terça-feira, 31 de março de 2015

Fialho de Almeida e a Gastronomia Nacional

Joaquim Palminha Silva

«Tártaro de novilho com chalotas doces
e picantes, “ praliné” de amendoim e espuma
de coco»
- «Crítica gastronómica» in Jornal Público,
texto de José Augusto Moreira, 28/3/2015
*
            Com a Primavera e o Verão, começa a dinâmica da gastronomia alentejana a atingir os níveis de bacoquice sabidos… Além do “congresso das açordas” em Portel, perfilam-se no horizonte cartazes turísticos para promoções várias, que acabam por ser o trampolim que faltava para despoletar a gargalhada provocada pelo ridículo, como nos demonstra, por exemplo, a isolada cabeça de asno a ocupar todo o “grafismo” do cartaz da 32ª edição da «Ovibeja» (certame anual realizado em Beja, sob a “evocação” da ovelha).



            Há uma mancebia aberrante, entre os dias mornos ou quentes deste período e a entranhada necessidade de produzir e, depois, expandir por vilas e cidades um mostruário de “parvoíces”... gastronómicas: - A encimar esta crónica aí vai uma que é quadro perfeito, animado, vivo, palpitante dos tempos que passam.
Sobre a gastronomia nacional escrevia Fialho de Almeida, com acinte premonitório n’Os Gatos, corria o ano de 1891: «A desnacionalização da cozinha é para mim, talvez primeiro que a dos sentimentos e das ideias, revelada pela vida pública, o primeiro avanço indicativo da derrocada dos povos».
O Alentejo possui produções que se bastam a si mesmas, pela qualidade e engenho que encerram, rica e variada gastronomia, sem dúvida. Por isso, é escusado no plano agro-alimentar enveredar pelas atribulações do turismo estrangeirado, além de nos divulgarem pelo anedótico, só sevem para nos darem voltas ao estomago e desagradarem à vista. A tudo isto respondeu há 124 anos Fialho de Almeida. Vale a pena transcrever o irónico beliscão do escritor na lusa vaidade: «O estrangeirismo, ou monomania de adaptação do estrangeiro à vida nacional, enxertado sem critério nem precisão imediata, e até com manifesta inferioridade nos resultados, é uma das formas de pessimismo dos povos amortecidos por um longo regímen de vícios públicos e privado, e no resvale da autonomia cívica, que unicamente poderia dar-lhes força.».
As palavras do escritor, neste texto de Os Gatos, não são infelizmente nostálgicas, graças à decadência geral onde nos enlameamos todos os dias, a começar pela gastronomia.
Em vez de propaganda balofa e anedótica, seria bem mais útil que as Autarquias envolvidas nesta dinâmica de divulgação dos produtos, serviços e recursos mais genuínos do Alentejo, enveredassem por alguma pedagogia (reeditando este texto de Fialho de Almeida, por exemplo), explicando porque motivos uma açorda de alhos é bem melhor do que uma pizza “plastificada”; porque é que um ensopado de borrego é melhor do que um hamburger; porque é que um enchido de carne de porco criado no montado é melhor do fabricado a partir de um animal mantido em cativeiro e alimentado a ração; porque motivo o mel do Alentejo é um dos melhores do País; porque motivos os frutos secos do Alentejo são os melhores para sobremesa do que os bolinhos secos made in

Tenho pena, muita pena, de não ter saber que baste para miudamente travar a patetice autóctone em matéria gastronómica. Por isso, pschiu!, deixo aqui as palavras de Fialho de Almeida: «De sorte que chegámos a isto: em Portugal não há hoje onde comer – em português. Concordarão que o assunto vale bem uma cruzada patriótica, destinando-se a reintegrar o País no usufruto das suas primitivas ucharias. Um povo que defende os seus pratos nacionais defende o território. A invasão armada começa pela cozinha». 

sexta-feira, 27 de março de 2015

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2015 que hoje se assinala


Os verdadeiros mestres do teatro encontram-se facilmente longe do palco. E não estão geralmente interessados no teatro que seja como uma máquina para replicar convenções e reproduzir lugares comuns. Eles procuram encontrar a fonte da palpitação, as correntes vitais que tendem a evitar as salas de espetáculo e as multidões de pessoas prontas a copiar um qualquer mundo. Copiamos, em vez de criarmos mundos focados ou mesmo dependentes do debate com o público, cultivando emoções que ultrapassam a superficialidade. É que, na realidade, nada revela melhor as paixões escondidas do que o teatro.

Sou muitas vezes levado pela prosa para refletir. Penso frequentemente nos escritores que há quase um século descreveram profeticamente, mas também com parcimónia, o declínio dos deuses europeus, o crepúsculo que mergulhou a nossa civilização numa escuridão de que ainda não recuperou. Estou a pensar em Franz Kafka, Thomas Mann e Marcel Proust. Presentemente também incluiria Maxwell Coetzee nesse grupo de profetas.

A sua visão comum do inevitável fim do mundo – não do planeta mas do modelo das relações humanas – e da ordem social e sua decadência, é hoje em dia dolorosamente sentida por todos nós. Por nós, que vivemos neste pós fim do mundo. Que vivemos em confronto com crimes e conflitos que deflagram diariamente por todo o lado com uma velocidade superior à capacidade ubíqua dos próprios meios de comunicação. Estes fogos rapidamente se esgotam e desaparecem das notícias, para sempre. E nós sentimo-nos abandonados, assustados e enclausurados. Não somos já capazes de construir torres, e os muros que esforçadamente levantámos deixam de nos proteger – pelo contrário, requerem eles próprios proteção e cuidados que consomem grande parte da nossa energia vital. Perdemos a força que nos permite vislumbrar para lá dos portões, para lá dos muros. E essa devia ser a razão de existir do teatro  e é aí que devia encontrar a sua força. O canto íntimo que é proibido devassar.

“A lenda procura explicar aquilo que não pode ser explicado. Está ancorada na verdade, e deve acabar no inexplicável” - é assim que Kafka descreveu a transformação da lenda de Prometeu. Acredito profundamente que estas mesmas palavras deviam descrever o teatro. E é este tipo de teatro, aquele que está ancorado na verdade e encontra o seu fim no inexplicável, que eu desejo a todos os que nele trabalham, os que se encontram no palco e os que constituem o público, e isto eu desejo de todo o meu coração.

Krzysztof Warlikowski, encenador polaco

Comunicado do presidente da Câmara de Évora sobre a Taxa de Ocupação do Subsolo (TOS)


Esclarecimento sobre a Taxa de Ocupação do Subsolo (TOS)

A Câmara Municipal de Évora (CME) tem vindo a ser alertada por vários consumidores de gás natural e pela DECO de que as empresas Dianagás/Galp e Gascan estão a cobrar taxas de ocupação do solo (TOS) com valores, em geral, 4 a 5 vezes maiores do que no ano passado. Confrontados com reclamações de consumidores quer as empresas quer a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) remeteram responsabilidades para a CME.
A CME procedeu à recolha de dados fidedignos, obteve informações junto das empresas, reuniu com a Dianagás/Galp e com a DECO. A CME está em condições de esclarecer o seguinte:
1.   A TOS é um receita municipal cobrada às empresas que, para vender produtos e/ou serviços, usam terrenos e solos públicos. A lei permite que as empresas possam escolher entre suportar aquele custo ou repercutir / cobrar aos clientes. Em Évora, a Dianagás tem entendido cobrar aos clientes enquanto a Gascan suportava o custo mas, a partir de Janeiro/2015, começou também a cobrar aos seus clientes.
No caso da Gascan, a CME permitia que a empresa pagasse a TOS em prestações exatamente porque a Gascan não cobrava aos consumidores.
2.  A TOS está prevista no artº 31º do Regulamento e Tabela de Taxas e Outras Receitas do Município de Évora. É cobrada pela CME desde 2010. Até 2013, a CME debitou às empresas o valor da TOS referente ao ano anterior, com 1 ano de atraso. Em 2014, para cumprimento da lei, a CME debitou os valores da TOS de 2013 e de 2014.
3.       No atual mandato, as atualizações da TOS (e de toda a Tabela de Taxas e Outras Receitas) foram os seguintes:
·         De 2013 para 2014: + 0,8%
·         De 2014 para 2015:     0%
Assim, seria expectável, em 2015, que os clientes da Gascan continuassem a usufruir do não pagamento da TOS e que os clientes da Dianagás/Galp vissem, no máximo, a TOS duplicar pelo acerto do ano. Nunca aumentos de 4 e 5 vezes!
4.       Responsáveis da Dianagás/Galp informaram-nos que os aumentos de 400% a 500% da TOS em 2015 eram legais e baseavam-se:
·     No direito das empresas recuperarem a TOS faturando-a aos clientes (DL nº 140/2006, de 26/7 e Contrato de Concessão aprovado pelo Governo pela Resolução nº 98/2008);
·   Nas normas sobre a matéria definidas pela ERSE, nomeadamente, no Manual de Procedimentos para Repercussão das TOS (Diretiva ERSE 7/2014);
·  Os valores cobrados em 2015 incluem valores de 2012 (1/3), de 2013 (1/4) e de 2014 (100%).
A Dianagás não cobrou a totalidade da TOS em anos anteriores. Aliás, a CME constatou que, no 2º semestre de 2013, a Dianagás não cobrou TOS aos clientes.
5.   A CME não cobra IVA sobre a TOS às empresas. As empresas cobram mais 23% de IVA sobre a TOS aos seus clientes por determinação da Autoridade Tributária (Finanças). Nem a CME nem as empresas concordam com tal cobrança e consideram-na mesmo ilegal porque não há aqui qualquer valor acrescentado.
6.       A CME considera que:
·    as empresas não podem remeter toda a responsabilidade pelos aumentos para a CME porque é opção das empresas não cobrarem a TOS e porque, cobrando-a, há 3 entidades intervenientes: a Câmara, a empresa e a ERSE;
·    A responsabilidade da CME nos aumentos vai, no máximo, até à duplicação da TOS (devido ao acerto da faturação em 2014) e fê-lo para cumprir a lei;
· Os aumentos da TOS de 400% a 500%, face à crise económica e social, são excessivos e inaceitáveis e parecem decorrer de normas definidas pela ERSE,
pelo que a CME continuará a defender que a TOS não seja cobrada aos consumidores e irá,
·  Propor a outros Municípios com situações semelhantes que se concertem para atuar junto do Governo de forma a conseguir a redução da TOS debitada aos consumidores em 2015;
·  Solicitar ao Governo, enquanto concessionário do serviço público de gás, a adequação do Contrato de Concessão de modo a reduzir ou eliminar a repercussão da TOS;
·   Alertar o Governo para a não aplicação do IVA à TOS, porque irracional e sem qualquer fundamento económico;
·  Reunir com a ERSE no sentido de propor e encontrar uma solução que permita reduzir substancialmente a TOS em 2015 e anos seguintes. 
7. A CME saúda a ação dos consumidores e o empenho da DECO. A CME continuará a procurar corresponder às preocupações manifestadas.
8. A CME, ciente do impacto negativo e da injustiça destes brutais aumentos da TOS que afetam famílias, empresas e instituições, está a desenvolver todos os esforços para esclarecer cabalmente as causas destes aumentos e para encontrar formas de recolocar a TOS em valores adequados.

O Presidente da CM Évora,
em 25/3/2015

Évora: Zeca Medeiros hoje no Garcia de Resende

Hoje na Arena d'Évora


Pedro Pinto hoje no Círculo Eborense

quinta-feira, 26 de março de 2015

“Saúde Mental e Arte” este ano no Alentejo: exposição é inaugurada esta sexta-feira em Portalegre, segue depois para Évora e Beja


"No Fio da Navalha” é o título de uma exposição de artes plásticas que reúne cerca de 130 peças produzidas por pessoas com problemas de saúde mental que, no âmbito dos seus projetos de reabilitação, vai ser inaugurada esta sexta-feira, dia 27 de Março, no Castelo de Portalegre.
Trata-se de uma exposição nacional, integrada num dos eixos estratégicos do Plano Nacional de Saúde Mental 2007-2016, que tem como objetivos a promoção da Saúde Mental e o Combate ao Estigma.
Esta exposição é a primeira de uma série de iniciativas que vão decorrer nas cidades alentejanas de Portalegre, Évora e Beja até ao fim deste ano, e que vão trazer ao Alentejo iniciativas como o Teatro, a Dança, a Música, as Artes Plásticas, a Gastronomia e a Moda, atividades que têm maior relevância na área de reabilitação psicossocial direcionadas para esta população.
É o terceiro ano que o Programa Nacional para a Saúde Mental da Direção-Geral da Saúde realiza iniciativas estruturadas deste género, em parceria com as Autarquias locais, os Departamentos de Saúde Mental, Direção Regional de Cultura e IPSS locais que investem nesta problemática. Depois do Porto, em 2013 e de Coimbra em 2014, pretende-se este ano divulgar as iniciativas de maior expressão nas capitais de distrito do Alentejo, mostrando a grande qualidade artística destas pessoas.
“A exposição é composta por cerca de 130 peças, elaboradas em volume com diferentes materiais e conceitos, que variam entre a escultura e a cerâmica, estando organizadas em percurso cromático e material condutor a uma instalação final, pretendendo, com esta, questionar o visitante e motivá-lo para outra leitura das peças expostas no percurso de retorno”, refere Luís Leite Rio, Curador desta 3ª Exposição Nacional de Artes Plásticas e Saúde Mental.
“O nome que dá título à exposição, andar ou estar “no fio da navalha”, é uma designação popular para um estado de perigo iminente, uma situação de equilíbrio instável. Uma linha imperfectível que separa o tudo do nada, o cume do precipício, a saúde da doença, a arte do lixo…”, diz Luís Leite Rio, designer e artista plástico.
“Espero que o público se sinta incomodado na sua situação de espectador e pretenso dono de sanidade mental. Espero que sinta que também está sobre o fio da navalha”, conclui o Curador da exposição, que vai estar aberta ao público, em horário normal, até ao dia 27 de Maio.
A inauguração da exposição vai contar também com a participação musical do Grupo Coral dos Sem Abrigo da Casa da Música do Porto “Som da Rua” e será antecedida de um Colóquio sobre “Saúde Mental: Cuidados a Grupos Vulneráveis”, que juntará diversos técnicos e especialistas nesta área, no Museu da Tapeçaria de Portalegre - Guy Fino. (Nota de Imprensa)

Castelo de Beja/Subindo lá vais/Tu metes inveja/Castelo de Beja/Às águias-reais


Esta sexta-feira Sampaio da Nóvoa vai estar em Évora num debate sobre educação promovido pelo PS


2º Debate do Ciclo de Conferências e Debates |Agenda para a Década – Alentejo XXI que irá acontecer ao longo deste ano, dia 27 de março, sexta-feira, na Biblioteca Publica de Évora, pelas 21h00.
António Sampaio da Nóvoa e Odete Joãoque abordarão o tema da Educação:
  • Educação Publica de Educação - desafios de mudança e sustentabilidade
  • Educação no Centro das Politicas de Crescimento - descentralização / municipalização da educação.
Uma organização da Concelhia de Évora do Partido Socialista.

terça-feira, 24 de março de 2015

Paciência

Joaquim Palminha da Silva
   A paciência vive no mundo social onde predomina o respeito da autoridade, seja ela o que for, a ordem das coisas consumadas e estratificadas, as maneiras convencionais, o papel do requerimento e o do deferimento das Secretarias e Repartições de Finanças. A paciência vive à custa dos regulamentos, passeia-se com as rotinas e, venerável, útil e “humanitária” como uma corporação de bombeiros, de tudo e de todos se ocupa com amarga prontidão… ao serviço dos poderosos, dos autoritários, dos prepotentes, dos neo-pagãos endinheirados. Normalmente, estes últimos aconselham a paciência aos outros. Para eles não serve, que têm pressa. De facto, a paciência só serve aos resignados, que são quem tem mais “vagar”, pois vivem sem reclamar, murchando dia a dia. Exceptuando os que são “obrigados” à resignação, que são a esmagadora maioria, quem é que tem vagar, não me dizem?!

  

            Às vezes, a população golpeada e ferida nas lâminas aguçadas da vida, aguenta-se de tal forma que parece impregnada de paciência. Às vezes, o trabalhador, estabelecido no solo maninho da injustiça social e do desconforto de inumeráveis carências, parece conformado a subsistir numa atmosfera de martírio, disposto a esperar pacientemente por melhores dias…
            A paciência foi um arquétipo temático que os poderosos, autoritários, déspotas & associados transformaram em prática societária, para pedirem, digo, exigirem ao povo do trabalho tréguas sociais perpétuas no seio da sua velhaca injustiça, de forma a dispor a seu minoritário favor, sem contestação, da maior parte dos recursos naturais e do produto do trabalho.   
            Na sua origem, a paciência não habitava um território definido no consciente colectivo, mas a sua utilização continuada tornou-se num monótono estado de espírito, assente em terrenos que possibilitam, a diversos níveis, a ilusão “suspensão” da História.
            A paciência, uma vez manipulada politica e socialmente acabou por entregar todos e cada um ao lento apodrecimento da vontade e, praticando-se com forte convicção a difusão do espaço do conformismo, criou-se finalmente uma atmosfera de submissão esclavagista, um retorno aos séculos das desumanidades e das impunidades.
            A ideia de que existe uma paciência social, pronta a utilizar pela política (quando ela é, na sua essência, apenas produto de aprendizagem individual), ganhou uma tal força no decurso do tempo que o próprio adagiário popular, de forma nítida e clara, reflecte esta experiência da submissão, sob a capa de paciência: «A paciência abranda a dor»; «A paciência é amarga mas o seu fruto é doce»; «A paciência é boa para a vista»; «Paciência e cebo de grilo, é bom para aquilo»; «A paciência é unguento para todas as chagas»; «Paciência excede sapiência».           
            Seguindo a tese do historiador francês F. Braudel, a visão dos “grandes” acontecimentos históricos faz-nos esquecer a longa duração e, na torrente das mentalidades dos povos, aquilo que fica em suspenso (os seus sussurros, os seus ais), a que apressadamente chamamos de paciência colectiva, quando na verdade o que se recorta no horizonte é um gritante conformismo, a par do subdesenvolvimento cultural e da ignorância cívica.
Mas, diga-se, também, que a maior parte das pessoas é paciente, em virtude da “lei” do menor esforço… - É sempre menos trabalhoso esperar que aconteça. Mesmo quando se está a ver que nada de bom vai acontecer. Depois, mergulhados na dor e no pior da vida, como trapos esfarrapados, recorremos à paciência, para nos conformarmos com o inaceitável… - A paciência em termos económicos e sociais é uma doença incurável, um verdeiro cancro político… só possível de eventual apagamento com a radioterapia da revolução social !

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 Na imagem: Zé Povinho e a mulher, Maria Paciência, segundo Rafael Bordalo Pinheiro.

Santos de Casa (às vezes) fazem milagres



Em destaque na BBC: Jovens programadores portugueses criaram nova aplicação informática para os Médicos Sem Fronteiras (Londres)
Dois jovens programadores portugueses, oriundos do Alentejo, integraram a pequena equipa de voluntários que criou uma nova aplicação a ser usada pelos Médicos Sem Fronteiras quando estiverem em missão em zonas de catástrofe e que hoje está em destaque na BBC.
A notícia desta aplicação inovadora foi uma das manchetes da semana passada nos sites informativos da cadeia britânica BBC que destaca o sucesso que teve aquando da sua utilização experimental na Serra Leoa, durante o surto de Ébola.
No entanto, a aplicação foi construída de maneira a poder ser usada em outras pandemias, não só de Ébola, e o seu uso será também disponibilizado a qualquer instituição que dela necessite e não só aos Médicos Sem Fronteiras.
A equipa inicial que desenvolveu este projecto durante o ano de 2014 era composta por um grupo muito restrito de jovens voluntários na área das tecnologias, entre eles 2 jovens irmãos portugueses, Gil e Daniel Sinclair Júlio, naturais de Castro Verde, mas a viverem em Inglaterra.
Gil, de 22 anos, está no último ano da licenciatura em Engenharia Informática na Universidade de Coventry (Inglaterra)  e Daniel, 26 anos, trabalha hoje numa grande empresa de tecnologia do Reino Unido.
A equipa começou a desenvolver a aplicação no início do ano passado, sendo Gil e Daniel os únicos programadores Android do grupo.
Depressa se concluiu que poderia haver no futuro constrangimentos a nível de hardware já que os tabletes usados pelas equipas no terreno terão que ser desinfectados com regularidade (devido aos ambientes em que terão que operar).
Para resolver o problema, a equipa entrou em contacto com a Google que rapidamente se interessou pelo projecto e pelo trabalho até ali desenvolvido pelo pequeno grupo de jovens. A Google envolveu-se inicialmente apenas na componente de hardware mas para acelerar o processo criou uma equipa em Londres para colaborar também no software, tendo a equipa de voluntários passado a trabalhar mesmo nas instalações da Google na capital inglesa.
O problema suscitado (e que foi resolvido): elementos dos Médicos Sem Fronteiras, durante uma epidemia do tipo do Ébola tinham apenas meia hora para tratar os pacientes devido ao calor que fazia no interior dos fatos protectores. Nesse tempo tinham que tratar e documentar tudo o que se passava com os pacientes. Devido ao risco de contaminação os dados não podiam ser passados, de forma física, da zona de risco à zona segura. A informação era passada através da voz (gritos) entre as várias barreiras de contenção que separavam as diversas zonas. O papel usado para transmitir a informação tinha que ser queimado. Todo este processo não só demorava uma parte bastante grande dos preciosos 30 minutos que os médicos tinham, como também a informação (que deveria ser privada) era passada de modo público, violando a sua confidencialidade.
A solução: foi criada uma aplicação onde os médicos registam os dados e as informações dos pacientes e esses dados são transmitidos via WiFi para um servidor fora da zona de risco. Leva a que os 30 minutos dos médicos seja muito mais eficiente para o tratamento de pacientes e não se gaste tempo na passagem de informações. Muitos mais dados poderão agora ser transmitidos e muito mais rapidamente para poderem ser posteriormente analisados sem qualquer perda de tempo.

Morreu Herberto Hélder (1930-2015)

O Amor em Visita


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra 
e seu arbusto de sangue. Com ela 
encantarei a noite. 
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena 
do sorriso de um momento. 
Mulher quase incriada, mas com a gravidade 
de dois seios, com o peso lúbrico e triste 
da boca. Seus ombros beijarei. 

Cantar? Longamente cantar. 
Uma mulher com quem beber e morrer. 
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave 
o atravessar trespassada por um grito marítimo 
e o pão for invadido pelas ondas - 
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes. 
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento 
de alegria e de impudor. 
Seu corpo arderá para mim 
sobre um lençol mordido por flores com água. 

Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos, 
os bordões da melodia, 
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, 
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. 
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob 
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, 
mulher de pés no branco, transportadora 
da morte e da alegria. 

Dai-me uma mulher tão nova como a resina 
e o cheiro da terra. 
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, 
cantarei seu sorriso ardendo, 
suas mamas de pura substância, 
a curva quente dos cabelos. 
Beberei sua boca, para depois cantar a morte 
e a alegria da morte. 

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro 
pescoço de planta, 
onde uma chama comece a florir o espírito. 
À tona da sua face se moverão as águas, 
dentro da sua face estará a pedra da noite. 
- Então cantarei a exaltante alegria da morte. 

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela 
despenhada de sua órbita viva. 
- Porém, tu sempre me incendeias. 
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite 
imagem pungente 
com seu deus esmagado e ascendido. 
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 
Entontece meu hálito com a sombra, 
tua boca penetra a minha voz como a espada 
se perde no arco. 
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua 
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo 
se desfibra - invento para ti a música, a loucura 
e o mar. 

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, 
a inspiração. 
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. 
Vou para ti com a beleza oculta, 
o corpo iluminado pelas luzes longas. 
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos 
transfiguram-se, tuas mãos descobrem 
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça 
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou 
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - 
eu sou a beleza. 
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem 
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada 
beleza. 

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti 
que me vem o fogo. 
Não há gesto ou verdade onde não dormissem 
tua noite e loucura, não há vindima ou água 
em que não estivesses pousando o silêncio criador. 
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos 
originais. 
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra 
a carne transcendente. E em ti 
principiam o mar e o mundo. 

Minha memória perde em sua espuma 
o sinal e a vinha. 
Plantas, bichos, águas cresceram como religião 
sobre a vida - e eu nisso demorei 
meu frágil instante. Porém 
teu silêncio de fogo e leite repõe a força 
maternal, e tudo circula entre teu sopro 
e teu amor. As coisas nascem de ti 
como as luas nascem dos campos fecundos, 
os instantes começam da tua oferenda 
como as guitarras tiram seu início da música nocturna. 


Mais inocente que as árvores, mais vasta 
que a pedra e a morte, 
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, 
tinge a aurora pobre, 
insiste de violência a imobilidade aquática. 
E os astros quebram-se em luz 
sobre as casas, a cidade arrebata-se, 
os bichos erguem seus olhos dementes, 
arde a madeira - para que tudo cante 
pelo teu poder fechado. 
Com minha face cheia de teu espanto e beleza, 
eu sei quanto és o íntimo pudor 
e a água inicial de outros sentidos. 

Começa o tempo onde a mulher começa, 
é sua carne que do minuto obscuro e morto 
se devolve à luz. 
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras 
com uma imagem. 
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito 
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade 
uma ideia de pedra e de brancura. 
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, 
que te alimentas de desejos puros. 
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, 
a sombra canta baixo. 

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, 
onde a beleza que transportas como um peso árduo 
se quebra em glória junto ao meu flanco 
martirizado e vivo. 
- Para consagração da noite erguerei um violino, 
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada 
darei minha voz confundida com a tua. 
Oh teoria de instintos, dom de inocência, 
taça para beber junto à perturbada intimidade 
em que me acolhes. 

Começa o tempo na insuportável ternura 
com que te adivinho, o tempo onde 
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde 
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida 
ingénua e cara, o que pressente o coração 
engasta seu contorno de lume ao longe. 
Bom será o tempo, bom será o espírito, 
boa será nossa carne presa e morosa. 
- Começa o tempo onde se une a vida 
à nossa vida breve. 

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna 
salina, imagem fechada em sua força e pungência. 
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado 
em torno das violas, a morte que não beijo, 
a erva incendiada que se derrama na íntima noite 
- o que se perde de ti, minha voz o renova 
num estilo de prata viva. 

Quando o fruto empolga um instante a eternidade 
inteira, eu estou no fruto como sol 
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada 
matriz de sumo e vivo gosto. 
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices 
das nuvens florescem, a resina tinge 
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. 
E estás em mim como a flor na ideia 
e o livro no espaço triste. 

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento 
a cevada pura, de ti viriam cheias 
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses 
em minha espuma, 
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? 
- No entanto és tu que te moverás na matéria 
da minha boca, e serás uma árvore 
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 

Beijar teus olhos será morrer pela esperança. 
Ver no aro de fogo de uma entrega 
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus 
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante 
do meu perpétuo instante. 
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face 
se encha de um minuto sobrenatural, 
devo murmurar cada coisa do mundo 
até que sejas o incêndio da minha voz. 

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso 
jovem da carne aspiram longamente 
a nossa vida. As sombras que rodeiam 
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto 
seu bárbaro fulgor, o rosto divino 
impresso no lodo, a casa morta, a montanha 
inspirada, o mar, os centauros 
do crepúsculo 
- aspiram longamente a nossa vida. 

Por isso é que estamos morrendo na boca 
um do outro. Por isso é que 
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento 
da brisa, no sorriso, no peixe, 
no cubo, no linho, 
no mosto aberto 
- no amor mais terrível do que a vida. 

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz 
o perfume da tua noite. 
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua 
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre 
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca 
ao círculo de meu ardente pensamento. 
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam 
sobre o teu sorriso imenso. 
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente 
das urzes, um silêncio, uma palavra; 
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua 
vermelha. 
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, 
casa de madeira do planalto, 
rios imaginados, 
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas 
maravilhosas da noite. Ó meu amor, 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

De meu recente coração a vida inteira sobe, 
o povo renasce, 
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora 
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma 
de crepúsculos e crateras. 
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome 
encanta pela noite equilibrada, imponderável - 
em cada espasmo eu morrerei contigo. 

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se 
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro 
da tua entrega. Bichos inclinam-se 
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando 
contra o ar. Tua voz canta 
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com 
o lento desejo do teu corpo. 
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo 
eu morrerei contigo. 

Herberto Helder, in 'O Amor em Visita' 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Porque falta a bandeira nacional…

Joaquim Palminha Silva
Desventuroso domingo (22 de Março de 2015), com estouvadas nuvens negras, logo pela manhã, a despejarem bátegas de água sobre uma Primavera envergonhada, com a sua “roupa” florida esfarrapada… Mas nada pode pesar tanto neste vale de lágrimas como a melancólica e enfadonha certeza de que vivo no País da dívida externa galopante, acrescida de infindáveis e individuais léguas de impostos directos e indirectos…
Assim, manhã cedo, através de velhas ruas e travessas pouco frequentadas, chego à Praça de Sertório, ao largo onde tem sede a “fabriqueta” da argumentação regionalista; isto é, a Câmara Municipal de Évora. Entretanto, levanto o olhar para a fachada do imóvel. Com efeito, a minha laboriosa conclusão inicial é confirmada. Quatro bandeiras sacodem-se ao vento: - A do Município, a bandeira nacional e o pano estrelado, de conveniência simbólica, da União Europeia, além de outra representando, avulsamente, não sei o quê.
Portanto, posso estabelecer a certeza: - Estou em Portugal, país paralelo à lombada do Oceano Atlântico… Nação pusilânime face à coligação “imperial” do norte europeu, mas com governo desapiedado, fanfarrão e implacável com seu próprio indigenato…
No meio da Praça de Sertório, movido não sei porque pressentimento, volto o olhar para o edifício renascença onde está sediado o Serviço de Finanças de Évora. Sobre o gracioso alpendre, lá estão, erguidos ao alto, os três mastros sabidos, todavia nenhum deles ostenta a respectiva bandeira! – Desembaraçados do pano tradicional, e apesar da seriedade que a sua função reclama, os esguios mastros mais parecem três palitos gigantes, como se fossem publicidade de alguma marca de “esgravata-dentes” para gastrónomos aflitos!
Ocorrem-me vários argumentos críticos. No entanto, espero um pouco… Recolho informações: - Há vários fins-de-semana que a bandeira nacional não se “deixa ver” hasteada nos mastros do Serviço de Finanças de Évora!
Negligência da direcção do Serviço, esquecimento do funcionário indigitado para a tarefa, generalizada indiferença, ausência de verba para aquisição de bandeiras?
Nada disto… Esqueçamos os ornatos e floreados de linguagem. Na verdade, amigo leitor, estou em crer que a ausência da bandeira nacional no respectivo mastro, fica a dever-se, talvez, a escrupulosa abstenção dos funcionários do Serviço de Finanças que, num gesto de desvelo e respeito pelos contribuintes, através da ausência da bandeira nacional, nos querem poupar a indignação de vermos o símbolo da Pátria hasteado onde, anti-patrioticamente e ao serviço de uma coligação de prestamistas estrangeiros, dia após dia nos são extorquidos os euros que temos para sobreviver, a pretexto de pagamentos de dívidas que não contraímos…
A bandeira nacional não é hasteada no mastro do Serviço de Finanças de Évora, domingo após domingo, para não insultar a inteligência do cidadão contribuinte, não lhe provocar a comoção, o sobressalto, pois é sabido que essa repartição de cobranças cumpre ordens de Lisboa que, por sua vez, cumpre ordens de Bruxelas!
Há muita gente que não percebe isto: - A direcção e funcionários deste Serviço têm uma grande consideração pelos contribuintes, por isso nos poupam o sacrilégio da bandeira das quinas aos domingos, sobre um balcão cor de rato onde nos subtraem dinheiro!

Bem hajam, pois, pelo nobre e caritativo gesto!


sexta-feira, 20 de março de 2015

Ainda o roubo nas facturas do gás: exige-se um esclarecimento da Câmara de Évora


Sou um dos muitos clientes da Dianagás em Évora e sinto-me roubado. Na factura de Janeiro (referente ao período de 14/11 a 15/12) paguei 45,43 euros de consumo de gás e 3,23 de Taxa de Ocupação do Subsolo no município de Évora (como diz a factura) enquanto que em Fevereiro (respeitante ao período 15/1 a 13/2) foi-me facturado 13,40 de Ocupação do Solo para um consumo de gás de 38,72 euros.
É preciso que alguém esclareça este brutal aumento de mais de 400 por cento (para um consumo menor de gás, sublinhe-se. Sabe-se que este dinheiro é cobrado para entregar à autarquia. Sabe-se também que não houve nenhum aumento decidido em Assembleia Municipal. 
Pelos vistos a ladroagem dos bancos já se instalou nos outros espaços públicos: como é que é possível uma empresa em nome da autarquia fazer aumentos de 400 por cento (nalguns casos que conheço é anda mais) e a Câmara ficar muda e calada? Isto, de facto, cada vez parece mais o país do deixa andar. Será que os munícipes não merecem uma explicação VERDADEIRA ou vai ser preciso irmos um dia destes acampar para a frente da Câmara até sermos tratados com o devido respeito?

José Neves (por email - cliente da Dianagás devidamente identificado)