos ter poder económico para tal, ele teve acompanhamento da medicina alternativa.
Os dois anos passaram-se e quatro e depois outros e fez no mês passado 15 anos que a doença lhe foi diagnosticada.
Nas consultas do hospital, ao fim de algum tempo e devido à estagnação do tumor, o médico disse-nos que sabia que fazíamos tratamentos paralelos, mas que ele não queria e nem podia saber o que era.
Esta foi a primeira anedota desta história!
Durante todos estes anos, de 3 em 3 meses o meu pai ia à consulta, mostrava as análises e levava uma injecção que só é aplicada no hospital e que nem tem venda nas farmácias.
Segundo o médico e os especialistas na área da medicina alternativa esta injecção teria de ser dada até ao fim da sua vida.
Durou 15 anos esta rotina.
No ano passado o meu pai fez 75 anos, e na consulta seguinte ele não levou a injecção, perguntou porquê e sem grandes explicações disseram-lhe que já não era para levar.
Passados dois meses começou a piorar e na consulta de medicina alternativa, voltaram a dizer-nos que ele teria de a tomar.
A minha mãe dirigiu-se ao hospital e quis saber porquê, e depois de muito insistir foi-lhe dito que devido ao custo da mesma (500,00€ cada) os doentes a partir dos 75 anos já não tinham direito a ela.
A minha mãe que é uma mulher de garra, fez um escarcéu, falou com deus e o mundo e um mês depois a injecção voltou a ser ministrada ao meu pai.
Escusado será dizer que ele voltou a melhorar e o tumor voltou aos níveis a que estava.
Em Junho deste ano o especialista que o acompanhou estes anos todos, reformou-se e os doentes deixaram de ter médico.
Como o tempo estava a passar e ele estava sem consulta, sem medicamentos e sem injecção, voltámos a pedir explicações ao hospital e foi-nos dito que não havia médico substituto, não sabiam quando vinha um, e se vinha, e que os outros médicos só tinham tomado conta dos doentes novos, os mais velhos teriam de esperar até haver um.
Moral da história
, o meu pai por ter 76 anos já é velho e pode morrer, já está a dar prejuízo e portanto que se lixe, afinal como me disse um dos médicos com que falei, ele tinha dois anos e já ia em quinze, estava cheio de sorte.
Eu por mim recuso-me a assistir a esta segunda tentativa de homicídio, que é o que o hospital está a fazer, fiz reclamação até já para o ministério e estou decidida a pôr a boca no trombone, foi o que disse aos senhores do hospital, que rapidamente me ligaram a dizer que dentro de uma semana chega um novo especialista.
Acham isto normal, num estado de direito onde um homem descontou para o sistema de saúde durante 46 anos e que nunca teve uma baixa na vida?

Lurdes

25 Novembro, 2009 02:11"

13 comentários:

  1. É votar no PS que isso tudo melhora e resolve-se. Ou será que já votou nesse?

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  2. É uma história escandalosa independentemente de em quem se tenha votado. Haver um limite de idade para se continuarem a usar os tratamentos adequados parece, isso sim, criminoso. O anónimo das 9:59 deve ver tudo o que se passa no mundo a partir da ranhura da urna de voto.
    Lurdes: estou solidária consigo e fez muito bem em não se calar.

    leonor

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  3. isto dá bem o exemplo do estado em que está a saúde: um caos, entregue a quem muitas vezes não sabe o que está a fazer, sem dinheiro e com muita arrogância. mas nós calarmo-nos nunca é a solução.

    bejense

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  4. E o que tem a dizer a isto a reconduzida Rosa de Matos?

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  5. TIRADO DA IMPRENSA DE HOJE

    "Quatro em cada dez pacientes aguardam pelo menos um mês por uma consulta com o médico de família, concluiu a Deco Proteste num inquérito, cujos resultados foram hoje difundidos.

    «A situação piorou face ao último estudo da associação em 2004», sendo que «a longa espera atinge agora mais seis por cento de utentes», indica, em comunicado, a associação de defesa de direitos dos consumidores, que para o seu estudo inquiriu 4.300 utentes dos serviços de saúde.

    A associação concluiu, também, que «os portugueses estão mais satisfeitos com os centros de saúde do que em 2004, mas ainda esperam muito pelas consultas», sendo as regiões Norte e do Algarve as mais afectadas pela demora".

    E COMO SE NÃO BASTASSE ISSO:

    "O Governo está a estudar a possibilidade de limitar as despesas de saúde que podem ser deduzidas no IRS pelos contribuintes, avança esta quarta-feira o Correio da Manhã.

    Actualmente são dedutíveis 30% do dinheiro dispendido sem limite máximo.

    Os últimos dados oficiais, referentes a 2007, dão conta de que mais de 3,2 milhões de famílias apresentaram despesas de Saúde no IRS, uma subida de 4,8% em relação a 2006".

    AUMENTA O TEMPO DE ESPERA POR CONSULTA E QUEREM LIMITAR AS DESPESAS NO IRS. É INACEITÁVEL.

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  6. O que temo é que com a crise casos destes comecem a ser mais usuais e que o corte nas despesas de saúde atinja não apenas o desperdício e os gastos não justificados, mas também os tratamentos necessários, que por serem caros se deixam se fazer, sobretudo na população idosa - porque não vale a pena.

    M.J.T

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  7. Eu conheço a Lurdes, este caso é verdadeiro e é um escândalo. Não se trata de dizer mal por dizer mal.Um doente com esta idade e com esta gravidade estar sem médico é escandaloso, como escandaloso é não lhe querem fazer os tratamentos necessários por que já tinha ultrapassado os 75 anos e eram caros. E que só tenham agido quando a Lurdes, que se movimenta bem em vários sectores, nomeadamente junto da comunicação social, tenha dito que ia "pôr a boca no trombone".
    Ah, é verdade. Este caso passa-se em Évora, mas podia passar-se em qualquer parte do Alentejo ou do país. Quando os critérios meramente economicistas começam a mandar na saúde, na educação ou na cultura é porque o país já perdeu a noção das prioridades.

    Carlos Júlio

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  8. Eu não conheço a Lurdes mas estas situações preocupam-me, preocupam-me ainda mais as situações que se passam com pessoas que não são como a Lurdes e que ficam em silêncio porque não sabem ou não conseguem reivindicar o Direito à Vida.

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  9. Lurdes,
    Faz muitíssimo bem em não se calar, pois o seu pai tem todos os direitos, não é a idade que lhos vai tirar.
    Felizmente isso não se passa em todos os hospitais.
    Ao meu pai foi-lhe diagnosticado cancro da próstata aos 82 anos. Foi a um médico particular, para maior rapidez, que o encaminhou para o Hospital Pulido Valente. Começou de imediato a levar essas ditas injecções, que não faltaram até aos 85 anos. Viria a falecer, há pouco tempo, não desse problema mas de um outro.
    Eu própria necessito de um tratamento intravenoso de 2 em 2 meses,(preço unitário ronda os 1000€ mas não pago nada) num outro hospital em Lisboa, já há cerca de 5 anos, e nunca tive qualquer problema.
    Chego assim à conclusão de que o que se está a passar com o seu pai é efectivamente um problema do hospital de Évora.
    Alentejana

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  10. Lurdes:
    O que contas não é mesmo nada normal. E é para evitar ou controlar anomalias como a que descreves que deve existir uma opinião pública esclarecida e actuante.
    Estás de parabéns(tu e a tua família) pela determinação em não aceitar limitações no direito à vida, e à qualidade de vida.

    Sinto-me solidária também com o anónimo das 13:14 que coloca a questão das pessoas que não dispõem de recursos que lhes permitam trilhar o caminho que tu trilhas.
    É também a pensar nesses que teremos de aprofundar os exercícios de cidadania como o que aqui fazes.

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  11. Lurdes:
    Deste um exemplo de cidadania que não é fácil de ver nos dias de hoje, pela capacidade de indignação, pela frontalidade com que denunciaste a situação a que chamaste de tentativa de homicídio, que revelaste, o que não constitui surpresa.
    Mais do que felicitar-te por esse exemplo de cidadania sempre louvável, julgo que se deve colocar a seguinte questão: E agora, fica tudo na mesma? Ninguém assume a s responsabilidades nem é responsabilizado por recusar um medicamento vital a um doente porque ele já viveu mais do que se esperava e já tem mais de 75 anos ( é agora este o nosso prazo de validade?!!!)?!

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  12. Quem manda na saúde está a brincar com uma coisa muito séria que é a vida de todos nós e das pessoas que nos são queridas. Se isto se passasse com alguém com poder (não se passava) caía o carmo e a trindade. Força. Denunciar um caso é ajudar a que outros não aconteçam.

    ana (lisboa)

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  13. è realmente lamentavel, que estas coisas se passem nos nossos hospitais.
    Sei que os medicamentos oncologicos são caros, tive um cancro, mas caramba, deixarem de tratar uma pessoa, pela idade??? estes casos tem que ser punidos.
    Enfim...

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