quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Évora: Universidade cobra 3 euros a cada visitante


Inacreditável mas verdadeiro. A Universidade de Évora está a cobrar três euros por cabeça a todos quantos queiram ver os belos claustros do velho e carismático Colégio do Espírito Santo onde está instalada desde finais dos anos 70. O acesso livre aos mesmos só é facultado agora aos funcionários, professores e alunos desde que munidos do respectivo cartão de identificação passado pela instituição.
Presume-se que a medida tenha sido tomada pela nova reitora que face aos novos cortes nos orçamentos universitários ditados pelo governo tenha encontrado aqui uma forma de captar uma receita extra para minorar a escassez de financiamento que compromete o regular funcionamento da instituição. 
Tomei conhecimento do facto pelo meu filho Gonçalo, que estando de férias, veio passar alguns dias à sua cidade natal e trouxe consigo um casal amigo, ele português. ela holandesa, que pretendiam vir conhecer Évora mostrada por quem a conhece bem. Ora bem, ao pretenderem visitar os belos e monumentais claustros depararam com a situação descrita. 
Ao que parece, desde que há alguns anos a visita à Catedral passou a ser paga pelo mesmo montante passou ser moda tirar-se partido da monumentalidade de certos espaços por parte de determinadas entidades com o objectivo de arranjarem fontes alternativas de financiamento.
Já agora deixo aqui uma sugestão à Câmara que deve a astronómica verba de 80 milhões: mande isolar a Praça de Giraldo e passe a cobrar também três euros por pessoa. E porque não o templo Romano?

José Frota (aqui)

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Évora, um Monte grande


Évora está cada vez mais uma grande Aldeia. Parada no tempo, sem qualquer perspectiva de desenvolvimento, das pouca “modernizes” que foram surgindo, vão a pouco e pouco definhando e mesmo desaparecendo. 
O Shopping já era;
A Moviflor, segundo parece vai encerrar no final do mês;
O Izibuild, ainda vai funcionando, mas sem praticamente nada nas prateleiras, parece uma loja CUBANA;
O IP2 parou às portas da cidade;
O TGV ou comboio rápido ou lá o que fosse Zero (dizem que não há dinheiros para este tipo de investimentos), será que os 4,9 mil milhões dados ao BES (desculpem ao “novo “banco) não daria para construir uma infra-estrutura ferroviária que permitisse a ligação à europa?;
Pior, se as entidade públicas, CME incluída, nada fazem, do lado privado continuam a viver como se ainda estivéssemos no século passado, há cerca de uma semana adquiri um electrodoméstico na Worten, ficaram de o montar no prazo máximo de 48 horas, pois bem só oito dias, sim oito dias depois é que foi possível a sua montagem, justificando-se esta demora por durante esta semana, não haver em Évora uma única firma que pudesse efectuar a referia instalação, pois estavam fechadas para férias!!!! Foi necessário vir um técnico de uma Vila deste distrito. Lamentável. Mas é a cidade?? que temos. 
Já ponho em duvida se realmente se trata de uma cidade e não de um Monte grande…

MdM

sábado, 23 de Agosto de 2014

Israel encurralado pelo Hamas? A lição esquecida de Massada.


A ideia parece absurda: não são Gaza e os seus habitantes, não é o Hamas que está encurralado  por Israel no enclave que se tornou campo de concentração ou pelo menos prisão ao ar "livre"?

Se considerarmos a situação e a relação de forças militares, é claro que quem está "encurralado" é o Hamas. Mas a maior parte dos jornalistas que vão dando notícias e até dos analistas, esquecem o conceito básico do Clausewitz: "a guerra é noventa por cento política e dez por cento militar", escrevia ele mais ou menos.
Do ponto de vista militar, a desproporção das forças dificilmente poderia ser maior e é tão óbvia que nem vale a pena evocar o armamento ofensivo de Israel, e o seu "Domo de Ferro" defensivo, que intercepta 99% dos roquetes artesanais disparados pelos Palestinianos de Gaza. A chamada "retaliação" por Israel por cada disparo do Hamas (mesmo que não provoque vítimas nem estragos) é de tal ordem, que a contagem das vítimas (90% de civis, como não podia deixar de ser bombardeando cidades) mal consegue dar a medida da disparidade: mais de 2000 mortos e dezenas de milhares de feridos, milhares de habitações destruídas do lado Palestiniano, 67 mortos dos quais 3 civis (ou agora 4, com a morte duma criança israelita) do lado de Israel.
Perante esta realidade terrível, torna-se difícil entender que o Hamas negoceie de modo tão firme, sem renunciar à sua reivindicação principal - o fim do cerco ao enclave - e tome até a iniciativa de romper as tréguas. Cada novo "rocket" artesanal desencadeia dezenas de raides israelitas e dezenas de mortos em Gaza. Mas interpretar a resistência do Hamas e a continuação do combate como simples sinal do seu fanatismo é demasiado fácil, e sobretudo é falso.
Sem retomar a visão estratégica de Israel desde a sua formação, uma coisa é clara: Israel, que se fundara com a ideia sionista de dar um porto de abrigo aos Judeus perseguidos, fechou-os num território rodeado de vizinhos que soube tornar seus inimigos. A sua história é um longo caminho de armamento (incluindo o nuclear), de militarização cada vez mais profunda da sociedade israelita, e uma subordinação do conjunto das vidas sociais e individuais à paranóia anti-palestiniana. Árabes "do interior" - cidadãos de Israel, ou do exterior (territórios ocupados e/ou anexados), dos países limítrofes, Israel vive no estado de espírito e na realidade do encurralamento. Este tem sido o principal argumento dos extremistas judeus: é matar ou morrer, o estado de guerra é permanente.
Voltemos a Gaza, onde mais dum milhão e meio de habitantes sobrevive em condições terríveis e à estratégia do Hamas. Essa organização sabe muito bem que por cada foguete disparado Israel dará uma resposta desproporcionada: por cada disparo, dezenas de mortos e feridos. Será o Hamas louco? Depois de mais de 2000 mortos, ainda não compreendeu que Israel pode esmagar o enclave? Que os bombardeamentos de cidades e zonas habitacionais, e até escolas da ONU, que poderiam desencadear uma reação maciça da opinião mundial, apenas têm provocado reacções limitadas? O Hamas, em meu entender, sabe tudo isso. Se ele prossegue os tiros, mesmo sem qualquer resultado militar ou outro, sabendo que Israel vai esmagar mais bairros e casa sob as bombas, é porque para ele o limite se encontra do lado israelita e não do lado palestiniano. Esse limite é o extermínio total dos gazauis. Ora, se a "opinião mundial" reage pouco a dois mil mortos, há um limite que, ao aproximar-se, fará bascular a situação de modo radical. Ao atirar cada novo foguetão, ao recusar a trégua, o Hamas encurrala Israel na sua própria táctica: resposta desproporcionada, automática, sempre idêntica. Bombardear mais, destruir mais casas, mais infraestruturas, matar mais combatentes e mais civis: impor um "preço" muito alto ao inimigo. A hipótese que está por trás desta táctica é a de que a população civil possa acabar por atribuir ao Hamas e à sua "intransigência" os terríveis custos humanos que suporta, desligando-se dele e, quiçá, opondo-se a ele.  É difícil ignorar (e supor que os militares israelitas ignoram) que o que se passa em Gaza é precisamente o contrário. Perante o excesso de violência, a desproporção das "retaliações", a crueldade de que dão provas os militares quando invadem, humilham, matam, os habitantes de Gaza acabam (mesmo os que não eram partidários do Hamas) por reconhecer que é essa organização que representa o seu desespero, a sua última dignidade, a resistência. Já Lawrence da Arábia dizia que era um erro tremendo subestimar os combatentes árabes (indisciplinados, imprevisíveis) quando eles estão nas situações de combate por vezes sem saída: são combatentes terríveis.
Ao adoptar uma estratégia que consiste em afirmar (e demonstrar) que estão prontos a morrer, todos, se necessário, que é a estratégia que T. Schelling designava como a "do louco" (sou louco, estou pronto a tudo, não calculo perdas, nem o que quer que seja), o Hamas encurrala Israel na sua própria lógica: retaliar sem fim e sempre mais violentamente. O Hamas sabe, como nós sabemos, que o extermínio (que pode não estar tão longe) da população inteira de Gaza é inaceitável para o mundo; o que Israel não quer saber, é que esse genocídio é "aceitável" para os Gazauis. Entendamos-nos: que eles estão prontos a morrer, TODOS, se for preciso.
Então e qual é a visão estratégica, política, dos dirigentes do estado de Israel? A resposta é: não têm. A táctica (retaliar, esmagar) tem lugar de estratégia. Como vêem eles, no futuro, uma situação política mais estável, mais aceitável para Israel, em relação aos Gazauis? Não vêem. Com aquela população nunca mais haverá nada a fazer.
As potências ocidentais compreenderam o que Israel não quer ver e insistem fortemente em conseguir e preservar as "tréguas", de modo a parar a escalada ISRAELITA já que o Hamas dificilmente pode fazer mais do que faz: uns foguetões artesanais aqui ou ali. Mas o Hamas entendeu (e é um entendimento aterrador para quem observa de fora), que as "tréguas" apenas jogam a favor de Israel; por isso as rompem e romperão qualquer que seja o custo, de modo a não deixar sair Israel da sua lógica binária: foguetão --> raids aéreos, invasão, etc. Israel, na verdade, ficou sem alternativas. Não aceita negociar o que para o inimigo é essencial - vital. Não tem solução política a propor. 60% dos Israelitas judeus são contra a solução dos "dois estados" e 70% seriam favoráveis à deportação massiva de todos os Árabes do "grande Israel" (incluindo Gaza, Cisjordânia, Golan e dos próprios concidadãos árabes israelitas).
Resta como único horizonte, meramente táctico, o esmagamento, esperando que a população se revolte... contra o Hamas. Mas este adquire uma legitimidade acrescida a cada raide, a cada morto e a cada ferido. Israel "promete" vingança terrível DA criança israelita morta nestes dias. O desprezo pelo inimigo, que espera pelo momento de vingar as centenas de crianças mortas pelos bombardeamentos israelitas, FECHA o Estado de Israel numa fortaleza mental que a táctica do Hamas tende a reforçar cada dia. A evidência impõe-se: Israel NÃO PODE deixar de ripostar de maneira cada vez mais forte a cada... morteiro do Hamas. O Hamas IMPÕE a escalada a Israel, cuja população exige que o "castigo" seja sempre mais mortífero. Mas a realidade interna do ódio aos "Árabes" (que tantos testemunhos credíveis sublinham), que empurra o governo militar israelita para acções cada vez mais extremas ("Chumbo Endurecido" parecia ser um limite: não era; o que está a ocorrer é pior), essa realidade interna entala o Estado de Israel na NECESSIDADE da escalada sem fim, entre o desejo de extermínio, a irredutibilidade da resistência palestiniana e do Hamas e a IMPOSSIBILIDADE (moral, política) da única "solução final" que se perfila, a destruição do milhão e meio de Gazauís.   
Os Judeus de Israel e de outros sítios, fariam bem em recordar Massada: cercados no cimo dum estreito planalto no ano 70 d.C., os Judeus preferiram morrer em vez de se renderem aos Romanos. Lembrar Massada traz uma dupla lição: uma colectividade perseguida pode no seu todo suicidar-se, preferindo a morte à indignidade - assim Gaza. Mas a outra escala, é o Estado de Israel que está cercado, e constrói uma fortaleza inexpugnável. contra tudo e contra todos: táctica eficaz, estratégia suicidária.
Cercado pela sua superioridade militar, pelas fronteiras invisíveis do desprezo pelos  vizinhos Árabes, Israel esqueceu-se de Massada. 
JRdS
Évora, 23 de Agosto de 2014. (por email)

quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Évora: burla de falsa associação de médicos denunciada pela DECO



A delegação de Évora da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) alertou hoje para uma alegada burla cometida por uma empresa que se faz passar por uma associação de médicos para fazer vendas.
Em declarações à agência Lusa, a jurista da DECO Isabel Curvo disse que a delegação regional de Évora da associação "tem recebido, nos últimos dias, alguns pedidos de informação" por parte de consumidores sobre a Associação de Médicos Voluntários.
A responsável referiu que os queixosos contaram terem recebido "telefonemas a convidá-los para um rastreio de saúde", destinado a pessoas com mais de 50 anos e que seria feito pela suposta associação de médicos numa unidade hoteleira.
"Quando lá chegaram não se tratava propriamente de um rastreio, mas da venda de bens de consumo", como é o caso de um "aparelho milagroso", a que chamaram de "consola iónica", adiantou.
Isabel Curvo indicou que a empresa vende os aparelhos por 2.990 euros. Se for necessário um crédito para a sua compra, o preço chega aos 3.780 euros.
Os funcionários da empresa obtêm dos consumidores o seu historial clínico e tentam vender-lhes os aparelhos, prometendo a cura das suas doenças, contou a jurista da DECO.
"Não se trata de uma associação, mas de uma empresa de venda de bens" e este caso configura "uma burla e uma prática comercial desleal, enganosa e agressiva", alertou.
A DECO e alguns queixosos já denunciaram o caso à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE).
Isabel Curvo assinalou que os consumidores têm um prazo de 14 dias após a compra para rescindirem o contrato sem necessitarem de invocar qualquer problema no aparelho.
No caso de existir um contrato de crédito para a aquisição do produto, também esse contrato pode ser cancelado.
A jurista da DECO escusou-se, para já, a revelar o nome da empresa por a associação estar à espera de uma resposta a um pedido de esclarecimentos. (LUSA)

terça-feira, 19 de Agosto de 2014

Alguns pequenos ajustes na história do sr. Soisa


Bom dia
Venho escrever-vos para fazer uns "alguns pequenos ajustes da história" publicada por Vós no endereço electrónico http://www.cincotons.com/, com o título O Ministro, Salazar e o poeta e escrito pelo Senhor José Frota a 17 de Agosto de 2014.
Faço-o, porque não será a primeira vez que leio "esta história" publicada ou contada de um modo incorrecto e também, porque sou neto do "poeta".
Começaria por referir que o poeta em questão chamava-se João Augusto de Vasconcellos e Sá e não João António, como referem no texto.
O senhor Leovigildo Queimado Franco de Sousa, casou com uma das irmâs da mulher do poeta e não com uma prima, como também referem, e que os coloca como cunhados.
O dito jantar, foi em homenagem ao Senhor Leovigildo Queimado Franco de Sousa e sabendo dos dotes e bom humor que gozava o cunhado e "poeta", encomendaram-lhos para que os apresentasse na referida refeição.
O qual, o poeta, o terá feito para deleite de quase todos, excepto o "Sr. Soisa", que ao que parece não gozava dos mesmos predicados (sentido de humor).
Esta proximidade familiar terá sido a razão pela qual não houve qualquer represália, penso...!
Poderão ter sucedido algumas coincidências em relação à deposição do dito senhor e este poema, o qual não deixa de ser uma visão inteligente e humorada da situação existente na época.
Posso dizer-lhes ainda que tenho uma cópia e rascunho destes versos pertencentes ao arquivo do meu avô.
Existem inclusive outros versos, escritos pelo poeta à sogra, que referem a má sorte que as suas filhas tiveram, em casar apenas com "gente pobre" (tendo em conta o estado em que viviam de grande riqueza), incluindo-o a ele mesmo (o poeta) e o "Sr. Soisa" (Leovigildo Queimado Franco de Sousa).
Agradeço a Vossa atenção e o facto de terem escrito acerca de uma pessoa que muito admiro, mas que infelizmente nunca tive a sorte de conhecer, prentendo apenas "alguns pequenos ajustes da história"
Com os melhores cumprimentos

Luís de Vasconcellos e Sá (por email)

domingo, 17 de Agosto de 2014

A DIREITA EBORENSE NO ESTADO NOVO: Pequenas contribuições para a sua história


 
O Ministro, Salazar e o poeta

José Frota*         

1.
Quando Salazar foi empossado pela primeira vez como chefe do  Governo não nomeou qualquer responsável para a Agricultura. A lavoura ficou englobada numa pasta conjunta com o comércio e a indústria chefiada pelo engenheiro Sebastião Garcia Ramires. No âmbito da  mesma  foi criada uma sub-secretaria de Estado  para tratar  dos problemas do mundo rural que veio a ser entregue ao eborense Leovigildo Queimado Franco de Sousa. A fórmula encontrada não surtiu, porém, os efeitos desejados e encontrou mesmo fortes reparos por banda dos lavradores alentejanos. O ditador decidiu então autonomizar o respectivo sector  a nível governativo transformando –o  em Ministério a 24 de Julho de 1933 e promovendo Leovigildo Franco de Sousa ao novo cargo.
À partida pareciam reunidas as condições para a pacificação  da contestação nas terras transtaganas.  Leovigildo pertencia ao grupo dos abastados terratenentes da região. Era filho de José Inocêncio de Sousa, grande proprietário oriundo da concelho de Redondo que ainda novo viera para Évora. Herdeiro de pingues rendimentos, fez-se accionista das principais instituições regionais de crédito. Alma generosa notabilizou-se como protector da  Casa Pia de Évora de que veio a ser,  primeiro, professor e depois director. Como era usual entre os opulentos do tempo, veio a consorciar-se com Maria Ana Braamcamp de Matos Fernandes, da famosa e riquíssima família que era dona de quase metade das propriedades agrícolas do distrito.
Ideologicamente Leovigildo era seguríssimo pois o pai que,  era monárquico e apoiara a ditadura sidonista assim como a eclosão do golpe do 28 de Maio chegando em ambos os períodos à vice-presidência da Câmara Municipal de Évora, o educara na fidelidade aos princípios mais caros de um poder autoritário e musculado sem concessões à vontade ou opinião populares. Depois de ter frequentado o Liceu Nacional de Évora, o jovem rumara a Lisboa para se licenciar como engenheiro agrónomo pelo Instituto Superior de Agronomia.
Pensava ficar por mais tempo na capital quando a morte do progenitor , aos 60 anos, lhe trocou as voltas, fazendo-o regressar a Évora para tomar contar dos negócios da família. Ao tomar conhecimento do seu desejo de regressar a Lisboa, Oliveira Salazar ofereceu-lhe um lugar no Governo que de sub-secretário se converteu depois em Ministro, conforme acima se assinalou. Leovogildo, todavia, estava longe de alinhar com as teses da maioria dos seus pares que vendo as suas produções cerealíferas a declinar, exigiam o apoio e a contribuição governamental (concessão de crédito rural) para a compra de adubos químicos e outros fertilizantes similares que reclamavam por sua vez a substituição de novos equipamentos adequados às novas práticas.
O Ministro não alinhava pela introdução de novos métodos na exploração e revitalização das terras e continuava a advogar a manutenção do método tradicional, mesmo ancestral,.efectuado  a partir dos excrementos animais (boi, cavalo, principalmente), vulgarmente conhecido como estrume, censurando os lavradores por estes desdenharem dos processos naturais, descurarem a limpeza das terras, aplicarem de forma deficiente o afolhamento trienal e não terem cuidado com a selecção das sementes.
2.
A contestação ao Ministro foi-se avolumando gradualmente até rebentar  de forma insólita numa festa de Carnaval de 1934, realizada no distinto e selecto Círculo Eborense. Numa sala repleta de convidados, entre os quais o próprio Leovigildo Franco de Sousa, o poeta João Vasconcelos e Sá, interpretando as queixas dos lavradores, apresentou  ao melhor estilo pícaro  vicentino e de forma bem jocosa (é Carnaval, ninguém leva a mal como se costumava dizer), a seguinte exposição, dirigida ao «Excelentíssimo  Senhor Ministro da Agricultura:

                                    «Porque julgamos digna de registo
                                     a nossa exposição, sr. Ministro
                                     erguemos até vós humildemente
                                     em toada uníssona e plangente
                                     em que evitámos o menor deslize
                                     e em que damos conta da nossa crise.

                                     Senhor, em vão esta província inteira
                                     desmoita, lavra, atalha a sementeira,
                                     suando até à fralda da camisa.
                                     mas falta-nos a matéria orgânica precisa
                                     a terra que é delgada e sempre fraca
                                     a matéria em questão é caca.

                                     Precisámos de merda, senhor Soisa,
                                     Nunca precisámos de outra coisa.

                                     Se os membros desse ilustre Ministério.
                                     querem tomar o nosso caso bem a sério.
                                     se é nobre o sentimento que os anima,
                                     mandem cagar-nos toda  gente em cima
                                     dos maninhos torrões de cada herdade
                                     e mijem-nos em cima também, por caridade....

                                     O senhor Oliveira Salazar quando
                                     venha até nós, solícito, calado,
                                     busque um terreno  que estiver lavrado,
                                     deite as calças abaixo, com sossego,
                                     ajeite o cu bem apertado ao rego
                                     e, como Presidente do Conselho,
                                     queira exprimir-se até ficar vermelho...

                                     A Nação confiou-lhe os seus destinos....
                                     então comprima, aperte os intestinos,
                                     e ai, se lhe escapar um traque, não se importe
                                     quem sabe se o cheirá-lo não lhe dará sorte....

                                      Quantos porão as suas esperanças
                                      num traque do Ministro faz Finanças
                                      e também quem vive, aflito e sem recursos
                                      já não distingue os truques dos discursos...

                                     Nem precisa falar, tenha a certeza,
                                     que a nossa maior fonte de riqueza,
                                     desde as grandes herdades às courelas,
                                     provém da merda que juntarmos nelas.

                                     Precisamos de merda, senhor Soisa.
                                     nunca precisámos de outra coisa,
                                     adubos de potassa ,cal e azote,
                                     tragam-nos merda pura dos bispote
                                      e de todos os penicos portugueses
                                    durante pelo menos uns seis meses.

                                    Sobre o montado, sobre a terra campa,
                                    eles nos despejem trampa
                                    Ah, terras  alentejanas ,terras nuas,
                                    desespero de arados e charruas.
                                    quem as compra ou arrenda oo quem as herda,
                                    sente a paixão nostálgica da merda...

                                    Precisamos de muita merda, sr. Soisa,
                                    nunca precisámos de outra coisa
                                    ah, merda boa, merda fina e da boa,
                                    das inúteis retrtes de Lisboa...

                                    Como é triste saber que todos vós,
                                    andais cagando sem pensar em nós,
                                    se querem fomentar a agricultura
                                    mandem gente com muita soltura

                                    Nós daremos o trigo em larga escala,
                                    pois até nos faz conta a merda rala...
                                    ah, venham todas as merdas à vontade
                                    não faremos questão de qualidade,
                                    formas normais ou formas esquisitas.

                                    E desde o cagalhão às caganitas,
                                    desde a pequena poia à grande bosta,
                                    tudo o que vier a gente gosta,
                                    precisamos de merda, Sr.Soisa,
                                    e nunca precisámos de outra coisa.

Quando terminou já toda a assistência ria, há muito,  rebolada de gozo. Uma prolongada salva de palma seguida de um molho de felicitações envolveu o poeta. O ministro que estoicamente ouviu até ao fim,  esgueirou-se então escarlate de vergonha, raiva  e humilhação e abandonou a sala e a festa. Entretanto o episódio chegou ao conhecimento de Salazar que até lhe terá achado alguma graça e decidiu que era inevitável a substituição  de Leovigildo Franco de Sousa. Não o fez porém de imediato . Deixou passar alguns meses e a 23 de Outubro exonerou-o do cargo. No ano seguinte, em 1935 nomeou-o porém como membro do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos onde se manteve até 1962.
3.
Perguntar-se-á, com toda a razão quem era o poeta João Vasconcelos e Sá e de que privilégios dispunha, para ousar afrontar desta forma directa e corrosiva e vexar, ainda que em lugar privado, o ministro e o próprio Oliveira Salazar sem que aliás tivesse vindo a ser chamado à responsabilidade e punido em conformidade Isto num tempo em que o Estado Novo perseguia sem dó nem piedade, os adversários do regime autoritário instituído, assim como os seus dirigentes, representantes ou mandatários?
Ora bem, João António de Vasconcelos e Sá não era de berço alentejano. Sendo filho de pais abastados, nascera no Funchal a 9-7-1880 e viera muito cedo para o Continente para ser educado no Colégio Militar, estando destinado à carreira militar .Desde miúdo que revelara um invulgar talento musical a que juntava assinalável veia poética de cariz popular. Fez-se  então compositor musical do género ligeiro, começando a ser procurado para criar quadros revisteiros pois agudeza  crítica e espírito de humor eram predicados de que igualmente era possuidor.
Ao início do novo século, apenas com 20 anos. ganhou notoriedade nacional ao compor a célebre canção, ainda hoje bem conhecida, “ Margarida vai à fonte” que obteve extraordinária popularidade em todo o país. Era então um jovem alegre, bem disposto e de uma simplicidade desconcertante  cujo comportamento estava longe do estilo austero e comedido de um futuro oficial do Exército que se veio a tornar em 1908.
Tudo vai mudar na vida de João Vasconcelos e Sá com a implantação da República, que não aceita de forma alguma. Alinhará nas duas primeiras tentativas contra-revolucionárias monárquicas lideradas pelo General Paiva Couceiro que serão repelidas sendo enviado como punição para Estremoz donde transitará para Évora. É aqui que vem a conhecer em 1912 Maria Clara de Mattos Fernandes, prima direita da mulher de Leovigildo e com a qual virá a casar em 1918, já em plano consulado sidonista. Entretanto aderira ao Integralismo Lusitano e colaborava assiduamente na imprensa monárquica, assinando pequenas crónicas mordazes sob o pseudónimo de Dom Tancredo 
Durante esse período conheceu e estreitou relações com os grandes monárqucos alentejanos como António Sardinha, Alberto Monsaraz, Pequito Rebelo Com eles esteve após o assassinato de Sidónio Pais e no período confuso que se seguiu, quando os monárquicos tentaram impedir o regresso dos republicanos ao poder criando a chamada “Monarquia do Norte”, movimento novamente liderado por Paiva Couceiro. No meio da instabilidade geral e no meio da confusão e divisão que reinava entre os republicanos, a insurreição conseguiu subsistir durante mais de um mês. Mas nunca  conseguiu implantar-se no Sul, onde o apoio à Monarquia tinha fraca expressão.
Apesar disso em Lisboa ainda o tentaram. Um grupo de setenta civis e militares subiram ao Forte de Monsanto e hastearam a bandeira da Monarquia encetando contactos com o norte. Perante isto os republicanos conseguiram encontraram uma base mínima de entendimento e decidiram tomar de novo as rédeas do poder. Uma força do Exército bem armada atacou Monsanto e retomou o forte. Os monárquicos, que o eram em escasso número ,foram praticamente dizimados. Pequito Rebelo e Alberto Monsaraz, gravemente feridos , preferiram a capitulação à fuga.
Entre os revoltosos encontrava-se o inevitável João Vasconcelos e Sá, já com a patente de major de Cavalaria, que foi feito prisioneiro. Como outros militares envolvidos na insurreição seria expulso do exército e deportado para a Ilha da Madeira. Por lá permanecerá até ao golpe do 28 de Maio de 1926 na sequência do qual será readmitido no exército e pouco depois reformado.
Liberto das obrigações castrenses regressa em força à actividade teatral revisteira somando êxitos nos teatros da capital, nomeadamente no Avenida e no Trindade. E em Évora assinará juntamente com o capitão Raul Cordeiro Ramos a sensacional revista “As Palhas e as Moínhas” que conhecerá um estrondoso sucesso no Teatro Garcia de Resende” onde esteve em cartaz durante meses consecutivos e foi depois apresentada noutras terras alentejanas e chegou até Lisboa onde de novo alcançou rotundo sucesso.
4.
Porque fora apresentada em privado, abrangia pessoas de uma mesma e poderosa  família afecta ao regime e as queixas eram de alguma pertinência foi decidido esquecer o conteúdo da jocosa diatribe com o assentimento um pouco forçado do próprio ministro. Vasconcelos e Sá fez o possível por recolher as diversas cópias que distribuíra, outras que lhe haviam sido solicitado e das quais se haviam feito muitas outras, algumas das quais, poucas, tinham ido parar às mãos da oposição republicana. Esta porém não lhe conferiu suma importância por considerar que se tratava de um mero arrufo de terratenentes no interior do regime e a resolução dos problemas da agricultura passava por outros caminhos, perdendo assim a oportunidade de explorar em seu favor.
Tentou-se por todas as maneiras fazer desaparecer da memória das pessoas este episódio que ensombrou a história da direita eborense e teve repercussões sérias entre muitos outros lavradores que concordando com o conteúdo discordaram frontalmente da “boçalidade e da ordinarice “ da linguagem utilizada. Inclusive entre a família Mattos Fernandes o ambiente não mais foi o mesmo. Como se costuma dizer houve quem tivesse perdoado mas não esquecido. Por fim o rolar das décadas e a morte dos que o haviam vivido (Vasconcelos e Sá morreu em 1944) ou presenciado, fê-lo  desaparecer praticamente da memória citadina. 
Curiosamente, alguém, quiçá temeroso de que o incidente não viesse a ter registo histórico nos anais da cidade, fê-lo ressuscitar, por volta de 2007, através do envio de algumas cópias, a algumas pessoas que escreviam sobre a história recente da cidade e se interessavam por todos os assuntos que a ela diziam. Eu, que nunca tinha ouvido falar do episódio, fui um dos  brindados, de forma anónima, com o envio de uma dessas cópias, a seco, sem que procedesse   ao seu enquadramento
E a partir daí procurei indagar da veracidade e da consistência do mesmo. Mas não foi fácil. Reminiscências esparsas  foi o melhor que encontrei. Mas consegui vir a saber que o fadista António Pinto Basto era neto de Vasconcelos e Sá e gosta muito de evocar tal descendência incluindo no seu repertório fados-cantigas da sua autoria como “Margarida vai à fonte”  ou “Explicador” («Terras de grandes barrigas/onde só há gente gorda/ às sopas chamam-lhe açordas, à açorda chamam-lhe migas/...) .
E em sessões mais intimistas e familiares o fadista não se exime a cantar, normalmente  de cor e a pedido, a pilhéria do seu avó para gozo e risada geral. Ele mesmo o confessou nestes últimos tempos no mural dos Antigos Alunos do Liceu Nacional de Évora. Por outro lado tive conhecimento que o prof, Galopim de Carvalho no final de 2007 tinha enviado igualmente para o programa humorístico da RTP-2 “ Sempre em Pé” uma cópia da diatribe que foi declamada pelo actor Víctor de Sá . A proverbial escassa audiência  do segundo canal reduziu-lhe o impacto. Foram muito raras as pessoas que a escutaram. Aqui fica porém o seu registo para conhecimento daqueles que se interessam por Évora  e pela sua história durante o século passado.

*Jornalista e eborógrafo.(indivíduo que escreve sobre Évora)

Fontes impressas e bibliografia

Fontes impressas

- Cópia dactilografada do original do poema transcrito .
-Relação dos 500 militares implicados na insurreição do Forte de Monsanto e posteriormente julgados em Tribunal Militar existente na Biblioteca Nacional /Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
- Revista do 1º. Centenário do Liceu Nacional de Évora, 1941.

Bibliografia

BAIÔA; Manuel, “Elites Políticas em Évora- Da I República à Ditadura Militar (1925-1926), Lisboa, Edições Cosmos, 2000.
FRANCO DE SOUSA, Leovigildo, “Subsídios para o Estudo da Cultura do Trigo no Distrito de Évora- Relatório Final de Curso, 1924, Biblioteca Digital do Alentejo.
MARQUES, A.H. de Oliveira Marques, “A Primeira República- alguns aspectos estruturais”,Livros Horizonte, 1975.
MONTE. Gil do, “ Dicionário Histórico e Biográfico de Artistas Amadores e Técnicos Eborenses”, II Volume, Évora, Gráfica Eborense, 1973.
MONTE, Gil do, “ Dicionário Histórico e Biográfico de Artistas Amadores e Técnicos Radicados em Évora, II Volume, Évora, Gráfica Eborense, 1976.
QUINTAS, José Manuel Quintas, “Filhos de Ramires”- As  origens do Integralismo Lusitano”,Lisboa, Editorial Nona Ática, 2004.
QUINTAS, “José Manuel Quintas”, “Os combates pela bandeira azul”. Revista “História”,nº. 10, II Série 1999.
ROSAS, Fernando “Lisboa Revolucionária”, Lisboa, Editora Tinta da China. 2010.
SAMEIRO, António Pedro, “Subsídios para uma História Genealógica de algumas famílias do Alentejo”, Boletim “A Cidade de Évora”, Évora, Gráfica Eborense. 1970

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

“VOX POP”: O SENSOR E O CENSOR


Não é nada comigo. Faço-o por simpatia para com quem entende não dever fazê-lo e motivado por um sentido básico de cumplicidade solidária e um misto de desapontamento e mágoa.

Explico.

Em boa hora, está na rua o «Cenas ao Sul», programa de animação da cidade que promete – e tem cumprido – contribuir para o resgate de Évora ao abandono cultural a que a anterior gestão autárquica a tinha votado, envolvendo nesse desamparo os agentes culturais do concelho.
Não sei como outros a viram mas eu senti esta iniciativa como o indício de uma vontade de reconciliar a cidade com os criadores de cultura e entretenimento, pondo fim ao incompreensível (mas imerecido) castigo infligido aos eborenses.
Como tal, a decisão de fazer o «Cenas ao Sul», contra os ventos da inércia e as marés da adversidade, configura um acto de liberdade em que se adivinha o propósito inclusivo e agregador, o esforço de apaziguamento e harmonização de entidades desavindas, feito com a prudência adequada ao intento de sarar chagas ainda vivas.
Postos os ovos, a galinha canta. E o «Cenas ao Sul» é amplificado – legitimamente – com a publicação periódica de uma brochura que vai dando conta do já feito e do ainda a fazer, enquanto ausculta e dá voz ao testemunho popular, uma espécie de sensor do impacto da iniciativa, sempre tão útil a quem promove, com atenção e respeito pelos destinatários.
A folha inclui, assim, uma secção denominada «Vox Pop» onde são vertidas as opiniões sobre os eventos incluídos no programa, recolhidas por entrevista a pessoas seleccionadas de entre os seus frequentadores habituais.
O segundo número da dita brochura, agora dado à estampa, incluiria (entre outras) a opinião – muito favorável e lisonjeira para com o programa, sublinhe-se – de Maria Helena Figueiredo, cidadã de Évora e ex-candidata autárquica, pelo Bloco de Esquerda, ao município de Évora, de cuja inclusão havia notícia por contactos ocorridos entre os editores do caderno e a própria, tendo a impressão do seu testemunho chegado à fase final do processo de maquetagem mas, assombrosamente, erradicado da publicação. “In extremis”.
Pergunto: é lícito questionar a oportunidade (política, pois claro) para dar visibilidade à opinião (favorável!) de uma cidadã, em razão do seu público estatuto de opositora política? Nesta sede? Neste contexto? Neste veículo? Qual é a natureza do código deontológico aqui praticado? Política? Jornalística? Nenhuma? Que finalidade persegue esta lógica sectária, tacticamente mais interessada na qualidade de quem opina do que na substância da opinião? Ademais, misturando grosseiramente o que não é miscível.
Cabe aqui reafirmar o carácter autónomo deste depoimento que, apesar de feito com informação privilegiada, me responsabiliza exclusivamente e à minha condição de espectador atento e interessado, não sendo legítimo assacar à visada qualquer comprometimento com uma situação a que a própria, aliás, deu elegantemente o seu acordo, após ser confrontada com o insólito incómodo editorial. A propósito de incómodo, é justo exonerar os obreiros da edição, cujo papel não invejo.
No rescaldo deste infeliz episódio, com mera relevância simbólica, proponho uma reflexão sobre o eterno regresso a estes velhos métodos e práticas, ciclicamente e com redobrado vigor, quando menos se espera e mais razões há a temer do efeito devastador que têm sobre os processos unitários e de convergência.
Acabados de sair de um ambiente de grande hostilidade local para com a cultura e os agentes culturais, num momento em que a prioridade deveria ser a reconciliação de contendores e a minimização de divergências, parece perigosamente negligente o cuidado com que se gere este frágil ressurgimento. Ou não será assim?


* José Elizeu Pinto, cidadão eborense. (aqui)