sábado, 25 de fevereiro de 2017

SOS Racismo denuncia xenofobia e ameaças de morte contra ciganos em Sto. Aleixo da Restauração (Moura)


“Ku Klux Klan” regressa a Stº Aleixo da Restauração (Moura)


Ameaças de morte pintadas por toda a povoação (nos últimos dias) bombas lançadas para os quintais das casas da comunidade cigana, dando credibilidade às próprias ameaças (na noite passada, 23-2-2017).

Caixões colocados à porta, cavalo envenenado, Igreja incendiada, casas queimadas, carros a arder (de setembro a Novembro/2016).

Perante a inoperância das autoridades (quer policiais, quer políticas), a comunidade cigana de Stº Aleixo da Restauração, desde o fim do Verão, está a ser vítimas de situações que mais lembram a atuação do Ku Klux Klan de meados do séc. passado.
Algumas destas situações já vieram a lume (Jornal Tornado e Público, no final do ano). Inclusive uma cadeia de televisão esteve a acompanhar uma visita do SOS Racismo que a chamou para tentar alertar a situação (acabou por nada fazer). Alguns responsáveis políticos já por lá passaram (Alto Comissário) sem se dignar a falar com as vítimas destes atos de pura barbárie cujo objetivo é causar o medo, tentar que abandonem a aldeia, ou mesmo expulsar a comunidade cigana da zona.
Estas situações agravadas com a atuação intimidatória da GNR têm, de fato, levado a que algumas pessoas estejam a dormir fora da povoação, nomeadamente uma, que é invisual, pois uma das casas incendiadas foi a sua.
O SOS Racismo, que já tinha tomado conhecimento de algumas destas situações, ficou à espera que as autoridades atuassem, tendo em conta que eram do conhecimento das instituições. É verdade que a sanha incendiária racista e xenófoba parou com as deslocações, com as visitas que o SOS Racismo foi fazendo.






Mas a verdade é que, neste final de fevereiro, a cobardia e a violência racista voltou ainda com mais ódio e ameaças xenófobas de uma gravidade que se podem constatar pelas fotografias que acompanham esta denúncia.
As ameaças que aparecem escritas um pouco por toda a povoação, cemitério incluído, são reforçadas pelo rebentamento de bombas nos quintais dos elementos da comunidade cigana, talvez encorajados pela ausência de medidas das instituições, pela inoperância das autoridades policiais, pela impunidade das práticas racistas e xenófobas.
E isto, apesar de o presidente da Câmara ter afirmado que o assunto se estava a resolver com o reforço do policiamento…
A comunidade cigana de Stº Aleixo da Restauração recorreu uma vez mais ao SOS Racismo para que consiga chamar a atenção das autoridades tendo em conta a sua inércia criminosa e a gravidade das ameaças bem espelhadas nas paredes de Stº Aleixo.
As autoridades não podem continuar a olhar para o lado sem fazer nada, contribuindo para agravar o risco em que a comunidade cigana se encontra. Basta ver as fotografias para perceber o terror que se quer instalar nesta comunidade.
E criminosos não são apenas aqueles que estão tranquilamente a praticar estes atos hediondos.
Compete ao estado de direito, defender que todas as pessoas se sintam seguras na sua terra, nas suas casas. A população cigana está em risco, a viver momentos de terror.
A inoperância não pode persistir.
É altura de o governo, o Alto Comissário tomar medidas para que nada de grave venha a acontecer.
É altura destes crimes serem punidos

Pelo SOS Racismo
Piménio Teles / José Falcão / Mamadou Ba
24/2/2017

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Capa do Diário do Alentejo desta semana


O QUE É IMPORTANTE

No passado domingo fui surpreendido pela notícia que me recusei a esperar. Tinha morrido o Joaquim Soares, o homem que teimou em trabalhar o cante em Évora durante mais de três décadas.
Tentei escrever uma pequena nota na minha página de facebook e não fui capaz de dizer nada. Que poderia eu dizer, que outros já não tivessem dito, sobre o operário da cultura, sobre o mestre que dirigiu os Cantares de Évora, sobre o cidadão que foi presidente de junta e vereador, sobre o teimoso defensor da cultura popular, sobre o homem que, apesar de recusar mexer na tradição, arriscou cruzar o cante com a música dita erudita ou com outras formas de música popular, em trabalhos com a Ronda dos Quatro Caminhos, ou com Amílcar Vasques-Dias e Pedro Calado.
Tendo eu memória de tudo isso, reconhecendo o seu papel em tudo isso, percebendo que a sua ausência se reflectirá em tudo o que ficou por fazer, o que mais falta me fica a fazer é a existência de um homem bom, num mundo onde escasseiam cada vez mais as pessoas com essa qualidade, que leva à acção sem construções de reservas mentais, sem desconfianças de tudo e de todos, sem o mesquinho interesse no ganho pessoal, ou da inveja que destrói por dentro gente aparentemente decente.
Quando, durante as cerimónias fúnebres me pediram para dizer algo sobre o homem que ali jazia, o que estava presente na minha busca de palavras foi o percurso que fizemos juntos, durante quatro anos, como vereadores sem pelouro na Câmara Municipal e como em todos os momentos, em particular os mais difíceis, a lealdade do Joaquim Soares esteve presente.
Perdemos todos um mestre do cante, eu sinto que perdi um dos raros (muito raros) amigos cuja lealdade era inquestionável.
Com ele aprendi que uma simples moda pode ser um hino e que pode ficar debaixo da pele de tal forma que é inevitável chorar sempre que, depois de um petisco, os Cantares de Évora se juntavam naquele canto atrás do balcão e a voz clara do Soares dizia, com a força que só ele sabia emprestar a uma moda, “O Sol é que alegra o dia, Pela manhã quando nasce. Ai de nós o que seria, Se o Sol um dia faltasse!”
Até para a semana

Eduardo Luciano (crónica na radio diana)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Zeca Afonso (2 de Agosto de 1929 — 23 de Fevereiro de 1987)



Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

ONDE NOS LEVA ESTE CAMINHO?

Vivemos tempos demasiados confusos e de difícil compreensão. A eleição do atual presidente dos Estados Unidos trouxe ao debate público matérias que há uns anos atrás eram impensáveis de sucederem. Refiro-me concretamente ao que é dito por alguma comunicação social a despeito da competência e da sanidade do Presidente Trump. Não sei se é verdade o que se publica, porque desconheço as razões dessas afirmações.
Com efeito, a ser verdade que o Presidente da maior potência mundial é um impreparado e “pouco normal”, para não usar alguns adjetivos utilizados pela comunicação social, talvez fosse de colocar uma pergunta que para mim é bastante óbvia: como é que chegou ao mais alto cargo de uma nação um individuo que não tem qualidades para o exercer, se o mesmo fora sujeito a um sufrágio universal e direto?
Partindo da premissa de que é verdade o que dizem os detratores do Presidente Trump, talvez possamos concluir que a esmagadora maioria dos seus votantes ou estava mal informada, ou no mínimo, é totalmente irresponsável. Duvidando que estas duas condições sejam reais, só poderemos concluir que a maior parte dos americanos sente-se defraudada com a anterior presidência.
Porém, o presidente Obama tinha uma grande aceitação na media internacional e europeia. Todos se devem lembrar do slogan da campanha do presidente Obama; “YES WE CAN”, nós podemos. Fora criado um sentimento de esperança e de mudança muito grande no mundo ocidental. Só que povo americano na sua maioria não sentiu nas suas vidas a mudança proclamada e por isso votou no candidato republicano.
Ora, há um aspeto que eu tendo a concluir: A opinião publicada rara vezes vai ao encontro das expetativas da maioria e, numa democracia são as maiorias que determinam o modo como realizar o futuro, sem obviamente o desrespeito dos direitos das minorias. Porém, temo que os poderes que interferem na formação da opinião pública, não querem ou ainda não perceberam. E, quando muitos começam a estar insatisfeitos, normalmente, e, aqui a história poderá ajudar-nos, sucedem inevitavelmente conflitos belicistas. Mais ou menos generalizados. É isto o que pretendem? Então continuem a caminhar no mesmo sentido.

José Policarpo (crónica na radio diana)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Na quinta e sexta-feira: José Afonso evocado em Évora nos 30 anos da sua morte



# 23 de Fevereiro, quinta-feira  - (no dia em que passam 30 anos da morte de José Afonso) Tertúlia sobre "Zeca Afonso e o canto de intervenção. Ontem e hoje", com os cantores A P Braga e Benjamim. Estará patente uma exposição alusiva a José Afonso da responsabilidade do fotógrafo eborense José Manuel Rodrigues. Na Sociedade Harmonia Eborense, às 22H,30.

# 24 de Fevereiro, sexta-feira  - Tertúlia sobre "O pensamento e os valores de José Afonso: a utopia, a liberdade, a cidadania", com a presença do prof. Silvério Rocha-Cunha, da Universidade de Évora. Actuação do grupo AJA Música. No Hall do Teatro Garcia de Resende, às 21H,30.
Aparece!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Assembleia Municipal de Évora aprova concursos para postos de trabalho camarários


A Assembleia Municipal de Évora, na sua sessão de 17 de Fevereiro, aprovou por unanimidade a abertura de procedimentos concursais destinados à criação de um conjunto de postos de trabalho, nomeadamente na carreira de assistente operacional, para assegurar o cumprimento de necessidades de prestação de serviço público em várias áreas municipais.
Trataram-se dos pontos para a constituição de relação jurídica de emprego público, por tempo indeterminado, para vários postos de trabalho, da carreira de assistente operacional; por tempo determinado, para 10 (dez) lugares de jardineiro; por tempo determinado, para 2 (dois) lugares de nadador-salvador; e por tempo determinado, para 30 (trinta) lugares de cantoneiro de limpeza.
A celebração de contratos interadministrativos com as Juntas/Uniões de Freguesias - ano de 2017; e de acordos de execução com as Juntas/Uniões de Freguesias - ano de 2017 mereceram aprovação unânime.
Um protocolo entre o Município de Évora e a EDP Distribuição - Alteração ao anexo I do contrato de concessão de distribuição de energia elétrica em baixa tensão mereceu também aprovação unânime. Esta alteração propiciará a instalação progressiva de equipamentos modernos nas redes de iluminação pública mais adequados às exigências da eficiência energética e da economia de custos, sem por em causa os níveis de iluminação aconselhados.
Foi aprovado por unanimidade, no âmbito do acordo de pagamento entre o Município de Évora e a Águas de Lisboa e Vale do Tejo, o pagamento de faturas em atraso, acumuladas à data de preparação do Plano de Saneamento Financeiro (por considerar que não se encontravam correctas) e acerca das quais, após negociação, foi possível chegar a acordo e assim chegar ao acerto do montante total em dívida. 
O ponto acerca do SITEE – Sistema Integrado de Transportes e Estacionamento de Évora, EM, Lda. - “em liquidação” – Relatório e Contas Finais - Encerramento da Liquidação foi aprovado por unanimidade.
O Presidente da Câmara Municipal deu conhecimento da atividade municipal nos meses de Novembro/Dezembro de 2016 e Janeiro de 2017. Entre os vários assuntos abordados, mereceu destaque a evocação feita relativamente ao recente falecimento do arquitecto Joaquim Tenreiro, justificando de resto que a Assembleia Municipal guardasse um minuto de silêncio pelo seu falecimento.
Informou ainda sobre a aprovação pela Associação Nacional de Municípios de parecer relativo à transferência de competências; a participação da Câmara em feira de aeronáutica francesa; a passagem da Volta ao Alentejo em Bicicleta por Évora ou a passagem do Museu de Évora a museu nacional, uma questão que a autarquia tem vindo a defender desde há muito tempo.
A intervenção de uma cidadã no período destinado ao público acerca da proposta sobre a proibição de circos com animais no concelho de Évora gerou um amplo debate entre os membros da Assembleia, tendo ficado acordado que cada grupo político deve indicar um membro à mesa da Assembleia para se constituir uma comissão que irá, junto com a Câmara, trabalhar no assunto.
Outros assuntos tratados
No período antes da Ordem do Dia foi aprovada uma resolução, uma recomendação e uma moção. A resolução sobre a candidatura Confluências para apoio à realização de um conjunto de eventos culturais em Évora foi lida por José Russo (CDU) e aprovada por unanimidade. Nela, a Assembleia aprovou uma resolução com o objectivo de fazer chegar à autoridade de gestão do Alentejo 2020 a sua manifesta incompreensão com esta decisão e apelar, junto desta entidade e de outros órgãos da administração do Estado, para que esta situação, profundamente injusta, possa ser, tão breve quanto possível, devidamente corrigida.
Mereceu aprovação unânime uma recomendação lida por Bruno Martins (BE) para que a Câmara Municipal de Évora “atribua a Medalha de Ouro da Cidade de Évora ao cidadão José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos”. A ideia -explica-se na recomendação - surgiu num espetáculo em 1984 no Rossio de S. Brás, mas como não foi concretizada, o Bloco de Esquerda veio propô-la agora “considerando que o trigésimo aniversário do desaparecimento físico do cantautor é um momento excelente para reparação deste lapso”.
Uma moção sobre transferência de competências, proposta pelo Grupo Municipal da CDU e apresentada por Duarte Guerreiro, foi aprovada por maioria, com a abstenção do PSD. Assim, a Assembleia Municipal deliberou “reafirmar a descentralização como condição essencial para o desenvolvimento local e regional; e reiterar a exigência de criação das regiões administrativas enquanto factor indispensável a um processo coerente de delimitação de responsabilidade entre os vários níveis de administração, a uma reforma democrática de administração, à defesa da autonomia dos municípios.
Exige igualmente a eliminação de todas as restrições à autonomia do poder local, em matéria financeira, orçamental, organizacional, material e humana; e rejeitar qualquer nova transferência de atribuições e competências sem a garantia comprovada da dotação das autarquias com os meios indispensáveis ao seu pleno exercício, presente e futuro”. (Nota de imprensa da CME)

ALTERNATIVA

Poderia voltar a falar de Trump e das eleições americanas para tratar a “alternativa” como um conceito que tantos procuram agora esvaziar do seu sentido próprio e dar-lhe um sentido que a inclui na postura da não-verdade, versão adocicada de mentira, outra palavra infelizmente já tão banalizada e gasta. Mas o que vou dizer aplica-se também, como uma luva, a situações de pré-eleições, e pode acontecer num concelho perto de si. Não é uma denúncia de situações largamente acompanhadas por gente “batida” nestes assuntos, longe de mim imiscuir-me em festas para as quais não fui convidada. E como todos sabemos, há ausências de que se faz parte previsivelmente desde o princípio em que as festas se organizam e que, inegavelmente de forma coerente, se mantêm até ao arrumar das cadeiras em cima das mesas. Não vale a pena recontar versões de uma história curta em que os intervenientes estejam por aí, e não tenham sido mortos e enterrados, nem que seja com uma “sentida homenagem” como soe dizer-se. E tudo sem tristezas, pois claro, porque como também diz o Povo deste país à beira-mar plantado: “há mais marés do que marinheiros”!
É tão somente minha intenção, aqui e agora, lançar, a quem queira ouvir-me, um alerta. É acima de tudo uma palavrinha que sendo breve tem muito a dizer, palavra da autora, para aqueles que, ainda sempre convencidos de que quem vive activamente no meio dos partidos políticos é “farinha do mesmo saco” (que só entendo e confirmo se a farinha forem os indivíduos da espécie humana, e o saco o caldo da cultura local em que estão metidos e de onde não querem sair). É um tentar fazê-los entender de que o todo pode ser melhor do que as partes, e que temos o direito de, consciente e criticamente, recusar o todo que começa a parecer-se demasiado com as partes com que menos nos identificamos e que não temos de “engolir” a qualquer preço. Falo evidentemente de preço como valor, ou melhor, valores pelos quais aceitamos conviver, discutir, trabalhar e produzir numa determinada equipa para um objectivo que até podem dizer que é comum mas que, nos casos para que alerto, são só individuais, próprios e, até admitindo que qualquer um de nós deva retirar de situações em que nos empenhamos vantagem, nem que seja no gosto e prazer na actividade em si-mesma, normalmente gente como esta usa para disfarçar vantagem de sacrifício.
Ora a palavra “alternativa”, mesmo quando usada na anglo-saxónica expressão TINA – there is no alternative – vem do latim alternativus, e significa, etimologicamente, “escolha entre duas opções”. Se, por um lado, a análise da palavra mostra que nela já existe um radical (alter) que, em latim, significa “outro”, podemos considerar que a expressão “outra alternativa” é uma redundância ou um pleonasmo. Não podemos, no entanto, esquecer que, quando se fala em alternativa, não se tem necessariamente uma dualidade, e se pode abrir um leque para uma multiplicidade delas. Ou seja, quando se fala em alternativas, pode não se estar em face de apenas duas, mas até mesmo de várias para escolher. É até, em democracia, sinal de vitalidade dos cidadãos na vida das instituições.
Já na tauromaquia, a alternativa é a profissionalização do praticante desta arte, o que me leva a perceber que há quem tenha como única opção de vida tomar a alternativa e tornar-se na única opção de alternativas com quem nunca disputou o lugar. Obviamente, por falta de comparência de outros ou de capacidade de evitar previamente a ascensão ao lugar de quem nunca percebeu, nem quis perceber de forma escorreita, da arte que se propõe a exercer. Felizmente, lá para outubro, poderemos exercer em liberdade a democracia, o que significa que há sempre a tal outra alternativa. 
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)

DESCENTRALIZAÇÃO?

É confrangedor ver vários elementos do Partido Socialista de Évora defender o projecto de lei de transferência de competências para as autarquias proposto pelo Governo. É confrangedor, mas ao mesmo tempo muito esclarecedor que o primeiro partido que já lançou oficialmente a sua candidatura autárquica em Évora nos diga ao que vem e que visão política tem sobre a descentralização, a autonomia das autarquias e a democracia no poder local.
Ficamos a saber que o Partido Socialista no país e em Évora considera positivo este tipo de descentralização. Mas que fique claro: este projecto de lei não contêm qualquer proposta de verdadeira descentralização. Representa, antes, uma verdadeira desresponsabilização do Estado, lançando um enorme perigo para a democracia, pois permite a centralização no presidente de câmara de todos os poderes, além de abrir espaço a futuras privatizações dentro do Estado Social.
Tomemos como exemplo o nosso Distrito. Dos catorze concelhos do Distrito de Évora nove têm menos de 10.000 habitantes. O que é expectável que aconteça quando se municipaliza a educação, a saúde, a cultura, a segurança social ou as infraestruturas? O que é expectável que aconteça em municípios tão pequenos quando o presidente da câmara tem influência na escolha dos directores, professores e funcionários da escola, dos trabalhadores do centro de saúde ou na forma como são distribuídos os apoios sociais? Estaremos a reforçar a democracia ou a centralizar poderes e a abrir portas ao clientelismo, ao medo e ao tráfico de influências?
E nestes Concelhos pequenos, com estruturas naturalmente pequenas, como conseguirão ser geridas tantas competências? Terão capacidade para continuar a fornecer respostas públicas ou o caminho fácil de entregar a gestão a empresas privadas será o adoptado?
É óbvio que o Partido Socialista abandonou a ideia da regionalização que representa a única forma de termos uma verdadeira descentralização democrática. Até da eleição directa das áreas metropolitanas e CCDR’s desistiram. Propor que sejam os presidentes de Câmara a eleger os quadros directivos destas estruturas não é reforçar a democracia, mas perpetuar as lógicas instaladas.
Devemos exigir descentralização acompanhada de mais democracia. O Partido Socialista já escolheu o seu lado, e isso diz muito da sua política autárquica.
Até para a semana!

Bruno Martins (crónica na radio diana)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morreu Joaquim Soares



Actualização: o corpo de Joaquim Soares estará na Igreja de São Tiago, em Évora, a partir das 15 horas e será cremado esta segunda feira, às 11 horas em Elvas.

Morreu hoje Joaquim Soares, o homem forte do Grupo "Cantares de Évora". Homem de cultura, intimamente ligado ao cante alentejano, era também um homem bom, amante do Alentejo e dos seus costumes e tradições. Presidiu à MODA, associação de cante alentejano, foi presidente da Junta de Freguesia da Sé (Évora) e, durante um mandato, vereador da CDU, então na oposição, na Câmara de Évora. Natural de Beja, embora a viver em Évora há várias décadas, Joaquim Soares tinha 72 anos e estava doente já há algum tempo.
À familia enlutada o "acincotons" apresenta os seus mais sinceros votos de pesar e a mais sentida homenagem..

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

DE BURACO EM BURACO

No domingo passado quando me deslocava de carro entre a rotunda que dá acesso à estrada de Redondo e a outra que vai no sentido da “rampa” que, permite o acesso ao seminário, na avenida da Universidade, deparei-me com um buraco na estrada, na faixa de rodagem da direita. Para além do perigo que, um buraco, com cerca de 1 metro de diâmetro representa para quem aí circula, é absolutamente incompreensível o mesmo não estar sinalizado.
As estradas municipais, como é o caso da Av. da Universidade, são da jurisdição camarária. Por isso, cabe à Câmara Municipal cuidar do estado de conservação de todas as estradas municipais. Infelizmente são inúmeras as estradas do concelho de Évora que necessitam de intervenção, ao nível da manutenção e da reparação. Por serem muitas as estradas nestas condições, permito-me das não enumerar.
Com efeito, poderá a Camara Municipal invocar que não tem verbas para acudir às necessidades de manutenção do traçado rodoviário municipal. Mas uma coisa é certa, não é preciso verbas adicionais para que o departamento que gere as estradas municipais, pelo menos, esteja informado, no dia-a-dia, das ocorrências verificadas nessa rede viária.
Na verdade, e, voltando ao buraco que referi no inicio desta crónica, de duas, uma: ou os funcionários do departamento de trânsito da Câmara Municipal não estavam informados e, deviam, ou, então, fizeram de conta que não sabiam. Eu não quero acreditar que seja verdadeira esta última premissa.
Ora, automobilistas, motociclista e ciclistas o que pretendem é que as estradas estejam em condições que permitam uma circulação segura, por isso, se a Câmara ainda não teve oportunidade de proceder à reparação do buraco em questão, pelo menos, o mesmo devia estar sinalizado. E, para isso, bastava darem indicações aos funcionários para o fazerem. Se o fizessem, tantos os habitantes, como todos aqueles que circulam, diariamente, nas estradas municipais do concelho de Évora, estou em crer que agradeceriam.

José Policarpo (crónica na radio diana)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEMOLIDORAS

Assistimos na semana passada a várias cenas de televisão com demolições de um bairro clandestino de barracas no concelho da Amadora. Houve o caos óbvio, houve os espectadores participantes, houve as vítimas resignadas, houve as vítimas a choramingar por causa de outros que um dia poderão ser eles próprios. Houve relatos na primeira pessoa, houve diz-que-disse. E houve um pequeno coro de deputados da Assembleia da República que foram carpir aos microfones e câmaras da televisão.
Não é minha intenção subestimar a pobreza que se espelha nestes exemplos de pessoas que continuam a viver em condições sub-humanas. Não é minha intenção afirmar que, por magia, se resolvem agora problemas de décadas sobre a habitação social. Não é minha intenção isolar este problema da habitação dos outros problemas a ela associados, como o desemprego, a desestruturação de redes familiares e sociais, os comportamentos de risco, o descuidar da saúde. Não é minha intenção dizer que não se deva dar a conhecer aos telespectadores as realidades duras em que vivem sectores da sociedade, reflectindo uma inesgotável fonte de miséria desde há séculos, e que parecem ainda mais chocantes quando o caminho do progresso social até tem levado a que muitos destes ciclos de segregação social se tenha quebrado. Estas vidas são elas mesmo demolidoras da imagem de uma sociedade tão evoluída em tantas outras áreas.
Falo de toda uma cultura, como modo de estar, pensar e agir, que não escolhe sectores da sociedade para um “deixa andar”. Com a quantidade de associações, ONG, instituições que reúnem enormes esforços solidários em todos os concelhos e muitas freguesias, falo de uma cultura que aceita a miséria como uma inevitabilidade, a que a vitimização, própria ou também ela à sua maneira solidária, nada ajuda e que parece não levar a recorrer ao que está disponível, numa inércia incompreensível e que nos desperta sempre a desconfiança da ilegalidade e do crime, tantas vezes injustamente.
Falo de uma forma de fazer comunicação social que não procura o suficiente para nos dar a nós espectadores a informação de que se dizem especialistas. Ao ver aquelas imagens perguntava-me quando teria sido decidida a demolição, com que medidas adicionais, para além da natural e louvável acção de erradicar estas barracas a que alguns continuam a chamar casas, qual teria sido a posição de todos os vereadores sobre este assunto, o que constaria dos relatórios técnicos que levaram a esta decisão política… Bem sei que nem todas as Câmaras Municipais fazem rimar as formas de comunicar com a transparência a que estão obrigadas, mas estes assuntos constam normalmente de uma agenda pública e são discutidos e decididos em reuniões públicas. Demolidor da informação cabal, este tipo de tratamento noticioso.
Mas falo também de uma forma de fazer política que leva deputados da Assembleia da República a ultrapassar os eleitos locais, alguns até da mesma cor política imagino, protagonizando o dito coro de lamúrias e lembrando outra espécie de atitude, pertencendo ao tipo dos abutres que ficam à espera que uns matem, outros esfolem e eles tirem o seu proveito. É o tipo de maneira de fazer política só ultrapassada, na escala do bem-fazer-ao-mal-comum, à política do boato, essa sem dar cara nem voz e, só por isso, mais difícil de desmascarar. Mas que as há, há! E são demolidoras do que é Política a sério.
Até para a semana.

Cláudia Sousa Pereira (crónica na radio diana)